chaui marilena convite a filosofia - www.arcar.webege.com

www.arcar.webege.com
noticias informacion diario informacion diaria entrevistas problematica cnn

         

 


chaui marilena convite a filosofia

 

 





Descripcion:
Marilena Chauí _______________________________ Introdução Para que Filosofia?As evidências do cotidianoEm nossa vida cotidiana, afirmamos, negamos, desejamos, aceitamos ourecusamos coisas, pessoas, situações. Fazemos perguntas como “que horas são?”,ou “que dia é hoje?”. Dizemos frases como “ele está sonhando ”, ou “ela ficoumaluca”. Fazemos afirmações como “onde há fumaça, há fogo ”, ou “não saia nachuva para não se resfriar”. Avaliamos coisas e pessoas, dizendo, por exemplo,“esta casa é mais bonita do que a outra” e “Maria está mais jovem do queGlorinha”.Numa disputa, quando os ânimos estão exaltados, um dos contendores podegritar ao outro: “Mentiroso! Eu estava lá e não foi isso o que aconteceu”, ealguém, querendo acalmar a briga, pode dizer: “Vamos ser objetivos, cada umdiga o que viu e vamos nos entender”.Também é comum ouvirmos os pais e amigos dizerem que somos muitosubjetivos quando o assunto é o namorado ou a namorada. Freqüentemente,quando aprovamos uma pessoa, o que ela diz, como ela age, dizemos que essapessoa “é legal ”. –5–

Convite à Filosofia _______________________________Vejamos um pouco mais de perto o que dizemos em nosso cotidiano.Quando pergunto “que horas são?” ou “que dia é hoje?”, minha expectativa é ade que alguém, tendo um relógio ou um calendário, me dê a resposta exata. Emque acredito quando faço a pergunta e aceito a resposta? Acredito que o tempoexiste, que ele passa, pode ser medido em horas e dias, que o que já passou édiferente de agora e o que virá também há de ser diferente deste momento, que opassado pode ser lembrado ou esquecido, e o futuro, desejado ou temido. Assim,uma simples pergunta contém, silenciosamente, várias crenças não questionadaspor nós.Quando digo “ele está sonhando ”, referindo-me a alguém que diz ou pensaalguma coisa que julgo impossível ou improvável, tenho igualmente muitascrenças silenciosas: acredito que sonhar é diferente de estar acordado, que, nosonho, o impossível e o improvável se apresentam como possível e provável, etambém que o sonho se relaciona com o irreal, enquanto a vigília se relacionacom o que existe realmente.Acredito, portanto, que a realidade existe fora de mim, posso percebê-la econhecê-la tal como é, sei diferenciar realidade de ilusão.A frase “ela ficou maluca” contém essas mesmas crenças e mais uma: a de quesabemos diferenciar razão de loucura e maluca é a pessoa que inventa umarealidade existente só para ela. Assim, ao acreditar que sei distinguir razão deloucura, acredito também que a razão se refere a uma realidade que é a mesmapara todos, ainda que não gostemos das mesmas coisas.Quando alguém diz “onde há fumaça, há fogo” ou “não saia na chuva para não seresfriar”, afirma silenciosamente muitas crenças: acredita que existem relações decausa e efeito entre as coisas, que onde houver uma coisa certamente houve umacausa para ela, ou que essa coisa é causa de alguma outra (o fogo causa a fumaçacomo efeito, a chuva causa o resfriado como efeito). Acreditamos, assim, que arealidade é feita de causalidades, que as coisas, os fatos, as situações seencadeiam em relações causais que podemos conhecer e, até mesmo, controlarpara o uso de nossa vida.Quando avaliamos que uma casa é mais bonita do que a outra, ou que Maria estámais jovem do que Glorinha, acreditamos que as coisas, as pessoas, as situações,os fatos podem ser comparados e avaliados, julgados pela qualidade (bonito, feio,bom, ruim) ou pela quantidade (mais, menos, maior, menor). Julgamos, assim,que a qualidade e a quantidade existem, que podemos conhecê-las e usá-las emnossa vida.Se, por exemplo, dissermos que “o sol é maior do que o vemos”, tambémestamos acreditando que nossa percepção alcança as coisas de modos diferentes,ora tais como são em si mesmas, ora tais como nos aparecem, dependendo da –6–

Marilena Chauí _______________________________distância, de nossas condições de visibilidade ou da localização e do movimentodos objetos.Acreditamos, portanto, que o espaço existe, possui qualidades (perto, longe, alto,baixo) e quantidades, podendo ser medido (comprimento, largura, altura). Noexemplo do sol, também se nota que acreditamos que nossa visão pode ver ascoisas diferentemente do que elas são, mas nem por isso diremos que estamossonhando ou que ficamos malucos.Na briga, quando alguém chama o outro de mentiroso porque não estaria dizendoos fatos exatamente como aconteceram, está presente a nossa crença de que hádiferença entre verdade e mentira. A primeira diz as coisas tais como são,enquanto a segunda faz exatamente o contrário, distorcendo a realidade.No entanto, consideramos a mentira diferente do sonho, da loucura e do erroporque o sonhador, o louco e o que erra se iludem involuntariamente, enquanto omentiroso decide voluntariamente deformar a realidade e os fatos.Com isso, acreditamos que o erro e a mentira são falsidades, mas diferentesporque somente na mentira há a decisão de falsear.Ao diferenciarmos erro de mentira, considerando o primeiro uma ilusão ou umengano involuntários e a segunda uma decisão voluntária, manifestamossilenciosamente a crença de que somos seres dotados de vontade e que deladepende dizer a verdade ou a mentira.Ao mesmo tempo, porém, nem sempre avaliamos a mentira como alguma coisaruim: não gostamos tanto de ler romances, ver novelas, assistir a filmes? E nãosão mentira? É que também acreditamos que quando alguém nos avisa que estámentindo, a mentira é aceitável, não seria uma mentira “no duro”, “pra valer”.Quando distinguimos entre verdade e mentira e distinguimos mentirasinaceitáveis de mentiras aceitáveis, não estamos apenas nos referindo aoconhecimento ou desconhecimento da realidade, mas também ao caráter dapessoa, à sua moral. Acreditamos, portanto, que as pessoas, porque possuemvontade, podem ser morais ou imorais, pois cremos que a vontade é livre para obem ou para o mal.Na briga, quando uma terceira pessoa pede às outras duas para que sejam“objetivas” ou quando falamos dos namorados como sendo “muito subjetivos”,também estamos cheios de crenças silenciosas. Acreditamos que quando alguémquer defender muito intensamente um ponto de vista, uma preferência, umaopinião, até brigando por isso, ou quando sente um grande afeto por outra pessoa,esse alguém “perde ” a objetividade, ficando “muito subjetivo ”.Com isso, acreditamos que a objetividade é uma atitude imparcial que alcança ascoisas tais como são verdadeiramente, enquanto a subjetividade é uma atitudeparcial, pessoal, ditada por sentimentos variados (amor, ódio, medo, desejo).Assim, não só acreditamos que a objetividade e a subjetividade existem, como –7–

Convite à Filosofia _______________________________ainda acreditamos que são diferentes e que a primeira não deforma a realidade,enquanto a segunda, voluntária ou involuntariamente, a deforma.Ao dizermos que alguém “é legal ” porque tem os mesmos gostos, as mesmasidéias, respeita ou despreza as mesmas coisas que nós e tem atitudes, hábitos ecostumes muito parecidos com os nossos, estamos, silenciosamente, acreditandoque a vida com as outras pessoas - família, amigos, escola, trabalho, sociedade,política - nos faz semelhantes ou diferentes em decorrência de normas e valoresmorais, políticos, religiosos e artísticos, regras de conduta, finalidades de vida.Achando óbvio que todos os seres humanos seguem regras e normas de conduta,possuem valores morais, religiosos, políticos, artísticos, vivem na companhia deseus semelhantes e procuram distanciar-se dos diferentes dos quais discordam ecom os quais entram em conflito, acreditamos que somos seres sociais, morais eracionais, pois regras, normas, valores, finalidades só podem ser estabelecidospor seres conscientes e dotados de raciocínio.Como se pode notar, nossa vida cotidiana é toda feita de crenças silenciosas, daaceitação tácita de evidências que nunca questionamos porque nos parecemnaturais, óbvias. Cremos no espaço, no tempo, na realidade, na qualidade, naquantidade, na verdade, na diferença entre realidade e sonho ou loucura, entreverdade e mentira; cremos também na objetividade e na diferença entre ela e asubjetividade, na existência da vontade, da liberdade, do bem e do mal, da moral,da sociedade.A atitude filosóficaImaginemos, agora, alguém que tomasse uma decisão muito estranha ecomeçasse a fazer perguntas inesperadas. Em vez de “que horas são?” ou “quedia é hoje?”, perguntasse: O que é o tempo? Em vez de dizer “está sonhando” ou“ficou maluca”, quisesse saber: O que é o sonho? A loucura? A razão?Se essa pessoa fosse substituindo sucessivamente suas perguntas, suasafirmações por outras: “Onde há fumaça, há fogo ”, ou “não saia na chuva paranão ficar resfriado”, por: O que é causa? O que é efeito?; “seja objetivo ”, ou“eles são muito subjetivos”, por: O que é a objetividade? O que é asubjetividade?; “Esta casa é mais bonita do que a outra”, por: O que é “mais”? Oque é “menos”? O que é o belo?Em vez de gritar “mentiroso!”, questionasse: O que é a verdade? O que é o falso?O que é o erro? O que é a mentira? Quando existe verdade e por quê? Quandoexiste ilusão e por quê?Se, em vez de falar na subjetividade dos namorados, inquirisse: O que é o amor?O que é o desejo? O que são os sentimentos?Se, em lugar de discorrer tranqüilamente sobre “maior” e “menor” ou “claro” e“escuro”, resolvesse investigar: O que é a quantidade? O que é a qualidade? –8–

Marilena Chauí _______________________________E se, em vez de afirmar que gosta de alguém porque possui as mesmas idéias, osmesmos gostos, as mesmas preferências e os mesmos valores, preferisse analisar:O que é um valor? O que é um valor moral? O que é um valor artístico? O que éa moral? O que é a vontade? O que é a liberdade?Alguém que tomasse essa decisão, estaria tomando distância da vida cotidiana ede si mesmo, teria passado a indagar o que são as crenças e os sentimentos quealimentam, silenciosamente, nossa existência.Ao tomar essa distância, estaria interrogando a si mesmo, desejando conhecer porque cremos no que cremos, por que sentimos o que sentimos e o que são nossascrenças e nossos sentimentos. Esse alguém estaria começando a adotar o quechamamos de atitude filosófica.Assim, uma primeira resposta à pergunta “O que é Filosofia?” poderia ser: Adecisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as idéias, os fatos, assituações, os valores, os comportamentos de nossa existência cotidiana; jamaisaceitá-los sem antes havê-los investigado e compreendido.Perguntaram, certa vez, a um filósofo: “Para que Filosofia?”. E ele respondeu:“Para não darmos nossa aceitação imediata às coisas, sem maioresconsiderações”.A atitude críticaA primeira característica da atitude filosófica é negativa, isto é, um dizer não aosenso comum, aos pré-conceitos, aos pré-juízos, aos fatos e às idéias daexperiência cotidiana, ao que “todo mundo diz e pensa”, ao estabelecido.A segunda característica da atitude filosófica é positiva, isto é, uma interrogaçãosobre o que são as coisas, as idéias, os fatos, as situações, os comportamentos, osvalores, nós mesmos. É também uma interrogação sobre o porquê disso tudo e denós, e uma interrogação sobre como tudo isso é assim e não de outra maneira. Oque é? Por que é? Como é? Essas são as indagações fundamentais da atitudefilosófica.A face negativa e a face positiva da atitude filosófica constituem o quechamamos de atitude crítica e pensamento crítico.A Filosofia começa dizendo não às crenças e aos preconceitos do senso comume, portanto, começa dizendo que não sabemos o que imaginávamos saber; porisso, o patrono da Filosofia, o grego Sócrates, afirmava que a primeira efundamental v erdade filosófica é dizer: “Sei que nada sei”. Para o discípulo deSócrates, o filósofo grego Platão, a Filosofia começa com a admiração; já odiscípulo de Platão, o filósofo Aristóteles, acreditava que a Filosofia começa como espanto.Admiração e espanto significam: tomamos distância do nosso mundo costumeiro,através de nosso pensamento, olhando-o como se nunca o tivéssemos visto antes, –9–

Convite à Filosofia _______________________________como se não tivéssemos tido família, amigos, professores, livros e outros meiosde comunicação que nos tivessem dito o que o mundo é; como se estivéssemosacabando de nascer para o mundo e para nós mesmos e precisássemos perguntaro que é, por que é e como é o mundo, e precisássemos perguntar também o quesomos, por que somos e como somos.Para que Filosofia?Ora, muitos fazem uma outra pergunta: afinal, para que Filosofia?É uma pergunta interessante. Não vemos nem ouvimos ninguém perguntar, porexemplo, para que matemática ou física? Para que geografia ou geologia? Paraque história ou sociologia? Para que biologia ou psicologia? Para que astronomiaou química? Para que pintura, literatura, música ou dança? Mas todo mundo achamuito natural perguntar: Para que Filosofia?Em geral, essa pergunta costuma receber uma resposta irônica, conhecida dosestudantes de Filosofia: “A Filosofia é uma ciência com a qual e sem a qual omundo permanece tal e qual”. Ou seja, a Filosofia não serve para nada. Por isso,se costuma chamar de “filósofo” alguém sempre distraído, com a cabeça nomundo da lua, pensando e dizendo coisas que ninguém entende e que sãoperfeitamente inúteis.Essa pergunta, “Para que Filosofia?”, tem a sua razão de ser.Em nossa cultura e em nossa sociedade, costumamos considerar que algumacoisa só tem o direito de existir se tiver alguma finalidade prática, muito visível ede utilidade imediata.Por isso, ninguém pergunta para que as ciências, pois todo mundo imagina ver autilidade das ciências nos produtos da técnica, isto é, na aplicação científica àrealidade.Todo mundo também imagina ver a utilidade das artes, tanto por causa dacompra e venda das obras de arte, quanto porque nossa cultura vê os artistascomo gênios que merecem ser valorizados para o elogio da humanidade.Ninguém, todavia, consegue ver para que serviria a Filosofia, donde dizer-se: nãoserve para coisa alguma.Parece, porém, que o senso comum não enxerga algo que os cientistas sabemmuito bem. As ciências pretendem ser conhecimentos verdadeiros, obtidos graçasa procedimentos rigorosos de pensamento; pretendem agir sobre a realidade,através de instrumentos e objetos técnicos; pretendem fazer progressos nosconhecimentos, corrigindo-os e aumentando-os.Ora, todas essas pretensões das ciências pressupõem que elas acreditam naexistência da verdade, de procedimentos corretos para bem usar o pensamento,na tecnologia como aplicação prática de teorias, na racionalidade dosconhecimentos, porque podem ser corrigidos e aperfeiçoados. – 10 –

Marilena Chauí _______________________________Verdade, pensamento, procedimentos especiais para conhecer fatos, relação entreteoria e prática, correção e acúmulo de saberes: tudo isso não é ciência, sãoquestões filosóficas. O cientista parte delas como questões já respondidas, mas éa Filosofia quem as formula e busca respostas para elas.Assim, o trabalho das ciências pressupõe, como condição, o trabalho daFilosofia, mesmo que o cientista não seja filósofo. No entanto, como apenas oscientistas e filósofos sabem disso, o senso comum continua afirmando que aFilosofia não serve para nada.Para dar alguma utilidade à Filosofia, muitos consideram que, de fato, a Filosofianão serviria para nada, se “servir” fosse entendido como a possibilidade de fazerusos técnicos dos produtos filosóficos ou dar-lhes utilidade econômica, obtendolucros com eles; consideram também que a Filosofia nada teria a ver com aciência e a técnica.Para quem pensa dessa forma, o principal para a Filosofia não seriam osconhecimentos (que ficam por conta da ciência), nem as aplicações de teorias(que ficam por conta da tecnologia), mas o ensinamento moral ou ético. AFilosofia seria a arte do bem viver. Estudando as paixões e os vícios humanos, aliberdade e a vontade, analisando a capacidade de nossa razão para impor limitesaos nossos desejos e paixões, ensinando-nos a viver de modo honesto e justo nacompanhia dos outros seres humanos, a Filosofia teria como finalidade ensinar-nos a virtude, que é o princípio do bem-viver.Essa definição da Filosofia, porém, não nos ajuda muito. De fato, mesmo para seruma arte moral ou ética, ou uma arte do bem-viver, a Filosofia continua fazendosuas perguntas desconcertantes e embaraçosas: O que é o homem? O que é avontade? O que é a paixão? O que é a razão? O que é o vício? O que é a virtude?O que é a liberdade? Como nos tornamos livres, racionais e virtuosos? Por que aliberdade e a virtude são valores para os seres humanos? O que é um valor? Porque avaliamos os sentimentos e as ações humanas?Assim, mesmo se disséssemos que o objeto da Filosofia não é o conhecimento darealidade, nem o conhecimento da nossa capacidade para conhecer, mesmo sedisséssemos que o objeto da Filosofia é apenas a vida moral ou ética, aindaassim, o estilo filosófico e a atitude filosófica permaneceriam os mesmos, poisas perguntas filosóficas - o que, por que e como - permanecem.Atitude filosófica: indagarSe, portanto, deixarmos de lado, por enquanto, os objetos com os quais aFilosofia se ocupa, veremos que a atitude filosófica possui algumascaracterísticas que são as mesmas, independentemente do conteúdo investigado.Essas características são:- perguntar o que a coisa, ou o valor, ou a idéia, é. A Filosofia pergunta qual é arealidade ou natureza e qual é a significação de alguma coisa, não importa qual; – 11 –

Convite à Filosofia _______________________________- perguntar como a coisa, a idéia ou o valor, é. A Filosofia indaga qual é aestrutura e quais são as relações que constituem u coisa, uma idéia ou um mavalor;- perguntar por que a coisa, a idéia ou o valor, existe e é como é. A Filosofiapergunta pela origem ou pela causa de uma coisa, de uma idéia, de um valor.A atitude filosófica inicia-se dirigindo essas indagações ao mundo que nos rodeiae às relações que mantemos com ele. Pouco a pouco, porém, descobre que essasquestões se referem, afinal, à nossa capacidade de conhecer, à nossa capacidadede pensar.Por isso, pouco a pouco, as perguntas da Filosofia se dirigem ao própriopensamento: o que é pensar, como é pensar, por que há o pensar? A Filosofiatorna-se, então, o pensamento interrogando-se a si mesmo. Por ser uma volta queo pensamento realiza sobre si mesmo, a Filosofia se realiza como reflexão.A reflexão filosóficaReflexão significa movimento de volta sobre si mesmo ou movimento de retornoa si mesmo. A reflexão é o movimento pelo qual o pensamento volta-se para simesmo, interrogando a si mesmo.A reflexão filosófica é radical porque é um movimento de volta do pensame ntosobre si mesmo para conhecer-se a si mesmo, para indagar como é possível opróprio pensamento.Não somos, porém, somente seres pensantes. Somos também seres que agem nomundo, que se relacionam com os outros seres humanos, com os animais, asplantas, as coisas, os fatos e acontecimentos, e exprimimos essas relações tantopor meio da linguagem quanto por meio de gestos e ações.A reflexão filosófica também se volta para essas relações que mantemos com arealidade circundante, para o que dizemos e para as ações que realizamos nessasrelações.A reflexão filosófica organiza-se em torno de três grandes conjuntos de perguntasou questões:1. Por que pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos e fazemos o quefazemos? Isto é, quais os motivos, as razões e as causas para pensarmos o quepensamos, dizermos o que dizemos, fazermos o que fazemos?2. O que queremos pensar quando pensamos, o que queremos dizer quandofalamos, o que queremos fazer quando agimos? Isto é, qual é o conteúdo ou osentido do que pensamos, dizemos ou fazemos?3. Para que pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos, fazemos o quefazemos? Isto é, qual é a intenção ou a finalidade do que pensamos, dizemos efazemos? – 12 –

Marilena Chauí _______________________________Essas três questões podem ser resumidas em: O que é pensar, falar e agir? E elaspressupõem a seguinte pergunta: Nossas crenças cotidianas são ou não um saberverdadeiro, um conhecimento?Como vimos, a atitude filosófica inicia-se indagando: O que é? Como é? Por queé?, dirigindo-se ao mundo que nos rodeia e aos seres humanos que nele vivem ecom ele se relacionam. São perguntas sobre a essência, a significação ou aestrutura e a origem de todas as coisas.Já a reflexão filosófica indaga: Por quê?, O quê?, Para quê?, dirigindo-se aopensamento, aos seres humanos no ato da reflexão. São perguntas sobre acapacidade e a finalidade humanas para conhecer e agir.Filosofia: um pensamento sistemáticoEssas indagações fundamentais não se realizam ao acaso, segundo preferências eopiniões de cada um de nós. A Filosofia não é um “eu acho que” ou um “eugosto de”. Não é pesquisa de opinião à maneira dos meios de comunicação demassa. Não é pesquisa de mercado para conhecer preferências dos consumidorese montar uma propaganda.As indagações filosóficas se realizam de modo sistemático.Que significa isso?Significa que a Filosofia trabalha com enunciados precisos e rigorosos, buscaencadeamentos lógicos entre os enunciados, opera com conceitos ou idéiasobtidos por procedimentos de demonstração e prova, exige a fundamentaçãoracional do que é enunciado e pensado. Somente assim a reflexão filosófica podefazer com que nossa experiência cotidiana, nossas crenças e opiniões alcancemuma visão crítica de si mesmas. Não se trata de dizer “eu acho que ”, mas depoder afirmar “eu penso que”.O conhecimento filosófico é um trabalho intelectual. É sistemático porque não secontenta em obter respostas para as questões colocadas, mas exige que aspróprias questões sejam válidas e, em segundo lugar, que as respostas sejamverdadeiras, estejam relacionadas entre si, esclareçam umas às outras, formemconjuntos coerentes de idéias e significações, sejam provadas e demonstradasracionalmente.Quando o senso comum diz “esta é minha filosofia” ou “isso é a filosofia defulana ou de fulano”, engana-se e não se engana.Engana-se porque imagina que para “ter uma filosofia” basta alguém possuir umconjunto de idéias mais ou menos coerentes sobre todas as coisas e pessoas, bemcomo ter um conjunto de princípios mais ou menos coerentes para julgar ascoisas e as pessoas. “Minha filosofia” ou a “filosofia de fulano” ficam no planode um “eu acho” coerente. – 13 –

Convite à Filosofia _______________________________Mas o senso comum não se engana ao usar essas expressões porque percebe,ainda que muito confusamente, que há uma característica nas idéias e nosprincípios que nos leva a dizer que são uma filosofia: a coerência, as relaçõesentre as idéias e entre os princípios. Ou seja, o senso comum pressente que aFilosofia opera sistematicamente, com coerência e lógica, que a Filosofia temuma vocação para formar um todo daquilo que aparece de modo fragmentado emnossa experiência cotidiana.Em busca de uma definição da FilosofiaQuando começamos a estudar Filosofia, somos logo levados a buscar o que ela é.Nossa primeira surpresa surge ao descobrirmos que não há apenas uma definiçãoda Filosofia, mas várias. A segunda surpresa vem ao percebermos que, além devárias, as definições parecem contradizer-se. Eis porque muitos, cheios deperplexidade, indagam: afinal, o que é a Filosofia que sequer consegue dizer oque ela é?Uma primeira aproximação nos mostra pelo menos quatro definições gerais doque seria a Filosofia:1. Visão de mundo de um povo, de uma civilização ou de uma cultura. Filosofiacorresponde, de modo vago e geral, ao conjunto de idéias, valores e práticaspelos quais uma sociedade apreende e compreende o mundo e a si mesma,definindo para si o tempo e o espaço, o sagrado e o profano, o bom e o mau, ojusto e o injusto, o belo e o feio, o verdadeiro e o falso, o possível e o impossível,o contingente e o necessário.Qual o problema dessa definição? Ela é tão genérica e tão ampla que nãopermite, por exemplo, distinguir a Filosofia e religião, Filosofia e arte, Filosofia eciência. Na verdade, essa definição identifica Filosofia e Cultura, pois esta é umavisão de mundo coletiva que se exprime em idéias, valores e práticas de umasociedade.A definição, portanto, não consegue acercar-se da especificidade do trabalhofilosófico e por isso não podemos aceitá-la.2. Sabedoria de vida. Aqui, a Filosofia é identificada com a definição e a açãode algumas pessoas que pensam sobre a vida moral, dedicando-se àcontemplação do mundo para aprender com ele a controlar e dirigir suas vidas demodo ético e sábio.A Filosofia seria uma contemplação do mundo e dos homens para nos conduzir auma vida justa, sábia e feliz, ensinando-nos o domínio sobre nós mesmos, sobrenossos impulsos, desejos e paixões. É nesse sentido que se fala, por exemplo,numa filosofia do budismo.Esta definição, porém, nos diz, de modo vago, o que se espera da Filosofia (asabedoria interior), mas não o que é e o que faz a Filosofia e, por isso, tambémnão podemos aceitá-la. – 14 –

Marilena Chauí _______________________________3. Esforço racional para conceber o Universo como uma totalidade ordenadae dotada de sentido. Nesse caso, começa-se distinguindo entre Filosofia ereligião e até mesmo opondo uma à outra, pois ambas possuem o mesmo objeto(compreender o Universo), mas a primeira o faz através do esforço racional,enquanto a segunda, por confiança (fé) numa revelação divina.Ou seja, a Filosofia procura discutir até o fim o sentido e o fundamento darealidade, enquanto a consciência religiosa se baseia num dado primeiro einquestionável, que é a revelação divina indemonstrável.Pela fé, a religião aceita princípios indemonstráveis e até mesmo aqueles quepodem ser considerados irracionais pelo pensamento, enquanto a Filosofia nãoadmite indemonstrabilidade e irracionalidade. Pelo contrário, a consciênciafilosófica procura explicar e compreender o que parece ser irracional einquestionável.No entanto, esta definição também é problemática, porque dá à Filosofia a tarefade oferecer uma explicação e uma compreensão totais sobre o Universo,elaborando um sistema universal ou um sistema do mundo, mas sabemos, hoje,que essa tarefa é impossível.Há pelo menos duas limitações principais a esta pretensão totalizadora: emprimeiro lugar, porque a explicação sobre a realidade também é oferecida pelasciências e pelas artes, cada uma das quais definindo um aspecto e um campo darealidade para estudo (no caso das ciências) e para a expressão (no caso dasartes), já não sendo pensável uma única disciplina que pudesse abranger sozinhaa totalidade dos conhecimentos; em segundo lugar, porque a própria Filosofia jánão admite que seja possível um sistema de pensamento único que ofereça umaúnica explicação para o todo da realidade. Por isso, esta definição também nãopode ser aceita.4. Fundamentação teórica e crítica dos conhecimentos e das práticas. AFilosofia, cada vez mais, ocupa-se com as condições e os princípios doconhecimento que pretenda ser racional e verdadeiro; com a origem, a forma e oconteúdo dos valores éticos, políticos, artísticos e culturais; com a compreensãodas causas e das formas da ilusão e do preconceito no plano individual e coletivo;com as transformações históricas dos conceitos, das idéias e dos valores.A Filosofia volta-se, também, para o estudo da consciência em suas váriasmodalidades: percepção, imaginação, memória, linguagem, inteligência,experiência, reflexão, comportamento, vontade, desejo e paixões, procurandodescrever as formas e os conteúdos dessas modalidades de relação entre o serhumano e o mundo, do ser humano consigo mesmo e com os outros. Finalmente,a Filosofia visa ao estudo e à interpretação de idéias ou significações geraiscomo: realidade, mundo, natureza, cultura, história, subjetividade, objetividade,diferença, repetição, semelhança, conflito, contradição, mudança, etc. – 15 –

Convite à Filosofia _______________________________Sem abandonar as questões sobre a essência da realidade, a Filosofia procuradiferenciar-se das ciências e das artes, dirigindo a investigação sobre o mundonatural e o mundo histórico (ou humano) num momento muito preciso: quandoperdemos nossas certezas cotidianas e quando as ciências e as artes ainda nãoofereceram outras certezas para substituir as que perdemos.Em outras palavras, a Filosofia se interessa por aquele instante em que arealidade natural (o mundo das coisas) e a histórica (o mundo dos homens)tornam-se estranhas, espantosas, incompreensíveis e enigmáticas, quando o sensocomum já não sabe o que pensar e dizer e as ciências e as artes ainda não sabemo que pensar e dizer.Esta última descrição da atividade filosófica capta a Filosofia como análise (dascondições da ciência, da religião, da arte, da moral), como reflexão (isto é, voltada consciência para si mesma para conhecer-se enquanto capacidade para oconhecimento, o sentimento e a ação) e como crítica (das ilusões e dospreconceitos individuais e coletivos, das teorias e práticas científicas, políticas eartísticas), essas três atividades (análise, reflexão e crítica) estando orientadaspela elaboração filosófica de significações gerais sobre a realidade e os sereshumanos. Além de análise, reflexão e crítica, a Filosofia é a busca do fundamentoe do sentido da realidade em suas múltiplas formas indagando o que são, qual suapermanência e qual a necessidade interna que as transforma em outras. O que é oser e o aparecer-desaparecer dos seres?A Filosofia não é ciência: é uma reflexão crítica sobre os procedimentos econceitos científicos. Não é religião: é uma reflexão crítica sobre as origens eformas das crenças religiosas. Não é arte: é uma interpretação crítica dosconteúdos, das formas, das significações das obras de arte e do trabalho artístico.Não é sociologia nem psicologia, mas a interpretação e avaliação crítica dosconceitos e métodos da sociologia e da psicologia. Não é política, masinterpretação, compreensão e reflexão sobre a origem, a natureza e as formas dopoder. Não é história, mas interpretação do sentido dos acontecimentos enquantoinseridos no tempo e compreensão do que seja o próprio tempo. Conhecimentodo conhecimento e da ação humanos, conhecimento da transformação temporaldos princípios do saber e do agir, conhecimento da mudança das formas do realou dos seres, a Filosofia sabe que está na História e que possui uma história.Inútil? Útil?O primeiro ensinamento filosófico é perguntar: O que é o útil? Para que e paraquem algo é útil? O que é o inútil? Por que e para quem algo é inútil?O senso comum de nossa sociedade considera útil o que dá prestígio, poder, famae riqueza. Julga o útil pelos resultados visíveis das coisas e das ações,identificando utilidade e a famosa expressão “levar vantagem em tudo”. Desseponto de vista, a Filosofia é inteiramente inútil e defende o di reito de ser inútil. – 16 –

Marilena Chauí _______________________________Não poderíamos, porém, definir o útil de outra maneira?Platão definia a Filosofia como um saber verdadeiro que deve ser usado embenefício dos seres humanos.Descartes dizia que a Filosofia é o estudo da sabedoria, conhecimento perfeito detodas as coisas que os humanos podem alcançar para o uso da vida, aconservação da saúde e a invenção das técnicas e das artes.Kant afirmou que a Filosofia é o conhecimento que a razão adquire de si mesmapara saber o que pode conhecer e o que pode fazer, tendo como finalidade afelicidade humana.Marx declarou que a Filosofia havia passado muito tempo apenas contemplandoo mundo e que se tratava, agora, de conhecê-lo para transformá-lo, transformaçãoque traria justiça, abundância e felicidade para todos.Merleau-Ponty escreveu que a Filosofia é um despertar para ver e mudar nossomundo.Espinosa afirmou que a Filosofia é um caminho árduo e difícil, mas que pode serpercorrido por todos, se desejarem a liberdade e a felicidade.Qual seria, então, a utilidade da Filosofia?Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não sedeixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos forútil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história forútil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e napolítica for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para seremconscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e afelicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil detodos os saberes de que os seres humanos são capazes. – 17 –

Marilena Chauí _______________________________ Capítulo 1 A origem da FilosofiaA palavra filosofiaA palavra filosofia é grega. É composta por duas outras: philo e sophia. Philoderiva-se de philia, que significa amizade, amor fraterno, respeito entre os iguais.Sophia quer dizer sabedoria e dela vem a palavra sophos, sábio.Filosofia significa, portanto, amizade pela sabedoria, amor e respeito pelo saber.Filósofo: o que ama a sabedoria, tem amizade pelo saber, deseja saber.Assim, filosofia indica um estado de espírito, o da pessoa que ama, isto é, desejao conhecimento, o estima, o procura e o respeita.Atribui-se ao filósofo grego Pitágoras de Samos (que viveu no século V antes deCristo) a invenção da palavra filosofia. Pitágoras teria afirmado que a sabedoriaplena e completa pertence aos deuses, mas que os homens podem desejá-la ouamá-la, tornando-se filósofos.Dizia Pitágoras que três tipos de pessoas compareciam aos jogos olímpicos (afesta mais importante da Grécia): as que iam para comerciar durante os jogos, aliestando apenas para servir aos seus próprios interesses e sem preocupação com asdisputas e os torneios; as que iam para competir, isto é, os atletas e artistas (pois,durante os jogos também havia competições artísticas: dança, poesia, música,teatro); e as que iam para contemplar os jogos e torneios, para avaliar odesempenho e julgar o valor dos que ali se apresentavam. Esse terceiro tipo depessoa, dizia Pitágoras, é como o filósofo.Com isso, Pitágoras queria dizer que o filósofo não é movido por interessescomerciais - não coloca o saber como propriedade sua, como uma coisa para sercomprada e vendida no mercado; também não é movido pelo desejo de competir- não faz das idéias e dos conhecimentos uma habilidade para vencercompetidores ou “atletas intelectuais”; mas é movido pelo desejo de observar,contemplar, julgar e avaliar as coisas, as ações, a vida: em resumo, pelo desejo de – 19 –

Convite à Filosofia _______________________________saber. A verdade não pertence a ninguém, ela é o que buscamos e que está diantede nós para ser contemplada e vista, se tivermos olhos (do espírito) para vê -la.A Filosofia é gregaA Filosofia, entendida como aspiração ao conhecimento racional, lógico esistemático da realidade natural e humana, da origem e causas do mundo e desuas transformações, da origem e causas das ações humanas e do própriopensamento, é um fato tipicamente grego.Evidentemente, isso não quer dizer, de modo algum, que outros povos, tãoantigos quanto os gregos, como os chineses, os hindus, os japoneses, os árabes,os persas, os hebreus, os africanos ou os índios da América não possuamsabedoria, pois possuíam e possuem. Também não quer dizer que todos essespovos não tivessem desenvolvido o pensamento e formas de conhecimento daNatureza e dos seres humanos, pois desenvolveram e desenvolvem.Quando se diz que a Filosofia é um fato grego, o que se quer dizer é que elapossui certas características, apresenta certas formas de pensar e de exprimir ospensamentos, estabelece certas concepções sobre o que sejam a realidade, opensamento, a ação, as técnicas, que são completamente diferentes dascaracterísticas desenvolvidas por outros povos e outras culturas.Vejamos um exemplo. Os chineses desenvolveram um pensamento muitoprofundo sobre a existência de coisas, seres e ações contrários ou opostos, queformam a realidade. Deram às oposições o nome de dois princípios: Yin e Yang.Yin é o princípio feminino passivo na Natureza, representado pela escuridão, ofrio e a umidade; Yang é o princípio masculino ativo na Natureza, representadopela luz, o calor e o seco. Os dois princípios se combinam e formam todas ascoisas, que, por isso, são feitas de contrários ou de oposições. O mundo, portanto,é feito da atividade masculina e da passividade feminina.Tomemos agora um filósofo grego, por exemplo, o próprio Pitágoras. Que dizele? Que a Natureza é feita de um sistema de relações ou de proporçõesmatemáticas produzidas a partir da unidade (o número 1 e o ponto), da oposiçãoentre os números pares e ímpares, e da combinação entre as superfícies e osvolumes (as figuras geométricas), de tal modo que essas proporções ecombinações aparecem para nossos órgãos dos sentidos sob a forma dequalidades contrárias: quente-frio, seco-úmido, áspero-liso, claro-escuro, grande-pequeno, doce-amargo, duro-mole, etc. Para Pitágoras, o pensamento alcança arealidade em sua estrutura matemática, enquanto nossos sentidos ou nossapercepção alcançam o modo como a estrutura matemática da Natureza aparecepara nós, isto é, sob a forma de qualidades opostas.Qual a diferença entre o pensamento chinês e o do filósofo grego?O pensamento chinês toma duas características (masculino e feminino) existentesem alguns seres (os animais e os humanos) e considera que o Universo inteiro é – 20 –

Marilena Chauí _______________________________feito da oposição entre qualidades atribuídas a dois sexos diferentes, de sorte queo mundo é organizado pelo princípio da sexualidade animal ou humana.O pensamento de Pitágoras apanha a Natureza numa generalidade muito maisampla do que a sexualidade própria a alguns seres da Natureza, e faz distinçãoentre as qualidades sensoriais que nos aparecem e a estrutura invisível daNatureza, que, para ele, é de tipo matemático e alcançada apenas pelo intelecto,ou inteligência.São diferenças desse tipo, além de muitas outras, que nos levam a dizer queexiste uma sabedoria chinesa, uma sabedoria hindu, uma sabedoria dos índios,mas não há filosofia chinesa, filosofia hindu ou filosofia indígena.Em outras palavras, Filosofia é um modo de pensar e exprimir os pensamentosque surgiu especificamente com os gregos e que, por razões históricas e políticas,tornou-se, depois, o modo de pensar e de se exprimir predominante da chamadacultura européia ocidental da qual, em decorrência da colonização portuguesa doBrasil, nós também participamos.Através da Filosofia, os gregos instituíram para o Ocidente europeu as bases e osprincípios fundamentais do que chamamos razão, racionalidade, ciência, ética,política, técnica, arte.Aliás, basta observarmos que palavras como lógica, técnica, ética, política,monarquia, anarquia, democracia, física, diálogo, biologia, cronologia, gênese,genealogia, cirurgia, ortopedia, pedagogia, farmácia, entre muitas outras, sãopalavras gregas, para percebermos a influência decisiva e predominante daFilosofia grega sobre a formação do pensamento e das instituições das sociedadeseuropéias ocidentais.É por isso que, em decorrência do predomínio da economia capitalista criadapelo Ocidente e que impõe um certo tipo de desenvolvimento das ciências e dastécnicas, falamos, por exemplo, em “ocidentalização dos chineses”,“ocidentalização dos árabes”, etc. Com isso queremos significar que modos depensar e de agir, criados no Ocidente pela Filosofia grega, foram incorporadosaté mesmo por culturas e sociedades muito diferentes daquela onde nasceu aFilosofia.É pelo mesmo motivo que falamos em “orientalismos” e “orientalistas” paraindicar pessoas que buscam no budismo, no confucionismo, no Yin e no Yang,nos mantras, nas pirâmides, nas auras, nas pedras e cristais maneiras de pensar ede explicar a realidade, a Natureza, a vida e as ações humanas que não sãopróprias ou específicas do Ocidente, isto é, são diferentes do padrão depensamento e de explicação que foram criados pelos gregos a partir do séculoVII antes de Cristo, época em que nasce a Filosofia. – 21 –

Convite à Filosofia _______________________________O legado da Filosofia grega para o Ocidente europeuPor causa da colonização européia das Américas, nós também fazemos parte -ainda que de modo inferiorizado e colonizado - do Ocidente europeu e assimtambém somos herdeiros do legado que a Filosofia grega deixou para opensamento ocidental europeu.Desse legado, podemos destacar como principais contribuições as seguintes:? A idéia de que a Natureza opera obedecendo a leis e princípios necessários euniversais, isto é, os mesmos em toda a parte e em todos os tempos. Assim, porexemplo, graças aos gregos, no século XVII da nossa era, o filósofo inglês IsaacNewton estabeleceu a lei da gravitação universal de todos os corpos da Natureza.A lei da gravitação afirma que todo corpo, quando sofre a ação de um outro,produz uma reação igual e contrária, que pode ser calculada usando comoelementos do cálculo a massa do corpo afetado, a velocidade e o tempo com quea ação e a reação se deram.Essa lei é necessária, isto é, nenhum corpo do Universo escapa dela e podefuncionar de outra maneira que não desta; e esta lei é universal , isto é, válidapara todos os corpos em todos os tempos e lugares.Um outro exemplo: as leis geométricas do triângulo ou do círculo, conformedemonstraram os filósofos gregos, são universais e necessárias, isto é, seja emTóquio em 1993, em Copenhague em 1970, em Lisboa em 1810, em São Pauloem 1792, em Moçambique em 1661, ou em Nova York em 1975, as leis dotriângulo ou do círculo são necessariamente as mesmas.? A idéia de que as leis necessárias e universais da Natureza podem serplenamente conhecidas pelo nosso pensamento, isto é, não são conhecimentosmisteriosos e secretos, que precisariam ser revelados por divindades, mas sãoconhecimentos que o pensamento humano, por sua própria força e capacidade,pode alcançar.? A idéia de que nosso pensamento também opera obedecendo a leis, regras enormas universais e necessárias, segundo as quais podemos distinguir overdadeiro do falso. Em outras palavras, a idéia de que o nosso pensamento élógico ou segue leis lógicas de funcionamento.Nosso pensamento diferencia uma afirmação de uma negação porque, naafirmação, atribuímos alguma coisa a outra coisa (quando afirmamos que“Sócrates é um ser humano ”, atribuímos humanidade a Sócrates) e, na negação,retiramos alguma coisa de outra (quando dizemos “este caderno não é verde”,estamos retirando do caderno a cor verde).Nosso pensamento d istingue quando uma afirmação é verdadeira ou falsa. Sealguém apresentar o seguinte raciocínio: “Todos os homens são mortais. Sócratesé homem. Logo, Sócrates é mortal ”, diremos que a afirmação “Sócrates é mortal” – 22 –

Marilena Chauí _______________________________é verdadeira, porque foi concluída de outras afirmações que já sabemos seremverdadeiras.? A idéia de que as práticas humanas, isto é, a aç ão moral, a política, as técnicase as artes dependem da vontade livre, da deliberação e da discussão, da nossaescolha passional (ou emocional) ou racional, de nossas preferências, segundocertos valores e padrões, que foram estabelecidos pelos próprios seres humanos enão por imposições misteriosas e incompreensíveis, que lhes teriam sido feitaspor forças secretas, invisíveis, sejam elas divinas ou naturais, e impossíveis deserem conhecidas.? A idéia de que os acontecimentos naturais e humanos são necessários, porqueobedecem a leis naturais ou da natureza humana, mas também podem sercontingentes ou acidentais, quando dependem das escolhas e deliberações doshomens, em condições determinadas.Dessa forma, uma pedra cai porque seu peso, por uma lei natural, exige que elacaia natural e necessariamente; um ser humano anda porque as leis anatômicas efisiológicas que regem o seu corpo fazem com que ele tenha os meios necessáriospara a locomoção.No entanto, se uma pedra, ao cair, atingir a cabeça de um passante, esseacontecimento é contingente ou acidental. Por quê? Porque, se o passante nãoestivesse andando por ali naquela hora, a pedra não o atingiria. Assim, a queda dapedra é necessária e o andar de um ser humano é necessário, mas que uma pedracaia sobre minha cabeça quando ando é inteiramente contingente ou acidental.Todavia, é muito diferente a situação das ações humanas. É verdade que é poruma necessidade natural ou por uma lei da Natureza que ando. Mas é pordeliberação voluntária que ando para ir à escola em vez de andar para ir aocinema, por exemplo. É verdade que é por uma lei necessária da Natureza que oscorpos pesados caem, mas é por uma deliberação humana e por uma escolhavoluntária que fabrico uma bomba, a coloco num avião e a faço despencar sobreHiroshima.Um dos legados mais importantes da Filosofia grega é, portanto, essa diferençaentre o necessário e o contingente, pois ela nos permite evitar o fatalismo - “tudoé necessário, temos que nos conformar e nos resignar ” -, mas também evitar ailusão de que podemos tudo quanto quisermos, se alguma força extranatural ousobrenatural nos ajudar, pois a Natureza segue leis necessárias que podemosconhecer e nem tudo é possível por mais que o queiramos.? A idéia de que os seres humanos, por Natureza, aspiram ao conhecimentoverdadeiro, à felicidade, à justiça, isto é, que os seres humanos não vivem nemagem cegamente, mas criam valores pelo quais dão sentido às suas vidas e àssuas ações. – 23 –

Convite à Filosofia _______________________________A Filosofia surge, portanto, quando alguns gregos, admirados e espantados com arealidade, insatisfeitos com as explicações que a tradição lhes dera, começaram afazer perguntas e buscar respostas para elas, demonstrando que o mundo e osseres humanos, os acontecimentos e as coisas da Natureza, os acontecimentos eas ações humanas podem ser conhecidos pela razão humana, e que a própriarazão é capaz de conhecer-se a si mesma.Em suma, a Filosofia surge quando se descobriu que a verdade do mundo e doshumanos não era algo secreto e misterioso, que precisasse ser revelado pordivindades a alguns escolhidos, mas que, ao contrário, podia ser conhecida portodos, através da razão, que é a mesma em todos; quando se descobriu que talconhecimento depende do uso correto da razão ou do pensamento e que, além daverdade poder ser conhecida por todos, podia, pelo mesmo motivo, ser ensinadaou transmitida a todos. – 24 –

Marilena Chauí _______________________________ Capítulo 2 O nascimento da FilosofiaOuvindo a voz dos poetasEscutemos, por um instante, a voz dos poetas, porque ela costuma exprimir o quechamamos de “sentimento do mundo ”, o sentimento da velhice e da juventudeperene do mundo, da grandeza e da pequeneza dos humanos ou dos mortais.Assim, o poeta grego Arquíloco escreveu: E não te esqueças, meu coração, que as coisas humanas apenas mudanças incertas são.Outro poeta grego, Teógnis, cantando sobre a brevidade da vida, dizia: Choremos a juventude e a velhice também, pois a primeira foge e a segunda sempre vem.Também o poeta grego Píndaro falava do sentimento das coisas humanas comopassageiras: A glória dos mortais num só dia cresce, Mas basta um só dia, contrário e funesto, para que o destino, impiedoso, num gesto a lance por terra e ela, súbito, fenece.Mas não só a vida e os feitos dos humanos são breves e frágeis. Os poetastambém exprimem o sentimento de que o mundo é tecido por mudanças erepetições intermináveis. A esse respeito, a poetisa brasileira Orides Fontelaescreveu: O vento, a chuva, o sol, o frio Tudo vai e vem, tudo vem e vai.E o poeta brasileiro, Carlos Drummond, por sua vez, lamentou: Como a vida muda. Como a vida é muda. Como a vida é nuda. Como a vida é nada. Como a vida é tudo. ... Como a vida é senha – 25 –

Convite à Filosofia _______________________________ de outra vida nova ... Como a vida é vida ainda quando morte ... Como a vida é forte em suas algemas. ... Como a vida é bela ... Como a vida vale mais que a própria vida sempre renascida.O sentimento de renovação e beleza do mundo, da vida, dos seres humanos é oque transparece nos versos do poeta brasileiro Mário Quintana, nos seguintesversos: Quando abro a cada manhã a janela do meu quarto É como se abrisse o mesmo livro Numa página nova...E, por isso, em outros versos seus, lemos: O encanto sobrenatural que há nas coisas da Natureza! ... se nela algo te dá encanto ou medo, não me digas que seja feia ou má, é, acaso, singular...Numa das obras poéticas mais importantes da cultura do Ocidente europeu, asMetamorfoses, o poeta romano Ovídio exprimiu todos esses sentimentos queexperimentamos diante da mudança, da renovação e da repetição, do nascimentoe da morte das coisas e dos seres humanos. Na parte final de sua obra, lemos: Não há coisa alguma que persista em todo o Universo. Tudo flui, e tudo só apresenta uma imagem passageira. O próprio tempo passa com um movimento contínuo, como um rio... O que foi antes já não é, o que não tinha sido é, e todo instante é uma coisa nova. Vês a noite, próxima do fim, caminhar para o dia, e à claridade do dia suceder a escuridão da noite... Não vês as estações do ano se sucederem, imitando as idades de nossa vida? Com efeito, a primavera, quando surge, é semelhante à – 26 –

Marilena Chauí _______________________________ criança nova... A planta nova, pouco vigorosa, rebenta em brotos e enche de esperança o agricultor. Tudo floresce. O fértil campo resplandece com o colorido das flores, mas ainda falta vigor às folhas. Entra, então, a quadra mais forte e vigorosa, o verão: é a robusta mocidade, fecunda e ardente. Chega, por sua vez, o outono: passou o fervor da mocidade, é a quadra da maturidade, o meio-termo entre o jovem e o velho; as têmporas embranquecem. Vem, depois, o tristonho inverno: é o velho trôpego, cujos cabelos ou caíram como as folhas das árvores, ou, os que restaram, estão brancos como a neve dos caminhos. Também nossos corpos mudam sempre e sem descanso... E também a Natureza não descansa e, renovadora, encontra outras formas nas formas das coisas. Nada morre no vasto mundo, mas tudo assume aspectos novos e variados... Todos os seres têm sua origem noutros seres. Existe uma ave a que os fenícios dão o nome de fênix. Não se alimenta de grãos ou ervas, mas das lágrimas do incenso e do suco da amônia. Quando completa cinco séculos de vida, constrói um ninho no alto de uma grande palmeira, feito de folhas de canela, do aromático nardo e da mirra avermelhada. Ali se acomoda e termina a vida entre perfumes. De suas cinzas, renasce uma pequena fênix, que viverá outros cinco séculos... Assim também é a Natureza e tudo o que nela existe e persiste.O que perguntavam os primeiros filósofosPor que os seres nascem e morrem? Por que os semelhantes dão origem aossemelhantes, de uma árvore nasce outra árvore, de um cão nasce outro cão, deuma mulher nasce uma criança? Por que os diferentes também parecem fazersurgir os diferentes: o dia parece fazer nascer a noite, o inverno parece fazersurgir a primavera, um objeto escuro clareia com o passar do tempo, um objetoclaro escurece com o passar do tempo?Por que tudo muda? A criança se torna adulta, amadurece, envelhece edesaparece. A paisagem, cheia de flores na primavera, vai perdendo o verde e ascores no outono, até ressecar-se e retorcer-se no inverno. Por que um dialuminoso e ensolarado, de céu azul e brisa suave, repentinamente, se tornasombrio, coberto de nuvens, varrido por ventos furiosos, tomado pelatempestade, pelos raios e trovões?Por que a doença invade os corpos, rouba-lhes a cor, a força? Por que o alimentoque antes me agradava, agora, que estou doente, me causa repugnância? Por queo som da música que antes me embalava, agora, que estou doente, parece umruído insuportável?Por que o que parecia uno se multiplica em tantos outros? De uma só árvore,quantas flores e quantos frutos nascem! De uma só gata, quantos gatinhosnascem! – 27 –

Convite à Filosofia _______________________________Por que as coisas se tornam opostas ao que eram? A água do copo, tãotransparente e de boa temperatura, torna-se uma barra dura e gelada, deixa de serlíquida e transparente para tornar-se sólida e acinzentada. O dia, que começa frioe gelado, pouco a pouco, se torna quente e cheio de calor.Por que nada permanece idêntico a si mesmo? De onde vêm os seres? Para ondevão, quando desaparecem? Por que se transformam? Por que se diferenciam unsdos outros? Mas também, por que tudo parece repetir-se? Depois do dia, a noite;depois da noite, o dia. Depois do inverno, a primavera, depois da primavera, overão, depois deste, o outono e depois deste, novamente o inverno. De dia, o sol;à noite, a lua e as estrelas. Na primavera, o mar é tranqüilo e propício ànavegação; no inverno, tempestuoso e inimigo dos homens. O calor leva as águaspara o céu e as traz de volta pelas chuvas. Ninguém nasce adulto ou velho, massempre criança, que se torna adulto e velho.Foram perguntas como essas que os primeiros filósofos fizeram e para elasbuscaram respostas.Sem dúvida, a religião, as tradições e os mitos explicavam todas essas coisas,mas suas explicações já não satisfaziam aos que interrogavam sobre as causas damudança, da permanência, da repetição, da desaparição e do ressurgimento detodos os seres. Haviam perdido força explicativa, não convenciam nemsatisfaziam a quem desejava conhecer a verdade sobre o mundo.O nascimento da FilosofiaOs historiadores da Filosofia dizem que ela possui data e local de nascimento:final do século VII e início do século VI antes de Cristo, nas colônias gregas daÁsia Menor (particularmente as que formavam uma região denominada Jônia),na cidade de Mileto. E o primeiro filósofo foi Tales de Mileto.Além de possuir data e local de nascimento e de possuir seu primeiro autor, aFilosofia também possui um conteúdo preciso ao nascer: é uma cosmologia. Apalavra cosmologia é composta de duas outras: cosmos, que significa mundoordenado e organizado, e logia, que vem da palavra logos, que significapensamento racional, discurso racional, conhecimento. Assim, a Filosofia nascecomo conhecimento racional da ordem do mundo ou da Natureza, donde,cosmologia.Apesar da segurança desses dados, existe um problema que, durante séculos, vemocupando os historiadores da Filosofia: o de saber se a Filosofia - que é um fatoespecificamente grego - nasceu por si mesma ou dependeu de contribuições dasabedoria oriental (egípcios, assírios, persas, caldeus, babilônios) e da sabedoriade civilizações que antecederam à grega, na região que, antes de ser a Grécia ou aHélade, abrigara as civilizações de Creta, Minos, Tirento e Micenas.Durante muito tempo, considerou-se que a Filosofia nascera por transformaçõesque os gregos operaram na sabedoria oriental (egípcia, persa, caldéia e – 28 –

Marilena Chauí _______________________________babilônica). Assim, filósofos como Platão e Aristóteles afirmavam a origemoriental da Filosofia. Os gregos, diziam eles, povo comerciante e navegante,descobriram, através das viagens, a agrimensura dos egípcios (usada para mediras terras, após as cheias do Nilo), a astrologia dos caldeus e dos babilônios(usada para prever grandes guerras, subida e queda de reis, catástrofes comopeste, fome, furacões), as genealogias dos persas (usadas para dar continuidadeàs linhagens e dinastias dos governantes), os mistérios religiosos orientaisreferentes aos rituais de purificação da alma (para livrá-la da reencarnaçãocontínua e garantir-lhe o descanso eterno), etc. A Filosofia teria nascido pelastransformações que os gregos impuseram a esses conhecimentos.Dessa forma, da agrimensura, os gregos fizeram nascer duas ciências: aaritmética e a geometria; da astrologia, fizeram surgir também duas ciências: aastronomia e a meteorologia; das genealogias, fizeram surgir mais uma outraciência: a história; dos mistérios religiosos de purificação da alma, fizeram surgiras teorias filosóficas sobre a natureza e o destino da alma humana.Todos esses conhecimentos teriam propiciado o aparecimento da Filosofia, isto é,da cosmologia, de sorte que a Filosofia só teria podido nascer graças as saberoriental.Essa idéia de uma filiação oriental da Filosofia foi muito defendida oito séculosdepois de seu nascimento (durante os séculos II e III depois de Cristo), noperíodo do Império Romano. Quem a defendia? Os pensadores judaicos, comoFilo de Alexandria, e os Padres da Igreja, como Eusébio de Cesaréia e Clementede Alexandria.Por que defendiam a origem oriental da Filosofia grega? Pelo seguinte motivo: aFilosofia grega tornara-se, em toda a Antigüidade clássica, e para os poderososda época, os romanos, a forma superior ou mais elevada do pensamento e damoral.Os judeus, para valorizar seu pensamento, desejavam que a Filosofia tivesse umaorigem oriental, dizendo que o pensamento de filósofos importantes, comoPlatão, tinha surgido no Egito, onde se originara o pensamento de Moisés, demodo que havia uma ligação entre a Filosofia grega e a Bíblia.Os Padres da Igreja, por sua vez, queriam mostrar que os ensinamentos de Jesuseram elevados e perfeitos, não eram superstição, nem primitivos e incultos, e porisso mostravam que os filósofos gregos estavam filiados a correntes depensamento místico e oriental e, dessa maneira, estariam próximos docristianismo, que é uma religião oriental.No entanto, nem todos aceitaram a tese chamada “orientalista”, e muitos,sobretudo no século XIX da nossa era, passaram a falar na Filosofia como sendoo “milagre grego”.Com a palavra “milagre” queriam dizer várias coisas: – 29 –

Convite à Filosofia _______________________________? que a Filosofia surgiu inesperada e espantosamente na Grécia, sem que nadaanterior a preparasse;? que a Filosofia grega foi um acontecimento espontâneo, único e sem par, comoé próprio de um milagre;? que os gregos foram um povo excepcional, sem nenhum outro semelhante aeles, nem antes e nem depois deles, e por isso somente eles poderiam ter sidocapazes de criar a Filosofia, como foram os únicos a criar as ciências e a dar àsartes uma elevação que nenhum outro povo conseguiu, nem antes e nem depoisdeles.Nem oriental, nem milagreDesde o final do século XIX da nossa era e durante o século XX, estudoshistóricos, arqueológicos, lingüísticos, literários e artísticos corrigiram osexageros das duas teses, isto é, tanto a redução da Filosofia à sua origem oriental,quanto o “milagre grego ”.Retirados os exageros do orientalismo, percebe-se que, de fato, a Filosofia temdívidas com a sabedoria dos orientais, não só porque as viagens colocaram osgregos em contato com os conhecimentos produzidos por outros povos(sobretudo os egípcios, persas, babilônios, assírios e caldeus), mas tambémporque os dois maiores formadores da cultura grega antiga, os poetas Homero eHesíodo, encontraram nos mitos e nas religiões dos povos orientais, bem comonas culturas que precederam a grega, os elementos para elaborar a mitologiagrega, que, depois, seria transformada racionalmente pelos filósofos.Assim, os estudos recentes mostraram que mitos, cultos religiosos, instrumentosmusicais, dança, música, poesia, utensílios domésticos e de trabalho, formas dehabitação, formas de parentesco e formas de organização tribal dos gregos foramresultado de contatos profundos com as culturas mais avançadas do Oriente ecom a herança deixada pelas culturas que antecederam a grega, nas regiões ondeela se implantou.Esses mesmos estudos apontaram, porém, que, se nos afastarmos dos exageros daidéia de um “milagre grego”, podemos perceber o que havia de verdadeiro nessatese. De fato, os gregos imprimiram mudanças de qualidade tão profundas no quereceberam do Oriente e das culturas precedentes, que até pareceria terem criadosua própria cultura a partir de si mesmos. Dessas mudanças, podemos mencionarquatro que nos darão uma idéia da originalidade grega:1. Com relação aos mitos: quando comparamos os mitos orientais, cretenses,micênicos, minóicos e os que aparecem nos poetas Homero e Hesíodo, vemosque eles retiraram os aspectos apavorantes e monstruosos dos deuses e do iníciodo mundo; humanizaram os deuses, divinizaram os homens; deram racionalidadea narrativas sobre as origens das coisas, dos homens, das instituições humanas(como o trabalho, as leis, a moral); – 30 –

Marilena Chauí _______________________________2. Com relação aos conhecimentos: os gregos transformaram em ciência (isto é,num conhecimento racional, abstrato e universal) aquilo que eram elementos deuma sabedoria prática para o uso direto na vida.Assim, transformaram em matemática (aritmética, geometria, harmonia) o queeram expedientes práticos para medir, contar e calcular; transformaram emastronomia (conhecimento racional da natureza e do movimento dos astros)aquilo que eram práticas de adivinhação e previsão do futuro; transformaram emmedicina (conhecimento racional sobre o corpo humano, a saúde e a doença)aquilo que eram práticas de grupos religiosos secretos para a cura misteriosa dasdoenças. E assim por diante;3. Com relação à organização social e política: os gregos não inventaram apenasa ciência ou a Filosofia, mas inventaram também a política. Todas as sociedadesanteriores a eles conheciam e praticavam a autoridade e o governo. Mas, por quenão inventaram a política propriamente dita?Nas sociedades orientais e não-gregas, o poder e o governo eram exercidos comoautoridade absoluta da vontade pessoal e arbitrária de um só homem ou de umpequeno grupo de homens que decidiam sobre tudo, sem consultar a ninguém esem justificar suas decisões para ninguém.Os gregos inventaram a política (palavra que vem de polis, que, em grego,significa cidade organizada por leis e instituições) porque instituíram práticaspelas quais as decisões eram tomadas a partir de discussões e debates públicos eeram adotadas ou revogadas por voto em assembléias públicas; porqueestabeleceram instituições públicas (tribunais, assembléias, separação entreautoridade do chefe da família e autoridade pública, entre autoridade político-militar e autoridade religiosa) e sobretudo porque criaram a idéia da lei e dajustiça como expressões da vontade coletiva pública e não como imposição davontade de um só ou de um grupo, em nome de divindades.Os gregos criaram a política porque separaram o poder político e duas outrasformas tradicionais de autoridade: a do chefe de família e a do sacerdote oumago;4. Com relação ao pensamento: diante da herança recebida, os gregos inventarama idéia ocidental da razão como um pensamento sistemático que segue regras,normas e leis de valor universal (isto é, válidas em todos os tempos e lugares.Assim, por exemplo, em qualquer tempo e lugar 2 2 serão sempre 4; otriângulo sempre terá três lados; o Sol sempre será maior do que a Terra, mesmoque ele pareça menor do que ela, etc.).Mito e FilosofiaResolvido esse problema, agora temos um outro que também tem ocupado muitoos estudiosos. O novo problema pode ser assim formulado: a Filosofia nasceu – 31 –

Convite à Filosofia _______________________________realizando uma transformação gradual sobre os mitos gregos ou nasceu por umaruptura radical com os mitos?O que é um mito?Um mito é uma narrativa sobre a origem de alguma coisa (origem dos astros, daTerra, dos homens, das plantas, dos animais, do fogo, da água, dos ventos, dobem e do mal, da saúde e da doença, da morte, dos instrumentos de trabalho, dasraças, das guerras, do poder, etc.).A palavra mito vem do grego, mythos, e deriva de dois verbos: do verbo mytheyo(contar, narrar, falar alguma coisa para outros) e do verbo mytheo (conversar,contar, anunciar, nomear, designar). Para os gregos, mito é um discursopronunciado ou proferido para ouvintes que recebem como verdadeira anarrativa, porque confiam naquele que narra; é uma narrativa feita em público,baseada, portanto, na autoridade e confiabilidade da pessoa do narrador. E essaautoridade vem do fato de que ele ou testemunhou diretamente o que estánarrando ou recebeu a narrativa de quem testemunhou os acontecimentosnarrados.Quem narra o mito? O poeta-rapsodo. Quem é ele? Por que tem autoridade?Acredita-se que o poeta é um escolhido dos deuses, que lhe mostram osacontecimentos passados e permitem que ele veja a origem de todos os seres e detodas as coisas para que possa transmiti-la aos ouvintes. Sua palavra - o mito - ésagrada porque vem de uma revelação divina. O mito é, pois, incontestável einquestionável.Como o mito narra a origem do mundo e de tudo o que nele existe?De três maneiras principais:1. Encontrando o pai e a mãe das coisas e dos seres, isto é, tudo o que existedecorre de relações sexuais entre forças divinas pessoais. Essas relações geram osdemais deuses: os titãs (seres semi-humanos e semidivinos), os heróis (filhos deum deus com uma humana ou de uma deusa com um humano), os humanos, osmetais, as plantas, os animais, as qualidades, como quente-frio, seco-úmido,claro-escuro, bom-mau, justo-injusto, belo-feio, certo-errado, etc.A narração da origem é, assim, uma genealogia, isto é, narrativa da geração dosseres, das coisas, das qualidades, por outros seres, que são seus pais ouantepassados.Tomemos um exemplo da narrativa mítica.Observando que as pessoas apaixonadas estão sempre cheias de ansiedade e deplenitude, inventam mil expedientes para estar com a pessoa amada ou paraseduzi-la e também serem amadas, o mito narra a origem do amor, isto é, onascimento do deus Eros (que conhecemos mais com o nome de Cupido): – 32 –

Marilena Chauí _______________________________Houve uma grande festa entre os deuses. To dos foram convidados, menos adeusa Penúria, sempre miserável e faminta. Quando a festa acabou, Penúria veio,comeu os restos e dormiu com o deus Poros (o astuto engenhoso). Dessa relaçãosexual, nasceu Eros (ou Cupido), que, como sua mãe, está sempre faminto,sedento e miserável, mas, como seu pai, tem mil astúcias para se satisfazer e sefazer amado. Por isso, quando Eros fere alguém com sua flecha, esse alguém seapaixona e logo se sente faminto e sedento de amor, inventa astúcias para seramado e satisfeito, ficando ora maltrapilho e semimorto, ora rico e cheio de vida.2. Encontrando uma rivalidade ou uma aliança entre os deuses que faz surgiralguma coisa no mundo. Nesse caso, o mito narra ou uma guerra entre as forçasdivinas, ou uma aliança entre elas para provocar alguma coisa no mundo doshomens.O poeta Homero, na Ilíada, que narra a guerra de Tróia, explica por que, emcertas batalhas, os troianos eram vitoriosos e, em outras, a vitória cabia aosgregos. Os deuses estavam divididos, alguns a favor de um lado e outros a favordo outro. A cada vez, o rei dos deuses, Zeus, ficava com um dos partidos, aliava-se com um grupo e fazia um dos lados - ou os troianos ou os gregos - vencer umabatalha.A causa da guerra, aliás, foi uma rivalidade entre as deusas. Elas apareceram emsonho para o príncipe troiano Paris, oferecendo a ele seus dons e ele escolheu adeusa do amor, Afrodite. As outras deusas, enciumadas, o fizeram raptar a gregaHelena, mulher do general grego Menelau, e isso deu início à guerra entre oshumanos.3. Encontrando as recompensas ou castigos que os deuses dão a quem osdesobedece ou a quem os obedece.Como o mito narra, por exemplo, o uso do fogo pelos homens? Para os homens,o fogo é essencial, pois com ele se diferenciam dos animais, porque tanto passama cozinhar os alimentos, a iluminar caminhos na noite, a se aquecer no invernoquanto podem fabricar instrumentos de metal para o trabalho e para a guerra.Um titã, Prometeu, mais amigo dos homens do que dos deuses, roubou umacentelha de fogo e a trouxe de presente para os humanos. Prometeu foi castigado(amarrado num rochedo para que as aves de rapina, eternamente, devorassem seufígado) e os homens também. Qual foi o castigo dos homens?Os deuses fizeram uma mulher encantadora, Pandora, a quem foi entregue umacaixa que conteria coisas maravilhosas, mas nunca deveria ser aberta. Pandora foienviada aos humanos e, cheia de curiosidade e querendo dar a eles as maravilhas,abriu a caixa. Dela saíram todas as desgraças, doenças, pestes, guerras e,sobretudo, a morte. Explica-se, assim, a origem dos males no mundo.Vemos, portanto, que o mito narra a origem das coisas por meio de lutas, aliançase relações sexuais entre forças sobrenaturais que governam o mundo e o destino – 33 –

Convite à Filosofia _______________________________dos homens. Como os mitos sobre a origem do mundo são genealogias, diz-seque são cosmogonias e teogonias.A palavra gonia vem de duas palavras gregas: do verbo gennao (engendrar,gerar, fazer nascer e crescer) e do substantivo genos (nascimento, gênese,descendência, gênero, espécie). Gonia, portanto, quer dizer: geração, nascimentoa partir da concepção sexual e do parto. Cosmos, como já vimos, quer dizermundo ordenado e organizado. Assim, a cosmogonia é a narrativa sobre onascimento e a organização do mundo, a partir de forças geradoras (pai e mãe)divinas.Teogonia é uma palavra composta de gonia e theós, que, em grego, significa: ascoisas divinas, os seres divinos, os deuses. A teogonia é, portanto, a narrativa daorigem dos deuses, a partir de seus pais e antepassados.Qual é a pergunta dos estudiosos? É a seguinte: A Filosofia, ao nascer, é, como jádissemos, uma cosmologia, uma explicação racional sobre a origem do mundo esobre as causas das transformações e repetições das coisas; para isso, ela nasce deuma transformação gradual dos mitos ou de uma ruptura radical com os mitos?Continua ou rompe com a cosmogonia e a teogonia?Duas foram as respostas dadas.A primeira delas foi dada nos fins do século XIX e começo do século XX,quando reinava um grande otimismo sobre os poderes científicos e capacidadestécnicas do homem. Dizia-se, então, que a Filosofia nasceu por uma rupturaradical com os mitos, sendo a primeira explicação científica da realidadeproduzida pelo Ocidente.A segunda resposta foi dada a partir de meados do século XX, quando os estudosdos antropólogos e dos historiadores mostraram a importância dos mitos naorganização social e cultural das sociedades e como os mitos estãoprofundamente entranhados nos modos de pensar e de sentir de uma sociedade.Por isso, dizia-se que os gregos, como qualquer outro povo, acreditavam em seusmitos e que a Filosofia nasceu, vagarosa e gradualmente, do interior dos própriosmitos, como uma racionalização deles.Atualmente consideram-se as duas respostas exageradas e afirma-se que aFilosofia, percebendo as contradições e limitações dos mitos, foi reformulando eracionalizando as narrativas míticas, transformando-as numa outra coisa, numaexplicação inteiramente nova e diferente.Quais são as diferenças entre Filosofia e mito? Podemos apontar três como asmais importantes:1. O mito pretendia narrar como as coisas eram ou tinham sido no passadoimemorial, longínquo e fabuloso, voltando-se para o que era antes que tudoexistisse tal como existe no presente. A Filosofia, ao contrário, se preocupa em – 34 –

Marilena Chauí _______________________________explicar como e por que, no passado, no presente e no futuro (isto é, na totalidadedo tempo), as coisas são como são;2. O mito narrava a origem através de genealogias e rivalidades ou alianças entreforças divinas sobrenaturais e personalizadas, enquanto a Filosofia, ao contrário,explica a produção natural das coisas por elementos e causas naturais eimpessoais.O mito falava em Urano, Ponto e Gaia; a Filosofia fala em céu, mar e terra. Omito narra a origem dos seres celestes (os astros), terrestres (plantas, animais,homens) e marinhos pelos casamentos de Gaia com Urano e Ponto. A Filosofiaexplica o surgimento desses seres por composição, combinação e separação dosquatro elementos - úmido, seco, quente e frio, ou água, terra, fogo e ar.3. O mito não se importava com contradições, com o fabuloso e oincompreensível, não só porque esses eram traços próprios da narrativa mítica,como também porque a confiança e a crença no mito vinham da autoridadereligiosa do narrador. A Filosofia, ao contrário, não admite contradições,fabulação e coisas incompreensíveis, mas exige que a explicação seja coerente,lógica e racional; além disso, a autoridade da explicação não vem da pessoa dofilósofo, mas da razão, que é a mesma em todos os seres humanos.Condições históricas para o surgimento da FilosofiaResolvido esse problema, temos ainda um último a solucionar: O que tornoupossível o surgimento da Filosofia na Grécia no final do século VII e no início doséculo VI antes de Cristo? Quais as condições materiais, isto é, econômicas,sociais, políticas e históricas que permitiram o surgimento da Filosofia?Podemos apontar como principais condições históricas para o surgimento daFilosofia na Grécia:? as viagens marítimas, que permitiram aos gregos descobrir que os locais queos mitos diziam habitados por deuses, titãs e heróis eram, na verdade, habitadospor outros seres humanos; e que as regiões dos mares que os mitos diziamhabitados por monstros e seres fabulosos não possuíam nem monstros nem seresfabulosos. As viagens produziram o desencantamento ou a desmistificação domundo, que passou, assim, a exigir uma explicação sobre sua origem, explicaçãoque o mito já não podia oferecer;? a invenção do calendário, que é uma forma de calcular o tempo segundo asestações do ano, as horas do dia, os fatos importantes que se repetem, revelando,com isso, uma capacidade de abstração nova, ou uma percepção do tempo comoalgo natural e não como um poder divino incompreensível;? a invenção da moeda, que permitiu uma forma de troca que não se realizaatravés das coisas concretas ou dos objetos concretos trocados por semelhança,mas uma troca abstrata, uma troca feita pelo cálculo do valor semelhante das – 35 –

Convite à Filosofia _______________________________coisas diferentes, revelando, portanto, uma nova capacidade de abstração e degeneralização;? o surgimento da vida urbana, com predomínio do comércio e do artesanato,dando desenvolvimento a técnicas de fabricação e de troca, e diminuindo oprestígio das famílias da aristocracia proprietária de terras, por quem e para quemos mitos foram criados; além disso, o surgimento de uma classe de comerciantesricos, que precisava encontrar pontos de poder e de prestígio para suplantar ovelho poderio da aristocracia de terras e de sangue (as linhagens constituídaspelas famílias), fez com que se procurasse o prestígio pelo patrocínio e estímuloàs artes, às técnicas e aos conhecimentos, favorecendo um ambiente onde aFilosofia poderia surgir;? a invenção da escrita alfabética, que, como a do calendário e a da moeda,revela o crescimento da capacidade de abstração e de generalização, uma vez quea escrita alfabética ou fonética, diferentemente de outras escritas - como, porexemplo, os hieróglifos dos egípcios ou os ideogramas dos chineses -, supõe quenão se represente uma imagem da coisa que está sendo dita, mas a idéia dela, oque dela se pensa e se transcreve;? a invenção da política, que introduz três aspectos novos e decisivos para onascimento da Filosofia:1. A idéia da lei como expressão da vontade de uma coletividade humana quedecide por si mesma o que é melhor para si e como ela definirá suas relaçõesinternas. O aspecto legislado e regulado da cidade - da polis - servirá de modelopara a Filosofia propor o aspecto legislado, regulado e ordenado do mundo comoum mundo racional.2. O surgimento de um espaço público, que faz aparecer um novo tipo de palavraou de discurso, diferente daquele que era proferido pelo mito. Neste, um poeta-vidente, que recebia das deusas ligadas à memória (a deusa Mnemosyne, mãe dasMusas, que guiavam o poeta) uma iluminação misteriosa ou uma revelaçãosobrenatural, dizia aos homens quais eram as decisões dos deuses que elesdeveriam obedecer.Agora, com a polis, isto é, a cidade política, surge a palavra como direito de cadacidadão de emitir em público sua opinião, discuti-la com os outros, persuadi-los atomar uma decisão proposta por ele, de tal modo que surge o discurso políticocomo a palavra humana compartilhada, como diálogo, discussão e deliberaçãohumana, isto é, como decisão racional e exposição dos motivos ou das razõespara fazer ou não fazer alguma coisa.A política, valorizando o humano, o pensamento, a discussão, a persuasão e adecisão racional , valorizou o pensamento racional e criou condições para quesurgisse o discurso ou a palavra filosófica. – 36 –

Marilena Chauí _______________________________3. A política estimula um pensamento e um discurso que não procuram serformulados por seitas secretas dos iniciados em mistérios sagrados, mas queprocuram, ao contrário, ser públicos, ensinados, transmitidos, comunicados ediscutidos. A idéia de um pensamento que todos podem compreender e discutir,que todos podem comunicar e transmitir, é fundamental para a Filosofia.Principais características da Filosofia nascenteO pensamento filosófico em seu nascimento tinha como traços principais:? tendência à racionalidade, isto é, a razão e somente a razão, com seusprincípios e regras, é o critério da explicação de alguma coisa;? tendência a oferecer respostas conclusivas para os problemas, isto é, colocadoum problema, sua solução é submetida à análise, à crítica, à discussão e àdemonstração, nunca sendo aceita como uma verdade, se não for provadoracionalmente que é verdadeira;? exigência de que o pensamento apresente suas regras de funcionamento, isto é,o filósofo é aquele que justifica suas idéias provando que segue regras universaisdo pensamento. Para os gregos, é uma lei universal do pensamento que acontradição indica erro ou falsidade. Uma contradição acontece quando afirmo enego a mesma coisa sobre uma mesma coisa (por exemplo: “Pedro é um meninoe não um menino”, “A noite é escura e clara”, “O infinito não tem limites e élimitado”). Assim, quando uma contradição aparecer numa exposição filosófica,ela deve ser considerada falsa;? recusa de explicações preestabelecidas e, portanto, exigência de que, para cadaproblema, seja investigada e encontrada a solução própria exigida por ele;? tendência à generalização, isto é, mostrar que uma explicação tem validadepara muitas coisas diferentes porque, sob a variação percebida pelos órgãos denossos sentidos, o pensamento descobre semelhanças e identidades.Por exemplo, para meus olhos, meu tato e meu olfato, o gelo é diferente daneblina, que é diferente do vapor de uma chaleira, que é diferente da chuva, que édiferente da correnteza de um rio. No entanto, o pensamento mostra que se tratasempre de um mesmo elemento (a água), passando por diferentes estados eformas (líquido, sólido, gasoso), por causas naturais diferentes (condensação,liquefação, evaporação).Reunindo semelhanças, o pensamento conclui que se trata de uma mesma coisaque aparece para nossos sentidos de maneiras diferentes, e como se fossemcoisas diferentes. O pensamento generaliza porque abstrai (isto é, separa e reúneos traços semelhantes), ou seja, realiza uma síntese.E o contrário também ocorre. Muitas vezes nossos órgãos dos sentidos nos fazemperceber coisas diferentes como se fossem a mesma coisa, e o pensamentodemonstrará que se trata de uma coisa diferente sob a aparência da semelhança. – 37 –

Convite à Filosofia _______________________________No ano de 1992, no Brasil, os jovens estudantes pintaram a cara com as cores dabandeira nacional e saíram às ruas para exigir o impedimento do presidente daRepública.Logo depois, os candidatos a prefeituras municipais contrataram jovens paraaparecer na televisão com a cara pintada, defendendo tais candidaturas. A seguir,as Forças Armadas brasileiras, para persuadir jovens a servi -las, contrataramjovens caras-pintadas para aparecer como soldados, marinheiros e aviadores. Aomesmo tempo, várias empresas, pretendendo vender seus produtos aos jovens,contrataram artistas jovens para, de cara pintada, fazer a propaganda de seusprodutos.Aparentemente, teríamos sempre a mesma coisa - os jovens rebeldes econscientes, de cara pintada, símbolo da esperança do País. No entanto, opensamento pode mostrar que, sob a aparência da semelhança percebida, estãodiferenças, pois os primeiros caras-pintadas fizeram um movimento políticoespontâneo, os segundos fizeram propaganda política para um candidato (ereceberam para isso), os terceiros tentaram ajudar as Forças Armadas a aparecercomo divertidas e juvenis, e os últimos, mediante remuneração, estavamtransferindo para produtos industriais (roupas, calçados, vídeos, margarinas,discos, iogurtes) um símbolo político inteiramente despolitizado e sem nenhumarelação com sua origem.Separando as diferenças, o pensamento realiza, nesse caso, uma análise. – 38 –

Marilena Chauí _______________________________ Capítulo 3 Campos de investigação da FilosofiaOs períodos da Filosofia gregaA Filosofia terá, no correr dos séculos, um conjunto de preocupações, indagaçõese interesses que lhe vieram de seu nascimento na Grécia.Assim, antes de vermos que campos são esses, examinemos brevemente osconteúdos que a Filosofia possuía na Grécia. Para isso, de vemos, primeiro,conhecer os períodos principais da Filosofia grega, pois tais períodos definiramos campos da investigação filosófica na Antigüidade.A história da Grécia costuma ser dividida pelos historiadores em quatro grandesfases ou épocas:1. a da Grécia homérica, correspondente aos 400 anos narrados pelo poetaHomero, em seus dois grandes poemas, Ilíada e Odisséia;2. a da Grécia arcaica ou dos sete sábios, do século VII ao século V antes deCristo, quando os gregos criam cidades como Atenas, Esparta, Tebas, Megara,Samos, etc., e predomina a economia urbana, baseada no artesanato e nocomércio;3. a da Grécia clássica, nos séculos V e IV antes de Cristo, quando a democraciase desenvolve, a vida intelectual e artística entra no apogeu e Atenas domina aGrécia com seu império comercial e militar;4. e, finalmente, a época helenística, a partir do final do século IV antes deCristo, quando a Grécia passa para o poderio do império de Alexandre daMacedônia, e, depois, para as mãos do Império Romano, terminando a história desua existência independente.Os períodos da Filosofia não correspondem exatamente a essas épocas, já que elanão existe na Grécia homérica e só aparece nos meados da Grécia arcaica.Entretanto, o apogeu da Filosofia acontece durante o apogeu da cultura e dasociedade gregas; portanto, durante a Grécia clássica.Os quatro grandes períodos da Filosofia grega, nos quais seu conteúdo muda e seenriquece, são:1. Período pré-socrático ou cosmológico, do final do século VII ao final doséculo V a.C., quando a Filosofia se ocupa fundamentalmente com a origem domundo e as causas das transformações na Natureza. – 39 –

Convite à Filosofia _______________________________2. Período socrático ou antropológico, do final do século V e todo o século IVa.C., quando a Filosofia investiga as questões humanas, isto é, a ética, a política eas técnicas (em grego, ântropos quer dizer homem; por isso o período recebeu onome de antropológico).3. Período sistemático, do final do século IV ao final do século III a.C., quando aFilosofia busca reunir e sistematizar tudo quanto foi pensado sobre a cosmologiae a antropologia, interessando-se sobretudo em mostrar que tudo pode ser objetodo conhecimento filosófico, desde que as leis do pensamento e de suasdemonstrações estejam firmemente estabelecidas para oferecer os critérios daverdade e da ciência.4. Período helenístico ou greco-romano, do final do século III a.C. até o séculoVI depois de Cristo. Nesse longo período, que já alcança Roma e o pensamentodos primeiros Padres da Igreja, a Filosofia se ocupa sobretudo com as questõesda ética, do conhecimento humano e das relações entre o homem e a Natureza ede ambos com Deus.Filosofia GregaPode-se perceber que os dois primeiros períodos da Filosofia grega têm comoreferência o filósofo Sócrates de Atenas, donde a divisão em Filosofia pré-socrática e socrática.Período pré-socrático ou cosmológicoOs principais filósofos pré-socráticos foram:? filósofos da Escola Jônica: Tales de Mileto, Anaxímenes de Mileto,Anaximandro de Mileto e Heráclito de Éfeso;? filósofos da Escola Itálica: Pitágoras de Samos, Filolau de Crotona e Árquitasde Tarento;? filósofos da Escola Eleata: Parmênides de Eléia e Zenão de Eléia;? filósofos da Escola da Pluralidade: Empédocles de Agrigento, Anaxágoras deClazômena, Leucipo de Abdera e Demócrito de Abdera.As principais características da cosmologia são:? É uma explicaç ão racional e sistemática sobre a origem, ordem etransformação da Natureza, da qual os seres humanos fazem parte, de modo que,ao explicar a Natureza, a Filosofia também explica a origem e as mudanças dosseres humanos.? Afirma que não existe criação do mundo, isto é, nega que o mundo tenhasurgido do nada (como é o caso, por exemplo, na religião judaico-cristã, na qualDeus cria o mundo do nada). Por isso diz: “Nada vem do nada e nada volta aonada”. Isto significa: a) que o mundo, ou a Natureza, é eterno; b) que no mundo,ou na Natureza, tudo se transforma em outra coisa sem jamais desaparecer, – 40 –

Marilena Chauí _______________________________embora a forma particular que uma coisa possua desapareça com ela, mas nãosua matéria.? O fundo eterno, perene, imortal, de onde tudo nasce e para onde tudo volta éinvisível para os olhos do corpo e visível somente para o olho do espírito, isto é,para o pensamento.? O fundo eterno, perene, imortal e imperecível de onde tudo brota e para ondetudo retorna é o elemento primordial da Natureza e chama-se physis (em grego,physis vem de um verbo que significa fazer surgir, fazer brotar, fazer nascer,produzir). A physis é a Natureza eterna e em perene transformação.? Afirma que, embora a physis (o elemento primordial eterno) seja imperecível,ela dá origem a todos os seres infinitamente variados e diferentes do mundo,seres que, ao contrário do princípio gerador, são perecíveis ou mortais.? Afirma que todos os seres, além de serem gerados e de serem mortais, sãoseres em contínua transformação, mudando de qualidade (por exemplo, o brancoamarelece, acinzenta, enegrece; o negro acinzenta, embranquece; o novoenvelhece; o quente esfria; o frio esquenta; o seco fica úmido; o úmido seca; odia se torna noite; a noite se torna dia; a primavera cede lugar ao verão, que cedelugar ao outono, que cede lugar ao inverno; o saudável adoece; o doente se cura;a criança cresce; a árvore vem da semente e produz sementes, etc.) e mudando dequantidade (o pequeno cresce e fica grande; o grande diminui e fica pequeno; olonge fica perto se eu for até ele, ou se as coisas distantes chegarem até mim, umrio aumenta de volume na cheia e diminui na seca, etc.). Portanto o mundo estáem mudança contínua, sem por isso perder sua forma, sua ordem e suaestabilidade.A mudança - nascer, morrer, mudar de qualidade ou de quantidade - chama-semovimento e o mundo está em movimento permanente.O movimento do mundo chama-se devir e o devir segue leis rigorosas que opensamento conhece. Essas leis são as que mostram que toda mudança épassagem de um estado ao seu contrário: dia-noite, claro-escuro, quente-frio,seco-úmido, novo -velho, pequeno-grande, bom-mau, cheio-vazio, um-muitos,etc., e também no sentido inverso, noite-dia, escuro-claro, frio-quente, muitos-um, etc. O devir é, portanto, a passagem contínua de uma coisa ao seu estadocontrário e essa passagem não é caótica, mas obedece a leis determinadas pelaphysis ou pelo princípio fundamental do mundo.Os diferentes filósofos escolheram diferentes physis, isto é, cada filósofoencontrou motivos e razões para dizer qual era o princípio eterno e imutável queestá na origem da Natureza e de suas transformações. Assim, Tales dizia que oprincípio era a água ou o úmido; Anaximandro considerava que era o ilimitadosem qualidades definidas; Anaxímenes, que era o ar ou o frio; Heráclito afirmou – 41 –

Convite à Filosofia _______________________________que era o fogo; Leucipo e Demócrito disseram que eram os átomos. E assim pordiante.Período socrático ou antropológicoCom o desenvolvimento das cidades, do comércio, do artesanato e das artesmilitares, Atenas tornou-se o centro da vida social, política e cultural da Grécia,vivendo seu período de esplendor, conhecido como o Século de Péricles.É a época de maior florescimento da democracia. A democracia grega possuía,entre outras, duas características de grande importância para o futuro daFilosofia.Em primeiro lugar, a democracia afirmava a igualdade de todos os homensadultos perante as leis e o direito de todos de participar diretamente do governoda cidade, da polis.Em segundo lugar, e como conseqüência, a democracia, sendo direta e não poreleição de representantes, garantia a todos a participação no governo, e os quedele participavam tinham o direito de exprimir, discutir e defender em públicosuas opiniões sobre as decisões que a cidade deveria tomar. Surgia, assim, afigura política do cidadão. (Nota: Devemos observar que estavam excluídos dacidadania o que os gregos chamavam de dependentes: mulheres, escravos,crianças e velhos. Também estavam excluídos os estrangeiros.)Ora, para conseguir que a sua opinião fosse aceita nas assembléias, o cidadãoprecisava saber falar e ser capaz de persuadir. Com isso, uma mudança profundavai ocorrer na educação grega.Quando não havia democracia, mas dominavam as famílias aristocráticas,senhoras das terras, o poder lhes pertencia. Essas famílias, valendo-se dos doisgrandes poetas gregos, Homero e Hesíodo, criaram um padrão de educação,próprio dos aristocratas. Esse padrão afirmava que o homem ideal ou perfeito erao guerreiro belo e bom. Belo: seu corpo era formado pela ginástica, pela dança epelos jogos de guerra, imitando os heróis da guerra de Tróia (Aquiles, Heitor,Ájax, Ulisses). Bom: seu espírito era formado escutando Homero e Hesíodo,aprendendo as virtudes admiradas pelos deuses e praticadas pelos heróis, aprincipal delas sendo a coragem diante da morte, na guerra. A virtude era a Arete(excelência e superioridade), própria dos melhores, os aristoi.Quando, porém, a democracia se instala e o poder vai sendo retirado dosaristocratas, esse ideal educativo ou pedagógico também vai sendo substituídopor outro. O ideal da educação do Século de Péricles é a formação do cidadão. AArete é a virtude cívica.Ora, qual é o momento em que o cidadão mais aparece e mais exerce suacidadania? Quando opina, discute, delibera e vota nas assembléias. Assim, a novaeducação estabelece como padrão ideal a formação do bom orador, isto é, aqueleque saiba falar em público e persuadir os outros na política. – 42 –

Marilena Chauí _______________________________Para dar aos jovens essa educação, substituindo a educação antiga dos poetas,surgiram, na Grécia, os sofistas, que são os primeiros filósofos do períodosocrático. Os sofistas mais importantes foram: Protágoras de Abdera, Górgias deLeontini e Isócrates de Atenas.Que diziam e faziam os sofistas? Diziam que os ensinamentos dos filósofoscosmologistas estavam repletos de erros e contradições e que não tinhamutilidade para a vida da polis. Apresentavam-se como mestres de oratória ou deretórica, afirmando ser possível ensinar aos jovens tal arte para que fossem bonscidadãos.Que arte era esta? A arte da persuasão. Os sofistas ensinavam técnicas depersuasão para os jovens, que aprendiam a defender a posição ou opinião A,depois a posição ou opinião contrária, não-A, de modo que, numa assembléia,soubessem ter fortes argumentos a favor ou contra uma opinião e ganhassem adiscussão.O filósofo Sócrates, considerado o patrono da Filosofia, rebelou-se contra ossofistas, dizendo que não eram filósofos, pois não tinham amor pela sabedorianem respeito pela verdade, defendendo qualquer idéia, se isso fosse vantajoso.Corrompiam o espírito dos jovens, pois faziam o erro e a mentira valer tantoquanto a verdade.Como homem de seu tempo, Sócrates concordava com os sofistas em um ponto:por um lado, a educação antiga do guerreiro belo e bom já não atendia àsexigências da sociedade grega, e, por outro lado, os filósofos cosmologistasdefendiam idéias tão contrárias entre si que também não eram uma fonte segurapara o conhecimento verdadeiro. (Nota: Historicamente, há dificuldade paraconhecer o pensamento dos grandes sofistas porque não possuímos seus textos.Restaram fragmentos apenas. Por isso, nós os conhecemos pelo que delesdisseram seus adversários - Platão, Xenofonte, Aristóteles - e não temos comosaber se estes foram justos com aqueles. Os historiadores mais recentesconsideram os sofistas verdadeiros representantes do espírito democrático, isto é,da pluralidade conflituosa de opiniões e interesses, enquanto seus adversáriosseriam partidários de uma política aristocrática, na qual somente algumasopiniões e interesses teriam o direito para valer para o restante da sociedade.)Discordando dos antigos poetas, dos antigos filósofos e dos sofistas, o quepropunha Sócrates?Propunha que, antes de querer conhecer a Natureza e antes de querer persuadir osoutros, cada um deveria, primeiro e antes de tudo, conhecer-se a si mesmo. Aexpressão “conhece-te a ti mesmo” que estava gravada no pórtico do templo deApolo, patrono grego da sabedoria, tornou-se a divisa de Sócrates.Por fazer do autoconhecimento ou do conhecimento que os homens têm de simesmos a condição de todos os outros conhecimentos verdadeiros, é que se diz – 43 –

Convite à Filosofia _______________________________que o período socrático é antropológico, isto é, voltado para o conhecimento dohomem, particularmente de seu espírito e de sua capacidade para conhecer averdade.O retrato que a história da Filosofia possui de Sócrates foi traçado por seu maisimportante aluno e discípulo, o filósofo ateniense Platão.Que retrato Platão nos deixa de seu mestre, Sócrates?O de um homem que andava pelas ruas e praças de Atenas, pelo mercado e pelaassembléia indagando a cada um: “Você sabe o que é isso que você estádizendo?”, “Você sabe o que é isso em que você acredita?”, “Você acha que estáconhecendo realmente aquilo em que acredita, aquilo em que está pensando,aquilo que está dizendo?”, “Você diz”, falava Sócrates, “que a coragem éimportante, mas: o que é a coragem? Você acredita que a justiça é importante,mas: o que é a justiça? Você diz que ama as coisas e as pessoas belas, mas o queé a beleza? Você crê que seus amigos são a melhor coisa que você tem, mas: oque é a amizade?”Sócrates fazia perguntas sobre as idéias, sobre os valores nos quais os gregosacreditavam e que julgavam conhecer. Suas perguntas deixavam os interlocutoresembaraçados, irritados, curiosos, pois, quando tentavam responder ao célebre “oque é?”, descobriam, surpresos, que não sabiam responder e que nunca tinhampensado em suas crenças, seus valores e suas idéias.Mas o pior não era isso. O pior é que as pessoas esperavam que Sócratesrespondesse por elas ou para elas, que soubesse as respostas às perguntas, comoos sofistas pareciam saber, mas Sócrates, para desconcerto geral, dizia: “Eutambém não sei, por isso estou perguntando ”. Donde a famosa expressãoatribuída a ele: “Sei que nada sei”.A consciência da própria ignorância é o começo da Filosofia. O que procuravaSócrates? Procurava a definição daquilo que uma coisa, uma idéia, um valor éverdadeiramente. Procurava a essência verdadeira da coisa, da idéia, do valor.Procurava o conceito e não a mera opinião que temos de nós mesmos, das coisas,das idéias e dos valores.Qual a diferença entre uma opinião e um conceito? A opinião varia de pessoapara pessoa, de lugar para lugar, de época para época. É instável, mutável,depende de cada um, de seus gostos e preferências. O conceito, ao contrário, éuma verdade intemporal, universal e necessária que o pensamento descobre,mostrando que é a essência universal, intemporal e necessária de alguma coisa.Por isso, Sócrates não perguntava se tal ou qual coisa era bela - pois nossaopinião sobre ela pode variar - e sim: O que é a beleza? Qual é a essência ou oconceito do belo? Do justo? Do amor? Da amizade? – 44 –

Marilena Chauí _______________________________Sócrates perguntava: Que razões rigorosas você possui para dizer o que diz epara pensar o que pensa? Qual é o fundamento racional daquilo que você fala epensa?Ora, as perguntas de Sócrates se referiam a idéias, valores, práticas ecomportamentos que os atenienses julgavam certos e verdadeiros em si mesmos epor si mesmos. Ao fazer suas perguntas e suscitar dúvidas, Sócrates os faziapensar não só sobre si mesmos, mas também sobre a polis. Aquilo que pareciaevidente acabava sendo percebido como duvidoso e incerto.Sabemos que os poderosos têm medo do pensamento, pois o poder é mais fortese ninguém pensar, se todo mundo aceitar as coisas como elas são, ou melhor,como nos dizem e nos fazem acreditar que elas são. Para os poderosos de Atenas,Sócrates tornara-se um perigo, pois fazia a juventude pensar. Por isso, eles oacusaram de desrespeitar os deuses, corromper os jovens e violar as leis. Levadoperante a assembléia, Sócrates não se defendeu e foi condenado a tomar umveneno - a cicuta - e obrigado a suicidar-se.Por que Sócrates não se defendeu? “Porque ”, dizia ele, “se eu me defender,estarei aceitando as acusações, e eu não as aceito. Se eu me defender, o que osjuízes vão exigir de mim? Que eu pare de filosofar. Mas eu prefiro a morte a terque renunciar à Filosofia”.O julgamento e a morte de Sócrates são narrados por Platão numa obra intituladaApologia de Sócrates, isto é, a defesa de Sócrates, feita por seus discípulos,contra Atenas.Sócrates nunca escreveu. O que sabemos de seus pensamentos encontra-se nasobras de seus vários discípulos, e Platão foi o mais importante deles. Sereunirmos o que esse filósofo escreveu sobre os sofistas e sobre Sócrates, alémda exposição de suas próprias idéias, poderemos apresentar como característicasgerais do período socrático:? A Filosofia se volta para as questões humanas no plano da ação, doscomportamentos, das idéias, das crenças, dos valores e, portanto, se preocupacom as questões morais e políticas.? O ponto de partida da Filosofia é a confiança no pensamento ou no homemcomo um ser racional, capaz de conhecer-se a si mesmo e, portanto, capaz dereflexão. Reflexão é a volta que o pensamento faz sobre si mesmo para conhecer-se; é a consciência conhecendo-se a si mesma como capacidade para conhecer ascoisas, alcançando o conceito ou a essência delas.? Como se trata de conhecer a capacidade de conhecimento do homem, apreocupação se volta para estabelecer procedimentos que nos garantam queencontramos a verdade, isto é, o pensamento deve oferecer a si mesmo caminhospróprios, critérios próprios e meios próprios para saber o que é o verdadeiro ecomo alcançá-lo em tudo o que investiguemos. – 45 –

Convite à Filosofia _______________________________? A Filosofia está voltada para a definição das virtudes morais e das virtudespolíticas, tendo como objeto central de suas investigações a moral e a política,isto é, as idéias e práticas que norteiam os comportamentos dos seres humanostanto como indivíduos quanto como cidadãos.? Cabe à Filosofia, portanto, encontrar a definição, o conceito ou a essênciadessas virtudes, para além da variedade das opiniões, para além da multiplicidadedas opiniões contrárias e diferentes. As perguntas filosóficas se referem, assim, avalores como a justiça, a coragem, a amizade, a piedade, o amor, a beleza, atemperança, a prudência, etc., que constituem os ideais do sábio e do verdadeirocidadão.? É feita, pela primeira vez, uma separaç ão radical entre, de um lado a opinião eas imagens das coisas, trazidas pelos nossos órgãos dos sentidos, nossos hábitos,pelas tradições, pelos interesses, e, de outro lado, as idéias. As idéias se referemà essência íntima, invisível, verdadeira das coisas e só podem ser alcançadas pelopensamento puro, que afasta os dados sensoriais, os hábitos recebidos, ospreconceitos, as opiniões.? A reflexão e o trabalho do pensamento são tomados como uma purificaçãointelectual, que permite ao espírito humano conhecer a verdade invisível,imutável, universal e necessária.? A opinião, as percepções e imagens sensoriais são consideradas falsas,mentirosas, mutáveis, inconsistentes, contraditórias, devendo ser abandonadaspara que o pensamento siga seu caminho próprio no conhecimento verdadeiro.? A diferença entre os sofistas, de um lado, e Sócrates e Platão, de outro, é dadapelo fato de que os sofistas aceitam a validade das opiniões e das percepçõessensoriais e trabalham com elas para produzir argumentos de persuasão,enquanto Sócrates e Platão consideram as opiniões e as percepções sensoriais, ouimagens das coisas, como fonte de erro, mentira e falsidade, formas imperfeitasdo conhecimento que nunca alcançam a verdade plena da realidade.O mito da cavernaImaginemos uma caverna subterrânea onde, desde a infância, geração apósgeração, seres humanos estão aprisionados. Suas pernas e seus pescoços estãoalgemados de tal modo que são forçados a permanecer sempre no mesmo lugar ea olhar apenas para frente, não podendo girar a cabeça nem para trás nem para oslados. A entrada da caverna permite que alguma luz exterior ali penetre, de modoque se possa, na semi-obscuridade, enxergar o que se passa no interior.A luz que ali entra provém de uma imensa e alta fogueira externa. Entre ela e osprisioneiros - no exterior, portanto - há um caminho ascendente ao longo do qualfoi erguida uma mureta, como se fosse a parte fronteira de um palco demarionetes. Ao longo dessa mureta-palco, homens transportam estatuetas de todotipo, com figuras de seres humanos, animais e todas as coisas. – 46 –

Marilena Chauí _______________________________Por causa da luz da fogueira e da posição ocupada por ela, os prisioneirosenxergam na parede do fundo da caverna as sombras das estatuetas transportadas,mas sem poderem ver as próprias estatuetas, nem os homens que as transportam.Como jamais viram outra coisa, os prisioneiros imaginam que as sombras vistassão as próprias coisas. Ou seja, não podem saber que são sombras, nem podemsaber que são imagens (estatuetas de coisas), nem que há outros seres humanosreais fora da caverna. Também não podem saber que enxergam porque há afogueira e a luz no exterior e imaginam que toda luminosidade possível é a quereina na caverna.Que aconteceria, indaga Platão, se alguém libertasse os prisioneiros? Que fariaum prisioneiro libertado? Em primeiro lugar, olharia toda a caverna, veria osoutros seres humanos, a mureta, as estatuetas e a fogueira. Embora dolorido pelosanos de imobilidade, começaria a caminhar, dirigi ndo-se à entrada da caverna e,deparando com o caminho ascendente, nele adentraria.Num primeiro momento, ficaria completamente cego, pois a fogueira na verdadeé a luz do sol e ele ficaria inteiramente ofuscado por ela. Depois, acostumando-secom a claridade, veria os homens que transportam as estatuetas e, prosseguindono caminho, enxergaria as próprias coisas, descobrindo que, durante toda suavida, não vira senão sombras de imagens (as sombras das estatuetas projetadas nofundo da caverna) e que somente agora está contemplando a própria realidade.Libertado e conhecedor do mundo, o prisioneiro regressaria à caverna, ficariadesnorteado pela escuridão, contaria aos outros o que viu e tentaria libertá-los.Que lhe aconteceria nesse retorno? Os demais prisioneiros zombariam dele, nãoacreditariam em suas palavras e, se não conseguissem silenciá-lo com suascaçoadas, tentariam fazê-lo espancando-o e, se mesmo assim, ele teimasse emafirmar o que viu e os convidasse a sair da caverna, certamente acabariam pormatá-lo. Mas, quem sabe, alguns poderiam ouvi-lo e, contra a vontade dosdemais, também decidissem sair da caverna rumo à realidade.O que é a caverna? O mundo em que vivemos. Que são as sombras dasestatuetas? As coisas materiais e sensoriais que percebemos. Quem é oprisioneiro que se liberta e sai da caverna? O filósofo. O que é a luz exterior dosol? A luz da verdade. O que é o mundo exterior? O mundo das idéiasverdadeiras ou da verdadeira realidade. Qual o instrumento que liberta o filósofoe com o qual ele deseja libertar os outros prisioneiros? A dialética. O que é avisão do mundo real iluminado? A Filosofia. Por que os prisioneiros zombam,espancam e matam o filósofo (Platão está se referindo à condenação de Sócratesà morte pela assembléia ateniense)? Porque imaginam que o mundo sensível é omundo real e o único verdadeiro. – 47 –

Convite à Filosofia _______________________________Período sistemáticoEste período tem como principal nome o filósofo Aristóteles de Estagira,discípulo de Platão.Passados quase quatro séculos de Filosofia, Aristóteles apresenta, nesse período,uma verdadeira enciclopédia de todo o saber que foi produzido e acumuladopelos gregos em todos os ramos do pensamento e da prática considerando essatotalidade de saberes como sendo a Filosofia. Esta, portanto, não é um saberespecífico sobre algum assunto, mas uma forma de conhecer todas as coisas,possuindo procedimentos diferentes para cada campo de coisas que conhece.Além de a Filosofia ser o conhecimento da totalidade dos conhecimentos epráticas humanas, ela também estabelece uma diferença entre essesconhecimentos, distribuindo-os numa escala que vai dos mais simples einferiores aos mais complexos e superiores. Essa classificação e distribuição dosconhecimentos fixou, para o pensamento ocidental, os campos de investigação daFilosofia como totalidade do saber humano.Cada saber, no campo que lhe é próprio, possui seu objeto específico,procedimentos específicos para sua aquisição e exposição, formas próprias dedemonstração e prova. Cada campo do conhecimento é uma ciência (ciência, emgrego, é episteme).Aristóteles afirma que, antes de um conhecimento constituir seu objeto e seucampo próprios, seus procedimentos próprios de aquisição e exposição, dedemonstração e de prova, deve, primeiro, conhecer as leis gerais que governam opensamento, independentemente do conteúdo que possa vir a ter.O estudo das formas gerais do pensamento, sem preocupação com seu conteúdo,chama-se lógica, e Aristóteles foi o criador da lógica como instrumento doconhecimento em qualquer campo do saber.A lógica não é uma ciência, mas o instrumento para a ciência e, por isso, naclassificação das ciências feita por Aristóteles, a lógica não aparece, embora elaseja indispensável para a Filosofia e, mais tarde, tenha se tornado um dos ramosespecíficos dela.Os campos do conhecimento filosóficoVejamos, pois, a classificação aristotélica:? Ciências produtivas: ciências que estudam as práticas produtivas ou astécnicas, isto é, as ações humanas cuja finalidade está para além da própria ação,pois a finalidade é a produção de um objeto, de uma obra. São elas: arquitetura(cujo fim é a edificação de alguma coisa), economia (cujo fim é a produçãoagrícola, o artesanato e o comércio, isto é, produtos para a sobrevivência e para oacúmulo de riquezas), medicina (cujo fim é produzir a saúde ou a cura), pintura,escultura, poesia, teatro, oratória, arte da guerra, da caça, da navegação, etc. Em – 48 –

Marilena Chauí _______________________________suma, todas as atividades humanas técnicas e artísticas que resultam num produtoou numa obra.? Ciências práticas: ciências que estudam as práticas humanas enquanto açõesque têm nelas mesmas seu próprio fim, isto é, a finalidade da ação se realiza nelamesma, é o próprio ato realizado. São elas: ética, em que a ação é realizada pelavontade guiada pela razão para alcançar o bem do indivíduo, sendo este bem asvirtudes morais (coragem, generosidade, fidelidade, lealdade, clemência,prudência, amizade, justiça, modéstia, honradez, temperança, etc.); e política, emque a ação é realizada pela vontade guiada pela razão para ter como fim o bem dacomunidade ou o bem comum.Para Aristóteles, como para todo grego da época clássica, a política é superior àética, pois a verdadeira liberdade, sem a qual não pode haver vida virtuosa, só éconseguida na polis. Por isso, a finalidade da política é a vida justa, a vida boa ebela, a vida livre.? Ciências teoréticas, contemplativas ou teóricas: são aquelas que estudamcoisas que existem independentemente dos homens e de suas ações e que, nãotendo sido feitas pelos homens, só podem ser contempladas por eles. Theoria, emgrego, significa contemplação da verdade. O que são as coisas que existem por simesmas e em si mesmas, independentes de nossa ação fabricadora (técnica) e denossa ação moral e política? São as coisas da Natureza e as coisas divinas.Aristóteles, aqui, classifica também por graus de superioridade as ciênciasteóricas, indo da mais inferior à superior:1. ciência das coisas naturais submetidas à mudança ou ao devir: física, biologia,meteorologia, p sicologia (pois a alma, que em grego se diz psychê, é um sernatural, existindo de formas variadas em todos os seres vivos, plantas, animais ehomens);2. ciência das coisas naturais que não estão submetidas à mudança ou ao devir: asmatemáticas e a astronomia (os gregos julgavam que os astros eram eternos eimutáveis);3. ciência da realidade pura, que não é nem natural mutável, nem naturalimutável, nem resultado da ação humana, nem resultado da fabricação humana.Trata-se daquilo que deve haver em toda e qualquer realidade, seja ela natural,matemática, ética, política ou técnica, para ser realidade. É o que Aristóteleschama de ser ou substância de tudo o que existe. A ciência teórica que estuda opuro ser chama-se metafísica;4. ciência teórica das coisas divinas que são a causa e a finalidade de tudo o queexiste na Natureza e no homem. Vimos que as coisas divinas são chamadas detheion e, por isso, esta última ciência chama-se teologia.A Filosofia, para Aristóteles, encontra seu ponto mais alto na metafísica e nateologia, de onde derivam todos os outros conhecimentos. – 49 –

Convite à Filosofia _______________________________A partir da classificação aristotélica, definiu-se, no correr dos séculos, o grandecampo da investigação filosófica, campo que só seria desfeito no século XIX danossa era, quando as ciências particulares se foram separando do tronco geral daFilosofia. Assim, podemos dizer que os campos da investigação filosófica sãotrês:1º. O do conhecimento da realidade última de todos os seres, ou da essência detoda a realidade. Como, em grego, ser se diz on e os seres se diz ta onta, estecampo é chamado de ontologia (que, na linguagem de Aristóteles, se formavacom a metafísica e a teologia).2º. O do conhecimento das ações humanas ou dos valores e das finalidades daação humana: das ações que têm em si mesmas sua finalidade, a ética e a política,ou a vida moral (valores morais) e a vida política (valores políticos); e das açõesque têm sua finalidade num produto ou numa obra: as técnicas e as artes e seusvalores (utilidade, beleza, etc.).3º. O do conhecimento da capacidade humana de conhecer, isto é, oconhecimento do próprio pensamento em exercício. Aqui, distinguem-se: alógica, que oferece as leis gerais do pensamento; a teoria do conhecimento, queoferece os procedimentos pelos quais conhecemos; as ciências propriamente ditase o conhecimento do conhecimento científico, isto é, a epistemologia.Ser ou realidade, prática ou ação segundo valores, conhecimento do pensamentoem suas leis gerais e em suas leis específicas em cada ciência: eis os campos daatividade ou investigação filosófica.Período helenísticoTrata-se do último período da Filosofia antiga, quando a polis grega desapareceucomo centro político, deixando de ser referência principal dos filósofos, uma vezque a Grécia encontra-se sob o poderio do Império Romano. Os filósofos dizem,agora, que o mundo é sua cidade e que são cidadãos do mundo. Em grego,mundo se diz cosmos e esse período é chamado o da Filosofia cosmopolita.Essa época da Filosofia é constituída por grandes sistemas ou doutrinas, isto é,explicações totalizantes sobre a Natureza, o homem, as relações entre ambos edeles com a divindade (esta, em geral, pensada como Providência divina queinstaura e conserva a ordem universal). Predominam preocupações com a ética -pois os filósofos já não podem ocupar-se diretamente com a política -, a física, ateologia e a religião.Datam desse período quatro grandes sistemas cuja influência será sentida pelopensamento cristão, que começa a formar-se nessa época: estoicismo,epicurismo, ceticismo e neoplatonismo.A amplidão do Império Romano, a presença crescente de religiões orientais noImpério, os contatos comerciais e culturais entre ocidente e oriente fizeramaumentar os contatos dos filósofos helenistas com a sabedoria oriental . Podemos – 50 –

Marilena Chauí _______________________________falar numa orientalização da Filosofia, sobretudo nos aspectos místicos ereligiosos. – 51 –

Convite à Filosofia _______________________________ Capítulo 4 Principais períodos da história da FilosofiaA Filosofia na HistóriaComo todas as outras criações e instituições humanas, a Filosofia está na Históriae tem uma história.Está na História: a Filosofia manifesta e exprime os problemas e as questões que,em cada época de uma sociedade, os homens colocam para si mesmos, diante doque é novo e ainda não foi compreendido. A Filosofia procura enfrentar essanovidade, oferecendo caminhos, respostas e, sobretudo, propondo novasperguntas, num diálogo permanente com a sociedade e a cultura de seu tempo, doqual ela faz parte.Tem uma história: as respostas, as soluções e as novas perguntas que os filósofosde uma época oferecem tornam-se saberes adquiridos que outros filósofosprosseguem ou, freqüentemente, tornam-se novos problemas que outros filósofostentam resolver, seja aproveitando o passado filosófico, seja criticando-o erefutando-o. Além disso, as transformações nos modos de conhecer podemampliar os campos de investigação da Filosofia, fazendo surgir novas disciplinasfilosóficas, como também podem diminuir esses campos, porque alguns de seusconhecimentos podem desligar-se dela e formar disciplinas separadas.Assim, por exemplo, a Filosofia teve seu campo de atividade aumentado quando,no século XVIII, surge a filosofia da arte ou estética; no século XIX, a filosofiada história; no século XX, a filosofia das ciências ou epistemologia, e a filosofiada linguagem. Por outro lado, o campo da Filosofia diminuiu quando as ciênciasparticulares que dela faziam parte foram-se desligando para constituir suaspróprias esferas de investigação. É o que acontece, por exemplo, no séculoXVIII, quando se desligam da Filosofia a biologia, a física e a química; e, noséculo XX, as chamadas ciências humanas (psicologia, antropologia, história).Pelo fato de estar na História e ter uma história, a Filosofia costuma serapresentada em grandes períodos que acompanham, às vezes de maneira maispróxima, às vezes de maneira mais distante, os períodos em que os historiadoresdividem a História da sociedade ocidental. – 52 –

Marilena Chauí _______________________________Os principais períodos da FilosofiaFilosofia antiga (do século VI a.C. ao século VI d.C.)Compreende os quatro grandes períodos da Filosofia greco-romana, indo dos pré-socráticos aos grandes sistemas do período helenístico, mencionados no capítuloanterior.Filosofia patrística (do século I ao século VII)Inicia-se com as Epístolas de São Paulo e o Evangelho de São João e termina noséculo VIII, quando teve início a Filosofia medieval.A patrística resultou do esforço feito pelos dois apóstolos intelectuais (Paulo eJoão) e pelos primeiros Padres da Igreja para conciliar a nova religião - oCristianismo - com o pensamento filosófico dos gregos e romanos, pois somentecom tal conciliação seria possível convencer os pagãos da nova verdade econvertê-los a ela. A Filosofia patrística liga-se, portanto, à tarefa religiosa daevangelização e à defesa da religião cristã contra os ataques teóricos e morais querecebia dos antigos.Divide-se em patrística grega (ligada à Igreja de Bizâncio) e patrística latina(ligada à Igreja de Roma) e seus nomes mais importantes foram: Justino,Tertuliano, Atenágoras, Orígenes, Clemente, Eusébio, Santo Ambrósio, SãoGregório Nazianzo, São João Crisóstomo, Isidoro de Sevilha, Santo Agostinho,Beda e Boécio.A patrística foi obrigada a introduzir idéias desconhecidas para os filósofosgreco-romanos: a idéia de criação do mundo, de pecado original, de Deus comotrindade una, de encarnação e morte de Deus, de juízo final ou de fim dos tempose ressurreição dos mortos, etc. Precisou também explicar como o mal pode existirno mundo, já que tudo foi criado por Deus, que é pura perfeição e bondade.Introduziu, sobretudo com Santo Agostinho e Boécio, a idéia de “homeminterior”, isto é, da consciência moral e do livre-arbítrio, pelo qual o homem setorna responsável pela existência do mal no mundo.Para impor as idéias cristãs, os Padres da Igreja as transformaram em verdadesreveladas por Deus (através da Bíblia e dos santos) que, por serem decretosdivinos, seriam dogmas, isto é, irrefutáveis e inquestionáveis. Com isso, surgeuma distinção, desconhecida pelos antigos, entre verdades reveladas ou da fé everdades da razão ou humanas, isto é, entre verdades sobrenaturais e verdadesnaturais, as primeiras introduzindo a noção de conhecimento recebido por umagraça divina, superior ao simples conhecimento racional. Dessa forma, o grandetema de toda a Filosofia patrística é o da possibilidade de conciliar razão e fé, e, aesse respeito, havia três posições principais:1. Os que julgavam fé e razão irreconciliáveis e a fé superior à razão (diziameles: “Creio porque absurdo ”). – 53 –

Convite à Filosofia _______________________________2. Os que julgavam fé e razão conciliáveis, mas subordinavam a razão à fé(diziam eles: “Creio para compreender”).3. Os que julgavam razão e fé irreconciliáveis, mas afirmavam que cada umadelas tem seu campo próprio de conhecimento e não devem misturar-se (a razãose refere a tudo o que concerne à vida temporal dos homens no mundo; a fé, atudo o que se refere à salvação da alma e à vida eterna futura).Filosofia medieval (do século VIII ao século XIV)Abrange pensadores europeus, árabes e judeus. É o período em que a IgrejaRomana dominava a Europa, ungia e coroava reis, organizava Cruzadas à TerraSanta e criava, à volta das catedrais, as primeiras universidades ou escolas. E, apartir do século XII, por ter sido ensinada nas escolas, a Filosofia medievaltambém é conhecida com o nome de Escolástica.A Filosofia medieval teve como influências principais Platão e Aristóteles,embora o Platão que os medievais conhecessem fosse o neoplatônico (vindo daFilosofia de Plotino, do século VI d.C.), e o Aristóteles que conhecessem fosseaquele conservado e traduzido pelos árabes, particularmente Avicena e Averróis.Conservando e discutindo os mesmos problemas que a patrística, a Filosofiamedieval acrescentou outros - particularmente um, conhecido com o nome deProblema dos Universais - e, além de Platão e Aristóteles, sofreu uma grandeinfluência das idéias de Santo Agostinho. Durante esse período surgepropriamente a Filosofia cristã, que é, na verdade, a teologia. Um de seus temasmais constantes são as provas da existência de Deus e da alma, isto é,demonstrações racionais da existência do infinito criador e do espírito humanoimortal.A diferença e separação entre infinito (Deus) e finito (homem, mundo), adiferença entre razão e fé (a primeira deve subordinar-se à segunda), a diferençae separação entre corpo (matéria) e alma (espírito), O Universo como umahierarquia de seres, onde os superiores dominam e governam os inferiores (Deus,arcanjos, anjos, alma, corpo, animais, vegetais, minerais), a subordinação dopoder temporal dos reis e barões ao poder espiritual de papas e bispos: eis osgrandes temas da Filosofia medieval.Outra característica marcante da Escolástica foi o método por ela inventado paraexpor as idéias filosóficas, conhecida como disputa: apresentava-se uma tese eesta devia ser ou refutada ou defendida por argumentos tirados da Bíblia, deAristóteles, de Platão ou de outros Padres da Igreja.Assim, uma idéia era considerada uma tese verdadeira ou falsa dependendo daforça e da qualidade dos argumentos encontrados nos vários autores. Por causadesse método de disputa - teses, refutações, defesas, respostas, conclusõesbaseadas em escritos de outros autores -, costuma-se dizer que, na Idade Média, opensamento estava subordinado ao princípio da autoridade, isto é, uma idéia é – 54 –

Marilena Chauí _______________________________considerada verdadeira se for baseada nos argumentos de uma autoridadereconhecida (Bíblia, Platão, Aristóteles, um papa, um santo).Os teólogos medievais mais importantes foram: Abelardo, Duns Scoto, EscotoErígena, Santo Anselmo, Santo Tomás de Aquino, Santo Alberto Magno,Guilherme de Ockham, Roger Bacon, São Boaventura. Do lado árabe: Avicena,Averróis, Alfarabi e Algazáli. Do lado judaico: Maimônides, Nahmanides,Yeudah bem Levi.Filosofia da Renascença (do século XIV ao século XVI)É marcada pela descoberta de obras de Platão desconhecidas na Idade Média, denovas obras de Aristóteles, bem como pela recuperação das obras dos grandesautores e artistas gregos e romanos.São três as grandes linhas de pensamento que predominavam na Renascença:1. Aquela proveniente de Platão, do neoplatonismo e da descoberta dos livros doHermetismo; nela se destacava a idéia da Natureza como um grande ser vivo; ohomem faz parte da Natureza como um microcosmo (como espelho do Universointeiro) e pode agir sobre ela através da magia natural, da alquimia e daastrologia, pois o mundo é constituído por vínculos e ligações secretas (asimpatia) entre as coisas; o homem pode, também, conhecer esses vínculos ecriar outros, como um deus.2. Aquela originária dos pensadores florentinos, que valorizava a vida ativa, istoé, a política, e defendia os ideais republicanos das cidades italianas contra oImpério Romano-Germânico, isto é, contra o poderio dos papas e dosimperadores. Na defesa do ideal republicano, os escritores resgataram autorespolíticos da Antigüidade, historiadores e juristas, e propuseram a “imitação dosantigos” ou o renascimento da liberdade política, anterior ao surgimento doimpério eclesiástico.3. Aquela que propunha o ideal do homem como artífice de seu próprio destino,tanto através dos conhecimentos (astrologia, magia, alquimia), quanto através dapolítica (o ideal republicano), das técnicas (medicina, arquitetura, engenharia,navegação) e das artes (pintura, escultura, literatura, teatro).A efervescência teórica e prática foi alimentada com as grandes descobertasmarítimas, que garantiam ao homem o conhecimento de novos mares, novoscéus, novas terras e novas gentes, permitindo-lhe ter uma visão crítica de suaprópria sociedade. Essa efervescência cultur al e política levou a críticasprofundas à Igreja Romana, culminando na Reforma Protestante, baseada naidéia de liberdade de crença e de pensamento. À Reforma a Igreja respondeu coma Contra-Reforma e com o recrudescimento do poder da Inquisição.Os nomes mais importantes desse período são: Dante, Marcílio Ficino, GiordanoBruno, Campannella, Maquiavel, Montaigne, Erasmo, Tomás Morus, JeanBodin, Kepler e Nicolau de Cusa. – 55 –

Convite à Filosofia _______________________________Filosofia moderna (do século XVII a meados do século XVIII)Esse período, conhecido como o Grande Racionalismo Clássico, é marcado portrês grandes mudanças intelectuais:1. Aquela conhecida como o “surgimento do sujeito do conhecimento”, isto é, aFilosofia, em lugar de começar seu trabalho conhecendo a Natureza e Deus, paradepois referir-se ao homem, começa indagando qual é a capacidade do intelectohumano para conhecer e demonstrar a verdade dos conhecimentos. Em outraspalavras, a Filosofia começa pela reflexão, isto é, pela volta do pensamento sobresi mesmo para conhecer sua capacidade de conhecer.O ponto de partida é o sujeito do conhecimento como consciência de si reflexiva,isto é, como consciência que conhece sua capacidade de conhecer. O sujeito doconhecimento é um intelecto no interior de uma alma, cuja natureza ousubstância é completamente diferente da natureza ou substância de seu corpo edos demais corpos exteriores.Por isso, a segunda pergunta da Filosofia, depois de respondida a pergunta sobrea capacidade de conhecer, é: Como o espírito ou intelecto pode conhecer o que édiferente dele? Como pode conhecer os corpos da Natureza?2. A resposta à pergunta acima constituiu a segunda grande mudança intelectualdos modernos, e essa mudança diz respeito ao objeto do conhecimento. Para osmodernos, as coisas exteriores (a Natureza, a vida social e política) podem serconhecidas desde que sejam consideradas representações, ou seja, idéias ouconceitos formulados pelo sujeito do conhecimento.Isso significa, por um lado, que tudo o que pode ser conhecido deve poder sertransformado num conceito ou numa idéia clara e distinta, demonstrável enecessária, formulada pelo intelecto; e, por outro lado, que a Natureza e asociedade ou política podem ser inteiramente conhecidas pelo sujeito, porqueelas são inteligíveis em si mesmas, isto é, são racionais em si mesmas epropensas a serem representadas pelas idéias do sujeito do conhecimento.3. Essa concepção da realidade como intrinsecamente racional e que pode serplenamente captada pelas idéias e conceitos preparou a terceira grande mudançaintelectual moderna. A realidade, a partir de Galileu, é concebida como umsistema racional de mecanismos físicos, cuja estrutura profunda e invisível ématemática. O “livro do mundo”, diz Galileu, “está escrito em caracteresmatemáticos.”A realidade, concebida como sistema racional de mecanismos físico-matemáticos, deu origem à ciência clássica, isto é, à mecânica, por meio da qualsão descritos, explicados e interpretados todos os fatos da realidade: astronomia,física, química, psicologia, política, artes são disciplinas cujo conhecimento é detipo mecânico, ou seja, de relações necessárias de causa e efeito entre um agentee um paciente. – 56 –

Marilena Chauí _______________________________A realidade é um sistema de causalidades racionais rigorosas que podem serconhecidas e transformadas pelo homem. Nasce a idéia de experimentação e detecnologia (conhecimento teórico que orienta as intervenções práticas) e o idealde que o homem poderá dominar tecnicamente a Natureza e a sociedade.Predomina, assim, nesse período, a idéia de conquista científica e técnica de todaa realidade, a partir da explicação mecânica e matemática do Universo e dainvenção das máquinas, graças às experiências físicas e químicas.Existe também a convicção de que a razão humana é capaz de conhecer a origem,as causas e os efeitos das paixões e das emoções e, pela vontade orientada pelointelecto, é capaz de governá-las e dominá-las, de sorte que a vida ética pode serplenamente racional.A mesma convicção orienta o racionalismo político, isto é, a idéia de que a razãoé capaz de definir para cada sociedade qual o melhor regime político e comomantê-lo racionalmente.Nunca mais, na história da Filosofia, haverá igual confiança nas capacidades enos poderes da razão humana como houve no Grande Racionalismo Clássico. Osprincipais pensadores desse período foram: Francis Bacon, Descartes, Galileu,Pascal, Hobbes, Espinosa, Leibniz, Malebranche, Locke, Berkeley, Newton,Gassendi.Filosofia da Ilustração ou Iluminismo (meados do século XVIII ao começodo século XIX)Esse período também crê nos poderes da razão, chamada de As Luzes (por isso,o nome Iluminismo). O Iluminismo afirma que:? pela razão, o homem pode conquistar a liberdade e a felicidade social e política(a Filosofia da Ilustração foi decisiva para as idéias da Revolução Francesa de1789);? a razão é capaz de evolução e progresso, e o homem é um ser perfectível. Aperfectibilidade consiste em liberar-se dos preconceitos religiosos, sociais emorais, em libertar-se da superstição e do medo, graças as conhecimento, àsciências, às artes e à moral;? o aperfeiçoamento da razão se realiza pelo progresso das civilizações, que vãodas mais atrasadas (também chamadas de “primitivas” ou “selvagens ”) às maisadiantadas e perfeitas (as da Europa Ocidental);? há diferença entre Natureza e civilização, isto é, a Natureza é o reino dasrelações necessárias de causa e efeito ou das leis naturais universais e imutáveis,enquanto a civilização é o reino da liberdade e da finalidade proposta pelavontade livre dos próprios homens, em seu aperfeiçoamento moral, técnico epolítico. – 57 –

Convite à Filosofia _______________________________Nesse período há grande interesse pelas ciências que se relacionam com a idéiade evolução e, por isso, a biologia terá um lugar central no pensamento ilustrado,pertencendo ao campo da filosofia da vida. Há igualmente grande interesse epreocupação com as artes, na medida em que elas são as expressões porexcelência do grau de progresso de uma civilização.Data também desse período o interesse pela compreensão das bases econômicasda vida social e política, surgindo uma reflexão sobre a origem e a forma dasriquezas das nações, com uma controvérsia sobre a importância maior ou menorda agricultura e do comércio, controvérsia que se exprime em duas correntes dopensamento econômico: a corrente fisiocrata (a agricultura é a fonte principal dasriquezas) e a mercantilista (o comércio é a fonte principal da riqueza das nações).Os principais pensadores do período foram: Hume, Voltaire, D’Alembert,Diderot, Rousseau, Kant, Fichte e Schelling (embora este último costume sercolocado como filósofo do Romantismo).Filosofia contemporâneaAbrange o pensamento filosófico que vai de meados do século XIX e chega aosnossos dias. Esse período, por ser o mais próximo de nós, parece ser o maiscomplexo e o mais difícil de definir, pois as diferenças entre as várias filosofiasou posições filosóficas nos parecem muito grandes porque as estamos vendosurgir diante de nós.Para facilitar uma visão mais geral do período, faremos, no próximo capítulo,uma contraposição entre as principais idéias do século XIX e as principaiscorrentes de pensamento do século XX. – 58 –

Marilena Chauí _______________________________ Capítulo 5 Aspectos da Filosofia contemporâneaAs questões discutidas pela Filosofia contemporâneaDissemos, no capítulo anterior, que a Filosofia contemporânea vai dos meados doséculo XIX até nossos dias e que, por estar próxima de nós, é mais difícil de servista em sua generalidade, pois os problemas e as diferentes respostas dadas aeles parecem impossibilitar uma visão de conjunto.Em outras palavras, não temos distância suficiente para perceber os traços maisgerais e marcantes deste período da Filosofia. Apesar disso, é possível assinalarquais têm sido as principais questões e os principais temas que interessaram àFilosofia neste século e meio.História e progressoO século XIX é, na Filosofia, o grande século da descoberta da História ou dahistoricidade do homem, da sociedade, das ciências e das artes. É particularmentecom o filósofo alemão Hegel que se afirma que a História é o modo de ser darazão e da verdade, o modo de ser dos seres humanos e que, portanto, somosseres históricos.No século passado, essa concepção levou à idéia de progresso, isto é, de que osseres humanos, as sociedades, as ciências, as artes e as técnicas melhoram com opassar do tempo, acumulam conhecimento e práticas, aperfeiçoando-se cada vezmais, de modo que o presente é melhor e superior, se comparado ao passado, e ofuturo será melhor e superior, se comparado ao presente.Essa visão otimista também foi desenvolvida na França pelo filósofo AugustoComte, que atribuía o progresso ao desenvolvimento das ciências positivas. Essasciências permitiriam aos seres humanos “saber para prever, prever para prover”,de modo que o desenvolvimento social se faria por aumento do conhecimentocientífico e do controle científico da sociedade. É de Comte a idéia de “Ordem eProgresso”, que viria a fazer parte da bandeira do Brasil republicano.No entanto, no século XX, a mesma afirmação da historicidade dos sereshumanos, da razão e da sociedade levou à idéia de que a História é descontínua enão progressiva, cada sociedade tendo sua História própria em vez de ser apenasuma etapa numa História universal das civilizações.A idéia de progresso passa a ser criticada porque serve como desculpa paralegitimar colonialismos e imperialismos (os mais “adiantados” teriam o direito dedominar os mais “atrasados”). Passa a ser criticada também a idéia de progresso – 59 –

Convite à Filosofia _______________________________das ciências e das técnicas, mostrando-se que, em cada época histórica e paracada sociedade, os conhecimentos e as práticas possuem sentido e valor próprios,e que tal sentido e tal valor desaparecem numa época seguinte ou são diferentesnuma outra sociedade, não havendo, portanto, transformação contínua,acumulativa e progressiva. O passado foi o passado, o presente é o presente e ofuturo será o futuro.As ciências e as técnicasNo século XIX, entusiasmada com as ciências e as técnicas, bem como com aSegunda Revolução Industrial, a Filosofia afirmava a confiança plena e total nosaber científico e na tecnologia para dominar e controlar a Natureza, a sociedadee os indivíduos.Acreditava-se que a sociologia, por exemplo, nos ofereceria um saber seguro edefinitivo sobre o modo de funcionamento das sociedades e que os sereshumanos poderiam organizar racionalmente o social, evitando revoluções,revoltas e desigualdades.Acreditava-se, também, que a psicologia ensinaria definitivamente como é ecomo funciona a psique humana, quais as causas dos comportamentos e os meiosde controlá-los, quais as causas das emoções e os meios de controlá-las, de talmodo que seria possível livrar-nos das angústias, do medo, da loucura, assimcomo seria possível uma pedagogia baseada nos conhecimentos científicos e quepermitiria não só adaptar perfeitamente as crianças às exigências da sociedade,como também educá-las segundo suas vocações e potencialidades psicológicas.No entanto, no século XX, a Filosofia passou a desconfiar do otimismocientífico-tecnológico do século anterior em virtude de vários acontecimentos: asduas guerras mundiais, o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki, os campos deconcentração nazistas, as guerras da Coréia, do Vietnã, do Oriente Médio, doAfeganistão, as invasões comunistas da Hungria e da Tchecoslováquia, asditaduras sangrentas da América Latina, a devastação de mares, florestas e terras,os perigos cancerígenos de alimentos e remédios, o aumento de distúrbios esofrimentos mentais, etc.Uma escola alemã de Filosofia, a Escola de Frankfurt, elaborou uma concepçãoconhecida como Teoria Crítica, na qual distingue duas formas da razão: a razãoinstrumental e a razão crítica.A razão instrumental é a razão técnico-científica, que faz das ciências e dastécnicas não um meio de liberação dos seres humanos, mas um meio deintimidação, medo, terror e desespero. Ao contrário, a razão crítica é aquela queanalisa e interpreta os limites e os perigos do pensamento instrumental e afirmaque as mudanças sociais, políticas e culturais só se realizarão verdadeiramente setiverem como finalidade a emancipação do gênero humano e não as idéias decontrole e domínio técnico-científico sobre a Natureza, a sociedade e a cultura. – 60 –

Marilena Chauí _______________________________As utopias revolucionáriasNo século XIX, em decorrência do otimismo trazido pelas idéias de progresso,desenvolvimento técnico-científico, poderio humano para construir uma vidajusta e feliz, a Filosofia apostou nas utopias revolucionárias - anarquismo,socialismo, comunismo -, que criariam, graças à ação política consciente dosexplorados e oprimidos, uma sociedade nova, justa e feliz.No entanto, no século XX, com o surgimento das chamadas sociedadestotalitárias - fascismo, nazismo, stalinismo - e com o aumento do poder dassociedades autoritárias ou ditatoriais, a Filosofia também passou a desconfiar dootimismo revolucionário e das utopias e a indagar se os seres humanos, osexplorados e dominados serão capazes de criar e manter uma sociedade nova,justa e feliz.O crescimento das chamadas burocracias - que dominam as organizaçõesestatais, empresariais, político-partidárias, escolares, hospitalares - levou aFilosofia a indagar como os seres humanos poderiam derrubar esse imensopoderio que os governa secretamente, que eles desconhecem e que determinasuas vidas cotidianas, desde o nascimento até a morte.A culturaNo século XIX, a Filosofia descobre a Cultura como o modo próprio e específicoda existência dos seres humanos. Os animais são seres naturais; os humanos,seres culturais. A Natureza é governada por leis necessárias de causa e efeito; aCultura é o exercício da liberdade.A cultura é a criação coletiva de idéias, símbolos e valores pelos quais umasociedade define para si mesma o bom e o mau, o belo e o feio, o justo e oinjusto, o verdadeiro e o falso, o puro e o impuro, o possível e o impossível, oinevitável e o casual, o sagrado e o profano, o espaço e o tempo. A Cultura serealiza porque os humanos são capazes de linguagem, trabalho e relação com otempo. A Cultura se manifesta como vida social, como criação das obras depensamento e de arte, como vida religiosa e vida política.Para a Filosofia do século XIX, em consonância com sua idéia de uma Históriauniversal das civilizações, haveria uma única grande Cultura emdesenvolvimento, da qual as diferentes culturas seriam fases ou etapas. Paraalguns, como os filósofos que seguiam as idéias de Hegel, o movimento dodesenvolvimento cultural era progressivo.Para outros, chamados de filósofos românticos ou adeptos da filosofia doRomantismo, as culturas não formavam uma seqüência progressiva, mas eramculturas nacionais. Assim, cabia à Filosofia conhecer o “espírito de um povo ”conhecendo as origens e as raízes de cada cultura, pois o mais importante de umacultura não se encontraria em seu futuro, mas no seu passado, isto é, nastradições, no folclore nacional. – 61 –

Convite à Filosofia _______________________________No entanto, no século XX, a Filosofia, afirmando que a História é descontínua,também afirma que não há a Cultura, mas culturas diferentes, e que apluralidade de culturas e as diferenças entre elas não se devem à nação, pois aidéia de nação é uma criação cultural e não a causa das diferenças culturais.Cada cultura inventa seu modo de relacionar-se com o tempo, de criar sualinguagem, de elaborar seus mitos e suas crenças, de organizar o trabalho e asrelações sociais, de criar as obras de pensamento e de arte. Cada uma, emdecorrência das condições históricas, geográficas e políticas em que se forma,tem seu modo próprio de organizar o poder e a autoridade, de produzir seusvalores.Contra a filosofia da cultura universal, a Filosofia do século XX nega que hajauma única cultura em progresso e afirma a existência da pluralidade cultural.Contra a filosofia romântica das culturas nacionais como expressão do “espíritodo povo ” e do conjunto de tradições, a Filosofia do século XX nega que anacionalidade seja causa das culturas (as nacionalidades são efeitos culturaistemporários) e afirma que cada cultura se relaciona com outras e encontra dentrode si seus modos de transformação. Dessa maneira, o presente está voltado para ofuturo, e não para o conservadorismo do passado.O fim da FilosofiaNo século XIX, o otimismo positivista ou cientificista levou a Filosofia a suporque, no futuro, só haveria ciências, e que todos os conhecimentos e todas asexplicações seriam dados por elas. Assim, a própria Filosofia poderiadesaparecer, não tendo motivo para existir.No entanto, no século XX, a Filosofia passou a mostrar que as ciências nãopossuem princípios totalmente certos, seguros e rigorosos para as investigações,que os resultados podem ser duvidosos e precários, e que, freqüentemente, umaciência desconhece até onde pode ir e quando está entrando no campo deinvestigação de uma outra.Os princípios, os métodos, os conceitos e os resultados de uma ciência podemestar totalmente equivocados ou desprovidos de fundamento. Com isso, aFilosofia voltou a afirmar seu papel de compreensão e interpretação crítica dasciências, discutindo a validade de seus princípios, procedimentos de pesquisa,resultados, de suas formas de exposição dos dados e das conclusões, etc.Foram preocupações com a falta de rigor das ciências que levaram o filósofoalemão Husserl a propor que a Filosofia fosse o estudo e o conhecimentorigoroso da possibilidade do próprio conhecimento científico, examinando osfundamentos, os métodos e os resultados das ciências. Foram tambémpreocupações como essas que levaram filósofos como Bertrand Russel e Quine aestudar a linguagem científica, a discutir os problemas lógicos das ciências e amostrar os paradoxos e os limites do conhecimento científico. – 62 –

Marilena Chauí _______________________________A maioridade da razãoNo século XIX, o otimismo filosófico levava a Filosofia a afirmar que, enfim, osseres humanos haviam alcançado a maioridade racional, e que a razão sedesenvolvia plenamente para que o conhecimento completo da realidade e dasações humanas fosse atingido.No entanto, Marx, no final do século XIX, e Freud, no início do século XX,puseram em questão esse otimismo racionalista. Marx e Freud, cada qual em seucampo de investigação e cada qual voltado para diferentes aspectos da açãohumana - Marx, voltado para a economia e a política; Freud, voltado para asperturbações e os sofrimentos psíquicos -, fizeram descobertas que, até agora,continuam impondo questões filosóficas. Que descobriram eles?Marx descobriu que temos a ilusão de estarmos pensando e agindo com nossaprópria cabeça e por nossa própria vontade, racional e livremente, de acordo comnosso entendimento e nossa liberdade, porque desconhecemos um poder invisívelque nos força a pensar como pensamos e agir como agimos. A esse poder - que ésocial - ele deu o nome de ideologia.Freud, por sua vez, mostrou que os seres humanos têm a ilusão de que tudoquanto pensam, fazem, sentem e desejam, tudo quanto dizem ou calam estariasob o controle de nossa consciência porque desconhecemos a existência de umaforça invisível, de um poder - que é psíquico e social - que atua sobre nossaconsciência sem que ela o saiba. A esse poder que domina e controla invisível eprofundamente nossa vida consciente, ele deu o nome de inconsciente.Diante dessas duas descobertas, a Filosofia se viu forçada a reabrir a discussãosobre o que é e o que pode a razão, sobre o que é e o que pode a consciênciareflexiva ou o sujeito do conhecimento, sobre o que são e o que podem asaparências e as ilusões.Ao mesmo tempo, a Filosofia teve que reabrir as discussões éticas e morais: Ohomem é realmente livre ou é inteiramente condicionado pela sua situaçãopsíquica e histórica? Se for inteiramente condicionado, então a História e acultura são causalidades necessárias como a Natureza? Ou seria mais corretoindagar: Como os seres humanos conquistam a liberdade em meio a todos oscondicionamentos psíquicos, históricos, econômicos, culturais em que vivem?Infinito e finitoO século XIX prosseguiu uma tradição filosófica que veio desde a Antigüidade eque foi muito alimentada pelo pensamento cristão. Nessa tradição, o maisimportante sempre foi a idéia do infinito, isto é, da Natureza eterna (dos gregos),do Deus eterno (dos cristãos), do desenvolvimento pleno e total da História ou dotempo como totalização de todos os seus momentos ou suas etapas. Prevalecia aidéia de todo ou de totalidade, da qual os humanos fazem parte e na qual oshumanos participam. – 63 –

Convite à Filosofia _______________________________No entanto, a Filosofia do século XX tendeu a dar maior importância ao finito,isto é, ao que surge e desaparece, ao que tem fronteiras e limites. Esse interessepelo finito aparece, por exemplo, numa corrente filosófica (entre os anos 30 e 50)chamada existencialismo e que definiu o humano ou o homem como “um serpara a morte”, isto é, um ser que sabe que termina e que precisa encontrar em simesmo o sentido de sua existência.Para a maioria dos existencialistas, dois eram os modos privilegiados de ohomem aceitar e enfrentar sua finitude: através das artes e através da açãopolítico-revolucionária. Nessas formas excepcionais da atividade, os humanosseriam capazes de dar sentido à brevidade e finitude de suas vidas.Um outro exemplo do interesse pela finitude aparece no que se costuma chamarde filosofia da diferença, isto é, naquela filosofia que se interessa menos pelassemelhanças e identidades e muito mais pela singularidade e particularidade.É assim, por exemplo, que tal filosofia, inspirando-se nos trabalhos dosantropólogos, interessa-se pela diversidade, pluralidade, singularidade dasdiferentes culturas, em lugar de voltar-se para a idéia de uma cultura universal,que foi, no século XIX, uma das imagens do infinito, isto é, de uma totalidadeque conteria dentro de si, como suas partes ou seus momentos, as diferentesculturas singulares.Enfim, um outro exemplo de interesse pela finitude aparece quando a Filosofia,em vez de buscar uma ciência universal que conteria dentro de si todas asciências particulares, interessa-se pela multiplicidade e pela diferença entre asciências, pelos limites de cada uma delas e sobretudo por seus impasses eproblemas insolúveis.Temas, disciplinas e campos filosóficosA Filosofia existe há 25 séculos. Durante uma história tão longa e de tantosperíodos diferentes, surgiram temas, disciplinas e campos de investigaçãofilosóficos enquanto outros desapareceram. Desapareceu também a idéia deAristóteles de que a Filosofia era a totalidade dos conhecimentos teóricos epráticos da humanidade.Também desapareceu uma imagem, que durou muitos séculos, na qual aFilosofia era representada como uma grande árvore frondosa, cujas raízes eram ametafísica e a teologia, cujo tronco era a lógica, cujos ramos principais eram afilosofia da Natureza, a ética e a política e cujos galhos extremos eram astécnicas, as artes e as invenções. A Filosofia, vista como uma totalidade orgânicaou viva, era chamada de “rainha das ciências ”. Isso desapareceu.Pouco a pouco, as várias ciências particulares foram definindo seus objetivos,seus métodos e seus resultados próprios, e se desligaram da grande árvore. Cadaciência, ao se desligar, levou consigo os conhecimentos práticos ou aplicados deseu campo de investigação, isto é, as artes e as técnicas a ele ligadas. As últimas – 64 –

Marilena Chauí _______________________________ciências a aparecer e a se desligar da árvore da Filosofia foram as ciênciashumanas (psicologia, sociologia, antropologia, história, lingüística, geografia,etc.). Outros campos de conhecimento e de ação abriram-se para a Filosofia, masa idéia de uma totalidade de saberes que conteria em si todos os conhecimentosnunca mais reapareceu.No século XX, a Filosofia foi submetida a uma grande limitação quanto à esferade seus conhecimentos. Isso pode ser atribuído a dois motivos principais:1. Desde o final do século XVIII, com o filósofo alemão Immanuel Kant, passou-se a considerar que a Filosofia, durante todos os séculos anteriores, tivera umapretensão irrealizável. Que pretensão fora essa? A de que nossa razão podeconhecer as coisas tais como são em si mesmas. Esse conhecimento da realidadeem si, dos primeiros princípios e das primeiras causas de todas as coisas chama-se metafísica.Kant negou que a razão humana tivesse tal poder de conhecimento e afirmou quesó conhecemos as coisas tais como são organizadas pela estrutura interna euniversal de nossa razão, mas nunca saberemos se tal organização correspondeou não à organização em si da própria realidade. Deixando de ser metafísica, aFilosofia se tornou o conhecimento das condições de possibilidade doconhecimento verdadeiro enquanto conhecimento possível para os seres humanosracionais.A Filosofia tornou-se uma teoria do conhecimento, ou uma teoria sobre acapacidade e a possibilidade humana de conhecer, e uma ética, ou estudo dascondições de possibilidade da ação moral enquanto realizada por liberdade e pordever. Com isso, a Filosofia deixava de ser conhecimento do mundo em si etornava-se apenas conhecimento do homem enquanto ser racional e moral.2. Desde meados do século XIX, como conseqüência da filosofia de AugustoComte - chamada de positivismo -, foi feita uma separação entre Filosofia eciências positivas (matemática, física, química, biologia, astronomia, sociologia).As ciências, dizia Comte, estudam a realidade natural, social, psicológica e morale são propriamente o conhecimento. Para ele, a Filosofia seria apenas umareflexão sobre o significado do trabalho científico, isto é, uma análise e umainterpretação dos procedimentos ou das metodologias usadas pelas ciências euma avaliação dos resultados científicos. A Filosofia tornou-se, assim, uma teoriadas ciências ou epistemologia (episteme, em grego, quer dizer ciência).A Filosofia reduziu-se, portanto, à teoria do conhecimento, à ética e àepistemologia. Como conseqüência dessa redução, os filósofos passaram a ter uminteresse primordial pelo conhecimento das estruturas e formas de nossaconsciência e também pelo seu modo de expressão, isto é, a linguagem.O interesse pela consciência reflexiva ou pelo sujeito do conhecimento deusurgimento a uma corrente filosófica conhecida como fenomenologia, iniciada – 65 –

Convite à Filosofia _______________________________pelo filósofo alemão Edmund Husserl. Já o interesse pelas formas e pelos modosde funcionamento da linguagem corresponde a uma corrente filosófica conhecidacomo filosofia analítica cujo início é atribuído ao filósofo austríaco LudwigWittgenstein.No entanto, a atividade filosófica não se restringiu à teoria do conhecimento, àlógica, à epistemologia e à ética. Desde o início do século XX, a História daFilosofia tornou-se uma disciplina de grande prestígio e, com ela, a história dasidéias e a história das ciências.Desde a Segunda Guerra Mundial, com o fenômeno do totalitarismo - fascismo,nazismo, stalinismo -, com as guerras de libertação nacional contra os impérioscoloniais e as revoluções socialistas em vários países; desde os anos 60, com aslutas contra ditaduras e com os movimentos por direitos (negros, índios,mulheres, idosos, homossexuais, loucos, crianças, os excluídos econômica epoliticamente); e desde os anos 70, com a luta pela democracia em paísessubmetidos a regimes autoritários, um grande interesse pela filosofia políticaressurgiu e, com ele, as críticas de ideologias e uma nova discussão sobre asrelações entre a ética e a política, além das discussões em torno da filosofia daHistória.Atualmente, um movimento filosófico conhecido como desconstrutivismo oupós-modernismo, vem ganhando preponderância. Seu alvo principal é a críticade todos os conceitos e valores que, até hoje, sustentaram a Filosofia e opensamento dito ocidental: razão, saber, sujeito, objeto, História, espaço, tempo,liberdade, necessidade, acaso, Natureza, homem, etc.Quais são os campos próprios em que se desenvolve a reflexão filosófica nestesvinte e cinco séculos? São eles:Ontologia ou metafísica: conhecimento dos princípios e fundamentos últimos detoda a realidade, de todos os seres;Lógica: conhecimento das formas gerais e regras gerais do pensamento correto everdadeiro, independentemente dos conteúdos pensados; regras para ademonstração científica verdadeira; regras para pensamentos não-científicos;regras sobre o modo de expor os conhecimentos; regras para a verificação daverdade ou falsidade de um pensamento, etc.;Epistemologia: análise crítica das ciências, tanto as ciências exatas oumatemáticas, quanto as naturais e as humanas; avaliação dos métodos e dosresultados das ciências; compatibilidades e incompatibilidades entre as ciências;formas de relações entre as ciências, etc.;Teoria do conhecimento ou estudo das diferentes modalidades de conhecimentohumano: o conhecimento sensorial ou sensação e percepção; a memória e aimaginação; o conhecimento intelectual; a idéia de verdade e falsidade; a idéia deilusão e realidade; formas de conhecer o espaço e o tempo; formas de conhecer – 66 –

Marilena Chauí _______________________________relações; conhecimento ingênuo e conhecimento científico; diferença entreconhecimento científico e filosófico, etc.;Ética: estudo dos valores morais (as virtudes), da relação entre vontade e paixão,vontade e razão; finalidades e valores da ação moral; idéias de liberdade,responsabilidade, dever, obrigação, etc.;Filosofia política: estudo sobre a natureza do poder e da autoridade; idéia dedireito, lei, justiça, dominação, violência; formas dos regimes políticos e suasfundamentações; nascimento e formas do Estado; idéias autoritárias,conservadoras, revolucionárias e libertárias; teorias da revolução e da reforma;análise e crítica das ideologias;Filosofia da História: estudo sobre a dimensão temporal da existência humanacomo existência sociopolítica e cultural; teorias do progresso, da evolução eteorias da descontinuidade histórica; significado das diferenças culturais ehistóricas, suas razões e conseqüências;Filosofia da arte ou estética: estudo das formas de arte, do trabalho artístico;idéia de obra de arte e de criação; relação entre matéria e forma nas artes; relaçãoentre arte e sociedade, arte e política, arte e ética;Filosofia da linguagem: a linguagem como manifestação da humanidade dohomem; signos, significações; a comunicação; passagem da linguagem oral àescrita, da linguagem cotidiana à filosófica, à literária, à científica; diferentesmodalidades de linguagem como diferentes formas de expressão e decomunicação;História da Filosofia: estudo dos diferentes períodos da Filosofia; de grupos defilósofos segundo os temas e problemas que abordam; de relações entre opensamento filosófico e as condições econômicas, políticas, sociais e culturais deuma sociedade; mudanças ou transformações de conceitos filosóficos emdiferentes épocas; mudanças na concepção do que seja a Filosofia e de seu papelou finalidade. – 67 –

Marilena Chauí _______________________________ Capítulo 1 A RazãoOs vários sentidos da palavra razãoNos capítulos precedentes, insistimos muito na afirmação de que a Filosofia serealiza como conhecimento racional da realidade natural e cultural, das coisas edos seres humanos. Dissemos que ela confia na razão e que, hoje, ela tambémdesconfia da razão. Mas, até agora, não dissemos o que é a razão, apesar de serela tão antiga quanto a Filosofia.Em nossa vida cotidiana usamos a palavra razão em muitos sentidos. Dizemos,por exemplo, “eu estou com a razão”, ou “ele não tem razão”, para significar quenos sentimos seguros de alguma coisa ou que sabemos com certeza alguma coisa.Também dizemos que, num momento de fúria ou de desespero, “alguém perde arazão”, como se a razão fosse alguma coisa que se pode ter ou não ter, possuir eperder, ou recuperar, como na frase: “Agora ela está lúcida, recuperou a razão”.Falamos também frases como: “Se você me disser suas razões, sou capaz de fazero que você me pede”, querendo dizer com isso que queremos ouvir os motivosque alguém tem para querer ou fazer alguma coisa. Fazemos perguntas como:“Qual a razão disso?”, querendo saber qual a causa de alguma coisa e, nessecaso, a razão parece ser alguma propriedade que as próprias coisas teriam, já queteriam uma causa.Assim, usamos “razão” para nos referirmos a “motivos” de alguém, e tambémpara nos referirmos a “causas ” de alguma coisa, de modo que tanto nós quanto ascoisas parecemos dotados de “razão”, mas em sentido diferente.Esses poucos exemplos já nos mostram quantos sentidos diferentes a palavrarazão possui: certeza, lucidez, motivo, causa. E todos esses sentidos encontram-se presentes na Filosofia.Por identificar razão e certeza, a Filosofia afirma que a verdade é racional; poridentificar razão e lucidez (não ficar ou não estar louco), a Filosofia chama nossarazão de luz e luz natural; por identificar razão e motivo, por considerar que – 69 –

Convite à Filosofia _______________________________sempre agimos e falamos movidos por motivos, a Filosofia afirma que somosseres racionais e que nossa vontade é racional; por identificar razão e causa e porjulgar que a realidade opera de acordo com relações causais, a Filosofia afirmaque a realidade é racional.É muito conhecida a célebre frase de Pascal, filósofo francês do século XVII: “Ocoração tem razões que a razão desconhece”. Nessa frase, as palavras razões erazão não têm o mesmo significado, indicando coisas diversas. Razões são osmotivos do coração, enquanto razão é algo diferente de coração; este é o nomeque damos para as emoções e paixões, enquanto “razão” é o nome que damos àconsciência intelectual e moral.Ao dizer que o coração tem suas próprias razões, Pascal está afirmando que asemoções, os sentimentos ou as paixões são causas de muito do que fazemos,dizemos, queremos e pensamos. Ao dizer que a razão desconhece “as razões docoração”, Pascal está afirmando que a consciência intelectual e moral é diferentedas paixões e dos sentimentos e que ela é capaz de uma atividade própria nãomotivada e causada pelas emoções, mas possuindo seus motivos ou suas própriasrazões.Assim, a frase de Pascal pode ser traduzida da seguinte maneira: Nossa vidaemocional possui causas e motivos (as “razões do coração”), que são as paixõesou os sentimentos, e é diferente de nossa atividade consciente, seja comoatividade intelectual, seja como atividade moral.A consciência é a razão. Coração e razão, paixão e consciência intelectual oumoral são diferentes. Se alguém “perde a razão ” é porque está sendo arrastadopelas “razões do coração”. Se alguém “recupera a razão ” é porque oconhecimento intelectual e a consciência moral se tornaram mais fortes do que aspaixões. A razão, enquanto consciência moral, é a vontade racional livre que nãose deixa dominar pelos impulsos passionais, mas realiza as ações morais comoatos de virtude e de dever, ditados pela inteligência ou pelo intelecto.Além da frase de Pascal, também ouvimos outras que elogiam as ciências,dizendo que elas manifestam o “progresso da razão ”. Aqui, a razão é colocadacomo capacidade puramente intelectual para conseguir o conhecimentoverdadeiro da Natureza, da sociedade, da História e isto é considerado algo bom,positivo, um “progresso”.Por ser considerado um “progresso”, o conhecimento científico é visto como serealizando no tempo e como dotado de continuidade, de tal modo que a razão éconcebida como temporal também, isto é, como capaz de aumentar seusconteúdos e suas capacidades através dos tempos.Algumas vezes ouvimos um professor dizer a outro: “Fulano trouxe um trabalhoirracional; era um caos, uma confusão. Incompreensível. Já o trabalho de beltranoera uma beleza: claro, compreensível, racional”. Aqui, a razão, ou racional, – 70 –

Marilena Chauí _______________________________significa clareza das idéias, ordem, resultado de esforço intelectual ou dainteligência, seguindo normas e regras de pensamento e de linguagem.Todos esses sentidos constituem a nossa idéia de razão. Nós a consideramos aconsciência moral que observa as paixões, orienta a vontade e oferece finalidadeséticas para a ação. Nós a vemos como atividade intelectual de conhecimento darealidade natural, social, psicológica, histórica. Nós a concebemos segundo oideal da clareza, da ordenação e do rigor e precisão dos pensamentos e daspalavras.Para muitos filósofos, porém, a razão não é apenas a capacidade moral eintelectual dos seres humanos, mas também uma propriedade ou qualidadeprimordial das próprias coisas, existindo na própria realidade. Para essesfilósofos, nossa razão pode conhecer a realidade (Natureza, sociedade, História)porque ela é racional em si mesma.Fala-se, portanto, em razão objetiva (a realidade é racional em si mesma) e emrazão subjetiva (a razão é uma capacidade intelectual e moral dos sereshumanos). A razão objetiva é a afirmação de que o objeto do conhecimento ou arealidade é racional; a razão subjetiva é a afirmação de que o sujeito doconhecimento e da ação é racional. Para muitos filósofos, a Filosofia é omomento do encontro, do acordo e da harmonia entre as duas razões ouracionalidades.Origem da palavra razãoNa cultura da chamada sociedade ocidental, a palavra razão origina-se de duasfontes: a palavra latina ratio e a palavra grega logos. Essas duas palavras sãosubstantivos derivados de dois verbos que têm um sentido muito parecido emlatim e em grego.Logos vem do verbo legein, que quer dizer: contar, reunir, juntar, calcular. Ratiovem do verbo reor, que quer dizer: contar, reunir, medir, juntar, separar, calcular.Que fazemos quando medimos, juntamos, separamos, contamos e calculamos?Pensamos de modo ordenado. E de que meios usamos para essas ações? Usamospalavras (mesmo quando usamos números estamos usando palavras, sobretudo osgregos e os romanos, que usavam letras para indicar números).Por isso, logos, ratio ou razão significam pensar e falar ordenadamente, commedida e proporção, com clareza e de modo compreensível para outros. Assim,na origem, razão é a capacidade intelectual para pensar e exprimir-se correta eclaramente, para pensar e dizer as coisas tais como são. A razão é uma maneirade organizar a realidade pela qual esta se torna compreensível. É, também, aconfiança de que podemos ordenar e organizar as coisas porque são organizáveis,ordenáveis, compreensíveis nelas mesmas e por elas mesmas, isto é, as própriascoisas são racionais. – 71 –

Convite à Filosofia _______________________________Desde o começo da Filosofia, a origem da palavra razão fez com que ela fosseconsiderada oposta a quatro outras atitudes mentais:1. ao conhecimento ilusório, isto é, ao conhecimento da mera aparência dascoisas que não alcança a realidade ou a verdade delas; para a razão, a ilusãoprovém de nossos costumes, de nossos preconceitos, da aceitação imediata dascoisas tais como aparecem e tais como parecem ser. As ilusões criam as opiniõesque variam de pessoa para pessoa e de sociedade para sociedade. A razão se opõeà mera opinião;2. às emoções, aos sentimentos, às paixões, que são cegas, caóticas,desordenadas, contrárias umas às outras, ora dizendo “sim” a alguma coisa, oradizendo “não ” a essa mesma coisa, como se não soubéssemos o que queremos eo que as coisas são. A razão é vista como atividade ou ação (intelectual e davontade) oposta à paixão ou à passividade emocional;3. à crença religiosa, pois, nesta, a verdade nos é dada pela fé numa revelaçãodivina, não dependendo do trabalho de conhecimento realizado pela nossainteligência ou pelo nosso intelecto. A razão é oposta à revelação e por isso osfilósofos cristãos distinguem a luz natural - a razão - da luz sobrenatural - arevelação;4. ao êxtase místico, no qual o espírito mergulha nas profundezas do divino eparticipa dele, sem qualquer intervenção do intelecto ou da inteligência, nem davontade. Pelo contrário, o êxtase místico exige um estado de abandono, derompimento com a atividade intelectual e com a vontade, um rompimento com oestado consciente, para entregar-se à fruição do abismo infinito. A razão ouconsciência se opõe à inconsciência do êxtase.Os princípios racionaisDesde seus começos, a Filosofia considerou que a razão opera seguindo certosprincípios que ela própria estabelece e que estão em concordância com a própriarealidade, mesmo quando os empregamos sem conhecê-los explicitamente. Ouseja, o conhecimento racional obedece a certas regras ou leis fundamentais, querespeitamos até mesmo quando não conhecemos diretamente quais são e o quesão. Nós as respeitamos porque somos seres racionais e porque são princípiosque garantem que a realidade é racional.Que princípios são esses? São eles:Princípio da identidade, cujo enunciado pode parecer surpreendente: “A é A” ou“O que é, é”. O princípio da identidade é a condição do pensamento e sem elenão podemos pensar. Ele afirma que uma coisa, seja ela qual for (um ser daNatureza, uma figura geométrica, um ser humano, uma obra de arte, uma ação),só pode ser conhecida e pensada se for percebida e conservada com suaidentidade. – 72 –

Marilena Chauí _______________________________Por exemplo, depois que um matemático definir o triângulo como figura de trêslados e de três ângulos, não só nenhuma outra figura que não tenha esse númerode lados e de ângulos poderá ser chamada de triângulo como também todos osteoremas e problemas que o matemático demonstrar sobre o triângulo, sópoderão ser demonstrados se, a cada vez que ele disser “triângulo”, soubermos aqual ser ou a qual coisa ele está se referindo. O princípio da identidade é acondição para que definamos as coisas e possamos conhecê-las a partir de suasdefinições.Princípio da não-contradição (também conhecido como princípio dacontradição), cujo enunciado é: “A é A e é impossível que seja, ao mesmo tempoe na mesma relação, não-A”. Assim, é impossível que a árvore que está diante demim seja e não seja uma mangueira; que o cachorrinho de dona Filomena seja enão seja branco; que o triângulo tenha e não tenha três lados e três ângulos; que ohomem seja e não seja mortal; que o vermelho seja e não seja vermelho, etc.Sem o princípio da não-contradição, o princípio da identidade não poderiafuncionar. O princípio da não-contradição afirma que uma coisa ou uma idéiaque se negam a si mesmas se autodestroem, desaparecem, deixam de existir.Afirma, também, que as coisas e as idéias contraditórias são impensáveis eimpossíveis.Princípio do terceiro-excluído, cujo enunciado é: “Ou A é x ou é y e não háterceira possibilidade”. Por exemplo: “Ou este homem é Sócrates ou não éSócrates”; “Ou faremos a guerra ou faremos a paz”. Este princípio define adecisão de um dilema - “ou isto ou aquilo” - e exige que apenas uma dasalternativas seja verdadeira. Mesmo quando temos, por exemplo, um teste demúltipla escolha, escolhemos na verdade apenas entre duas opções - “ou estácerto ou está errado” - e não há terceira possibilidade ou terceira alternativa, pois,entre várias escolhas possíveis, só há realmente duas, a certa ou a errada.Princípio da razão suficiente, que afirma que tudo o que existe e tudo o queacontece tem uma razão (causa ou motivo) para existir ou para acontecer, e quetal razão (causa ou motivo) pode ser conhecida pela nossa razão. O princípio darazão suficiente costuma ser chamado de princípio da causalidade para indicarque a razão afirma a existência de relações ou conexões internas entre as coisas,entre fatos, ou entre ações e acontecimentos.Pode ser enunciado da seguintemaneira: “Dado A, necessariamente se dará B”. E também: “Dado B,necessariamente houve A”.Isso não significa que a razão não admita o acaso ou ações e fatos acidentais, massim que ela procura, mesmo para o acaso e para o acidente, uma causa. Adiferença entre a causa, ou razão suficiente, e a causa casual ou acidental está emque a primeira se realiza sempre, é universal e necessária, enquanto a causaacidental ou casual só vale para aquele caso particular, para aquela situaçãoespecífica, não podendo ser generalizada e ser considerada válida para todos os – 73 –

Convite à Filosofia _______________________________casos ou situações iguais ou semelhantes, pois, justamente, o caso ou a situaçãosão únicos.A morte, por exemplo, é um efeito necessário e universal (válido para todos ostempos e lugares) da guerra e a guerra é a causa necessária e universal da mortede pessoas. Mas é imprevisível ou acidental que esta ou aquela guerra aconteçam.Podem ou não podem acontecer. Nenhuma causa universal exige que aconteçam.Mas, se uma guerra acontecer, terá necessariamente como efeito mortes. Mas ascausas dessa guerra são somente as dessa guerra e de nenhuma outra.Diferentemente desse caso, o princípio da razão suficiente está vigorandoplenamente quando, por exemplo, Galileu demonstrou as leis universais domovimento dos corpos em queda livre, isto é, no vácuo.Pelo que foi exposto, podemos observar que os princípios da razão apresentamalgumas características importantes:? não possuem um conteúdo determinado, pois são formas: indicam como ascoisas devem ser e como devemos pensar, mas não nos dizem quais coisas são,nem quais os conteúdos que devemos ou vamos pensar;? possuem validade universal, isto é, onde houver razão (nos seres humanos enas coisas, nos fatos e nos acontecimentos), em todo o tempo e em todo lugar,tais princípios são verdadeiros e empregados por todos (os humanos) eobedecidos por todos (coisas, fatos, acontecimentos);? são necessários, isto é, indispensáveis para o pensamento e para a vontade,indispensáveis para as coisas, os fatos e os acontecimentos. Indicam que algo éassim e não pode ser de outra maneira. Necessário significa: é impossível quenão seja dessa maneira e que pudesse ser de outra.Ampliando nossa idéia de razãoA idéia de razão que apresentamos até aqui e que constitui o ideal deracionalidade criado pela sociedade européia ocidental sofreu alguns abalosprofundos desde o início do século XX.Aqui, vamos apenas oferecer alguns exemplos dos problemas que a Filosofiaprecisou enfrentar e que levaram a uma ampliação da idéia da razão.Um primeiro abalo veio das ciências da Natureza ou, mais precisamente, da físicae atingiu o princípio do terceiro-excluído. A física da luz (ou óptica) descobriuque a luz tanto pode ser explicada por ondas luminosas quanto por partículasdescontínuas. Isso significou que já não se podia dizer: “ou a luz se propaga porondas contínuas ou se propaga por partículas descontínuas ”, como exigiria oprincípio do terceiro-excluído, mas sim que a luz pode propagar-se tanto de umamaneira como de outra.Por sua vez, a física atômica ou quântica abalou o princípio da razão suficiente.Vimos que esse princípio afirma que, conhecido A, posso determinar como dele – 74 –

Marilena Chauí _______________________________necessariamente resultará B, ou, conhecido B, posso determinar necessariamentecomo era A que o causou. Em outras palavras, conhecido o estado E de umfenômeno, posso deduzir como será o estado E2 ou E3 e vice-versa: conhecidosE3 e E2 posso dizer como era o estado E. Ora, a física dos átomos revelou queisso não é possível, que não podemos saber as razões pelas quais os átomos semovimentam, nem sua velocidade e direção, nem os efeitos que produzirão.Esses dois problemas levaram a introduzir um novo princípio racional naNatureza: o princípio da indeterminação. Assim, o princípio da razão suficienteé válido para os fenômenos macroscópicos, enquanto o princípio daindeterminação é válido para os fenômenos em escala hipermicroscópica.Um outro problema veio abalar o princípio da identidade e da não-contradição. Afísica sempre considerou que a Natureza obedece às leis universais da razãoobjetiva sem depender da razão subjetiva. Em outras palavras, as leis da Naturezaexistem por si mesmas, são necessárias e universais por si mesmas e nãodependem do sujeito do conhecimento.Contudo, a teoria da relatividade mostrou que as leis da Natureza dependem daposição ocupada pelo observador, isto é, pelo sujeito do conhecimento e,portanto, para um observador situado fora de nosso sistema planetário, aNatureza poderá seguir leis completamente diferentes, de tal modo que, porexemplo, o que é o espaço e o tempo para nós poderá não ser para outros seres(se existirem) da galáxia; a geometria que seguimos pode não ser a que tenhasentido noutro sistema planetário; o que pode ser contraditório para nós poderánão ser para habitantes de outra galáxia e assim por diante.Um outro problema, também atingindo os princípios da razão, foi trazido pelalógica. O lógico alemão Frege apresentou o seguinte problema: quando digo “aestrela da manhã é a estrela da tarde” estou caindo em contradição e perdendo oprincípio da identidade. No entanto, “estrela da manhã” é o planeta Vênus e“estrela da tarde ” também é o planeta Vênus; dessa perspectiva, não hácontradição alguma no que digo. É preciso, então, distinguir em nossopensamento e em nossa linguagem três níveis: o objeto a que nós nos referimos,os enunciados que empregamos e o sentido desses enunciados em sua relaçãocom o objeto referido. Somente dessa maneira podemos manter a racionalidadedos princípios da identidade, da não-contradição e do terceiro-excluído.Enfim, um outro tipo de problema foi trazido com o desenvolvimento dosestudos da antropologia, que mostraram como outras culturas podem ofereceruma concepção muito diferente da que estamos acostumados sobre o pensamentoe a realidade. Isso não significa, como imaginaram durante séculos oscolonizadores, que tais culturas ou sociedades sejam irracionais ou pré-racionais,e sim que possuem uma outra idéia do conhecimento e outros critérios para aexplicação da realidade. – 75 –

Convite à Filosofia _______________________________Como a palavra razão é européia e ocidental, parece difícil falarmos numa outrarazão, que seria própria de outros povos e culturas. No entanto, o que os estudosantropológicos mostraram é que precisamos reconhecer a “nossa razão ” e a“razão deles”, que se trata de uma outra razão e não da mesma razão emdiferentes graus de uma única evolução.Indeterminação da Natureza, pluralidade de enunciados para um mesmo objeto,pluralidade e diferenciação das culturas foram alguns dos problemas queabalaram a razão, no século XX. A esse abalo devemos acrescentar dois outros.O primeiro deles foi trazido por um não-filósofo, Marx, quando introduziu anoção de ideologia; o segundo também foi trazido por um não-filósofo, Freud,quando introduziu o conceito de inconsciente.A noção de ideologia veio mostrar que as teorias e os sistemas filosóficos oucientíficos, aparentemente rigorosos e verdadeiros, escondiam a realidade social,econômica e política, e que a razão, em lugar de ser a busca e o conhecimento daverdade, poderia ser um poderoso instrumento de dissimulação da realidade, aserviço da exploração e da dominação dos homens sobre seus semelhantes. Arazão seria um instrumento da falsificação da realidade e de produção de ilusõespelas quais uma parte do gênero humano se deixa oprimir pela outra.A noção de inconsciente, por sua vez, revelou que a razão é muito menospoderosa do que a Filosofia imaginava, pois nossa consciência é, em grandeparte, dirigida e controlada por forças profundas e desconhecidas quepermanecem inconscientes e jamais se tornarão plenamente conscientes eracionais. A razão e a loucura fazem parte de nossa estrutura mental e de nossasvidas e, muitas ve zes, como por exemplo no fenômeno do nazismo, a razão élouca e destrutiva.Fatos como esses - as descobertas na física, na lógica, na antropologia, nahistória, na psicanálise - levaram o filósofo francês Merleau-Ponty a dizer queuma das tarefas mais importantes da Filosofia contemporânea deveria ser a deencontrar uma nova idéia da razão, uma razão alargada, na qual pudessementrar os princípios da racionalidade definidos por outras culturas e encontradospelas descobertas científicas.Esse alargamento é duplamente necessário e importante. Em primeiro lugar,porque ele exprime a luta contra o colonialismo e contra o etnocentrismo - isto é,contra a visão de que a “nossa” razão e a “nossa” cultura são superiores emelhores do que as dos outros povos. Em segundo lugar, porque a razão estariadestinada ao fracasso se não fosse capaz de oferecer para si mesma novosprincípios exigidos pelo seu próprio trabalho racional de conhecimento. – 76 –

Marilena Chauí _______________________________ Capítulo 2 A atividade racionalA atividade racional e suas modalidadesA Filosofia distingue duas grandes modalidades da atividade racional, realizadaspela razão subjetiva ou pelo sujeito do conhecimento: a intuição (ou razãointuitiva) e o raciocínio (ou razão discursiva).A atividade racional discursiva, como a própria pal avra indica, discorre, percorreuma realidade ou um objeto para chegar a conhecê-lo, isto é, realiza vários atosde conhecimento até conseguir captá-lo. A razão discursiva ou o pensamentodiscursivo chega ao objeto passando por etapas sucessivas de conhecimento,realizando esforços sucessivos de aproximação para chegar ao conceito ou àdefinição do objeto.A razão intuitiva ou intuição, ao contrário, consiste num único ato do espírito,que, de uma só vez, capta por inteiro e completamente o objeto. Em latim,intuitos significa: ver. A intuição é uma visão direta e imediata do objeto doconhecimento, um contato direto e imediato com ele, sem necessidade de provasou demonstrações para saber o que conhece.A intuiçãoA intuição é uma compreensão global e instantânea de uma verdade, de umobjeto, de um fato. Nela, de uma só vez, a razão capta todas as relações queconstituem a realidade e a verdade da coisa intuída. É um ato intelectual dediscernimento e compreensão, como, por exemplo, tem um médico quando fazum diagnóstico e apreende de uma só vez a doença, sua causa e o modo de tratá-la. Os psicólogos se referem à intuição usando o termo insight, para referirem-seao momento em que temos uma compreensão total, direta e imediata de algumacoisa, ou o momento em que percebemos, num só lance, um caminho para asolução de um problema científico, filosófico ou vital.Um exemplo de intuição pode ser encontrado no romance de Guimarães Rosa,Grande Sertão: Veredas. Riobaldo e Diadorim são dois jagunços ligados pelamais profunda amizade e lealdade, companheiros de lutas e cumpridores de umavingança de sangue contra os assassinos da família de Diadorim. Riobaldo,porém, sente-se cheio de angústia e atormentado, pois seus sentimentos porDiadorim são confusos, como se entre eles houvesse muito mais do que aamizade. Diadorim é assassinado. Quando o corpo é trazido para ser preparadopara o funeral, Riobaldo descobre que Diadorim era mulher. De uma só vez, num – 77 –

Convite à Filosofia _______________________________só lance, Riobaldo compreende tudo o que sentia, todos os fatos acontecidosentre eles, todas as conversas que haviam tido, todos os gestos estranhos deDiadorim e compreende, instantaneamente, a verdade: estivera apaixonado porDiadorim.A razão intuitiva pode ser de dois tipos: intuição sensível ou empírica eintuição intelectual .1. A intuição sensível ou empírica (do grego, empeiria: experiência sensorial) éo conhecimento que temos a todo o momento de nossa vida. Assim, com um sóolhar ou num só ato de visão percebemos uma casa, um homem, uma mulher,uma flor, uma mesa. Num só ato, por exemplo, capto que isto é uma flor: vejosua cor e suas pétalas, sinto a maciez de sua textura, aspiro seu perfume, tenho-apor inteiro e de uma só vez diante de mim.A intuição empírica é o conhecimento direto e imediato das qualidades sensíveisdo objeto externo: cores, sabores, odores, paladares, texturas, dimensões,distâncias. É também o conhecimento direto e imediato de estados internos oumentais: lembranças, desejos, sentimentos, imagens.A intuição sensível ou empírica é psicológica, isto é, refere-se aos estados dosujeito do conhecimento enquanto um ser corporal e psíquico individual -sensações, lembranças, imagens, sentimentos, desejos e percepções sãoexclusivamente pessoais.Assim, a marca da intuição empírica é sua singularidade: por um lado, está ligadaà singularidade do objeto intuído (ao “isto” oferecido à sensação e à percepção)e, por outro, está ligada à singularidade do sujeito que intui (aos “meus” estadospsíquicos, às “minhas” experiências). A intuição empírica não capta o objeto emsua universalidade e a experiência intuitiva não é transferível para um outroobjeto. Riobaldo teve uma intuição empírica.2. A intuição intelectual difere da sensível justamente por sua universalidade enecessidade. Quando penso: “Uma coisa não pode ser e não ser ao mesmotempo”, sei, sem necessidade de provas ou demonstrações, que isto é verdade.Ou seja, tenho conhecimento intuitivo do princípio da contradição. Quando digo:“O amarelo é diferente do azul ”, sei, sem necessidade de provas edemonstrações, que há diferenças. Vejo, na intuição sensível, a cor amarela e acor azul, mas vejo, na intuição intelectual, a diferença entre cores. Quandoafirmo: “O todo é maior do que as partes”, sei, sem necessidade de provas edemonstrações, que isto é verdade, porque intuo uma forma necessária de relaçãoentre as coisas.A intuição intelectual é o conhecimento direto e imediato dos princípios da razão(identidade, contradição, terceiro excluído, razão suficiente), das relaçõesnecessárias entre os seres ou entre as idéias, da verdade de uma idéia ou de umser. – 78 –

Marilena Chauí _______________________________Na história da Filosofia, o exemplo mais célebre de intuição intelectual éconhecido como o cogito cartesiano, isto é, a afirmação de Descartes: “Penso(cogito), logo existo”. De fato, quando penso, sei que estou pensando e não épreciso provar ou demonstrar isso, mesmo porque provar e demonstrar é pensar epara demonstrar e provar é preciso, primeiro, pensar e saber que se pensa.Quando digo: “Penso, logo existo”, estou simplesmente afirmando racionalmenteque sei que sou um ser pensante ou que existo pensando, sem necessidade deprovas e demonstrações. A intuição capta, num único ato intelectual, a verdadedo pensamento pensando em si mesmo.Um outro exemplo de intuição intelectual é oferecido pela fenomenologia, criadapor Husserl. Trata-se da intuição intelectual de essências ou significações. Todaconsciência, diz Husserl, é sempre “consciência de ” ou consciência de algumacoisa, isto é, toda consciência é um ato pelo qual visamos um objeto, um fato,uma idéia. A consciência representa os objetos, os fatos, as pessoas. Cadarepresentação pode ser obtida por um passeio ou um percurso que nossaconsciência faz à volta de um objeto. Essas várias representações sãopsicológicas e individuais, e o objeto delas, o representado, também é individualou singular.Por exemplo, diz Husserl, quando quero pensar em alguém, como Napoleão,posso representá-lo ganhando a batalha de Waterloo, prisioneiro na ilha de Elba ena ilha de Santa Helena, montado em seu cavalo branco, usando o chapéu de trêspontas e com a mão direita enfiada na túnica.Cada uma dessas representações é singular: por um lado, cada uma delas é umato psicológico singular que eu realizo (um ato de lembrar, um ato de ver aimagem de Napoleão num quadro, um ato de ler sobre ele num livro, etc.) e, poroutro, cada uma delas possui um representante singular (Napoleão a cavalo,Napoleão na batalha de Waterloo, Napoleão fugindo de Elba, etc.). No entanto,embora sejam singulares e distintas umas das outras, todas possuem o mesmorepresentado, o mesmo significado, a mesma significação ou a mesma essência:Napoleão.Quando colocamos de lado a singularidade psicológica de cada uma de nossasrepresentações e a singularidade de cada um dos representantes, ficando apenascom a idéia ou significação “Napoleão”, como uma universalidade ougeneralidade, temos uma intuição da essência “Napoleão ”. A intuição daessência é a apreensão intelectual imediata e direta de uma significação, deixandode lado as particularidades dos representantes que indicam empiricamente asignificação. É assim que tenho intuição intelectual da essência ou significação“triângulo”, “imaginação ”, “memória”, “natureza”, “cor”, “diferença”, “Europa”,“pintura”, “literatura”, “tempo”, “espaço”, “coisa”, “quantidade ”, “qualidade”,etc. Intuímos idéias. – 79 –

Convite à Filosofia _______________________________Fala-se também de uma intuição emotiva ou valorativa. Trata-se daquelaintuição na qual, juntamente com o sentido ou significação de alguma coisa,captamos também seu valor, isto é, com a idéia intuímos também se a coisa ouessência é verdadeira ou falsa, bela ou feia, boa ou má, justa ou injusta, possívelou impossível, etc. Ou seja, a intuição intelectual capta a essência do objeto (oque ele é) e a intuição emotiva ou valorativa capta essa essência pelo que oobjeto vale.A razão discursiva: dedução, indução e abduçãoA intuição pode ser o ponto de chegada, a conclusão de um processo deconhecimento, e pode também ser o ponto de partida de um processo cognitivo.O processo de conhecimento, seja o que chega a uma intuição, seja o que partedela, constitui a razão discursiva ou o raciocínio.Ao contrário da intuição, o raciocínio é o conhecimento que exige provas edemonstrações e se realiza igualmente por meio de provas e demonstrações dasverdades que estão sendo conhecidas ou investigadas. Não é um ato intelectual,mas são vários atos intelectuais internamente ligados ou conectados, formandoum processo de conhecimento.Um caçador sai pela manhã em busca da caça. Entra no mato e vê rastros: choveuna véspera e há pegadas no chão; pequenos galhos rasteiros estão quebrados; ocapim está amassado em vários pontos; a carcaça de um bicho está à mostra,indicando que foi devorado há poucas horas; há um grande silêncio no ar, não hácanto de pássaros, não há ruídos de pequenos animais.O caçador supõe que haja uma onça por perto. Ele pode, então, tomar duasatitudes. Se, por todas as experiências anteriores, tiver certeza de que a onça estánas imediações, pode preparar-se para enfrentá-la: sabe que caminhos evitar, senão estiver em condições de caçá-la; sabe que armadilhas armar, se estiver prontopara capturá-la; sabe como atraí-la, se quiser conservá-la viva e preservar aespécie.O caçador pode ainda estar sem muita certeza se há ou não uma onça nosarredores e, nesse caso, tomará uma série de atitudes para verificar a presença ouausência do felino: pode percorrer trilhas que sabem serem próprias de onças;pode examinar melhor as pegadas e o tipo de animal que foi devorado; podecomparar, em sua memória, outras situações nas quais esteve presente uma onça,etc.Assim, partindo de indícios, o caçador raciocina para chegar a uma conclusão etomar uma decisão. Temos aí um exercício de raciocínio empírico e prático (istoé, um pensamento que visa a uma ação) e que se assemelha à intuição sensível ouempírica, isto é, caracteriza-se pela singularidade ou individualidade do sujeito edo objeto do conhecimento. – 80 –

Marilena Chauí _______________________________Quando, porém, um raciocínio se realiza em condições tais que a individualidadepsicológica do sujeito e a singularidade do objeto são substituídas por critérios degeneralidade e universalidade, temos a dedução, a indução e a abdução.A deduçãoDedução e indução são procedimentos racionais que nos levam do já conhecidoao ainda não conhecido, isto é, permitem que adquiramos conhecimentos novosgraças a conhecimentos já adquiridos. Por isso, se costuma dizer que, noraciocínio, o intelecto opera seguindo cadeias de razões ou os nexos e conexõesinternos e necessários entre as idéias ou entre os fatos.A dedução consiste em partir de uma verdade já conhecida (seja por intuição,seja por uma demonstração anterior) e que funciona como um princípio geral aoqual se subordinam todos os casos que serão demonstrados a partir dela. Emoutras palavras, na dedução parte-se de uma verdade já conhecida parademonstrar que ela se aplica a todos os casos particulares iguais. Por issotambém se diz que a dedução vai do geral ao particular ou do universal aoindividual. O ponto de partida de uma dedução é ou uma idéia verdadeira ou umateoria verdadeira.Por exemplo, se definirmos o triângulo como uma figura geométrica cujos ladossomados são iguais à soma de dois ângulos retos, dela deduziremos todas aspropriedades de todos os triângulos possíveis. Se tomarmos como ponto departida as definições geométricas do ponto, da linha, da superfície e da figura,deduziremos todas as figuras geométricas possíveis.No caso de uma teoria, a dedução permitirá que cada caso particular encontradoseja conhecido, demonstrando que a ele se aplicam todas as leis, regras everdades da teoria. Por exemplo, estabelecida a verdade da teoria física deNewton, sabemos que: 1) as leis da física são relações dinâmicas de tipomecânico, isto é, se referem à relações de força (ação e reação) entre corposdotados de figura, massa e grandeza; 2) os fenômenos físicos ocorrem no espaçoe no tempo; 3) conhecidas as leis iniciais de um conjunto ou de um sistema defenômenos, poderemos prever os atos que ocorrerão nesse conjunto e nessesistema.Assim, se eu quiser conhecer um ato físico particular - por exemplo, o queacontecerá com o corpo lançado no espaço por uma nave espacial, ou qual avelocidade de um projétil lançado de um submarino para atingir um alvo numtempo determinado, ou qual é o tempo e a velocidade para um certo astro realizarum movimento de rotação em torno de seu eixo -, aplicarei a esses casosparticulares as leis gerais da física newtoniana e saberei com certeza a respostaverdadeira.A dedução é um procedimento pelo qual um fato ou objeto particulares sãoconhecidos por inclusão numa teoria geral. – 81 –

Convite à Filosofia _______________________________Costuma-se representar a dedução pela seguinte fórmula: Todos os x são y (definição ou teoria geral); A é x (caso particular); Portanto, A é y (dedução).Exemplos: 1. Todos os homens (x) são mortais (y); Sócrates (A) é homem (x); Portanto, Sócrates (A) é mortal (y). 2. Todos os metais (x) são bons condutores de eletricidade (y); O mercúrio (A) é um metal (x); Portanto, o mercúrio (A) é bom condutor de eletricidade (y).A razão oferece regras especiais para realizar uma dedução e, se tais regras nãoforem respeitadas, a dedução será considerada falsa.A induçãoA indução realiza um caminho exatamente contrário ao da dedução. Com aindução, partimos de casos particulares iguais ou semelhantes e procuramos a leigeral, a definição geral ou a teoria geral que explica e subordina todos essescasos particulares. A definição ou a teoria são obtidas no ponto final do percurso.E a razão também oferece um conjunto de regras precisas para guiar a indução;se tais regras não forem respeitadas, a indução será considerada falsa.Por exemplo, colocamos água no fogo e observamos que ela ferve e setransforma em vapor; colocamos leite no fogo e vemos também que ele setransforma em vapor; colocamos vários tipos de líquidos no fogo e vemossempre sua transformação em vapor. Induzimos desses casos particulares que ofogo possui uma propriedade que produz a evaporação dos líquidos. Essapropriedade é o calor.Verificamos, porém, que os diferentes líquidos não evaporam sempre na mesmavelocidade; cada um deles, portanto, deve ter propriedades específicas que osfazem evaporar em velocidades diferentes. Descobrimos, porém, que avelocidade da evaporação não é o fato a ser observado e sim quanto de calor cadalíquido precisa para começar a evaporar. Se considerarmos a água nosso padrãode medida, diremos que ela ferve e começa a evaporar a partir de uma certaquantidade de calor e que é essa quantidade de calor que precisa ser conhecida.Podemos, a seguir, verificar um fenômeno diferente. Vemos que água e outros – 82 –

Marilena Chauí _______________________________líquidos, colocados num refrigerador, endurecem e se congelam, mas que, comono caso do vapor, cada líquido se congela ou se solidifica em velocidadesdiferentes. Procuramos, novamente, a causa dessa diferença de velocidade edescobrimos que depende tanto de certas propriedades de cada líquido quanto daquantidade de frio que há no refrigerador. Percebemos, finalmente, que é essaquantidade que devemos procurar.Com essas duas séries de fatos (vapor e congelamento), descobrimos que osestados dos líquidos variam (evaporação e solidificação) em decorrência datemperatura ambiente (calor e frio) e que cada líquido atinge o ponto deevaporação ou de solidificação em temperaturas diferentes. Com esses dadospodemos formular uma teoria da relação entre os estados da matéria - sólido,líquido e gasoso - e as variações de temperatura, estabelecendo uma relaçãonecessária entre o estado de um corpo e a temperatura ambiente. Chegamos, porindução, a uma teoria.A dedução e a indução são conhecidas com o nome de inferência, isto é, concluiralguma coisa a partir de outra já conhecida. Na dedução, dado X, infiro (concluo)a, b, c, d. Na indução, dados a, b, c, d, infiro (concluo) X.A abduçãoO filósofo inglês Peirce considera que, além da dedução e da indução, a razãodiscursiva ou raciocínio também se realiza numa terceira modalidade deinferência, embora esta não seja propriamente demonstrativa. Essa terceiramodalidade é chamada por ele de abdução.A abdução é uma espécie de intuição, mas que não se dá de uma só vez, indopasso a passo para chegar a uma conclusão. A abdução é a busca de umaconclusão pela interpretação racional de sinais, de indícios, de signos. O exemplomais simples oferecido por Peirce para explicar o que seja a abdução são oscontos policiais, o modo como os detetives vão coletando indícios ou sinais eformando uma teoria para o caso que investigam.Segundo Peirce, a abdução é a forma que a razão possui quando inicia o estudode um novo campo científico que ainda não havia sido abordado. Ela se aproximada intuição do artista e da adivinhação do detetive, que, antes de iniciarem seustrabalhos, só contam com alguns sinais que indicam pistas a seguir. Oshistoriadores costumam usar a abdução.De modo geral, diz-se que a indução e a abdução são procedimentos racionaisque empregamos para a aquisição de conhecimentos, enquanto a dedução é oprocedimento racional que empregamos para verificar ou comprovar a verdadede um conhecimento já adquirido.Realismo e idealismoVimos anteriormente que muitos filósofos distinguem razão objetiva e razãosubjetiva, considerando a Filosofia o encontro e o acordo entre ambas. – 83 –

Convite à Filosofia _______________________________Falar numa razão objetiva significa afirmar que a realidade externa ao nossopensamento é racional em si e por si mesma e que podemos conhecê-lajustamente por ser racional. Significa dizer, por exemplo, que o espaço e o tempoexistem em si e por si mesmos, que as relações matemáticas e de causa-efeitoexistem nas próprias coisas, que o acaso existe na própria realidade, etc.Chama-se realismo a posição filosófica que afirma a existência objetiva ou em sida realidade externa como uma realidade racional em si e por si mesma e,portanto, que afirma a existência da razão objetiva.Há filósofos, porém, que estabelecem uma diferença entre a realidade e oconhecimento racional que dela temos. Dizem eles que, embora a realidadeexterna exista em si e por si mesma, só podemos conhecê-la tal como nossasidéias a formulam e a organizam e não tal como ela seria em si mesma. Nãopodemos saber nem dizer se a realidade exterior é racional em si, pois sópodemos saber e dizer que ela é racional para nós, isto é, por meio de nossasidéias.Essa posição filosófica é conhecida com o nome de idealismo e afirma apenas aexistência da razão subjetiva. A razão subjetiva possui princípios e modalidadesde conhecimento que são universais e necessários, isto é, válidos para todos osseres humanos em todos os tempos e lugares. O que chamamos realidade,portanto, é apenas o que podemos conhecer por meio das idéias de nossa razão. – 84 –

Marilena Chauí _______________________________ Capítulo 3 A razão: inata ou adquirida?Inatismo ou empirismo?De onde vieram os princípios racionais (identidade, não-contradição, terceiro-excluído e razão suficiente)? De onde veio a capacidade para a intuição (razãointuitiva) e para o raciocínio (razão discursiva)? Nascemos com eles? Ou nosseriam dados pela educação e pelo costume? Seriam algo próprio dos sereshumanos, constituindo a natureza deles, ou seriam adquiridos através daexperiência?Durante séculos, a Filosofia ofereceu duas respostas a essas perguntas. Aprimeira ficou conhecida como inatismo e a segunda, como empirismo.O inatismo afirma que nascemos trazendo em nossa inteligência não só osprincípios racionais, mas também algumas idéias verdadeiras, que, por isso, sãoidéias inatas. O empirismo, ao contrário, afirma que a razão, com seus princípios,seus procedimentos e suas idéias, é adquirida por nós através da experiência. Emgrego, experiência se diz: empeiria – donde, empirismo, conhecimento empírico,isto é, conhecimento adquirido por meio da experiência.O inatismoVamos falar do inatismo tomando dois filósofos como exemplo: o filósofo gregoPlatão (século IV a.C.) e o filósofo francês Descartes (século XVII).Inatismo platôni coPlatão defende a tese do inatismo da razão ou das idéias verdadeiras em várias desuas obras, mas as passagens mais conhecidas se encontram nos diálogos Mênone A República.No Mênon, Sócrates dialoga com um jovem escravo analfabeto. Fazendo-lhepergunt as certas na hora certa, o filósofo consegue que o jovem escravodemonstre sozinho um difícil teorema de geometria (o teorema de Pitágoras). Asverdades matemáticas vão surgindo no espírito do escravo à medida que Sócratesvai-lhe fazendo perguntas e vai raciocinando com ele.Como isso seria possível, indaga Platão, se o escravo não houvesse nascido coma razão e com os princípios da racionalidade? Como dizer que conseguiudemonstrar o teorema por um aprendizado vindo da experiência, se ele jamaisouvira falar de geometria? – 85 –

Convite à Filosofia _______________________________Em A República, Platão desenvolve uma teoria que já fora esboçada no Mênon: ateoria da reminiscência. Nascemos com a razão e as idéias verdadeiras, e aFilosofia nada mais faz do que nos relembrar essas idéias.Platão é um grande escritor e usa em seus escritos um procedimento literário queo auxilia a expor as teorias muito difíceis. Assim, para explicar a teoria dareminiscência, narra o mito de Er.O pastor Er, da região da Panfília, morreu e foi levado para o Reino dos Mortos.Ali chegando, encontra as almas dos heróis gregos, de governantes, de artistas,de seus antepassados e amigos. Ali, as almas contemplam a verdade e possuem oconhecimento verdadeiro.Er fica sabendo que todas as almas renascem em outras vidas para se purificaremde seus erros passados até que não precisem mais voltar à Terra, permanecendona eternidade. Antes de voltar ao nosso mundo, as almas podem escolher a novavida que terão. Algumas escolhem a vida de rei, outras de guerreiro, outras decomerciante rico, outras de artista, de sábio.No caminho de retorno à Terra, as almas atravessam uma grande planície poronde corre um rio, o Lethé (que, em grego, quer dizer esquecimento), e bebem desuas águas. As que bebem muito esquecem toda a verdade que contemplaram; asbebem pouco quase não se esquecem do que conheceram.As que escolheram vidas de rei, de guerreiro ou de comerciante rico são as quemais bebem das águas do esquecimento; as que escolheram a sabedoria são asque menos bebem. Assim, as primeiras dificilmente (talvez nunca) se lembrarão,na nova vida, da verdade que conheceram, enquanto as outras serão capazes delembrar e ter sabedoria, usando a razão.Conhecer, diz Platão, é recordar a verdade que já existe em nós; é despertar arazão para que ela se exerça por si mesma. Por isso, Sócrates fazia perguntas,pois, através delas, as pessoas poderiam lembrar-se da verdade e do uso da razão.Se não nascêssemos com a razão e com a verdade, indaga Platão, comosaberíamos que temos uma idéia verdadeira ao encontrá-la? Como poderíamosdistinguir o verdadeiro do falso, se não nascêssemos conhecendo essa diferença?Inatismo cartesianoDescartes discute a teoria das idéias inatas em várias de suas obras, mas asexposições mais conhecidas encontram-se em duas delas: no Discurso do métodoe nas Meditações metafísicas.Nelas, Descartes mostra que nosso espírito possui três tipos de idéias que sediferenciam segundo sua origem e qualidade:1. Idéias adventícias (isto é, vindas de fora): são aquelas que se originam denossas sensações, percepções, lembranças; são as idéias que nos vêm por termostido a experiência sensorial ou sensível das coisas a que se referem. Por exemplo, – 86 –

Marilena Chauí _______________________________a idéia de árvore, de pássaro, de instrumentos musicais, etc. São nossas idéiascotidianas e costumeiras, geralmente enganosas ou falsas, isto é, nãocorrespondem à realidade das próprias coisas.Assim, andando à noite por uma floresta, vejo fantasmas. Quando raia o dia,descubro que eram galhos retorcidos de árvores que se mexiam sob o vento. Olhopara o céu e vejo, pequeno, o Sol. Acredito, então, que é menor do que a Terra,até que os astrônomos provem racionalmente que ele é muito maior do que ela.2. Idéias fictícias: são aquelas que criamos em nossa fantasia e imaginação,compondo seres inexistentes com pedaços ou partes de idéias adventícias queestão em nossa memória. Por exemplo, cavalo alado, fadas, elfos, duendes,dragões, Super-Homem, etc. São as fabulações das artes, da literatura, dos contosinfantis, dos mitos, das superstições.Essas idéias nunca são verdadeiras, pois não correspondem a nada que existarealmente e sabemos que foram inventadas por nós, mesmo quando as recebemosjá prontas de outros que as inventaram.3. Idéias inatas: são aquelas que não poderiam vir de nossa experiência sensorialporque não há objetos sensoriais ou sensíveis para elas, nem poderiam vir denossa fantasia, pois não tivemos experiência sensorial para compô-las a partir denossa memória.As idéias inatas são inteiramente racionais e só podem existir porque já nascemoscom elas. Por exemplo, a idéia do infinito (pois não temos qualquer experiênciado infinito), as idéias matemáticas (a matemática pode trabalhar com a idéia deuma figura de mil lados, o quiliógono, e, no entanto, jamais tivemos e jamaisteremos a percepção de uma figura de mil lados).Essas idéias, diz Descartes, são “a assinatura do Criador” no espírito das criaturasracionais, e a razão é a luz natural inata que nos permite conhecer a verdade.Como as idéias inatas são colocadas em nosso espírito por Deus, serão sempreverdadeiras, isto é, sempre corresponderão integralmente às coisas a que sereferem, e, graças a elas, podemos julgar quando uma idéia adventícia éverdadeira ou falsa e saber que as idéias fictícias são sempre falsas (nãocorrespondem a nada fora de nós).Ainda segundo Descartes, as idéias inatas são as mais simples que possuímos(simples não quer dizer “fáceis”, e sim não-compostas de outras idéias). A maisfamosa das idéias inatas cartesianas é o “Penso, logo existo”. Por serem simples,as idéias inatas são conhecidas por intuição e são elas o ponto de partida dadedução racional e da indução, que conhecem as idéias complexas ou compostas.A tese central dos inatistas é a seguinte: se não possuirmos em nosso espírito arazão e a verdade, nunca teremos como saber se um conhecimento é verdadeiroou falso, isto é, nunca saberemos se uma idéia corresponde ou não à realidade a – 87 –

Convite à Filosofia _______________________________que ela se refere. Não teremos um critério seguro para avaliar nossosconhecimentos.O empirismoContrariamente aos defensores do inatismo, os defensores do empirismo afirmamque a razão, a verdade e as idéias racionais são adquiridos por nós através daexperiência. Antes da experiência, dizem eles, nossa razão é como uma “folhaem branco”, onde nada foi escrito; uma “tábula rasa”, onde nada foi gravado.Somos como uma cera sem forma e sem nada impresso nela, até que aexperiência venha escrever na folha, gravar na tábula, dar forma à cera.Os empiristas inglesesNo decorrer da história da Filosofia muitos filósofos defenderam a tese empirista,mas os mais famosos e conhecidos são os filósofos ingleses dos séculos XVI aoXVIII, chamados, por isso, de empiristas ingleses: Francis Bacon, John Locke,George Berkeley e David Hume.Na verdade, o empirismo é uma característica muito marcante da filosofiainglesa. Na Idade Média, por exemplo, filósofos importantes como Roger Bacone Guilherme de Ockham eram empiristas; em nossos dias, Bertrand Russell foium empirista.Que dizem os empiristas?Nossos conhecimentos começam com a experiência dos sentidos, isto é, com assensações. Os objetos exteriores excitam nossos órgãos dos sentidos e vemoscores, sentimos sabores e odores, ouvimos sons, sentimos a diferença entre oáspero e o liso, o quente e o frio, etc.As sensações se reúnem e formam uma percepção; ou seja, percebemos umaúnica coisa ou um único objeto que nos chegou por meio de várias e diferentessensações. Assim, vejo uma cor vermelha e uma forma arredondada, aspiro umperfume adocicado, sinto a maciez e digo: “Percebo uma rosa”. A “rosa” é oresultado da reunião de várias sensações diferentes num único objeto depercepção.As percepções, por sua vez, se combinam ou se associam. A associação pode dar-se por três motivos: por semelhança, por proximidade ou contigüidade espacial epor sucessão temporal. A causa da associação das percepções é a repetição. Ouseja, de tanto algumas sensações se repetirem por semelhança, ou de tanto serepetirem no mesmo espaço ou próximas umas das outras, ou, enfim, de tanto serepetirem sucessivamente no tempo, criamos o hábito de associá-las. Essasassociações são as idéias.As idéias, trazidas pela experiência, isto é, pela sensação, pela percepção e pelohábito, são levadas à memória e, de lá, a razão as apanha para formar ospensamentos. – 88 –

Marilena Chauí _______________________________A experiência escreve e grava em nosso espírito as idéias, e a razão irá associá-las, combiná-las ou separá-las, formando todos os nossos pensamentos. Por isso,David Hume dirá que a razão é o hábito de associar idéias, seja por semelhança,seja por diferença.O exemplo mais importante (por causa das conseqüências futuras) oferecido porHume para mostrar como formamos hábitos racionais é o da origem do princípioda causalidade (razão suficiente).A experiência me mostra, todos os dias, que, se eu puser um líquido numrecipiente e levar ao fogo, esse líquido ferverá, saindo do recipiente sob a formade vapor. Se o recipiente estiver totalmente fechado e eu o destampar, recebereium bafo de vapor, como se o recipiente tivesse ficado pequeno para conter olíquido.A experiência também me mostra, todo o tempo, que se eu puser um objetosólido (um pedaço de vela, um pedaço de ferro) no calor do fogo, não só ele sederreterá, mas também passará a ocupar um espaço muito maior no interior dorecipiente. A experiência também repete constantemente para mim apossibilidade que tenho de retirar um objeto preso dentro de um outro, se euaquecer este último, pois, aquecido, ele solta o que estava preso no seu interior,parecendo alargar-se e aumentar de tamanho.Experiências desse tipo, à medida que vão se repetindo sempre da mesmamaneira, vão criando em mim o hábito de associar o calor com certos fatos.Adquiro o hábito de perceber o calor e, em seguida, um fato igual ou semelhantea outros que já percebi inúmeras vezes. E isso me leva a dizer: “O calor é a causadesses fatos”. Como os fatos são de aumento do volume ou da dimensão doscorpos submetidos ao calor, acabo concluindo: “O calor é a causa da dilataçãodos corpos” e também “A dilatação dos corpos é o efeito do calor”. É assim, dizHume, que nascem as ciências. São elas, portanto, hábito de associar idéias, emconseqüência das repetições da experiência.Ora, ao mostrar como se forma o princípio da causalidade, Hume não estádizendo apenas que as idéias da razão se originam da experiência, mas estáafirmando também que os próprios princípios da racionalidade são derivados daexperiência.Mais do que isso. A razão pretende, através de seus princípios, seusprocedimentos e suas idéias, alcançar a realidade em seus aspectos universais enecessários. Em outras palavras, pretende conhecer a realidade tal como é em simesma, considerando que o que conhece vale como verdade para todos ostempos e lugares (universalidade) e indica como as coisas são e como nãopoderiam, de modo al gum, ser de outra maneira (necessidade).Ora, Hume torna impossível tanto a universalidade quanto a necessidadepretendidas pela razão. O universal é apenas um nome ou uma palavra geral que – 89 –

Convite à Filosofia _______________________________usamos para nos referirmos à repetição de semelhanças percebidas e associadas.O necessário é apenas o nome ou uma palavra geral que usamos para nosreferirmos à repetição das percepções sucessivas no tempo. O universal, onecessário, a causalidade são meros hábitos psíquicos.Problemas do inatismoSe os princípios e as idéias da razão são inatos e por isso universais enecessários, como explicar que possam mudar?Por exemplo, Platão afirmava que a idéia de justiça era inata, vinha dacontemplação intelectual do justo em si ou do conhecimento racional das coisasjustas em si. Sendo inata, era universal e necessária.Sem dúvida, dizia o filósofo grego, os seres humanos variam muito nas suasopiniões sobre o justo e a justiça, pois essas opiniões se formam por experiênciae esta varia de pessoa para pessoa, de época para época, de lugar para lugar. Porisso mesmo, são simples opiniões.Uma idéia verdadeira, ao contrário, por ser verdadeira, é inata, universal enecessária, não sofrendo as variações das opiniões, que, além de serem variáveis,são, no mais das vezes, falsas, pois nossa experiência tende a ser enganosa ouenganada.Qual era a idéia platônica da justiça? Era uma idéia moral ou uma idéia política.Moralmente, uma pessoa é justa (pratica a idéia universal da justiça) quando fazcom que o intelecto ou a razão domine e controle inteira e completamente seusimpulsos passionais, seus sentimentos e suas emoções irracionais. Por quê?Porque o intelecto ou a razão é a parte melhor e superior de nossa alma ouespírito e deve dominar a parte inferior e pior, ligada aos desejos irracionais donosso corpo.Politicamente, uma sociedade é justa (isto é, pratica a idéia inata e universal dejustiça) quando nela as classes sociais se relacionam como na moral. Em outraspalavras, quando as classes inferiores forem dominadas e controladas pelasclasses superiores.A sociedade justa cria uma hierarquia ou uma escala de classes sociais e depoderes, onde a classe econômica, mais inferior, deve ser dominada e controladapela classe militar, para que as riquezas não provoquem desigualdades, egoísmos,guerras, violências; a classe militar, por sua vez, deve ser dominada e controladapela classe política para impedir que os militares queiram usar a força e aviolência contra a sociedade e fazer guerras absurdas. Enfim, a classe políticadeve ser dominada e controlada pelos sábios (a razão), que não deixarão que ospolíticos abusem do poder e prejudiquem toda a sociedade.Justiça, portanto, é o domínio da inteligência sobre os instintos, interesses epaixões, tanto no indivíduo quanto na sociedade. – 90 –

Marilena Chauí _______________________________Ora, o que acontece com a justiça moral platônica, isto é, com a idéia de umpoder total da razão sobre as paixões e os sentimentos, os desejos e os impulsos,com o surgimento da psicanálise? Freud, seu criador, mostrou que não temosesse poder, que nossa consciência, nossa vontade e nossa razão podem menosque o nosso inconsciente, isto é, do que o desejo. Como uma idéia inata, afinal,perdeu a verdade?O que acontece com a justiça política platônica quando alguns filósofos queestudaram a formação das sociedades e da política mostraram a igualdade detodos os cidadãos e afirmaram que nenhuma classe tem o direito de dominar econtrolar outras, e que tal domínio e controle é, exatamente, a injustiça? Comouma idéia inata, afinal, perdeu a verdade?Tomemos, agora, um outro exemplo, vindo da filosofia de Descartes.Descartes considera que a realidade natural é regida por leis universais enecessárias do movimento, isto é, que a natureza é uma realidade mecânica.Considera também que as leis mecânicas ou leis do movimento elaboradas porsua filosofia ou por sua física são idéias racionais deduzidas de idéias inatassimples e verdadeiras.Ora, quando comparamos a física de Descartes com a de Galileu, elaborada namesma época, verificamos que a física galileana é oposta à cartesiana e é a queserá provada e demonstrada verdadeira, a de Descartes sendo falsa. Comopoderia isso acontecer, se as idéias da física cartesiana eram idéias inatas?Os exemplos que propusemos indicam onde estão os dois grandes problemas doinatismo:1. a própria razão pode mudar o conteúdo de idéias que eram consideradasuniversais e verdadeiras (é o caso da idéia platônica de justiça);2. a própria razão pode provar que idéias racionais também podem ser falsas (é ocaso da física cartesiana).Se as idéias são racionais e verdadeiras, é porque correspondem à realidade. Ora,a realidade permanece a mesma e, no entanto, as idéias que a explicavamperderam a validade. Ou seja, o inatismo se depara com o problema da mudançadas idéias, feita pela própria razão, e com o problema da falsidade das idéias,demonstrada pela própria razão.Problemas do empirismoO empirismo, por sua vez, se defronta com um problema insolúvel.Se as ciências são apenas hábitos psicológicos de associar percepções e idéias porsemelhança e diferença, bem como por contigüidade espacial ou sucessãotemporal, então as ciências não possuem verdade alguma, não explicam realidadealguma, não alcançam os objetos e não possuem nenhuma objetividade. – 91 –

Convite à Filosofia _______________________________Ora, o ideal racional da objetividade afirma que uma verdade é uma verdadeporque corresponde à realidade das coisas e, portanto, não depende de nossosgostos, nossas opiniões, nossas preferências, nossos preconceitos, nossasfantasias, nossos costumes e hábitos. Em outras palavras, não é subjetiva, nãodepende de nossa vida pessoal e psicológica. Essa objetividade, porém, para oempirista, a ciência não pode oferecer nem garantir.A ciência, mero hábito psicológico ou subjetivo, torna-se afinal uma ilusão, e arealidade tal como é em si mesma (isto é, a realidade objetiva) jamais poderá serconhecida por nossa razão. Basta, por exemplo, que um belo dia eu ponha umlíquido no fogo e, em lugar de vê -lo ferver e aumentar de volume, eu o veja gelare diminuir de volume, para que toda a ciência desapareça, já que ela depende darepetição, da freqüência, do hábito de sempre percebermos uma certa sucessão defatos à qual, também por hábito, demos o nome de princípio da causalidade.Assim, do lado do empirismo, o problema colocado é o da impossibilidade doconhecimento objetivo da realidade.RESUMINDO…Do lado do inatismo, o problema pode ser formulado da seguinte maneira: comosão inatos, as idéias e os princípios da razão são verdades intemporais quenenhuma experiência nova poderá modificar.Ora, a História (social, política, científica e filosófica) mostra que idéias tidascomo verdadeiras e universais não possuíam essa validade e foram substituídaspor outras. Mas, por definição, uma idéia inata é sempre verdadeira e não podeser substituída por outra. Se for substituída, então não era uma idéia verdadeira e,não sendo uma idéia verdadeira, não era inata.Do lado do empirismo, o problema pode ser formulado da seguinte maneira: aracionalidade ocidental só foi possível porque a Filosofia e as ciênciasdemonstraram que a razão é capaz de alcançar a universalidade e a necessidadeque governam a própria realidade, isto é, as leis racionais que governam aNatureza, a sociedade, a moral, a política.Ora, a marca própria da experiência é a de ser sempre individual, particular esubjetiva. Se o conhecimento racional for apenas a generalização e a repetiçãopara todos os seres humanos de seus estados psicológicos, derivados de suasexperiências, então o que chamamos de Filosofia, de ciência, de ética, etc. sãonomes gerais para hábitos psíquicos e não um conhecimento racional verdadeirode toda a realidade, tanto a realidade natural quanto a humana.Problemas dessa natureza, freqüentes na história da Filosofia, suscitam,periodicamente, o aparecimento de uma corrente filosófica conhecida comoceticismo, para o qual a razão humana é incapaz de conhecer a realidade e porisso deve renunciar à verdade. O cético sempre manifesta explicitamente dúvidastoda vez que a razão tenha pretensão ao conhecimento verdadeiro do real. – 92 –

Marilena Chauí _______________________________ Capítulo 4 Os problemas do inatismo e do empirismo: soluções filosóficasInatismo e empirismo: questões e respostasVimos, no capítulo anterior, que a razão enfrenta problemas sérios quanto à suaintenção de ser conhecimento universal e necessário da realidade. Vimos tambémque, como conseqüência de conflitos e impasses entre o inatismo e o empirismo,surgiu na Filosofia a tendência ao ceticismo, isto é, passou-se a duvidar de que oconhecimento racional, como conhecimento certo, verdadeiro e inquestionável,seria possível.Neste capítulo vamos examinar algumas soluções propostas pela Filosofia pararesolver essa questão.Os problemas criados pela divergência entre inatistas e empiristas foramresolvidos em dois momentos: o primeiro é anterior à filosofia de David Hume eencontra-se na filosofia de Leibniz; o segundo é posterior à filosofia de Hume eencontra-se na filosofia de Kant.A solução de Leibniz no século XVIILeibniz estabeleceu uma distinção entre verdades de razão e verdades de fato.As verdades de razão enunciam que uma coisa é, necessária e universalmente,não podendo de modo algum ser diferente do que é e de como é. O exemplo maisevidente das verdades de razão são as idéias matemáticas. É impossível que otriângulo não tenha três lados e que a soma de seus ângulos não seja igual a somade dois ângulos retos; é impossível que um círculo não tenha todos os pontoseqüidistantes do centro e que não seja a figura formada pelo movimento de umsemi-eixo ao redor de um centro fixo; é impossível que 2 2 não seja igual a 4; éimpossível que o todo não seja maior do que as partes.As verdades de razão são inatas. Isso não significa que uma criança, porexemplo, nasça conhecendo a matemática e sabendo realizar operaçõesmatemáticas, demonstrar teoremas ou resolver problemas nessa área doconhecimento. Significa que nascemos com a capacidade racional, puramenteintelectual, para conhecer idéias que não dependem da experiência para seremformuladas e para serem verdadeiras.As verdades de fato, ao contrário, são as que dependem da experiência, poisenunciam idéias que são obtidas através da sensação, da percepção e da memória. – 93 –

Convite à Filosofia _______________________________As verdades de fato são empíricas e se referem a coisas que poderiam serdiferentes do que são, mas que são como são porque há uma causa para quesejam assim. Quando digo “Esta rosa é vermelha”, nada impede que ela pudesseser branca ou amarela, mas se ela é vermelha é porque alguma causa a fez serassim e uma outra causa poderia tê-la feito amarela. Mas não é acidental oucontingente que ela tenha cor e é a cor que possui uma causa necessária.As verdades de fato são verdades porque para elas funciona o princípio da razãosuficiente, segundo o qual tudo o que existe, tudo o que percebemos e tudoaquilo de que temos experiência possui uma causa determinada e essa causa podeser conhecida. Pelo princípio da razão suficiente – isto é, pelo conhecimento dascausas – todas as verdades de fato podem tornar-se verdades necessárias e seremconsideradas verdades de razão, ainda que para conhecê-las dependamos daexperiência.Observamos, assim, que, para Leibniz, o princípio da razão suficiente ou a idéiade causalidade universal e necessária permite manter as idéias inatas e as idéiasempíricas. É justamente o princípio da causalidade, como vimos, que será alvodas críticas dos empiristas, na filosofia de David Hume. Para esse filósofo, oprincípio da razão suficiente é apenas um hábito adquirido por experiência comoresultado da repetição e da freqüência de nossas impressões sensoriais. A críticade Hume à causalidade e ao princípio da razão suficiente leva à resposta de Kant.A solução kantianaA resposta aos problemas do inatismo e do empirismo oferecida pelo filósofoalemão do século XVIII, Immanuel Kant, é conhecida com o nome de “revoluçãocopernicana” em Filosofia. Por quê? Qual a relação entre Kant e o que fizeraCopérnico, quase dois séculos antes do kantismo?Vejamos, muito brevemente, o que foi a revolução copernicana em astronomiapara, depois, vermos o que foi ela em Filosofia.A tradição antiga e medieval considerava que o mundo possuía limites (ou seja, omundo era finito), sendo formado por um conjunto de sete esferas concêntricas,em cujo centro estava a Terra, imóvel. À volta da Terra giravam as esferas nasquais estavam presos os planetas (o Sol e a Lua eram considerados planetas). Emgrego, Terra se diz Gaia ou Geia. Como ela se encontrava no centro, o sistemaastronômico era chamado de geocêntrico e o mundo era explicado pelogeocentrismo.A revolução copernicana demonstrou que o sistema geocêntrico era falso e que:1. o mundo não é finito, mas é um Universo infinito;2. os astros não estão presos em esferas, mas fazem um movimento (comodemonstrará Kepler, depois de Copérnico), cuja forma é a de uma elipse;3. o centro do Universo não é a Terra; – 94 –

Marilena Chauí _______________________________4. o Sol (como já fora demonstrado por outros astrônomos) não é um planeta,mas uma estrela, e a Terra, como os outros planetas, gira ao redor dele;5. o próprio Sol também se move, mas não em volta da Terra.Em grego, Sol se diz Hélios e por isso o sistema de Copérnico é chamado deheliocêntrico, e sua explicação, de heliocentrismo, pois o Sol está no centro donosso sistema planetário e tudo se move ao seu redor.Voltemos agora a Kant e observemos o que ele diz.Inatistas e empiristas, isto é, todos os filósofos, parecem ser como astrônomosgeocêntricos, buscando um centro que não é verdadeiro. Parecem, diz Kant,como alguém que, querendo assar um frango, fizesse o forno girar em torno delee não o frango em torno do fogo.Qual o engano dos filósofos?Em lugar de, primeiro e antes de tudo, estudar o que é a própria razão e indagar oque ela pode e o que não pode conhecer, o que é a experiência e o que ela podeou não pode conhecer; em vez, enfim, de procurar saber o que é a verdade, osfilósofos preferiram começar dizendo o que a realidade é, afirmando que ela éracional e que, por isso, pode ser inteiramente conhecida pelas idéias da razão.Colocaram a realidade exterior ou os objetos do conhecimento no centro efizeram a razão, ou o sujeito do conhecimento, girar em torno deles.Façamos, pois, uma revolução copernicana em Filosofia: em vez de colocar nocentro a realidade objetiva ou os objetos do conhecimento, dizendo que sãoracionais e que podem ser conhecidos tais como são em si mesmos, comecemoscolocando no centro a própria razão.Não é a razão a Luz Natural? Não é ela o Sol que ilumina todas as coisas e emtorno do qual tudo gira? Comecemos, portanto, pela Luz Natural no centro doconhecimento e indaguemos: O que é ela? O que ela pode conhecer? Quais são ascondições para que haja conhecimento verdadeiro? Quais são os limites que oconhecimento humano não pode transpor? Como a razão e a experiência serelacionam?Comecemos, então, pelo sujeito do conhecimento. E comecemos mostrando queeste sujeito é a razão universal e não uma subjetividade pessoal e psicológica,que ele é o sujeito conhecedor e não Pedro, Paulo, Maria ou Isabel, esta ouaquela pessoa, este ou aquele indivíduo.O que é a razão?A razão é uma estrutura vazi a, uma forma pura sem conteúdos. Essa estrutura (enão os conteúdos) é que é universal, a mesma para todos os seres humanos, emtodos os tempos e lugares. Essa estrutura é inata, isto é, não é adquirida atravésda experiência. Por ser inata e não depender da experiência para existir, a razão é,do ponto de vista do conhecimento, anterior à experiência. Ou, como escreve – 95 –

Convite à Filosofia _______________________________Kant, a estrutura da razão é a priori (vem antes da experiência e não dependedela).Porém, os conteúdos que a razão conhece e nos quais ela pensa, esses sim,dependem da experiência. Sem ela, a razão seria sempre vazia, inoperante, nadaconhecendo. Assim, a experiência fornece a matéria (os conteúdos) doconhecimento para a razão e esta, por sua vez, fornece a forma (universal enecessária) do conhecimento. A matéria do conhecimento, por ser fornecida pelaexperiência, vem depois desta e por isso é, no dizer de Kant, a posteriori.Qual o engano dos inatistas? Supor que os conteúdos ou a matéria doconhecimento são inatos. Não existem idéias inatas.Qual o engano dos empiristas? Supor que a estrutura da razão é adquirida porexperiência ou causada pela experiência. Na verdade, a experiência não é causadas idéias, mas é a ocasião para que a razão, recebendo a matéria ou o conteúdo,formule as idéias.Dessa maneira, a estrutura da razão é inata e universal, enquanto os conteúdossão empíricos e podem variar no tempo e no espaço, podendo transformar-se comnovas experiências e mesmo revelarem-se falsos, graças a experiências novas.O que é o conhecimento racional, sem o qual não há Filosofia nem ciência?É a síntese que a razão realiza entre uma forma universal inata e um conteúdoparticular oferecido pela experiência.Qual é a estrutura da razão?A razão é constituída por três estruturas a priori:1. a estrutura ou forma da sensibilidade, isto é, a estrutura ou forma da percepçãosensível ou sensorial;2. a estrutura ou forma do entendimento, isto é, do intelecto ou inteligência;3. a estrutura ou forma da razão propriamente dita, quando esta não se relacionanem com os conteúdos da sensibilidade, nem com os conteúdos do entendimento,mas apenas consigo mesma. Como, para Kant, só há conhecimento quando aexperiência oferece conteúdos à sensibilidade e ao entendimento, a razão,separada da sensibilidade e do entendimento, não conhece coisa alguma e não ésua função conhecer. Sua função é a de regular e controlar a sensibilidade e oentendimento. Do ponto de vista do conhecimento, portanto, a razão é a funçãoreguladora da atividade do sujeito do conhecimento.A forma da sensibilidade é o que nos permite ter percepções, isto é, a forma éaquilo sem o que não pode haver percepção, sem o que a percepção seriaimpossível. Percebemos todas as coisas como dotadas de figura, dimensões(altura, largura, comprimento), grandeza: ou seja, nós as percebemos comorealidades espaciais. – 96 –

Marilena Chauí _______________________________Não interessa se cada um de nós vê cores de uma certa maneira, gosta mais deuma cor ou de outra, ouve sons de uma certa maneira, gosta mais de certos sonsdo que de outros, etc. O que importa é que nada pode ser percebido por nós senão possuir propriedades espaciais; por isso, o espaço não é algo percebido, masé o que permite haver percepção (percebemos lugares, posições, situações, masnão percebemos o próprio espaço). Assim, o espaço é a forma a priori dasensibilidade e existe em nossa razão antes e sem a experiência.Também só podemos perceber as coisas como simultâneas ou sucessivas:percebemos as coisas como se dando num só instante ou em instantes sucessivos.Ou seja, percebemos as coisas como realidades temporais. Não percebemos otempo (temos a experiência do passado, do presente e do futuro, porém nãotemos percepção do próprio tempo), mas ele é a condição de possibilidade dapercepção das coisas e é a outra forma a priori da sensibilidade que existe emnossa razão antes da experiência e sem a experiência.A percepção recebe conteúdos da experiência e a sensibilidade organizaracionalmente segundo a forma do espaço e do tempo. Essa organização espaço-temporal dos objetos do conhecimento é que é inata, universal e necessária.O entendimento, por sua vez, organiza os conteúdos que lhe são enviados pelasensibilidade, isto é, organiza as percepções. Novamente o conteúdo é oferecidopela experiência sob a forma do espaço e do tempo, e a razão, através doentendimento, organiza tais conteúdos empíricos.Essa organização transforma as percepções em conhecimentos intelectuais ou emconceitos. Para tanto, o entendimento possui a priori (isto é, antes da experiênciae independente dela) um conjunto de elementos que organizam os conteúdosempíricos. Esses elementos são chamados de categorias e sem elas não podehaver conhecimento intelectual, pois são as condições para tal conhecimento.Com as categorias a priori, o sujeito do conhecimento formula os conceitos.As categorias organizam os dados da experiência segundo a qualidade, aquantidade, a causalidade, a finalidade, a verdade, a falsidade, a universalidade, aparticularidade. Assim, longe de a causalidade, a qualidade e a quantidade seremresultados de hábitos psicológicos associativos, eles são os instrumentosracionais com os quais o sujeito do conhecimento organiza a realidade e aconhece. As categorias, estruturas vazias, são as mesmas em toda época e emtodo lugar, para todos os seres racionais.Graças à universalidade e à necessidade das categorias, as ciências são possíveise válidas; o empirismo, portanto, está equivocado.Em instante algum Kant admite que a realidade, em si mesma, é espacial,temporal, qualitativa, quantitativa, causal, etc. Isso seria regredir ao fornogirando em torno do frango. O que Kant afirma é que a razão e o sujeito doconhecimento possuem essas estruturas para poder conhecer e que, por serem – 97 –

Convite à Filosofia _______________________________elas universais e necessárias, o conhecimento é racional e verdadeiro para osseres humanos.É isso que a razão pode. O que ela não pode (e nisso inatistas e empiristas seenganaram) é supor que com suas estruturas passe a conhecer a realidade talcomo esta é em si mesma. A razão conhece os objetos do conhecimento. Oobjeto do conhecimento é aquele conteúdo empírico que recebeu as formas e ascategorias do sujeito do conhecimento. A razão não está nas coisas, mas em nós.A razão é sempre razão subjetiva e não pode pretender conhecer a realidade talcomo ela seria em si mesma, nem pode pretender que exista uma razão objetivagovernando as próprias coisas.O erro dos inatistas e empiristas foi o de supor que nossa razão alcança arealidade em si. Para um inatista como Descartes, a realidade em si é espacial,temporal, qualitativa, quantitativa, causal. Para um empirista como Hume, arealidade em si pode ou não repetir fatos sucessivos no tempo, pode ou nãorepetir fatos contíguos no espaço, pode ou não repetir as mesmas seqüências deacontecimentos.Para Kant, jamais poderemos saber se a realidade em si é espacial, temporal,causal, qualitativa, quantitativa. Mas sabemos que nossa razão possui umaestrutura universal, necessária e a priori que organiza necessariamente arealidade em termos das formas da sensibilidade e dos conceitos e categorias doentendimento. Como razão subjetiva, nossa razão pode garantir a verdade daFilosofia e da ciência.A resposta de HegelUm filósofo alemão do século XIX, Hegel, ofereceu uma solução para oproblema do inatismo e do empirismo posterior à de Kant.Hegel criticou o inatismo, o empirismo e o kantismo. A todos endereçou amesma crítica, qual seja, a de não haverem compreendido o que há de maisfundamental e de mais essencial à razão: a razão é histórica.De fato, a Filosofia, preocupada em garantir a diferença entre a mera opinião(“eu acho que”, “eu gosto de”, “eu não gosto de”) e a verdade (“eu penso que”,“eu sei que”, “isto é assim porque”), considerou que as idéias só seriam racionaise verdadeiras se fossem intemporais, perenes, eternas, as mesmas em todo tempoe em todo lugar. Uma verdade que mudasse com o tempo ou com os lugares seriamera opinião, seria enganosa, não seria verdade. A razão, sendo a fonte e acondição da verdade, teria também que ser intemporal.É essa intemporalidade atribuída à verdade e à razão que Hegel criticou em todaa Filosofia anterior.Ao afirmar que a razão é histórica, Hegel não está, de modo algum, dizendo quea razão é algo relativo, que vale hoje e não vale amanhã, que serve aqui e nãoserve ali, que cada época não alcança verdades universais. Não. O que Hegel está – 98 –

Marilena Chauí _______________________________dizendo é que a mudança, a transformação da razão e de seus conteúdos é obraracional da própria razão. A razão não é uma vítima do tempo, que lhe roubaria averdade, a universalidade, a necessidade. A razão não está na História; ela é aHistória. A razão não está no tempo; ela é o tempo. Ela dá sentido ao tempo.Hegel também fez uma crítica aos inatistas e aos empiristas muito semelhante àque Kant fizera. Ou seja, inatistas e empiristas acreditam que o conhecimentoracional vem das próprias coisas para nós, que o conhecimento dependeexclusivamente da ação das coisas sobre nós, e que a verdade é acorrespondência entre a coisa e a idéia da coisa.Para o empirista, a realidade “entra” em nós pela experiência. Para o inatista averdade “entra” em nós pelo poder de uma força espiritual que a coloca em nossaalma, de modo que as idéias inatas não são produzidas pelo próprio sujeito doconhecimento ou pela própria razão, mas são colocadas em nós por uma forçasábia e superior a nós (como Deus, por exemplo). Assim, o conhecimento parecedepender inteiramente de algo que vem de fora para dentro de nós. No caso dosinatistas, depende da divindade; no caso dos empiristas, depende da experiênciasensível.Inatistas e empiristas se enganaram por excesso de objetivismo, isto é, porjulgarem que o conhecimento racional dependeria inteiramente dos objetos doconhecimento.Mas Kant também se enganou e pelo motivo oposto, isto é, por excesso desubjetivismo, por acreditar que o conhecimento racional dependeriaexclusivamente do sujeito do conhecimento, das estruturas da sensibilidade e doentendimento.A razão, diz Hegel, não é nem exclusivamente razão objetiva (a verdade está nosobjetos) nem exclusivamente subjetiva (a verdade está no sujeito), mas ela é aunidade necessária do objetivo e do subjetivo. Ela é o conhecimento daharmonia entre as coisas e as idéias, entre o mundo exterior e a consciência, entreo objeto e o sujeito, entre a verdade objetiva e a ve rdade subjetiva. O que é afinala razão para Hegel?A razão é:1. o conjunto das leis do pensamento, isto é, os princípios, os procedimentos doraciocínio, as formas e as estruturas necessárias para pensar, as categorias, asidéias – é razão subjetiva;2. a ordem, a organização, o encadeamento e as relações das próprias coisas, istoé, a realidade objetiva e racional – é razão objetiva;3. a relação interna e necessária entre as leis do pensamento e as leis do real. Elaé a unidade da razão subjetiva e da razão objetiva.Por que a razão é histórica? – 99 –

Convite à Filosofia _______________________________A unidade ou harmonia entre o objetivo e o subjetivo, entre a realidade das coisase o sujeito do conhecimento não é um dado eterno, algo que existiu desde todo osempre, mas é uma conquista da razão e essa conquista a razão realiza no tempo.A razão não tem como ponto de partida essa unidade, mas a tem como ponto dechegada, como resultado do percurso histórico ou temporal que ela própriarealiza.Qual o melhor exemplo para compreender o que Hegel quer dizer? O m elhorexemplo é o que acabamos de ver nos capítulos 2 e 3 desta unidade.Vimos que os inatistas começaram combatendo a suposição de que opinião everdade são a mesma coisa. Para livrarem-se dessa suposição, o que fizerameles? Disseram que a opinião pertence ao campo da experiência sensorial,pessoal, psicológica, instável e que as idéias da razão são inatas, universais,necessárias, imutáveis.Os empiristas, no entanto, negaram que os inatistas tivessem acertado, negaramque as idéias pudessem ser inatas e fizeram a razão depender da experiênciapsicológica ou da percepção. Ao fazê-lo, revelaram os pontos fracos dos inatistas,mas abriram o flanco para um problema que não podiam resolver, isto é, avalidade das ciências.A filosofia kantiana negou, então, que inatistas e empiristas estivessem certos.Negou que pudéssemos conhecer a realidade em si das coisas, negou que a razãopossuísse conteúdos inatos, mostrando que os conteúdos dependem daexperiência; mas negou também que a experiência fosse a causa da razão, ou queesta fosse adquirida, pois possui formas e estruturas inatas. Kant deu prioridadeao sujeito do conhecimento, enquanto empiristas e inatistas davam prioridade aoobjeto do conhecimento.Que diz Hegel? Que esses conflitos filosóficos são a história da razão buscandoconhecer-se a si mesma e que, graças a tais conflitos, graças às contradições entreas filosofias, a Filosofia pode chegar à descoberta da razão como síntese, unidadeou harmonia das teses opostas ou contraditórias.Em cada momento de sua história, a razão produziu uma tese a respeito de simesma e, logo a seguir, uma tese contrária à primeira ou uma antítese. Cada tesee cada antítese foram momentos necessários para a razão conhecer-se cada vezmais. Cada tese e cada antítese foram verdadeiras, mas parciais. Sem elas, arazão nunca teria chegado a conhecer-se a si mesma. Mas a razão não pode ficarestacionada nessas contradições que ela própria criou, por uma necessidade delamesma: precisa ultrapassá-las numa síntese que una as teses contrárias,mostrando onde está a verdade de cada uma delas e conservando essa verdade.Essa é a razão histórica. – 100 –

Marilena Chauí _______________________________Empiristas, kantianos e hegelianosEmbora Hegel tenha proposto sintetizar a história da razão, considerando,portanto, que inatistas, empiristas e kantianos eram parte do passado dessahistória, isso não significa que todos os filósofos tenham aceitado a soluçãohegeliana como resposta final.Assim, os empiristas não desapareceram. Reformularam muitas de suas teses eposições, mas permaneceram empiristas. Em outras palavras, persiste, naFilosofia, uma corrente empirista. Foi também o que aconteceu com os filósofosinatistas; o mesmo pode ser dito com relação aos que adotaram a filosofiakantiana. Reformularam teses, acrescentaram novas idéias e perspectivas, mas semantiveram kantianos.Há os que aceitaram a solução hegeliana, assim como há os que a recusaram edos quais falaremos no próximo capítulo. – 101 –

Convite à Filosofia _______________________________ Capítulo 5 A razão na Filosofia contemporâneaA razão históricaConforme vimos no capítulo anterior, nem todos os filósofos aceitaram a soluçãohegeliana para as dificuldades criadas para a razão com o conflito entre inatismoe empirismo.É o caso do filósofo alemão Edmund Husserl, criador da fenomenologia (quedescreve as estruturas da consciência), que manteve o inatismo, mas com ascontribuições trazidas pelo kantismo. Em outras palavras, a fenomenologiaconsidera a razão uma estrutura da consciência (como Kant), mas cujosconteúdos são produzidos por ela mesma, independentemente da experiência(diferentemente do que dissera Kant).O que chamamos de “mundo” ou “realidade”, diz Husserl, não é um conjunto ouum sistema de coisas e pessoas, animais e vegetais. O mundo ou a realidade é umconjunto de significações ou de sentidos que são produzidos pela consciência oupela razão. A razão é “doadora do sentido ” e ela “constitui a realidade” enquantosistemas de significações que dependem da estrutura da própria consciência.As significações não são pessoais, psicológicas, sociais, mas universais enecessárias. Elas são as essências, isto é, o sentido impessoal, intemporal,universal e necessário de toda a realidade, que só existe para a consciência e pelaconsciência. A razão é razão subjetiva que cria o mundo como racionalidadeobjetiva. Isto é, o mundo tem sentido objetivo porque a razão lhe dá sentido.Assim, por exemplo, a razão não estuda os conteúdos psicológicos de minha vidapessoal, mas pergunta: O que é a vida psíquica? O que são e como são amemória, a imaginação, a sensação, a percepção?A pergunta “O que é?” não se refere a uma descrição dos processos mentais efísicos que nos fazem lembrar, imaginar, sentir ou perceber. Essa pergunta serefere à descrição do sentido da memória, da imaginação, da sensação, dapercepção, isto é, se refere à essência delas, independentemente de nossasexperiências psicológicas pessoais. A fenomenologia não indaga, por exemplo,se uma certa idéia ou uma certa opinião são causadas pela vida em sociedade,mas pergunta: O que é o social? O que é a sociedade? As respostas a essasperguntas formam as significações ou essências e são elas o conteúdo que aprópria razão oferece a si mesma para dar sentido à realidade. – 102 –

Marilena Chauí _______________________________A fenomenologia afasta-se, portanto, da solução hegeliana, pois não admite queas formas e os conteúdos da razão mudem no tempo e com o tempo. Elas seenriquecem e se ampliam no tempo, mas não se transformam por causa dotempo.Razão e sociedadeDiferentemente da fenomenologia, outros filósofos, como os que criaram achamada Escola de Frankfurt ou Teoria Crítica, adotam a solução hegeliana, mascom uma modificação fundamental. Os filósofos dessa Escola, como TheodorAdorno, Herbert Marcuse e Max Horkheimer, têm uma formação marxista e, porisso, recusam a idéia hegeliana de que a História é obra da própria razão, ou queas transformações históricas da razão são realizadas pela própria razão, sem queesta seja condicionada ou determinada pelas condições sociais, econômicas epolíticas.Para esses filósofos, o engano de Hegel está, em primeiro lugar, na suposição deque a razão seja uma força histórica autônoma (isto é, não condicionada pelasituação material ou econômica, social e política de uma época), e, em segundolugar, na suposição de que a razão é a força histórica que cria a própriasociedade, a política, a cultura. Para esses filósofos, Hegel está correto quandoafirma que as mudanças históricas ocorrem pelos conflitos e contradições, masestá enganado ao supor que tais conflitos se dão entre diferentes formas da razão,pois eles se dão como conflitos e contradições sociais e políticas, modificando aprópria razão.Os filósofos da Teoria Crítica consideram que existem, na verdade, duasmodalidades da razão: a razão instrumental ou razão técnico-científica, que estáa serviço da exploração e da dominação, da opressão e da violência, e a razãocrítica ou filosófica, que reflete sobre as contradições e os conflitos sociais epolíticos e se apresenta como uma força liberadora.A Escola de Frankfurt mantém a idéia hegeliana de que há uma continuidadetemporal ou histórica entre a forma anterior da racionalidade e a forma seguinte:a razão moderna, por exemplo, não surge de repente e do nada, mas resulta decontradições e conflitos sócio-políticos do final da Idade Média e da Renascença,de modo que, ao superar a racionalidade medieval e renascentista, nasce comoracionalidade moderna.Cada nova forma da racionalidade é a vitória sobre os conflitos das formasanteriores, sem que haja ruptura histórica entre elas. Mudanças sociais, políticas eculturais determinam mudanças no pensamento, e tais mudanças são a soluçãorealizada pelo tempo presente para os conflitos e as contradições do passado.A razão não determina nem condiciona a sociedade (como julgara Hegel), mas édeterminada e condicionada pela sociedade e suas mudanças. Assim, os inatistasse enganam ao supor a imutabilidade dos conteúdos da razão e os empiristas se – 103 –

Convite à Filosofia _______________________________enganam ao supor que as mudanças são acarretadas por nossas experiências,quando, na verdade, são produzidas por transformações globais de umasociedade.Razão e descontinuidade temporalNos anos 60, desenvolveu-se, sobretudo na França, uma corrente científica(iniciado na lingüística e na antropologia social) chamada estruturalismo. Paraos estruturalistas, o mais importante não é a mudança ou a transformação de umarealidade (de uma língua, de uma sociedade indígena, de uma teoria científica),mas a estrutura ou a forma que ela tem no presente.A estrutura passada e a estrutura futura são consideradas estruturas diferentesentre si e diferentes da estrutura presente, sem que haja interesse em acompanhartemporalmente a passagem de uma estrutura para outra. Assim, o estruturalismocientífico desconsidera a posição filosófica de tipo hegeliano, tendo maiorafinidade com a kantiana. O estruturalismo teve uma grande influência sobre opensamento filosófico e isso se refletiu na discussão sobre a razão.Se observarmos bem, notaremos que a solução hegeliana revela uma concepçãocumulativa e otimista da razão:? Cumulativa: Hegel considera que a razão, na batalha interna entre teses eantíteses, vai sendo enriquecida, vai acumulando conhecimentos cada vezmaiores sobre si mesma, tanto como conhecimento da racionalidade do real(razão objetiva), quanto como conhecimento da capacidade racional para oconhecimento (razão subjetiva).? Otimista: para Hegel, a razão possui força para não se destruir a si mesma emsuas contradições internas; ao contrário, supera cada uma delas e chega a umasíntese harmoniosa de todos os momentos que constituíram a sua história.Influenciados pelo estruturalismo, vários filósofos franceses, como MichelFoucault, Jacques Derrida e Giles Delleuze, estudando a história da Filosofia, dasciências, da sociedade, das artes e das técnicas, disseram que, sem dúvida, arazão é histórica – isto é, muda temporalmente – mas essa história não écumulativa, evolutiva, progressiva e contínua. Pelo contrário, é descontínua, serealiza por saltos e cada estrutura nova da razão possui um sentido próprio,válido apenas para ela.Dizem eles que uma teoria (filosófica ou científica) ou uma prática (ética,política, artística) são novas justamente quando rompem as concepções anteriorese as substituem por outras completamente diferentes, não sendo possível fal arnuma continuidade progressiva entre elas, pois são tão diferentes que não hácomo nem por que compará-las e julgar uma delas mais atrasada e a outra maisadiantada.Assim, por exemplo, a teoria da relatividade, elaborada por Einstein, não écontinuação evoluída e melhorada da física clássica, formulada por Galileu e – 104 –

Marilena Chauí _______________________________Newton, mas é uma outra física, com conceitos, princípios e procedimentoscompletamente novos e diferentes. Temos duas físicas diferentes, cada qual comseu sentido e valor próprio.Não se pode falar num processo, numa evolução ou num avanço da razão a cadanova teoria, pois a novidade significa justamente que se trata de algo tão novo,tão diferente e tão outro que será absurdo falar em continuidade e avanço. Não hácomo dizer que as idéias e as teorias passadas são falsas, erradas ou atrasadas:elas simplesmente são diferentes das outras porque se baseiam em princípios,interpretações e conceitos novos.Em cada época de sua história, a razão cria modelos ou paradigmas explicativospara os fenômenos ou para os objetos do conhecimento, não havendocontinuidade nem pontos comuns entre eles que permitam compará-los. Agora,em lugar de um processo linear e contínuo da razão, fala-se na invenção deformas diferentes de racionalidade, de acordo com critérios que a própria razãocria para si mesma. A razão grega é diferente da medieval que, por sua vez, édiferente da renascentista e da moderna. A razão moderna e a iluminista tambémsão diferentes, assim como a razão hegeliana é diferente da contemporânea.Por que ainda falamos em razão?Diante das concepções descontinuístas da razão, podemos fazer duas perguntas:1ª. Se, em cada época, por motivos históricos e teóricos determinados, a razãomuda inteiramente, o que queremos dizer quando continuamos empregando apalavra razão?2ª. Se, em cada ciência, cada filosofia, cada teoria, cada expressão dopensamento, nada há em comum com as anteriores e as posteriores, por quedizemos que algumas são racionais e outras não o são? A razão não seria, afinal,um mito que nossa cultura inventou para si mesma?Podemos responder à primeira pergunta dizendo que continuamos a falar emrazão, apesar de haver muitas e diferentes “razões”, porque mantemos uma idéiaque é essencial à noção ocidental de razão. Que idéia é essa? A de que arealidade, o mundo natural e cultural, os seres humanos, sua ações e obras têmsentido e que esse sentido pode ser conhecido. É o ideal do conhecimentoobjetivo que é conservado quando continuamos a falar em razão.Com relação à segunda pergunta, podemos dizer que, em cada época, osmembros da sociedade e da cultura ocidentais julgam a validade da própria razãocomo capaz ou incapaz de realizar o ideal do conhecimento. Esse julgamentopode ser realizado de duas maneiras.A primeira maneira ou o primeiro critério de avaliação da capacidade racional é oda coerência interna de um pensamento ou de uma teoria. Ou seja, quando umpensamento ou uma teoria se propõem a oferecer um conhecimento,simultaneamente também oferecem os princípios, os conceitos e os – 105 –

Convite à Filosofia _______________________________procedimentos que sustentam a explicação apresentada. Quando não hácompatibilidade entre a explicação e os princípios, os conceitos e osprocedimentos oferecidos, dizemos que não há coerência e que o pensamento oua teoria não são racionais. A razão é, assim, o critério de que dispomos para aavaliação, o instrumento para julgar a validade de um pensamento ou de umateoria, julgando sua coerência ou incoerência consigo mesmos.A segunda maneira é diferente da anterior. Agora, pergunta-se se um pensamentoou uma teoria contribuem ou não para que os seres humanos conheçam ecompreendam as circunstâncias em que vivem, contribuem ou não para alterarsituações que os seres humanos julgam inaceitáveis ou intoleráveis, contribuemou não para melhorar as condições em que os seres humanos vivem. Assim, arazão, além de ser o critério para avaliar os conhecimentos, é também uminstrumento crítico para compreendermos as circunstâncias em que vivemos, paramudá-las ou melhorá-las. A razão tem um potencial ativo ou transformador e porisso continuamos a falar nela e a desejá-la.Razão e realidadeOs dois critérios vistos acima – a coerência interna de um pensamento ou de umateoria e o potencial crítico-transformador dos conhecimentos – também nosajudam a perceber quando a razão vira mito e deixa de ser razão.Analisemos como exemplo as teorias que defendem o racismo e que são tidascomo científicas ou racionais.As teorias racistas se apresentam usando princípios, conceitos e procedimentos(ou métodos) racionais, científicos. Fazem pesquisas biológicas, genéticas,químicas, sociológicas; usam a indução e a dedução; definem conceitos, inferemconclusões dos dados obtidos por experiência e por cálculos estatísticos. Usandotais procedimentos, fazem demonstrações e por meio delas pretendem provar:1. que existem raças;2. que as raças são biológica e geneticamente diferentes;3. que há raças atrasadas e adiantadas, inferiores e superiores;4. que as raças atrasadas e inferiores não são capazes, por exemplo, dedesenvo lvimento intelectual e estão naturalmente destinadas ao trabalho manual,pois sua razão é muito pequena e não conseguem compreender as idéias maiscomplexas e avançadas;5. que as raças adiantadas e superiores estão naturalmente destinadas a dominar oplaneta e que, se isso for necessário para seu bem, têm o direito de exterminar asraças atrasadas e inferiores;6. que, para o bem das raças inferiores e das superiores, deve haver segregaçãoracial (separação dos locais de moradia, de trabalho, de educação, de lazer, etc.),pois a não-segregação pode fazer as inferiores arrastarem as superiores para seu – 106 –

Marilena Chauí _______________________________baixo nível, assim como pode fazer as superiores tentarem inutilmente melhoraro nível das inferiores.Ora, a razão pode demonstrar que a “racionalidade ” racista é irracional e que estáa serviço da violência, da ignorância e da destruição.Assim, a biologia e a genética demonstram que há diferenças na formaçãoanatômico-fisiológica dos seres humanos em decorrência de diferenças internasdo organismo e de diferenças ecológicas, isto é, do meio ambiente, e que taisdiferenças não produzem “raças ”. “Raça”, portanto, é uma palavra inventada paraavaliar, julgar e manipular as diferenças biológicas e genéticas.A sociologia, a antropologia e a história demonstram que as diferenças que abiologia e a genética apresentam não decorrem somente das diferenças nascondições ambientais, mas também são produzidas pelas diferentes maneiraspelas quais os grupos sociais definem as relações de trabalho, de parentesco, asformas de avaliação, de vestuário, de habitação, etc. Essas diferenças nãoformam “raças ” e, portanto, “raça” é uma palavra inventada para avaliar, julgar emanipular tais diferenças.A ciência política e econômica demonstra que, no interior de uma mesmasociedade, formam-se grupos e classes sociais que se apropriam das riquezas e dopoder, colocam (pela força, pelo medo, pela superstição, pela mentira, pelailusão) outros grupos e classes sociais sob sua dominação e justificam tal fatoafirmando que tais grupos ou classes são inferiores e que possuem característicasfísicas e mentais que os fazem ser uma “raça inferior”. “Raça”, portanto, nãoexiste. É uma palavra inventada para legitimar a exploração e a dominação queum grupo social e político exerce sobre os outros grupos.A psicologia demonstra que as capacidades mentais de todos os grupos e classessociais de uma cultura são iguais, mas que se manifestam de modos diferenciadosdependendo dos modos de vida, de trabalho, de acesso à escola e à educaçãoformal, das crenças religiosas, de valores morais e artísticos diferentes, etc. Essasdiferenças não formam “raças ” e, portanto, “raça” é uma palavra inventada paratransformar as diferenças em justificativas para discriminações e exclusões.A Filosofia, recolhendo fatos, dados, resultados e demonstrações feitos pelasvárias ciências, pode, então, concluir dizendo que:1. a teoria do racismo é falsa, não é científica e é irracional;2. a teoria “científica” do racismo é, na verdade, uma prática (e não uma teoria)econômica, social, política e cultural para justificar a violência contra sereshumanos e, portanto, é inaceitável para as ciências, para a Filosofia e para arazão. Uma “razão” racista não é razão, mas ignorância, preconceito, violência eirrazão. – 107 –

Convite à Filosofia _______________________________RECAPITULANDO…No caminho que fizemos até aqui (sobretudo no capítulo 4 da unidade 1 e noscapítulos 2 e 3 da unidade 2) notamos que a Filosofia e a razão estão na Históriae possuem uma história. Notamos também que as respostas filosóficas aosdilemas criados pelo inatismo e pelo empirismo se transformaram em novasdificuldades e novos problemas. Vimos, finalmente, que as concepçõescontemporâneas da razão são tão radicais que chegamos a indagar se aindapoderíamos continuar falando em razão.A essa indagação procuramos responder mostrando que a permanência da razãose deve ao fato de considerarmos que a realidade (natural, social, cultural,histórica) tem sentido e que este pode ser conhecido, mesmo quando issoimplique modificar a noção de razão e alargá-la.Dissemos também que a razão permanece porque a própria razão exige que seutrabalho de conhecimento seja julgado por ela mesma, e que, para essejulgamento da racionalidade dos conhecimentos e das ações, a razão oferece doiscritérios principais:1. o critério lógico da coerência interna de um pensamento ou de uma teoria, istoé, a avaliação da compatibilidade e da incompatibilidade entre os princípios,conceitos, definições e procedimentos empregados e as conclusões ou resultadosobtidos;2. o critério ético-político do papel da razão e do conhecimento para acompreensão das condições em que vivem os seres humanos e para suamanutenção, melhoria ou transformação.Aprendendo com as dificuldades da razãoVimos também que:1. mesmo quando os filósofos, para resolver os impasses do inatismo, doempirismo e do kantismo, afirmam que a razão é histórica, nem por issoentendem a mesma coisa;2. dizer que a razão é histórica pode significar: a razão evolui, progridecontinuamente no tempo, avança e se torna cada vez melhor; mas também podesignificar: a razão muda radicalmente em cada época, sua história é feita derupturas e descontinuidades e não há como, nem por que comparar as diferentesformas da racionalidade, cada qual tendo sua necessidade própria e seu valorpróprio para o momento em que foi proposta;3. dizer que a história da razão é descontínua poderia levar a pensar que, afinal, apalavra razão não indica nada de muito preciso, nada de muito claro e rigoroso eque, talvez, seja um mito que a cultura ocidental inventou para si mesma. Maspode também significar uma outra coisa, muito mais importante: que a razão nãoé a estrutura universal do espírito humano e sim um meio precioso de que – 108 –

Marilena Chauí _______________________________dispomos para criar, julgar e avaliar conhecimentos, para dar sentido às coisas, àssituações e aos acontecimentos e para transformar nossa existência individual ecoletiva.Ora, o que fizemos até aqui foi um percurso no qual a razão não cessa de indagara si mesma o que ela é, o que ela pode e vale, por que ela existe. As crises darazão são enfrentadas por ela, na medida em que são criadas por ela mesma emsua relação com a produção dos conhecimentos e com as condições históricas nasquais ela se realiza.É verdade que tomar a razão pelo prisma de suas dificuldades e de seus impassespode levar ao risco de cairmos na atitude cética, isto é, na posição dos que nãoacreditam que a razão seja capaz de conhecimentos verdadeiros. Isso, no entanto,só aconteceria se imaginássemos que a razão deveria ser imutável, intemporal ea-histórica e, portanto, algo que estaria em nós, mas que seria completamentediferente de nós, já que somos mutáveis, temporais e históricos. O cético é,afinal, aquele que, no fundo, deseja uma razão absoluta (impossível) e por issodespreza a razão humana tal como ela existe, pois da forma como ela existe, ele,o cético, não pode conhecê-la.Podemos dizer ainda que tomar a razão pelo prisma de suas dificuldades e deseus impasses, de suas conquistas e perdas é a melhor vacina que a Filosofiapossui contra uma doença intelectual muito perigosa chamada dogmatismo.Dogmatismo vem da palavra grega dogma, que significa: uma opiniãoestabelecida por decreto e ensinada como uma doutrina, sem contestação. Por seruma opinião decretada ou uma doutrina inquestionada, um dogma é tomadocomo uma verdade que não pode ser contestada nem criticada, como acontece,por exemplo, na nossa vida cotidiana, quando, diante de uma pergunta ou de umadúvida que apresentamos, nos respondem: “É assim porque é assim e porque temque ser assim”. O dogmatismo é uma atitude autoritária e submissa. Autoritária,porque não admite dúvida, contestação e crítica. Submissa, porque se curva àsopiniões estabelecidas.As crises, as dificuldades e os impasses da razão mostram, assim, o oposto dodogmatismo. Indicam atitude reflexiva e crítica própria da racionalidade,destacando a importância fundamental da liberdade de pensamento para a própriarazão e para a Filosofia. – 109 –

Marilena Chauí _______________________________ Capítulo 1 Ignorância e verdadeA verdade como um valor“Não se aprende Filosofia, mas a filosofar”, já disse Kant. A Filosofia não é umconjunto de idéias e de sistemas que possamos apreender automaticamente, não éum passeio turístico pelas paisagens intelectuais, mas uma decisão ou deliberaçãoorientada por um valor: a verdade. É o desejo do verdadeiro que move a Filosofiae suscita filosofias.Afirmar que a verdade é um valor significa: o verdadeiro confere às coisas, aosseres humanos, ao mundo um sentido que não teriam se fossem consideradosindiferentes à verdade e à falsidade.Ignorância, incerteza e insegurançaIgnorar é não saber alguma coisa. A ignorância pode ser tão profunda que sequera percebemos ou a sentimos, isto é, não sabemos que não sabemos, não sabemosque ignoramos. Em geral, o estado de ignorância se mantém em nós enquanto ascrenças e opiniões que possuímos para viver e agir no mundo se conservam comoeficazes e úteis, de modo que não temos nenhum motivo para duvidar delas,nenhum motivo para desconfiar delas e, conseqüentemente, achamos quesabemos tudo o que há para saber.A incerteza é diferente da ignorância porque, na incerteza, descobrimos quesomos ignorantes, que nossas crenças e opiniões parecem não dar conta darealidade, que há falhas naquilo em que acreditamos e que, durante muito tempo,nos serviu como referência para pensar e agir. Na incerteza não sabemos o quepensar, o que dizer ou o que fazer em certas situações ou diante de certas coisas,pessoas, fatos, etc. Temos dúvidas, ficamos cheios de perplexidade e somostomados pela insegurança.Outras vezes, estamos confiantes e seguros e, de repente, vemos ou ouvimosalguma coisa que nos enche de espanto e de admiração, não sabemos o quepensar ou o que fazer com a novidade do que vimos ou ouvimos porque ascrenças, opiniões e idéias que possuímos não dão conta do novo. O espanto e aadmiração, assim como antes a dúvida e a perplexidade, nos fazem querer saber oque não sabemos, nos fazem querer sair do estado de insegurança ou deencantamento, nos fazem perceber nossa ignorância e criam o desejo de superar aincerteza. – 111 –

Convite à Filosofia _______________________________Quando isso acontece, estamos na disposição de espírito chamada busca daverdade.O desejo da verdade aparece muito cedo nos seres humanos como desejo deconfiar nas coisas e nas pessoas, isto é, de acreditar que as coisas são exatamentetais como as percebemos e o que as pessoas nos dizem é digno de confiança ecrédito. Ao mesmo tempo, nossa vida cotidiana é feita de pequenas e grandesdecepções e, por isso, desde cedo, vemos as crianças perguntarem aos adultos setal ou qual coisa “é de verdade ou é de mentira”.Quando uma criança ouve uma história, inventa uma brincadeira ou umbrinquedo, quando joga, vê um filme ou uma peça teatral, está sempre atenta parasaber se “é de verdade ou de mentira”, está sempre atenta para a diferença entre o“de mentira” e a mentira propriamente dita, isto é, para a diferença entre brincar,jogar, fingir e faltar à confiança.Quando uma criança brinca, joga e finge, está criando um outro mundo, mais ricoe mais belo, mais cheio de possibilidades e invenções do que o mundo onde, defato, vive. Mas sabe, mesmo que não formule explicitamente tal saber, que háuma diferença entre imaginação e percepção, ainda que, no caso infantil, essadiferença seja muito tênue, muito leve, quase imperceptível – tanto assim, que acriança acredita em mundos e seres maravilhosos como parte do mundo real desua vida.Por isso mesmo, a criança é muito sensível à mentira dos adultos, pois a mentiraé diferente do “de mentira”, isto é, a mentira é diferente da imaginação e acriança se sente ferida, magoada, angustiada quando o adulto lhe diz umamentira, porque, ao fazê-lo, quebra a relação de confiança e a segurança infantis.Quando crianças, estamos sujeitos a duas decepções: a de que os seres, as coisas,os mundos maravilhosos não existem “de verdade” e a de que os adultos podemdizer-nos falsidades e nos enganar. Essa dupla decepção pode acarretar doisresultados opostos: ou a criança se recusa a sair do mundo imaginário e sofrecom a realidade como alguma coisa ruim e hostil a ela; ou, dolorosamente, aceitaa distinção, mas também se torna muito atenta e desconfiada diante da palavrados adultos. Nesse segundo caso, a criança também se coloca na disposição dabusca da verdade.Nessa busca, a criança pode desejar um mundo melhor e mais belo que aqueleem que vive e encontrar a verdade nas obras de arte, desejando ser artistatambém. Ou pode desejar saber como e por que o mundo em que vive é tal comoé e se ele poderia ser diferente ou melhor do que é. Nesse caso, é despertado nelao desejo de conhecimento intelectual e o da ação transformadora.A criança não se decepciona nem se desilude com o “faz-de-conta” porque sabeque é um “faz-de-conta”. Ela se decepciona ou se desilude quando descobre quequerem que acredite como sendo “de verdade” alguma coisa que ela sabe ou que – 112 –

Marilena Chauí _______________________________ela supunha que fosse “de faz-de-conta”, isto é, decepciona-se e desilude-sequando descobre a mentira. Os jovens se decepcionam e se desiludem quandodescobrem que o que lhes foi ensinado e lhes foi exigido oculta a realidade,reprime sua liberdade, diminui sua capacidade de compreensão e de ação. Osadultos se desiludem ou se decepcionam quando enfrentam situações para asquais o saber adquirido, as opiniões estabelecidas e as crenças enraizadas emsuas consciências não são suficientes para que compreendam o que se passa nempara que possam agir ou fazer alguma coisa.Assim, seja na criança, seja nos jovens ou nos adultos, a busca da verdade estásempre ligada a uma decepção, a uma desilusão, a uma dúvida, a umaperplexidade, a uma insegurança ou, então, a um espanto e uma admiração diantede algo novo e insólito.Dificuldades para a busca da verdadeEm nossa sociedade, é muito difícil despertar nas pessoas o desejo de buscar averdade. Pode parecer paradoxal que assim seja, pois parecemos viver numasociedade que acredita nas ciências, que luta por escolas, que recebe durante 24horas diárias informações vindas de jornais, rádios e televisões, que possuieditoras, livrarias, bibliotecas, museus, salas de cinema e de teatro, vídeos,fotografias e computadores.Ora, é justamente essa enorme quantidade de veículos e formas de informaçãoque acaba tornando tão difícil a busca da verdade, pois todo mundo acredita queestá recebendo, de modos variados e diferentes, informações científicas,filosóficas, políticas, artísticas e que tais informações são verdadeiras, sobretudoporque tal quantidade informativa ultrapassa a experiência vivida pelas pessoas,que, por isso, não têm meios para avaliar o que recebem.Bastaria, no entanto, que uma mesma pessoa, durante uma semana, lesse demanhã quatro jornais diferentes e ouvisse três noticiários de rádio diferentes; àtarde, freqüentasse duas escolas diferentes, onde os mesmos cursos estariamsendo ministrados; e, à noite, visse os noticiários de quatro canais diferentes detelevisão, para que, comparando todas as informações recebidas, descobrisse queelas “não batem” umas com as outras, que há vários “mundos” e várias“sociedades” diferentes, dependendo da fonte de informação.Uma experiência como essa criaria perplexidade, dúvida e incerteza. Mas aspessoas não fazem ou não podem fazer tal experiência e por isso não percebemque, em lugar de receber informações, estão sendo desinformadas. E, sobretudo,como há outras pessoas (o jornalista, o radialista, o professor, o médico, opolicial, o repórter) dizendo a elas o que devem saber, o que podem saber, o quepodem e devem fazer ou sentir, confiando na palavra desses “emissores demensagens ”, as pessoas se sentem seguras e confiantes, e não há incerteza porquehá ignorância. – 113 –

Convite à Filosofia _______________________________Uma outra dificuldade para fazer surgir o desejo da busca da verdade, em nossasociedade, vem da propaganda.A propaganda trata todas as pessoas – crianças, jovens, adultos, idosos – comocrianças extremamente ingênuas e crédulas. O mundo é sempre um mundo “defaz-de-conta”: nele a margarina fresca faz a família bonita, alegre, unida e feliz; oautomóvel faz o homem confiante, inteligente, belo, sedutor, bem-sucedido nosnegócios, cheio de namoradas lindas; o desodorante faz a moça bonita, atraente,bem empregada, bem vestida, com um belo apartamento e lindos namorados; ocigarro leva as pessoas para belíssimas paisagens exóticas, cheias de aventura ede negócios coroados de sucesso que terminam com lindos jantares à luz develas.A propaganda nunca vende um produto dizendo o que ele é e para que serve. Elavende o produto rodeando-o de magias, belezas, dando-lhe qualidades que são deoutras coisas (a criança saudável, o jovem bonito, o adulto inteligente, o idosofeliz, a casa agradável, etc.), produzindo um eterno “faz-de-conta”.Uma outra dificuldade para o desejo da busca da verdade vem da atitude dospolíticos nos quais as pessoas confiam, ouvindo seus programas, suas propostas,seus projetos enfim, dando-lhes o voto e vendo-se, depois, ludibriadas, não sóporque não são cumpridas as promessas, mas também porque há corrupção, mauuso do dinheiro público, crescimento das desigualdades e das injustiças, damiséria e da violência.Em vista disso, a tendência das pessoas é julgar que é impossível a verdade napolítica, passando a desconfiar do valor e da necessidade da democracia eaceitando “vender” seu voto por alguma vantagem imediata e pessoal, ou caemna descrença e no ceticismo.No entanto, essas d ificuldades podem ter o efeito oposto, isto é, suscitar emmuitas pessoas dúvidas, incertezas, desconfianças e desilusões que as façamdesejar conhecer a realidade, a sociedade, a ciência, as artes, a política. Muitoscomeçam a não aceitar o que lhes é dito. Muitos começam a não acreditar no quelhes é mostrado. E, como Sócrates em Atenas, começam a fazer perguntas, aindagar sobre fatos e pessoas, coisas e situações, a exigir explicações, a exigirliberdade de pensamento e de conhecimento.Para essas pessoas, surge o desejo e a necessidade da busca da verdade. Essabusca nasce não só da dúvida e da incerteza, nasce também da ação deliberadacontra os preconceitos, contra as idéias e as opiniões estabelecidas, contracrenças que paralisam a capacidade de pensar e de agir livremente.Podemos, dessa maneira, distinguir dois tipos de busca da verdade. O primeiro éo que nasce da decepção, da incerteza e da insegurança e, por si mesmo, exigeque saiamos de tal situação readquirindo certezas. O segundo é o que nasce dadeliberação ou decisão de não aceitar as certezas e crenças estabelecidas, de ir – 114 –

Marilena Chauí _______________________________além delas e de encontrar explicações, interpretações e significados para arealidade que nos cerca. Esse segundo tipo é a busca da verdade na atitudefilosófica.Podemos oferecer dois exemplos célebres dessa busca filosófica. Já falamos doprimeiro: Sócrates andando pelas ruas e praças de Atenas indagando aosatenienses o que eram as coisas e idéias em que acreditavam. O segundo exemploé o do filósofo Descartes.Descartes começa sua obra filosófica fazendo um balanço de tudo o que sabia: oque lhe fora ensinado pelos preceptores e professores, pelos livros, pelas viagens,pelo convívio com outras pessoas. Ao final, conclui que tudo quanto aprendera,tudo quanto sabia e tudo quanto conhecera pela experiência era duvidoso eincerto. Decide, então, não aceitar nenhum desses conhecimentos, a menos quepudesse provar racionalmente que eram certos e dignos de confiança. Para isso,submete todos os conhecimentos existentes em suas época e os seus próprios aum exame crítico conhecido como dúvida metódica, declarando que só aceitaráum conhecimento, uma idéia, um fato ou uma opinião se, passados pelo crivo dadúvida, revelarem-se indubitáveis para o pensamento puro. Ele os submete àanálise, à dedução, à indução, ao raciocínio e conclui que, até o momento, háuma única verdade indubitável que poderá ser aceita e que deverá ser o ponto departida para a reconstrução do edifício do saber.Essa única verdade é: “Penso, logo existo”, pois, se eu duvidar de que estoupensando, ainda estou pensando, visto que duvidar é uma maneira de pensar. Aconsciência do pensamento aparece, assim, como a primeira verdade indubitávelque será o alicerce para todos os conhecimentos futuros. – 115 –

Convite à Filosofia _______________________________ Capítulo 2 Buscando a verdadeDogmatismo e busca da verdadeQuando prestamos atenção em Sócrates ou Descartes, notamos que ambos, pormotivos diferentes e usando procedimentos diferentes, fazem uma mesma coisa,isto é, desconfiam das opiniões e crenças estabelecidas em suas sociedades, mastambém desconfiam das suas próprias idéias e opiniões. Do que desconfiam eles,afinal? Desconfiam do dogmatismo.O que é dogmatismo?Dogmatismo é uma atitude muito natural e muito espontânea que temos, desdemuito crianças. É nossa crença de que o mundo existe e que é exatamente talcomo o percebemos. Temos essa crença porque somos seres práticos, isto é, nosrelacionamos com a realidade como um conjunto de coisas, fatos e pessoas quesão úteis ou inúteis para nossa sobrevivência.Os seres humanos, porque são seres culturais, trabalham. O trabalho é uma açãopela qual modificamos as coisas e a realidade de modo a conseguir nossapreservação na existência. Constroem casas, fabricam vestuário e utensílios,produzem objetos técnicos e de consumo, inventam meios de transporte, decomunicação e de informação. Através da prática ou do trabalho e da técnica, osseres humanos organizam-se social e politicamente, criam instituições sociais(família, escola, agricultura, comércio, indústria, relações entre grupos e classes,etc.) e instituições políticas (o Estado, o poder executivo, legislativo e judiciário,as forças militares profissionais, os tribunais e as leis).Essas práticas só são possíveis porque acreditamos que o mundo existe, que é talcomo o percebemos e tal como nos ensinaram que ele é, que pode ser modificadoou conservado por nós, que é explicado pelas religiões e pelas ciências, que érepresentado pelas artes. Acreditamos que os outros seres humanos também sãoracionais, pois, graças à linguagem, trocamos idéias e opiniões, pensamos demodo muito parecido e a escola e os meios de comunicação garantem amanutenção dessas semelhanças.Na atitude dogmática, tomamos o mundo como já dado, já feito, já pensado, játransformado. A realidade natural, social, política e cultural forma uma espéciede moldura de um quadro em cujo interior nos instalamos e onde existimos.Mesmo quando acontece algo excepcional ou extraordinário (uma catástrofe, oaparecimento de um objeto inteiramente novo e desconhecido), nossa tendêncianatural e dogmática é a de reduzir o excepcional e o extraordinário aos padrões – 116 –

Marilena Chauí _______________________________do que já conhecemos e já sabemos. Mesmo quando descobrimos que algumacoisa é diferente do que havíamos suposto, essa descoberta não abala nossacrença e nossa confiança na realidade, nem nossa familiaridade com ela.O mundo é como a novela de televisão: muita coisa acontece, mas, afinal, nadaacontece, pois quando a novela termina, os bons foram recompensados, os mausforam punidos, os pobres bons ficaram ricos, os ricos maus ficaram pobres, amocinha casou com o mocinho certo, a família boa se refez e a família má sedesfez. Em outras palavras, os acontecimentos da novela servem apenas paraconfirmar e reforçar o que já sabíamos e o que já esperávamos. Tudo se mantémnuma atmosfera ou num clima de familiaridade, de segurança e sossego.Na atitude dogmática ou natural, aceitamos sem nenhum problema que há umarealidade exterior a nós e que, embora externa e diferente de nós, pode serconhecida e tecnicamente transformada por nós. Achamos que o espaço existe,que nele as coisas estão como num receptáculo; achamos que o tempo tambémexiste e que nele as coisas e nós próprios estamos submetidos à sucessão dosinstantes.Dogmatismo e estranhamentoEscutemos, porém, por um momento, a indagação de santo Agostinho, em suasConfissões: O que é o tempo? Tentemos fornecer uma explicação fácil e breve. O que há de mais familiar e mais conhecido do que o tempo? Mas, o que é o tempo? Quando quero explicá-lo, não encontro explicação. Se eu disser que o tempo é a passagem do passado para o presente e do presente para o futuro, terei que perguntar: Como pode o tempo passar? Como sei que ele passa? O que é um tempo passado? Onde ele está? O que é um tempo futuro? Onde ele está? Se o passado é o que eu, do presente, recordo, e o futuro é o que eu, do presente, espero, então não seria mais correto dizer que o tempo é apenas o presente? Mas, quanto dura um presente? Quando acabo de colocar o ‘r’ no verbo ‘colocar’, este ‘r’ é ainda presente ou já é passado? A palavra que estou pensando em escrever a seguir, é presente ou é futuro? O que é o tempo, afinal? E a eternidade?As coisas são mesmo tais como me aparecem? Estão no espaço? Mas, o que é oespaço? Se eu disser que o espaço é feito de comprimento, altura e largura, ondepoderei colocar a profundidade, sem a qual não podemos ver, não podemosenxergar nada? Mas a profundidade, que me permite ver as coisas espaciais, éjustamente aquilo que não vejo e que não posso ver, se eu quiser olhar as coisas.A profundidade é ou não espacial? Se for espacial, por que não a vejo no espaço?Se não for espacial, como pode ser a condição para que eu veja as coisas noespaço? – 117 –

Convite à Filosofia _______________________________Acompanhemos agora os versos do poeta Mário de Andrade, escritos no poema“Lira Paulistana”: Garoa do meu São Paulo Um negro vem vindo, é branco! Só bem perto fica negro, Passa e torna a ficar branco. Meu São Paulo da garoa, - Londres das neblinas frias - Um pobre vem vindo, é rico! Só bem perto fica pobre, Passa e torna a ficar rico.Esses versos, nos quais a garoa de São Paulo se parece com a neblina de Londres,isto é, com um véu denso de ar úmido, dizem que não conseguimos ver arealidade: o negro, de longe, é branco, o pobre, de longe, é rico; só muito deperto, sem o véu da garoa, o negro é negro e o pobre é pobre. Mas, apesar de vê -los de perto tais como são, de longe voltam a ser o que não são.O poeta exprime um dos problemas que mais fascinam a Filosofia: Como ailusão é possível? Como podemos ver o que não é? Mas, conseqüentemente,como a verdade é possível? Como podemos ver o que é, tal como é? Qual é a“garoa” que se interpõe entre o nosso pensamento e a realidade? Qual é a “garoa”que se interpõe entre nosso olhar e as coisas?A atitude dogmática ou natural se rompe quando somos capazes de uma atitudede estranhamento diante das coisas que nos pareciam familiares. Dois exemplospodem ilustrar essa capacidade de estranhamento, ambos da escritora ClariceLispector em seu livro A descoberta do mundo. O primeiro tem como título“Mais do que um inseto”. Custei um pouco a compreender o que estava vendo, de tão inesperado e sutil que era: estava vendo um inseto pousado, verde-claro, de pernas altas. Era uma ‘esperança’, o que sempre me disseram que é de bom augúrio. Depois a esperança começou a andar bem de leve sobre o colchão. Era verde transparente, com pernas que mantinham seu corpo plano alto e por assim dizer solto, um plano tão frágil quanto as próprias pernas que eram feitas apenas da cor da casca. Dentro do fiapo das pernas não havia nada dentro: o lado de dentro de uma superfície tão rasa já é a própria superfície. Parecia um raso desenho que tivesse saído do papel, verde e andasse… E andava com uma determinação de quem copiasse um traço que era invisível para mim… Mas onde estariam nele as glândulas de seu destino e as adrenalinas de seu seco verde interior? Pois era um ser oco, um enxerto de gravetos, simples atração eletiva de linhas verdes.O outro se intitula “Atualidade do ovo e da galinha” e nele podemos ler oseguinte trecho: – 118 –

Marilena Chauí _______________________________ Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo apenas: ver o ovo é sempre hoje; mal vejo o ovo e já se torna ter visto um ovo, o mesmo, há três milênios. No próprio instante de se ver o ovo ele é a lembrança de um ovo. Só vê o ovo quem já o tiver visto… Ver realmente o ovo é impossível: o ovo é supervisível como há sons supersônicos que o ouvido já não ouve. Ninguém é capaz de ver o ovo… O ovo é uma coisa suspensa. Nunca pousou. Quando pousa, não foi ele quem pousou, foi uma superfície que veio ficar embaixo do ovo… O ovo é uma exteriorização: ter uma casca é dar-se… O ovo expõe tudo.À primeira vista, que há de mais banal ou familiar do que um inseto ou um ovo?No entanto, Clarice Lispector nos faz sentir admiração e estranhamento, como sejamais tivéssemos visto um inseto ou um ovo. Nas duas descrições maravilhadas,um ponto é comum: o inseto e o ovo têm a peculiaridade de serem superfícies nasquais não conseguimos distinguir ou separar o fora e o dentro, o exterior e ointerior; a ‘esperança’ verde é como um traçado – letra, desenho – sobre asuperfície do papel; o ovo é uma casca que expõe tudo.No entanto, nesses dois seres sem profundidade, há um abismo misterioso: todoovo é igual a todo ovo e por isso não temos como ver “um” ovo, embora eleesteja diante de nossos olhos; e o inseto ‘esperança’ é um oco, um vazio colorido(como um vazio pode ter cor?) ou uma cor sem corpo (como uma cor pode existirsem um corpo colorido?).O sentido das pal avrasA mesma estranheza pode ser encontrada num poema de Carlos Drummond, masagora relativa à linguagem. Usamos todos os dias as palavras como instrumentosdóceis e disponíveis, como se sempre estivessem estado prontas para nós, comseu sentido claro e útil. O poeta, porém, aconselha: Penetra surdamente no reino das palavras. … Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres: Trouxeste a chave?Se as palavras tivessem sempre um sentido óbvio e único, não haveria literatura,não haveria mal-entendido e controvérsia. Se as palavras tivessem sempre omesmo sentido e se indicassem diretamente as coisas nomeadas, como seriapossível a mentira? É por isso que o poeta Fernando Pessoa, em versos famosos,escreveu: – 119 –

Convite à Filosofia _______________________________ O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor, A dor que deveras sente.O poeta é um “finge-dor” e seu fingimento – isto é, sua criação artística – é tãoprofundo e tão constitutivo de seu ser de poeta, que ele finge – isto é, transformaem poema, em obra de arte – a dor que deveras ou de verdade sente. A palavratem esse poder misterioso de transformar o que não existe em realidade (o poetafinge) e de dar a aparência de irrealidade ao que realmente existe (o poeta finge ador que realmente sente).Na tragédia Otelo, de Shakespeare, o mouro Otelo, apaixonado perdidamente porsua jovem esposa, Desdêmona, acaba por assassiná-la porque foi convencido porIago de que ela o traía. Iago, invejoso dos cargos que Otelo daria a um outromembro de sua corte, inventou a traição de Desdêmona, mentiu para Otelo e este,tomando a mentira pela verdade, destruiu a pessoa amada, que morreu afirmandosua inocência. Para construir a mentira, Iago despertou em Otelo o ciúme,caluniando Desdêmona. Usou vários estratagemas, mas sobretudo usou alinguagem, isto é, palavras falsas que envenenaram o espírito de Otelo.Como é possível que as palavras ou que a linguagem tenham o poder para tornaro verdadeiro, falso, e fazer do falso, verdadeiro? Como seria uma sociedade naqual a mentira fosse a regra e, portanto, na qual não conseguíssemos nenhumainformação, por menor que fosse, que tivesse alguma veracidade? Comofaríamos para sobreviver, se tudo o que nos fosse dito fosse mentira? Perguntas erespostas seriam inúteis, a desconfiança e a decepção seriam as únicas formas derelação entre as pessoas e tal sociedade seria a imagem do Inferno.Essa sociedade infernal é criada pelo escritor George Orwell, no romance 1984.Orwell descreve uma sociedade totalitária que controla todos os gestos, atos,pensamentos e palavras de seus membros. Estes, todos os dias, entram numcubículo onde uma teletela exibe o rosto do grande chefe, o Grande Irmão, que,pela mentira e pelo medo, domina o espírito da população, falando diariamentecom cada um.Nessa sociedade, é instituído o Ministério da Verdade, no qual, todos os dias, osfatos reais são modificados em narrativas ou relatos falsos, são omitidos, sãoapagados da História e da memória, como se nunca tivessem existido. OMinistério da Verdade cria a mentira como instituição social. O poder cria aNovi-Língua, isto é, inventa palavras e destrói outras; as inventadas são as queestão a serviço da mentira institucionalizada e as destruídas são as que poderiamfazer aparecer a mentira. A negação da verdade é, assim, usada para manter umasociedade inteira enganada e submissa. – 120 –

Marilena Chauí _______________________________Quando vemos o modo como os meios de comunicação funcionam, podemosperguntar se 1984 é uma simples ficção ou se realmente existe, sem que osaibamos.Como é possível que a linguagem tenha tamanho poder mistificador? E, aomesmo tempo, como é possível que, em todas as culturas, na relação entre oshomens e a divindade, entre o profano e o sagrado, o papel fundamental derevelação da verdade seja sempre dado à linguagem, à palavra sagrada everdadeira que os deuses dizem aos homens? Como uma mesma coisa – apalavra, o discurso – pode ser origem, ao mesmo tempo, da verdade e dafalsidade? Como a linguagem pode mostrar e esconder?Como essa duplicidade misteriosa da linguagem pode servir para manter odogmatismo? Mas também, como pode despertar o desejo de verdade?Verdades reveladas e verdades alcançadasA atitude dogmática é conservadora, isto é, sente receio das novidades, doinesperado, do desconhecido e de tudo o que possa desequilibrar as crenças eopiniões já constituídas. Esse conservadorismo se transforma em preconceito,isto é, em idéias preconcebidas que impedem até mesmo o contato com tudoquanto possa pôr em perigo o já sabido, o já dito e o já feito.O conservadorismo pode aumentar ainda mais quando o dogmatismo estiverconvencido de que várias de suas opiniões e crenças vieram de uma fontesagrada, de uma revelação divina incontestável e incontestada, de tal modo quesituações que tornem problemáticas tais crenças são afastadas como inaceitáveise perigosas; aqueles que ousam enfrentar essas crenças e opiniões são tidos comocriminosos, blasfemadores e heréticos.No romance de Umberto Eco, O nome da rosa, uma série de assassinatosmisteriosos acontecem e todos os mortos trazem um mesmo sinal, a línguaenegrecida e dois dedos da mão direita – o polegar e o indicador – tambémenegrecidos. O monge Guilherme de Baskerville descobre que todos osassassinados eram frades encarregados de copiar e ilustrar manuscritos de umabiblioteca; todos eles haviam manuseado um mesmo livro no qual havia algo quefuncionava como veneno (ao molhar os dedos com saliva para virar as páginas dolivro, os copistas eram envenenados).Guilherme descobre que o livro era uma obra perdida de Aristóteles sobre acomédia e a importância do riso para a vida humana. Descobre também que umdos monges, Jorge de Burgos, guardião da biblioteca, julgara que o riso écontrário à vontade de Deus, um pecado que merece a morte, pois viemos aomundo para sofrer a culpa original de Adão. Por isso, assassinou porenvenenamento os copistas que ousaram ler o livro e, ao final, queima abiblioteca para que o livro seja destruído. – 121 –

Convite à Filosofia _______________________________Nesse romance, duas idéias acerca da verdade se enfrentam: a verdade humana,que estaria contida no livro do filósofo Aristóteles, e a verdade divina, que obibliotecário julga estar na proibição do riso e da alegria para os humanospecadores, que vieram à Terra para o sofrimento. Em nome dessa segundaverdade, Jorge de Burgos matou outros seres humanos e queimou livros escritospor seres humanos, pois, para ele, uma verdade revelada por Deus é a únicaverdade e tudo quanto querem e pensam os humanos, se for contrário à verdadedivina, é erro e falsidade, crime e blasfêmia.Esse conflito entre verdades reveladas e verdades alcançadas pelos humanosatravés do exercício da inteligência e da razão tem sido também uma questão quepreocupa a Filosofia, desde o surgimento do Cristianismo. Podemos conhecer asverdades divinas? Se não pudermos conhecê-las, seremos culpados? Mas, comoseríamos culpados por não conhecer aquilo que nosso intelecto, por ser pequenoe menor do que o de Deus, não teria forças para alcançar?As três concepções da verdadeOs vários exemplos que mencionamos neste capítulo indicam concepçõesdiferentes da verdade.No caso de Mário de Andrade e Clarice Lispector, o problema da verdade estáligado ao ver, ao perceber. No caso de Fernando Pessoa, Carlos Drummond,Shakespeare e Orwell, a verdade está ligada ao dizer, ao falar, às palavras. Nocaso de Umberto Eco, a verdade está ligada ao crer, ao acreditar.Para a atitude natural ou dogmática, o verdadeiro é o que funciona e nãosurpreende. É – como vimos – o já sabido, o já dito e o já feito. Verdade erealidade parecem ser idênticas e quando essa identidade se desfaz ou se quebra,surge a incerteza que busca readquirir certezas.Para a atitude crítica ou filosófica, a verdade nasce da decisão e da deliberação deencontrá-la, da consciência da ignorância, do espanto, da admiração e do desejode saber. Nessa busca, a Filosofia é herdeira de três grandes concepções daverdade: a do ver-perceber, a do falar-dizer e a do crer-confiar. – 122 –

Marilena Chauí _______________________________ Capítulo 3 As concepções da verdadeGrego, latim e hebraicoNossa idéia da verdade foi construída ao longo dos séculos, a partir de trêsconcepções diferentes, vindas da língua grega, da latina e da hebraica.Em grego, verdade se diz aletheia, significando: não-oculto, não-escondido, não-dissimulado. O verdadeiro é o que se manifesta aos olhos do corpo e do espírito;a verdade é a manifestação daquilo que é ou existe tal como é. O verdadeiro seopõe ao falso, pseudos, que é o encoberto, o escondido, o dissimulado, o queparece ser e não é como parece. O verdadeiro é o evidente ou o plenamentevisível para a razão.Assim, a verdade é uma qualidade das próprias coisas e o verdadeiro está naspróprias coisas. Conhecer é ver e dizer a verdade que está na própria realidade e,portanto, a verdade depende de que a realidade se manifeste, enquanto a falsidadedepende de que ela se esconda ou se dissimule em aparências.Em latim, verdade se diz veritas e se refere à precisão, ao rigor e à exatidão deum relato, no qual se diz com detalhes, pormenores e fidelidade o que aconteceu.Verdadeiro se refere, portanto, à linguagem enquanto narrativa de fatosacontecidos, refere-se a enunciados que dizem fielmente as coisas tais comoforam ou aconteceram. Um relato é veraz ou dotado de veracidade quando alinguagem enuncia os fatos reais.A verdade depende, de um lado, da veracidade, da memória e da acuidade mentalde quem fala e, de outro, de que o enunciado corresponda aos fatos acontecidos.A verdade não se refere às próprias coisas e aos próprios fatos (como acontececom a aletheia), mas ao relato e ao enunciado, à linguagem. Seu oposto,portanto, é a mentira ou a falsificação. As coisas e os fatos não são reais ouimaginários; os relatos e enunciados sobre eles é que são verdadeiros ou falsos.Em hebraico verdade se diz emunah e significa confiança. Agora são as pessoas eé Deus quem são verdadeiros. Um Deus verdadeiro ou um amigo verdadeiro sãoaqueles que cumprem o que prometem, são fiéis à palavra dada ou a um pactofeito; enfim, não traem a confiança.A verdade se relaciona com a presença, com a espera de que aquilo que foiprometido ou pactuado irá cumprir-se ou acontecer. Emunah é uma palavra demesma origem que amém, que significa: assim seja. A verdade é uma crençafundada na esperança e na confiança, referidas ao futuro, ao que será ou virá. Sua – 123 –

Convite à Filosofia _______________________________forma mais elevada é a revelação divina e sua expressão mais perfeita é aprofecia.Aletheia se refere ao que as coisas são; veritas se refere aos fatos que foram;emunah se refere às ações e as coisas que serão. A nossa concepção da verdade éuma síntese dessas três fontes e por isso se refere às coisas presentes (como naaletheia), aos fatos passados (como na veritas) e às coisas futuras (como naemunah). Também se refere à própria realidade (como na aletheia), à linguagem(como na veritas) e à confiança-esperança (como na emunah).Palavras como “averiguar” e “verificar” indicam buscar a verdade; “veredicto” épronunciar um julgamento verdadeiro, dizer um juízo veraz; “verossímil” e“verossimilhante” significam: ser parecido com a verdade, ter traços semelhantesaos de algo verdadeiro.Diferentes teorias sobre a verdadeExistem diferentes concepções filosóficas sobre a natureza do conhecimentoverdadeiro, dependendo de qual das três idéias originais da verdade predomineno pensamento de um ou de alguns filósofos.Assim, quando predomina a aletheia, considera-se que a verdade está naspróprias coisas ou na própria realidade e o conhecimento verdadeiro é apercepção intelectual e racional dessa verdade. A marca do conhecimentoverdadeiro é a evidência, isto é, a visão intelectual e racional da realidade talcomo é em si mesma e alcançada pelas operações de nossa razão ou de nossointelecto. Uma idéia é verdadeira quando corresponde à coisa que é seuconteúdo e que existe fora de nosso espírito ou de nosso pensamento. A teoria daevidência e da correspondência afirma que o critério da verdade é a adequaçãodo nosso intelecto à coisa, ou da coisa ao nosso intelecto.Quando predomina a veritas, considera-se que a verdade depende do rigor e daprecisão na criação e no uso de regras de linguagem, que devem exprimir, aomesmo tempo, nosso pensamento ou nossas idéias e os acontecimentos ou fatosexteriores a nós e que nossas idéias relatam ou narram em nossa mente.Agora, não se diz que uma coisa é verdadeira porque corresponde a umarealidade externa, mas se diz que ela corresponde à realidade externa porque éverdadeira. O critério da verdade é dado pela coerência interna ou pelacoerência lógica das idéias e das cadeias de idéias que formam um raciocínio,coerência que depende da obediência às regras e leis dos enunciados corretos. Amarca do verdadeiro é a validade lógica de seus argumentos.Finalmente, quando predomina a emunah, considera-se que a verdade depende deum acordo ou de um pacto de confiança entre os pesquisadores, que definem umconjunto de convenções universais sobre o conhecimento verdadeiro e quedevem sempre ser respeitadas por todos. A verdade se funda, portanto, no – 124 –

Marilena Chauí _______________________________consenso e na confiança recíproca entre os membros de uma comunidade depesquisadores e estudiosos.O consenso se estabelece baseado em três princípios que serão respeitados portodos:1. que somos seres racionais e nosso pensamento obedece aos quatro princípiosda razão (identidade, não-contradição, terceiro-excluído e razão suficiente oucausalidade);2. que somos seres dotados de linguagem e que ela funciona segundo regraslógicas convencionadas e aceitas por uma comunidade;3. que os resultados de uma investigação devem ser submetidos à discussão eavaliação pelos membros da comunidade de investigadores que lhe atribuirão ounão o valor de verdade.Existe ainda uma quarta teoria da verdade que se distingue das anteriores porquedefine o conhecimento verdadeiro por um critério que não é teórico e sim prático.Trata-se da teoria pragmática, para a qual um conhecimento é verdadeiro porseus resultados e suas aplicações práticas, sendo verificado pela experimentaçãoe pela experiência. A marca do verdadeiro é a verificabilidade dos resultados.Essa concepção da verdade está muito próxima da teoria da correspondênciaentre coisa e idéia (aletheia), entre realidade e pensamento, que julga que oresultado prático, na maioria das vezes, é conseguido porque o conhecimentoalcançou as próprias coisas e pode agir sobre elas.Em contrapartida, a teoria da convenção ou do consenso (emunah) está maispróxima da teoria da coerência interna (veritas), pois as convenções ou consensosverdadeiros costumam ser baseados em princípios e argumentos lingüísticos elógicos, princípios e argumentos da linguagem, do discurso e da comunicação.Na primeira teoria (aletheia/correspondência), as coisas e as idéias sãoconsideradas verdadeiras ou falsas; na segunda (veritas/coerência) e na terceira(emunah/consenso), os enunciados, os argumentos e as idéias é que são julgadosverdadeiros ou falsos; na quarta (pragmática), são os resultados que recebem adenominação de verdadeiros ou falsos.Na primeira e na quarta teoria, a verdade é o acordo entre o pensamento e arealidade. Na segunda e na terceira teoria, a verdade é o acordo do pensamento eda linguagem consigo mesmos, a partir de regras e princípios que o pensamento ea linguagem deram a si mesmos, em conformidade com sua natureza própria, queé a mesma para todos os seres humanos (ou definida como a mesma para todospor um consenso).A verdade como evidência e correspondênciaSe observarmos a concepção grega da verdade (aletheia), notaremos que nela ascoisas ou o Ser é o verdadeiro ou a verdade. Isto é, o que existe e manifesta sua – 125 –

Convite à Filosofia _______________________________existência para nossa percepção e para nosso pensamento é verdade ouverdadeiro. Por esse motivo, os filósofos gregos perguntam: Como o erro, o falsoe a mentira são possíveis? Em outras palavras, como podemos pensar naquilo quenão é, não existe, não tem realidade, pois o erro, o falso e a mentira só podemreferir-se ao não-Ser? O Ser é o manifesto, o visível para os olhos do corpo e doespírito, o evidente. Errar, falsear ou mentir, portanto, é não ver os seres taiscomo são, é não falar deles tais como são. Como é isso possível?A resposta dos gregos é dupla:1. o erro, o falso e a mentira se referem à aparência superficial e ilusória dascoisas ou dos seres e surgem quando não conseguimos alcançar a essência dasrealidades (como no poema de Mário de Andrade, em que a garoa-neblina criaum véu que encobre, oculta e dissimula as coisas e as torna confusas, indistintas);são um defeito ou uma falha de nossa percepção sensorial ou intelectual;2. o erro, o falso e a mentira surgem quando dizemos de algum ser aquilo que elenão é, quando lhe atribuímos qualidades ou propriedades que ele não possui ouquando lhe negamos qualidades ou propriedades que ele possui. Nesse caso, oerro, o falso e a mentira se alojam na linguagem e acontecem no momento emque fazemos afirmações ou negações que não correspondem à essência dealguma coisa. O erro, o falso e a mentira são um acontecimento do juízo ou doenunciado. Se eu formular o seguinte juízo: “Sócrates é imortal”, o erro se encontra naatribuição do predicado “imortal” a um sujeito “Sócrates”, que não possui aqualidade ou a propriedade da imortalidade. O erro é um engano do juízo quandodesconhecemos a essência de um ser. O falso e a mentira, porém, são juízosdeliberadamente errados, isto é, conhecemos a essência de alguma coisa, masdeliberadamente emitimos um juízo errado sobre ela.O que é a verdade? É a conformidade entre nosso pensamento e nosso juízo e ascoisas pensadas ou formuladas. Qual a condição para o conhecimentoverdadeiro? A evidência, isto é, a visão intelectual da essência de um ser. Paraformular um juízo verdadeiro precisamos, portanto, primeiro conhecer a essência,e a conhecemos ou por intuição, ou por dedução, ou por indução.A verdade exige que nos libertemos das aparências das coisas; exige, portanto,que nos libertemos das opiniões estabelecidas e das ilusões de nossos órgãos dossentidos. Em outras palavras, a verdade sendo o conhecimento da essência real eprofunda dos seres é sempre universal e necessária, enquanto as opiniões variamde lugar para lugar, de época para época, de sociedade para sociedade, de pessoapara pessoa. Essa variabilidade e inconstância das opiniões provam que aessência dos seres não está conhecida e, por isso, se nos mantivermos no planodas opiniões, nunca alcançaremos a verdade. – 126 –

Marilena Chauí _______________________________O mesmo deve ser dito sobre nossas impressões sensoriais, que variam conformeo estado do nosso corpo, as disposições de nosso espírito e as condições em queas coisas nos aparecem. Pelo mesmo motivo, devemos ou abandonar as idéiasformadas a partir de nossa percepção, ou encontrar os aspectos universais enecessários da experiência sensorial que alcancem parte da essência real dascoisas. No primeiro caso, somente o intelecto (espírito) vê o Ser verdadeiro. Nosegundo caso, o intelecto purifica o testemunho sensorial.Por exemplo, posso perceber que uma flor é branca, mas se eu estiver doente, averei amarela; percebo o Sol muito menor do que a Terra, embora ele seja maiordo que ela. Apesar desses enganos perceptivos, observo que toda percepçãopercebe qualidades nas coisas (cor, tamanho, por exemplo) e, portanto, asqualidades pertencem à essência das próprias coisas e fazem parte da verdadedelas.Quando, porém, examinamos a idéia latina da verdade como veracidade de umrelato, observamos que, agora, o problema da verdade e do erro, do falso e damentira deslocou-se diretamente para o campo da linguagem. O verdadeiro e ofalso estão menos no ato de ver (com os olhos do corpo ou com os olhos doespírito) e mais no ato de dizer. Por isso, a pergunt a dos filósofos, agora, éexatamente contrária à anterior, ou seja, pergunta-se: Como a verdade é possível?De fato, se a verdade está no discurso ou na linguagem, não depende apenas dopensamento e das próprias coisas, mas também de nossa vontade para dizê-la,silenciá-la ou deformá-la. O verdadeiro continua sendo tomado comoconformidade entre a idéia e as coisas – no caso, entre o discurso ou relato e osfatos acontecidos que estão sendo relatados -, mas depende também de nossoquerer.Esse aspecto voluntário da verdade torna-se de grande importância com osurgimento da Filosofia cristã porque, com ela, é introduzida a idéia de vontadelivre ou de livre-arbítrio, de modo que a verdade está na dependência não só daconformidade entre relato e fato, mas também da boa-vontade ou da vontade quedeseja o verdadeiro.Ora, o cristianismo afirma que a vontade livre foi responsável pelo pecadooriginal e que a vontade foi pervertida e tornou-se má-vontade. Assim sendo, amentira, o erro e o falso tenderiam a prevalecer contra a verdade. Nosso intelectoou nosso pensamento é mais fraco do que nossa vontade e esta pode forçá-lo aoerro e ao falso.Essas questões foram posteriormente examinadas pelos filósofos modernos, osfilósofos do Grande Racionalismo Clássico, que introduzirão a exigência decomeçar a Filosofia pelo exame de nossa consciência – vontade, intelecto,imaginação, memória -, para saber o que podemos conhecer realmente e quais osauxílios que devem ser oferecidos ao nosso intelecto para que controle e dominenossa vontade e a submeta ao verdadeiro. – 127 –

Convite à Filosofia _______________________________É preciso começar liberando nossa consciência dos preconceitos, dosdogmatismos da opinião e da experiência cotidiana. Essa consciência purificada,que é o sujeito do conhecimento, poderá, então, alcançar as evidências (porintuição, dedução ou indução) e formular juízos verdadeiros aos quais a vontadedeverá submeter-se.Tanto os antigos quanto os modernos afirmam que:1. a verdade é conhecida por evidência (a evidência pode ser obtida por intuição,dedução ou indução);2. a verdade se exprime no juízo, onde a idéia está em conformidade com o serdas coisas ou com os fatos;3. o erro, o falso e a mentira se alojam no juízo (quando afirmamos de uma coisaalgo que não pertence à sua essência ou natureza, ou quando lhe negamos algoque pertence necessariamente à sua essência ou natureza);4. as causas do erro e do falso são as opiniões preconcebidas, os hábitos, osenganos da percepção e da memória;5. a causa do falso e da mentira, para os modernos, também se encontra navontade, que é mais poderosa do que o intelecto ou o pensamento, e precisa sercontrolada por ele;6. uma verdade, por referir-se à essência das coisas ou dos seres, é sempreuniversal e necessária e distingue-se da aparência, pois esta é sempre particular,individual, instável e mutável;7. o pensamento se submete a uma única autoridade: a dele própria comcapacidade para o verdadeiro.Quando os filósofos antigos e modernos afirmam que a verdade é conformidadeou correspondência entre a idéia e a coisa e entre a coisa e a idéia (ou entre aidéia e o ideado), não estão dizendo que uma idéia verdadeira é uma cópia, umpapel carbono, um “xerox” da coisa verdadeira. Idéia e coisa, conceito e ser,juízo e fato não são entidades de mesma natureza e não há entre eles uma relaçãode cópia. O que os filósofos afirmam é que a idéia conhece a estrutura da coisa,conhece as relações internas necessárias que constituem a essência da coisa e asrelações e nexos necessários que ela mantém com outras. Como disse umfilósofo, a idéia de cão não late e a de açúcar não é doce. A idéia é um atointelectual; o ideado, uma realidade externa conhecida pelo intelecto.A idéia verdadeira é o conhecimento das causas, qualidades, propriedades erelações da coisa conhecida, e da essência dela ou de seu ser íntimo e necessário.Quando o pensamento conhece, por exemplo, o fenômeno da queda livre doscorpos (formulado pela física de Galileu), isto não significa que o pensamento setorne um corpo caindo no vácuo, mas sim que conhece as causas desse – 128 –

Marilena Chauí _______________________________movimento e as formula em conceitos verdadeiros, isto é, formula as leis domovimento.Uma outra teoria da verdadeQuando estudamos a razão, vimos os problemas criados pelo inatismo e peloempirismo. Vimos também a “revolução copernicana” de Kant, distinguindo asestruturas ou formas e categorias da razão e os conteúdos trazidos a ela pelaexperiência, isto é, a distinção entre os elementos a priori e a posteriori noconhecimento.Com a revolução copernicana kantiana, uma distinção muito importante passou aser feita na Filosofia: a distinção entre juízos analíticos e juízos sintéticos.Um juízo é analítico quando o predicado ou os predicados do enunciado nadamais são do que a explicitação do conteúdo do sujeito do enunciado. Porexemplo: quando digo que o triângulo é uma figura de três lados, o predicado“três lados” nada mais é do que a análise ou a explicitação do sujeito “triângulo”.Quando, porém, entre o sujeito e o predicado se estabelece uma relação na qual opredicado me dá informações novas sobre o sujeito, o juízo é sintético, isto é,formula uma síntese entre um predicado e um sujeito. Assim, por exemplo,quando digo que o calor é a causa da dilatação dos corpos, o predicado “causa dadilatação” não está analiticamente contido no sujeito “calor”. Se eu dissesse queo calor é uma medida de temperatura dos corpos, o juízo seria analítico, masquando estabeleço uma relação causal entre o sujeito e o predicado, como nocaso da relação entre “calor” e “dilatação dos corpos”, tenho uma síntese, algonovo me é dito sobre o sujeito através do predicado.Para Kant, os juízos analíticos são as verdades de razão de Leibniz, mas os juízossintéticos teriam que ser considerados verdades de fato. No entanto, vimos que osfatos estão sob a suspeita de Hume, isto é, fatos seriam hábitos associativos erepetitivos de nossa mente, baseados na experiência sensível e, portanto, umjuízo sintético jamais poderia pretender ser verdadeiro de modo universal enecessário.Que faz Kant? Introduz a idéia de juízos sintéticos a priori, isto é, de juízossintéticos cuja síntese depende da estrutura universal e necessária de nossa razãoe não da variabilidade individual de nossas experiências. Os juízos sintéticos apriori exprimem o modo como necessariamente nosso pensamento relaciona econhece a realidade. A causalidade, por exemplo, é uma síntese a priori quenosso entendimento formula para as ligações universais e necessárias entrecausas e efeitos, independentemente de hábitos psíquicos associativos.Todavia, vi mos também que Kant afirma que a realidade que conhecemosfilosoficamente e cientificamente não é a realidade em si das coisas, mas arealidade tal como é estruturada por nossa razão, tal como é organizada, – 129 –

Convite à Filosofia _______________________________explicada e interpretada pelas estruturas a priori do sujeito do conhecimento. Arealidade são nossas idéias verdadeiras e o kantismo é um idealismo.Vimos também, ao estudar a Filosofia contemporânea, que o filósofo Husserlcriou uma filosofia chamada fenomenologia. Essa palavra vem diretamente dafilosofia kantiana. Com efeito, Kant usa duas palavras gregas para referir-se àrealidade: a palavra noumenon, que significa a realidade em si, racional em si,inteligível em si; e a palavra phainomenon (fenômeno), que significa a realidadetal como se mostra ou se manifesta para nossa razão ou para nossa consciência.Kant afirma que só podemos conhecer o fenômeno (o que se apresenta para aconsciência, de acordo com a estrutura a priori da própria consciência) e que nãopodemos conhecer o noumenon (a coisa em si). Fenomenologia significa:conhecimento daquilo que se manifesta para nossa consciência, daquilo que estápresente para a consciência ou para a razão, daquilo que é organizado e explicadoa partir da própria estrutura da consciência. A verdade se refere aos fenômenos eos fenômenos são o que a consciência conhece.Ora, pergunta Husserl, o que é o fenômeno? O que é que se manifesta para aconsciência? A própria consciência. Conhecer os fenômenos e conhecer aestrutura e o funcionamento necessário da consciência são uma só e mesmacoisa, pois é a própria consciência que constitui os fenômenos.Como ela os constitui? Dando sentido às coisas. Conhecer é conhecer o sentidoou a significação das coisas tal como esse sentido foi produzido ou essasignificação foi produzida pela consciência. O sentido, ou significação, quandouniversal e necessário, é a essência das coisas. A verdade é o conhecimento dasessências universais e necessárias ou o conhecimento das significaçõesconstituídas pela consciência reflexiva ou pela razão reflexiva.Na perspectiva idealista, seja ela kantiana ou husserliana, não podemos maisdizer que a verdade é a conformidade do pensamento com as coisas ou acorrespondência entre a idéia e o objeto. A verdade será o encadeamento internoe rigoroso das idéias ou dos conceitos (Kant) ou das significações (Husserl), suacoerência lógica e sua necessidade. A verdade é um acontecimento interno aonosso intelecto ou à nossa consciência.Para Kant e para Husserl, o erro e a falsidade encontram-se no realismo, isto é, nasuposição de que os conceitos ou as significações se refiram a uma realidade emsi, independente do sujeito do conhecimento. Esse erro e essa falsidade, Kantchamou de dogmatismo e Husserl, de atitude natural ou tese natural domundo.Uma terceira concepção da verdadeQuando falamos sobre Filosofia contemporânea, fizemos referência a um tipo defilosofia conhecida como filosofia analítica. – 130 –

Marilena Chauí _______________________________A filosofia analítica dedicou-se prioritariamente aos estudos da linguagem e dalógica e por isso situou a verdade como um fato ou um acontecimento lingüísticoe lógico, isto é, como um fato da linguagem. A teoria da verdade, nessa filosofia,passou por duas grandes etapas.Na primeira, os filósofos consideravam que a linguagem produz enunciadossobre as coisas – há os enunciados do senso-comum ou da vida cotidiana e osenunciados lógicos formulados pelas ciências. A pretensão da linguagem, nosdois casos, seria a de produzir enunciados em conformidade com a própriarealidade, de modo que a verdade seria tal conformidade ou correspondênciaentre os enunciados e os fatos e coisas.Essa conformidade ou correspondência seria inadequada e imprecisa nalinguagem natural ou comum (nossa linguagem cotidiana) e seria adequada,rigorosa e precisa na linguagem lógica das ciências. Por isso, a ciência foidefinida como “linguagem bem feita” e concebida como descrição e “pintura” domundo.No entanto, inúmeros problemas tornaram essa concepção insustentável. Porexemplo, se eu disser “estrela da manhã” e “estrela da tarde”, terei doisenunciados diferentes e duas pinturas diferentes do mundo. Acontece, porém, queesses dois enunciados se referem ao mesmo objeto, o planeta Vênus. Como possoter dois enunciados diferentes para significar o mesmo objeto ou a mesma coisa?Um outro exemplo, conhecido com o nome de “paradoxo do catálogo ”, tambémpode ilustrar as dificuldades da teoria da verdade como correspondência entreenunciado e coisa, em que a correspondência é uma “pintura” da realidade feitapelas idéias.Se eu disser que existe o catálogo de todos os catálogos, onde devo colocar o“catálogo dos catálogos”? Isto é, o catálogo dos catálogos é um catálogocatalogado por ele mesmo junto com os outros catálogos, ou é um catálogo quenão faz parte de nenhum catálogo? Se estiver catalogado, não pode ser catálogode todos os catálogos, pois será necessário um outro catálogo que o contenha;mas se não estiver catalogado, não é o catálogo de todos os catálogos, pois em talcatálogo está faltando ele próprio.O que se percebeu nesse paradoxo é que a estrutura e o funcionamento dalinguagem não correspondem exatamente à estrutura e ao funcionamento dascoisas. Essa descoberta conduziu a filosofia analítica à idéia da verdade comoalgo puramente lingüístico e lógico, isto é, a verdade é a coerência interna deuma linguagem que oferece axiomas, postulados e regras para os enunciados eque é verdadeira ou falsa conforme respeite ou desrespeite as normas de seupróprio funcionamento.Cada campo do conhecimento cria sua própria linguagem, seus axiomas, seuspostulados, suas regras de demonstração e de verificação de seus resultados e é a – 131 –

Convite à Filosofia _______________________________coerência interna entre os procedimentos e os resultados com os princípios quefundamentam um certo campo de conhecimento que define o verdadeiro e ofalso. Verdade e falsidade não estão nas coisas nem nas idéias, mas são valoresdos enunciados, segundo o critério da coerência lógica.A concepção pragmática da verdadeOs filósofos empiristas tendem a considerar que os critérios anteriores sãopuramente teóricos e que, para decidir sobre a verdade de um fato ou de umaidéia, eles não são suficientes e podem gerar ceticismo, isto é, como há variadoscritérios e como há mudanças históricas no conceito da verdade, acaba-sejulgando que a verdade não existe ou é inalcançável pelos seres humanos.Para muitos filósofos empiristas, a verdade, além de ser sempre verdade de fato ede ser obtida por indução e por experimentação, deve ter como critério suaeficácia ou utilidade. Um conhecimento é verdadeiro não só quando explicaalguma coisa ou algum fato, mas sobretudo quando permite retirar conseqüênciaspráticas e aplicáveis. Por considerarem como critério da verdade a eficácia e autilidade, essa concepção é chamada de pragmática e a corrente filosófica que adefende, de pragmatismo.As concepções da verdade e a HistóriaAs várias concepções da verdade que foram expostas estão articuladas commudanças históricas, tanto no sentido de mudanças na estrutura e organização dassociedades, como quanto no sentido de mudanças no interior da própria Filosofia.Assim, por exemplo, nas sociedades antigas, baseadas no trabalho escravo, aidéia da verdade como utilidade e eficácia prática não poderia aparecer, pois averdade é considerada a forma superior do espírito humano, portanto, desligadado trabalho e das técnicas, e tomada como um valor autônomo do conhecimentoenquanto pura contemplação da realidade, isto é, como theoria.Nas sociedades nascidas com o capitalismo, em que o trabalho escravo e servil ésubstituído pelo trabalho livre e em que é elaborada a idéia de indivíduo comoum átomo social, isto é, como um ser que pode ser conhecido e pensado por simesmo e sem os outros, a verdade tenderá a ser concebida como dependendoexclusivamente das operações do sujeito do conhecimento ou da consciência desi reflexiva autônoma.Também nas sociedades capitalistas, regidas pelo princípio do crescimento ouacumulação do capital por meio do crescimento das forças produtivas (trabalho etécnicas) e por meio do aumento da capacidade industrial para dominar econtrolar as forças da Natureza e a sociedade, a verdade tenderá a aparecer comoutilidade e eficácia, ou seja, como algo que tenha uso prático e verificável. Assimcomo o trabalho deve produzir lucro, também o conhecimento deve produzirresultados úteis. – 132 –

Marilena Chauí _______________________________Numa sociedade altamente tecnológica, como a do século XX ocidental europeue norte-americano, em que as pesquisas científicas tendem a criar noslaboratórios o próprio objeto do conhecimento, isto é, em que o objeto doconhecimento é uma construção do pensamento científico ou um constructusproduzido pelas teorias e pelas experimentações, a verdade tende a serconsiderada a forma lógica e coerente assumida pela própria teoria, bem como aser considerada como o consenso teórico estabelecido entre os membros dascomunidades de pesquisadores.A verdade, portanto, como a razão, está na História e é histórica.Também as transformações internas à própria Filosofia modificam a concepçãoda verdade. A teoria da verdade como correspondência entre coisa e idéia, oufato e idéia, liga-se à concepção realista da razão e do conhecimento, isto é, àprioridade do objeto do conhecimento, ou realidade, sobre o sujeito doconhecimento. Ao contrário, a concepção da verdade como coerência interna elógica das idéias ou dos conceitos liga-se à concepção idealista da razão e doconhecimento, isto é, à prioridade do sujeito do conhecimento ou do pensamentosobre o objeto a ser conhecido.As concepções históricas e as transformações internas ao conhecimento mostramque as várias concepções da verdade não são arbitrárias nem casuais ouacidentais, mas possuem causas e motivos que as explicam, e que a cadaformação social e a cada mudança interna do conhecimento surge a exigência dereformular a concepção da verdade para que o saber possa realizar-se.As verdades (os conteúdos conhecidos) mudam, a idéia da verdade (a forma deconhecer) muda, mas não muda a busca do verdadeiro, isto é, permanece aexigência de vencer o senso-comum, o dogmatismo, a atitude natural e seuspreconceitos. É a procura da verdade e o desejo de estar no verdadeiro quepermanecem. A verdade se conserva, portanto, como o valor mais alto a queaspira o pensamento.As exigências fundamentais da verdadeSe examinarmos as diferentes concepções da verdade, notaremos que algumasexigências fundamentais são conservadas em todas elas e constituem o campo dabusca do verdadeiro:1. compreender as causas da diferença entre o parecer e o ser das coisas ou doserros;2. compreender as causas da existência e das formas de existência dos seres;3. compreender os princípios necessários e universais do conhecimento racional;4. compreender as causas e os princípios da transformação dos própriosconhecimentos; – 133 –

Convite à Filosofia _______________________________5. separar preconceitos e hábitos do senso comum e a atitude crítica doconhecimento;6. explicitar com todos os detalhes os procedimentos empregados para oconhecimento e os critérios de sua realização;7. liberdade de pensamento para investigar o sentido ou a significação darealidade que nos circunda e da qual fazemos parte;8. comunicabilidade, isto é, os critérios, os princípios, os procedimentos, ospercursos realizados, os resultados obtidos devem poder ser conhecidos ecompreendidos por todos os seres racionais. Como escreve o filósofo Espinosa, oBem Verdadeiro é aquele capaz de comunicar-se a todos e ser compartilhado portodos;9. transmissibilidade, isto é, os critérios, princípios, procedimentos, percursos eresultados do conhecimento devem poder ser ensinados e discutidos em público.Como diz Kant, temos o direito ao uso público da razão;10. veracidade, isto é, o conhecimento não pode ser ideologia, ou, em outraspalavras, não pode ser máscara e véu para dissimular e ocultar a realidadeservindo aos interesses da exploração e da dominação entre os homens. Assimcomo a verdade exige a liberdade de pensamento para o conhecimento, tambémexige que seus frutos propiciem a liberdade de todos e a emancipação de todos;11. a verdade deve ser objetiva, isto é, deve ser compreendida e aceita universal enecessariamente, sem que isso signifique que ela seja “neutra” ou “imparcial ”,pois o sujeito do conhecimento está vitalmente envolvido na atividade doconhecimento e o conhecimento adquirido pode resultar em mudanças queafetem a realidade natural, social e cultural.Como disseram os filósofos Sartre e Merleau-Ponty, somos “seres em situação” ea verdade está sempre situada nas condições objetivas em que foi alcançada eestá sempre voltada para compreender e interpretar a situação na qual nasceu e àqual volta para trazer transformações. Não escolhemos o país, a data, a família ea classe social em que nascemos – isso é nossa situação -, mas podemos escolhero que fazer com isso, conhecendo nossa situação e indagando se merece ou nãoser mantida.A verdade é, ao mesmo tempo, frágil e poderosa. Frágil porque os poderesestabelecidos podem destruí-la, assim como mudanças teóricas podem substituí-la por outra. Poderosa, porque a exigência do verdadeiro é o que dá sentido àexistência humana. Um texto do filósofo Pascal nos mostra essa fragilidade-forçado desejo do verdadeiro: O homem é apenas um caniço, o mais fraco da Natureza: mas é um caniço pensante. Não é preciso que o Universo inteiro se arme para esmagá-lo: um vapor, uma gota de água são suficientes par a matá-lo. Mas, mesmo que o Universo o esmagasse, o homem seria ainda mais nobre do que – 134 –

Marilena Chauí _______________________________aquilo que o mata, porque ele sabe que morre e conhece a vantagem doUniverso sobre ele; mas disso o Universo nada sabe. Toda nossadignidade consiste, pois, no pensame nto. É a partir dele que nos devemoselevar e não do espaço e do tempo, que não saberíamos ocupar. – 135 –

Marilena Chauí _______________________________ Capítulo 1 A preocupação com o conhecimentoO conhecimento e os primeiros filósofosQuando estudamos o nascimento da Filosofia na Grécia, vimos que os primeirosfilósofos – os pré-socráticos – dedicavam-se a um conjunto de indagaçõesprincipais: Por que e como as coisas existem? O que é o mundo? Qual a origemda Natureza e quais as causas de sua transformação? Essas indagaçõescolocavam no centro a pergunta: o que é o Ser?A palavra ser em português, traduz a palavra latina esse e a expressão grega taonta. A palavra latina esse é o infinitivo de um verbo, o verbo ser. A expressãogrega ta onta quer dizer: as coisas existentes, os entes, os seres. No singular, taonta se diz to on, que é traduzida por: o ser. Os primeiros filósofos ocupavam-secom a origem e a ordem do mundo, o kosmos, e a filosofia nascente era umacosmologia. Pouco a pouco, passou-se a indagar o que era o próprio kosmos, qualera o fundo eterno e imutável que permanecia sob a multiplicidade etransformação das coisas. Qual era e o que era o ser subjacente a todos os seres.Com isto, a filosofia nascente tornou-se ontologia, isto é, conhecimento ou sabersobre o ser.Por esse mesmo motivo, considera-se que os primeiros filósofos não tinham umapreocupação principal com o conhecimento enquanto conhecimento, isto é, nãoindagavam se podemos ou não conhecer o Ser, mas partiam da pressuposição deque o podemos conhecer, pois a verdade, sendo aletheia, isto é, presença emanifestação das coisas para os nossos sentidos e para o nosso pensamento,significa que o Ser está manifesto e presente para nós e, portanto, nós o podemosconhecer.Todavia, a opinião de que os primeiros filósofos não se preocupavam com nossacapacidade e possibilidade de conhecimento não é exata. Para tanto, bastalevarmos em conta o fato de afirmarem que a realidade (o Ser, a Natureza) éracional e que a podemos conhecer porque também somos racionais; nossa razãoé parte da racionalidade do mundo, dela participando.Heráclito, Parmênides e DemócritoAlguns exemplos indicam a existência da preocupação dos primeiros filósofoscom o conhecimento e, aqui, tomaremos três: Heráclito de Éfeso, Parmênides deEléia e Demócrito de Abdera. – 137 –

Convite à Filosofia _______________________________Heráclito de Éfeso considerava a Natureza (o mundo, a realidade) como um“fluxo perpétuo ”, o escoamento contínuo dos seres em mudança perpétua. Dizia:“Não podemos banhar-nos duas vezes no mesmo rio, porque as águas nunca sãoas mesmas e nós nunca somos os mesmos”. Comparava o mundo à chama deuma vela que queima sem cessar, transformando a cera em fogo, o fogo emfumaça e a fumaça em ar. O dia se torna noite, o verão se torna outono, o novofica velho, o quente esfria, o úmido seca, tudo se transforma no seu contrário.A realidade, para Heráclito, é a harmonia dos contrários, que não cessam de setransformar uns nos outros. Se tudo não cessa de se transformar perenemente,como explicar que nossa percepção nos ofereça as coisas como se fossemestáveis, duradouras e permanentes? Com essa pergunta o filósofo indicava adiferença entre o conhecimento que nossos sentidos nos oferecem e oconhecimento que nosso pensamento alcança, pois nossos sentidos nos oferecema imagem da estabilidade e nosso pensamento alcança a verdade como mudançacontínua.Parmênides de Eléia colocava-se na posição oposta à de Heráclito. Dizia que sópodemos pensar sobre aquilo que permanece sempre idêntico a si mesmo, isto é,que o pensamento não pode pensar sobre as coisas que são e não são, que ora sãode um modo e ora são de outro, que são contrárias a si mesmas e contraditórias.Conhecer é alcançar o idêntico, imutável. Nossos sentidos nos oferecem aimagem de um mundo em incessante mudança, num fluxo perpétuo, onde nadapermanece idêntico a si mesmo: o dia vira noite, o inverno vira primavera, o docese torna amargo, o pequeno vira grande, o grande diminui, o doce amarga, oquente esfria, o frio se aquece, o líquido vira vapor ou vira sólido.Como pensar o que é e o que não é ao mesmo tempo? Como pensar o instável?Como pensar o que se torna oposto e contrário a si mesmo? Não é possível, diziaParmênides. Pensar é dizer o que um ser é em sua identidade profunda epermanente. Com isso, afirmava o mesmo que Heráclito – perceber e pensar sãodiferentes -, mas o dizia no sentido oposto ao de Heráclito, isto é, percebemosmudanças impensáveis e devemos pensar identidades imutáveis.Demócrito de Abdera desenvolveu uma teoria sobre o Ser ou sobre a Naturezaconhecida com o nome de atomismo: a realidade é constituída por átomos. Apalavra átomo tem origem grega e significa: o que não pode ser cortado oudividido, isto é, a menor partícula indivisível de todas as coisas. Os seres surgempor composição dos átomos, transformam-se por novos arranjos dos átomos emorrem por separação dos átomos.Os átomos, para Demócrito, possuem formas e consistências diferentes(redondos, triangulares, lisos, duros, moles, rugosos, pontiagudos, etc.) e essasdiferenças e os diferentes modos de combinação entre eles produzem a variedadede seres, suas mudanças e desaparições. Através de nossos órgãos dos sentidos,percebemos o quente e o frio, o doce e o amargo, o seco e o úmido, o grande e o – 138 –

Marilena Chauí _______________________________pequeno, o duro e o mole, sabores, odores, texturas, o agradável e odesagradável, sentimos prazer e dor, porque percebemos os efeitos dascombinações dos átomos que, em si mesmos, não possuem tais qualidades.Somente o pensamento pode conhecer os átomos, que são invisíveis para nossapercepção sensorial. Dessa maneira, Demócrito concordava com Heráclito eParmênides em que há uma diferença entre o que conhecemos através de nossapercepção e o que conhecemos apenas pelo pensamento; porém, diversamentedos outros dois filósofos, não considerava a percepção ilusória, mas apenas umefeito da realidade sobre nós. O conhecimento sensorial ou sensível é tãoverdadeiro quanto aquilo que o pensamento puro alcança, embora de umaverdade diferente e menos profunda ou menos relevante do que aquela alcançadapelo puro pensamento.Esses três exemplos nos mostram que, desde os seus começos, a Filosofiapreocupou-se com o problema do conhecimento, pois sempre esteve voltada paraa questão do verdadeiro. Desde o início, os filósofos se deram conta de que nossopensamento parece seguir certas leis ou regras para conhecer as coisas e que háuma diferença entre perceber e pensar. Pensamos a partir do que percebemos oupensamos negando o que percebemos? O pensamento continua, nega ou corrige apercepção? O modo como os seres nos aparecem é o modo como os seresrealmente são?Sócrates e os sofistasPreocupações como essas levaram, na Grécia clássica, a duas atitudes filosóficas:a dos sofistas e a de Sócrates – com eles, os problemas do conhecimentotornaram-se centrais.Os sofistas, diante da pluralidade e do antagonismo das filosofias anteriores, oudos conflitos entre as várias ontologias, concluíram que não podemos conhecer oSer, mas só podemos ter opiniões subjetivas sobre a realidade.Por isso, para se relacionarem com o mundo e com os outros humanos, oshomens devem valer-se de um outro instrumento – a linguagem – para persuadiros outros de suas próprias idéias e opiniões. A verdade é uma questão de opiniãoe de persuasão, e a linguagem é mais importante do que a percepção e opensamento.Em contrapartida, Sócrates, distanciando-se dos primeiros filósofos e opondo-seaos sofistas, afirmava que a verdade pode ser conhecida, mas primeiro devemosafastar as ilusões dos sentidos e as das palavras ou das opiniões e alcançar averdade apenas pelo pensamento. Os sentidos nos dão as aparências das coisas eas palavras, meras opiniões sobre elas. Conhecer é passar da aparência àessência, da opinião ao conceito, do ponto de vista individual à idéia universal decada um dos seres e de cada um dos valores da vida moral e política. – 139 –

Convite à Filosofia _______________________________Platão e AristótelesSócrates fez a Filosofia preocupar-se com nossa possibilidade de conhecer eindagar quais as causas das ilusões, dos erros e da mentira. No esforço paradefinir as formas de conhecer e as diferenças entre o conhecimento verdadeiro ea ilusão, Platão e Aristóteles introduziram na Filosofia a idéia de que existemdiferentes maneiras de conhecer ou graus de conhecimento e que esses graus sedistinguem pela ausência ou presença do verdadeiro, pela ausência ou presençado falso.Platão distingue quatro formas ou graus de conhecimento, que vão do grauinferior ao superior: crença, opinião, raciocínio e intuição intelectual. Para ele, osdois primeiros graus devem ser afastados da Filosofia – são conhecimentosilusórios ou das aparências, como os dos prisioneiros da caverna – e somente osdois últimos devem ser considerados válidos. O raciocínio treina e exercita nossopensamento, preparando-o para uma purificação intelectual que lhe permitiráalcançar uma intuição das idéias ou das essências que formam a realidade ou queconstituem o Ser.Para Platão, o primeiro exemplo do conhecimento puramente intelectual eperfeito encontra-se na matemática, cujas idéias nada devem aos órgãos dossentidos e não se reduzem a meras opiniões subjetivas. O conhecimentomatemático seria a melhor preparação do pensamento para chegar à intuiçãointelectual das idéias verdadeiras, que constituem a verdadeira realidade.Platão diferencia e separa radicalmente duas formas de conhecimento: oconhecimento sensível (crença e opinião) e o conhecimento intelectual(raciocínio e intuição) afirmando que somente o segundo alcança o Ser e averdade. O conhecimento sensível alcança a mera aparência das coisas, oconhecimento intelectual alcança a essência das coisas, as idéias.Aristóteles distingue sete formas ou graus de conhecimento: sensação, percepção,imaginação, memória, raciocínio e intuição. Para ele, ao contrário de Platão,nosso conhecimento vai sendo formado e enriquecido por acumulação dasinformações trazidas por todos os graus, de modo que, em lugar de uma rupturaentre o conhecimento sensível e o intelectual, Aristóteles estabelece umacontinuidade entre eles.A separação se dá entre os seis primeiros graus e o último, ou a intuição, que épuramente intelectual ou um ato do pensamento puro. Essa separação, porém,não significa que os outros graus ofereçam conhecimentos ilusórios ou falsos esim que oferecem tipos de conhecimentos diferentes, que vão de um grau menora um grau maior de verdade.Em cada um deles temos acesso a um aspecto do Ser ou da realidade e, naintuição intelectual, temos o conhecimento pleno e total da realidade ou dos – 140 –

Marilena Chauí _______________________________princípios da realidade plena e total, aquilo que Aristóteles chamava de “o Serenquanto Ser”.A diferença entre os seis primeiros graus e o último decorre da diferença doobjeto do conhecimento, isto é, os seis primeiros graus conhecem objetos que seoferecem a nós na sensação, na imaginação, no raciocínio, enquanto o sétimo lidacom um objeto que só pode ser alcançado pelo pensamento puro.Princípios geraisCom os filósofos gregos, estabeleceram-se alguns princípios gerais doconhecimento verdadeiro:? as fontes e as formas do conhecimento: sensação, percepção, imaginação,memória, linguage m, raciocínio e intuição intelectual;? a distinção entre o conhecimento sensível e o conhecimento intelectual;? o papel da linguagem no conhecimento;? a diferença entre opinião e saber;? a diferença entre aparência e essência;? a definição dos princípios do pensamento verdadeiro (identidade, não-contradição, terceiro excluído, causalidade), da forma do conhecimentoverdadeiro (idéias, conceitos e juízos) e dos procedimentos para alcançar oconhecimento verdadeiro (indução, dedução, intuição);? a distinção dos campos do conhecimento verdadeiro, sistematizados porAristóteles em três ramos: teorético (referente aos seres que apenas podemoscontemplar ou observar, sem agir sobre eles ou neles interferir), prático(referente às ações humanas: ética, política e economia) e técnico (referente àfabricação e ao trabalho humano, que pode interferir no curso da Natureza, criarinstrumentos ou artefatos: medicina, artesanato, arquitetura, poesia, retórica,etc.).Para os gregos, a realidade é a Natureza e dela fazem parte os humanos e asinstituições humanas. Por sua participação na Natureza, os humanos podemconhecê-la, pois são feitos dos mesmos elementos que ela e participam da mesmainteligência que a habita e dirige.O poeta alemão Goethe criou estes versos, que exprimem como os antigosconcebiam o conhecimento: Se os olhos não fossem solares Jamais o Sol nós veríamos; Se em nós não estivesse a própria força divina, Como o divino sentiríamos? – 141 –

Convite à Filosofia _______________________________O intelecto humano conhece a inteligibilidade do mundo, alcança a racionalidadedo real e pode pensar a realidade porque nós e ela somos feitos da mesmamaneira, com os mesmos elementos e com a mesma inteligência.Os filósofos modernos e a teoria do conhecimentoQuando se diz que a teoria do conhecimento tornou-se uma disciplina específicada Filosofia somente com os filósofos modernos (a partir do século XVII) não sepretende dizer que antes deles o problema do conhecimento não havia ocupadooutros filósofos, e sim que, para os modernos, a questão do conhecimento foiconsiderada anterior à da ontologia e pré-condição ou pré-requisito para aFilosofia e as ciências.Por que essa mudança de perspectiva dos gregos para os modernos? Porque entreeles instala-se o cristianismo, trazendo problemas que os antigos filósofosdesconheciam.A perspectiva cristã introduziu algumas distinções que romperam com a idéiagrega de uma participação direta e harmoniosa entre o nosso intelecto e averdade, nosso ser e o mundo. O cristianismo fez distinção entre fé e razão,verdades reveladas e verdades racionais, matéria e espírito, corpo e alma;afirmou que o erro e a ilusão são parte da natureza humana em decorrência docaráter pervertido de nossa vontade, após o pecado original.Em conseqüência, a Filosofia precisou enfrentar três problemas no vos:1. Como, sendo seres decaídos e pervertidos, podemos conhecer a verdade?2. Sendo nossa natureza dupla (matéria e espírito), como nossa inteligência podeconhecer o que é diferente dela? Isto é, como seres corporais podem conhecer oincorporal (Deus) e como seres dotados de alma incorpórea podem conhecer ocorpóreo (mundo)?3. Os filósofos antigos consideravam que éramos entes participantes de todas asformas de realidade: por nosso corpo, participamos da Natureza; por nossa alma,participamos da Inteligência divina. O cristianismo, ao introduzir a noção depecado original, introduziu a separação radical entre os humanos (pervertidos efinitos) e a divindade (perfeita e infinita). Com isso, fez surgir a pergunta: comoo finito (humano) pode conhecer a verdade (infinita e divina)?Eis porque, durante toda a Idade Média, a fé tornou-se central para a Filosofia,pois era através dela que essas perguntas eram respondidas. Auxiliada pela graçadivina, a fé iluminava nosso intelecto e guiava nossa vontade, permitindo à nossarazão o conhecimento do que está ao seu alcance, ao mesmo tempo em que nossaalma recebia os mistérios da revelação. A fé nos fazia saber (mesmo que nãopudéssemos compreender como isso era possível) que, pela vontade soberana deDeus, era concedido à nossa alma imaterial conhecer as coisas materiais. – 142 –

Marilena Chauí _______________________________Os filósofos modernos, porém, não aceitaram essas respostas e por esse motivo aquestão do conhecimento tornou-se central para eles.Os gregos se surpreendiam que pudesse haver erro, ilusão e mentira. Como averdade – aletheia – era concebida como presença e manifestação do verdadeiroaos nossos sentidos ou ao nosso intelecto, isto é, como presença do Ser à nossaexperiência sensível ou ao puro pensamento, a pergunta filosófica só podia ser:Como é possível o erro ou a ilusão? Ou seja, como é possível ver o que não é,dizer o que não é, pensar o que não é?Para os modernos, a situação é exatamente contrária. Se a verdade depende darevelação e da vontade divinas, e se nosso intelecto foi pervertido pela nossavontade pecadora, como podemos conhecer a verdade? Se a verdade depender dafé e se depender da fraqueza da nossa vontade, como nossa razão poderáconhecê-la?O cristianismo, particularmente com santo Agostinho, trouxe a idéia de que cadaser humano é uma pessoa. Essa idéia vem do Direito Romano, que define apessoa como um sujeito de direitos e de deveres. Se somos pessoas, somosresponsáveis por nossos atos e pensamentos. Nossa pessoa é nossa consciência,que é nossa alma dotada de vontade, imaginação, memória e inteligência.A vontade é livre e, aprisionada num corpo passional e fraco, pode mergulharnossa alma na ilusão e no erro. Estar no erro ou na verdade dependerá, portanto,de nós mesmos e por isso precisamos saber se podemos ou não conhecer averdade e em que condições tal conhecimento é possível. Os primeiros filósofoscristãos e os medievais afirmavam que podemos conhecer a verdade, desde que arazão não contradiga a fé e se submeta a ela no tocante às verdades últimas eprincipais.A primeira tarefa que os modernos se deram foi a de separar fé de razão,considerando cada uma delas destinada a conhecimentos diferentes e semqualquer relação entre si. A segunda tarefa foi a de explicar como a alma-consciência, embora diferente dos corpos, pode conhecê-los. Consideraram que aalma pode conhecer os corpos porque os representa intelectualmente por meiodas idéias e estas são imateriais como a própria alma. A terceira tarefa foi a deexplicar como a razão e o pensamento podem tornar-se mais fortes do que avontade e controlá-la para que evite o erro.O problema do conhecimento torna-se, portanto, crucial e a Filosofia precisacomeçar pelo exame da capacidade humana de conhecer, pelo entendimento ousujeito do conhecimento. A teoria do conhecimento volta-se para a relação entreo pensamento e as coisas, a consciência (interior) e a realidade (exterior), oentendimento e a realidade; em suma, o sujeito e o objeto do conhecimento.Os dois filósofos que iniciam o exame da capacidade humana para o erro e averdade são o inglês Francis Bacon e o francês René Descartes. O filósofo que – 143 –

Convite à Filosofia _______________________________propõe, pela primeira vez, uma teoria do conhecimento propriamente dita é oinglês John Locke. A partir do século XVII, portanto, a teoria do conhecimentotorna-se uma disciplina central da Filosofia.Bacon e DescartesOs gregos indagavam: como o erro é possível? Os modernos perguntaram: comoa verdade é possível? Para os gregos, a verdade era aletheia, para os modernos,veritas. Em outras palavras, para os modernos trata-se de compreender e explicarcomo os relatos mentais – nossas idéias – correspondem ao que se passaverdadeiramente na realidade. Apesar dessas diferenças, os filósofos retomaramo modo de trabalhar filosoficamente proposto por Sócrates, Platão e Aristóteles,qual seja, começar pelo exame das opiniões contrárias e ilusórias para ultrapassá-las em direção à verdade.Antes de abordar o conhecimento verdadeiro, Bacon e Descartes examinaramexaustivamente as causas e as formas do erro, inaugurando um estilo filosóficoque permanecerá na Filosofia, isto é, a análise dos preconceitos e do sensocomum.Bacon elaborou uma teoria conhecida como a crítica dos ídolos (a palavra ídolovem do grego eidolon e significa imagem). Descartes, como já mencionamos,elaborou um método de análise conhecido como dúvida metódica.De acordo com Bacon, existem quatro tipos de ídolos ou de imagens que formamopiniões cristalizadas e preconceitos, que impedem o conhecimento da verdade:1. ídolos da caverna: as opiniões que se formam em nós por erros e defeitos denossos órgãos dos sentidos. São os mais fáceis de corrigir por nosso intelecto;2. ídolos do fórum: são as opiniões que se formam em nós como conseqüênciada linguagem e de nossas relações com os outros. São difíceis de vencer, mas ointelecto tem poder sobre eles;3. ídolos do teatro: são as opiniões formadas em nós em decorrência dos poderesdas autoridades que nos impõem seus pontos de vista e os transformam emdecretos e leis inquestionáveis. Só podem ser refeitos se houver uma mudançasocial e política;4. ídolos da tribo: são as opiniões que se formam em nós em decorrência denossa natureza humana; esses ídolos são próprios da espécie humana e só podemser vencidos se houver uma reforma da própria natureza humana.Bacon acreditava que o avanço dos conhecimentos e das técnicas, as mudançassociais e políticas e o desenvolvimento das ciências e da Filosofia propiciariamuma grande reforma do conhecimento humano, que seria também uma grandereforma na vida humana. Tanto assim que, ao lado de suas obras filosóficas,escreveu uma obra filosófico-política, a Nova Atlântida, na qual descreve e narra – 144 –

Marilena Chauí _______________________________uma sociedade ideal e perfeita, nascida do conhecimento verdadeiro e dodesenvolvimento das técnicas.Descartes localizava a origem do erro em duas atitudes que chamou de atitudesinfantis:1. a prevenção, que é a facilidade com que nosso espírito se deixa levar pelasopiniões e idéias alheias, sem se preocupar em verificar se são ou nãoverdadeiras. São as opiniões que se cristalizam em nós sob a forma depreconceitos (colocados em nós por pais, professores, livros, autoridades) e queescravizam nosso pensamento, impedindo-nos de pensar e de investigar;2. a precipitação, que é a facilidade e a velocidade com que nossa vontade nosfaz emitir juízos sobre as coisas antes de verificarmos se nossas idéias são ou nãosão verdadeiras. São opiniões que emitimos em conseqüência de nossa vontadeser mais forte e poderosa do que nosso intelecto. Originam-se no conhecimentosensível, na imaginação, na linguagem e na memória.Como Bacon, Descartes também está convencido de que é possível vencer essesefeitos, graças a uma reforma do entendimento e das ciências. (Descartes nãopensa na necessidade de mudanças sociais e políticas, diferindo de Bacon nesseaspecto.) Essa reforma pode ser feita pelo sujeito do conhecimento, se estedecidir e deliberar pela necessidade de encontrar fundamentos seguros para osaber. Para isso Descartes criou um procedimento, a dúvida metódica, pela qualo sujeito do conhecimento, analisando cada um de seus conhecimentos, conhecee avalia as fontes e as causas de cada um, a forma e o conteúdo de cada um, afalsidade e a verdade de cada um e encontra meios para livrar-se de tudo quantoseja duvidoso perante o pensamento. Ao mesmo tempo, o pensamento oferece aoespírito um conjunto de regras que deverão ser obedecidas para que umconhecimento seja considerado verdadeiro.Para Descartes, o conhecimento sensível (isto é, sensação, percepção,imaginação, memória e linguagem) é a causa do erro e deve ser afastado. Oconhecimento verdadeiro é puramente intelectual, parte das idéias inatas econtrola (por meio de regras) as investigações filosóficas, científicas e técnicas.LockeLocke é o iniciador da teoria do conhecimento propriamente dita porque sepropõe a analisar cada uma das formas de conhecimento que possuímos, aorigem de nossas idéias e nossos discursos, a finalidade das teorias e ascapacidades do sujeito cognoscente relacionadas com os objetos que ele podeconhecer. Seguindo a trilha que fora aberta por Aristóteles, Locke tambémdistingue graus de conhecimento, começando pelas sensações até chegar aopensamento.Comparemos o que escreveu Aristóteles, no início da Metafísica, e o que afirmouLocke, no início do Ensaio sobre o entendimento humano. – 145 –

Convite à Filosofia _______________________________Aristóteles escreveu: Todos os homens têm, por natureza, o desejo de conhecer. O prazer causado pelas sensações é a prova disso, pois, mesmo fora de qualquer utilidade, as sensações nos agradam por si mesmas e, mais do que todas as outras, as sensações visuais.Locke afirmou: Visto que o entendimento situa o homem acima dos outros seres sensíveis e dá-lhe toda vantagem e todo domínio que tem sobre eles, seu estudo consiste certamente num tópico que, por sua nobreza, é merecedor de nosso trabalho de investigá-lo. O entendimento, como o olho, que nos faz ver e perceber todas as outras coisas, não se observa a si mesmo; requer arte e esforço situá-lo à distância e fazê-lo seu próprio objeto.Assim como Aristóteles diferia de Platão, Locke difere de Descartes.Platão e Descartes afastam a experiência sensível ou o conhecimento sensível doconhecimento verdadeiro, que é puramente intelectual. Aristóteles e Lockeconsideram que o conhecimento se realiza por graus contínuos, partindo dasensação até chegar às idéias.Essa diferença de perspectiva estabelece as duas grandes orientações da teoria doconhecimento, conhecidas como racionalismo e empirismo.Para o racionalismo, a fonte do conhecimento verdadeiro é a razão operando porsi mesma, sem o auxílio da experiência sensível e controlando a própriaexperiência sensível.Para o empirismo, a fonte de todo e qualquer conhecimento é a experiênciasensível, responsável pelas idéias da razão e controlando o trabalho da própriarazão.Essas diferenças, porém, não impedem que haja um elemento comum a todos osfilósofos a partir da modernidade, qual seja, tomar o entendimento humano comoobjeto da investigação filosófica.Tornar o entendimento objeto para si próprio, tornar o sujeito do conhecimentoobjeto de conhecimento para si mesmo é a grande tarefa que a modernidadefilosófica inaugura, ao desenvolver a teoria do conhecimento. Como se trata davolta do conhecimento sobre si mesmo para conhecer-se, ou do sujeito doconhecimento colocando-se como objeto para si mesmo, a teoria doconhecimento é a reflexão filosófica.A consciência: o eu, a pessoa, o cidadão e o sujeitoA teoria do conhecimento no seu todo realiza-se como reflexão do entendimentoe baseia-se num pressuposto fundamental: o de que somos seres racionaisconscientes. – 146 –

Marilena Chauí _______________________________O que se entende por consciência?A capacidade humana para conhecer, para saber que conhece e para saber o quesabe que conhece. A consciência é um conhecimento (das coisas e de si) e umconhecimento desse conhecimento (reflexão).Do ponto de vista psicológico, a consciência é o sentimento de nossa própriaidentidade: é o eu, um fluxo temporal de estados corporais e mentais, que retémo passado na memória, percebe o presente pela atenção e espera o futuro pelaimaginação e pelo pe nsamento. O eu é o centro ou a unidade de todos essesestados psíquicos.A consciência psicológica ou o eu é formada por nossas vivências, isto é, pelamaneira como sentimos e compreendemos o que se passa em nosso corpo e nomundo que nos rodeia, assim como o que se passa em nosso interior. É a maneiraindividual e própria com que cada um de nós percebe, imagina, lembra, opina,deseja, age, ama e odeia, sente prazer e dor, toma posição diante das coisas e dosoutros, decide, sente-se feliz ou infeliz.Do po nto de vista ético e moral, a consciência é a espontaneidade livre e racional,para escolher, deliberar e agir conforme à liberdade, aos direitos alheios e aodever. É a pessoa, dotada de vontade livre e de responsabilidade. É a capacidadepara compreender e interpretar sua situação e sua condição (física, mental, social,cultural, histórica), viver na companhia dos outros segundo as normas e osvalores morais definidos por sua sociedade, agir tendo em vista fins escolhidospor deliberação e decisão, realizar as virtudes e, quando necessário, contrapor-see opor-se aos valores estabelecidos em nome de outros, considerados maisadequados à liberdade e à responsabilidade.Do ponto de vista político, a consciência é o cidadão, isto é, tanto o indivíduosituado no tecido das relações sociais, como portador de direitos e deveres,relacionando-se com a esfera pública do poder e das leis, quanto o membro deuma classe social, definido por sua situação e posição nessa classe, portador edefensor de interesses específicos de seu grupo ou de sua classe, relacionando-secom a esfera pública do poder e das leis.A consciência moral (a pessoa) e a consciência política (o cidadão) formam-sepelas relações entre as vivências do eu e os valores e as instituições de suasociedade ou de sua cultura. São as maneiras pelas quais nos relacionamos comos outros por meio de comportamentos e de práticas determinados pelos códigosmorais (que definem deveres, obrigações, virtudes) e políticos (que definemdireitos, deveres e instituições coletivas públicas), a partir do modo como umacultura e uma sociedade determinadas definem o bem e o mal, o justo e o injusto,o legítimo e o ilegítimo, o legal e o ilegal, o privado e o público. O eu é umavivência e uma experiência que se realiza por comportamentos; a pessoa e ocidadão são a consciência como agente (moral e político), como práxis. – 147 –

Convite à Filosofia _______________________________Do ponto de vista da teoria do conhecimento, a consciência é uma atividadesensível e intelectual dotada do poder de análise, síntese e representação. É osujeito. Reconhece-se como diferente dos objetos, cria e descobre significações,institui sentidos, elabora conceitos, idéias, juízos e teorias. É dotado decapacidade para conhecer-se a si mesmo no ato do conhecimento, ou seja, écapaz de reflexão. É saber de si e saber sobre o mundo, manifestando-se comosujeito percebedor, imaginante, memorioso, falante e pensante. É o entendimentopropriamente dito.A consciência reflexiva ou o sujeito do conhecimento forma-se como atividadede análise e síntese, de representação e de significação voltadas para aexplicação, descrição e interpretação da realidade e das outras três esferas da vidaconsciente (vida psíquica, moral e política), isto é, da posição do mundo natural ecultural e de si mesma como objetos de conhecimento. Apóia-se em métodos deconhecer e busca a verdade ou o verdadeiro. É o aspecto intelectual e teórico daconsciência.Ao contrário do eu, o sujeito do conhecimento não é uma vivência individual,mas aspira à universalidade, ou seja, à capacidade de conhecimento que sejaidêntica em todos os seres humanos e com validade para todos os seres humanos,em todos os tempos e lugares. Assim, por exemplo, João pode gostar degeometria e Paula pode detestar essa matéria, mas o que ambos sentem nãoafetam os conceitos geométricos, nem os procedimentos matemáticos, cujosentido e valor independem das vivências de ambos e são o objeto construído oudescoberto pelo sujeito do conhecimento.Maria pode não saber que existe a física quântica e pode, ao ser informada sobreela, não acreditar nela e não gostar da idéia de que seu corpo seja apenasmovimento infinito de partículas invisíveis. Isso, porém, não afeta a validade e osentido da ciência quântica, descoberta e conhecida pelo sujeito. Luíza temlembranças agr adáveis quando vê rosas amarelas; Antônio, porém, tem péssimaslembranças quando as vê. Porém, ver flores e cores, perceber qualidades, senti-las afetivamente não depende de que queiramos ou não vê -las, como não dependedo nosso eu percebê-las espacialmente ou temporalmente. A percepção de cores,de seres espaciais e temporais se realiza em mim não apenas segundo minhasvivências psicológicas individuais, mas também segundo leis, normas, princípiosde estruturação e organização das coisas, que são as mesmas para todos ossujeitos percebedores. É com essa estruturação e organização que lida o sujeito.A vivência é singular (minha). O conhecimento é universal (nosso, de todos oshumanos).Eu, pessoa, cidadão e sujeito constituem a consciência como subjetividadeativa, sede da razão e do pensamento, capaz de identidade consigo mesma,virtude, direitos e verdade. – 148 –

Marilena Chauí _______________________________Subjetividade e graus de consciênciaEmbora a subjetividade se manifeste plenamente como uma atividade que sabede si mesma, isso não significa que a consciência esteja sempre alerta e atenta.Quando, por exemplo, recebemos uma anestesia geral, vamos perdendogradualmente a consciência, deixamos de ter consciência de ver, sentir, lembrar.Dependendo da intensidade da dose aplicada, podemos perder todas as formas deconsciência menos, por exemplo, a auditiva. No entanto, mesmo a consciênciaauditiva, nessa situação, é fluida, não parece estar referida a um eu. Quandodespertamos à noite, de um sono profundo e num local que não é nosso quarto,levamos um certo tempo até sabermos quem somos e onde estamos.Quando devaneamos ou divagamos, ou sonhamos de olhos abertos, perdemos aconsciência de tudo quanto está à nossa volta e, muitas vezes, quando “voltamosa nós”, temos um braço ou uma perna adormecidos, uma queimadura na mão, orosto queimado de sol ou o corpo molhado de chuva sem que tivéssemosconsciência do que se passava conosco. Situações como essas indicam que hágraus de consciência.De um modo geral, distinguem-se os seguintes graus de consciência:? c onsciência passiva: aquela na qual temos uma vaga e uma confusa percepçãode nós mesmos e do que se passa à nossa volta, como no devaneio, no momentoque precede o sono ou o despertar, na anestesia e, sobretudo, quando somosmuito crianças ou muito idosos;? consciência vivida, mas não reflexiva: é nossa consciência efetiva, que tem apeculiaridade de ser egocêntrica, isto é, de perceber os outros e as coisas apenasa partir de nossos sentimentos com relação a eles, como, por exemplo, a criançaque bate numa mesa ao tropeçar nela, julgando que a mesa “fez de propósito”para machucá-la. Nesse grau de consciência, não conseguimos separar o eu e ooutro, o eu e as coisas. É típico, por exemplo, das pessoas apaixonadas, para asquais o mundo só existe a partir d seus sentimentos de amor, ódio, cólera, osalegria, tristeza, etc.;? consciência ativa e reflexiva: aquela que reconhece a diferença entre o interiore o exterior, entre si e os outros, entre si e as coisas. Esse grau de consciência é oque permite a existência da consciência em suas quatro modalidades, isto é, eu,pessoa, cidadão e sujeito.Esse último grau de consciência, nas suas quatro modalidades, é definido pelafenomenologia como consciência intencional ou intencionalidade, isto é, como“consciência de”. Toda a consciência, diz a fenomenologia, é sempre consciênciade alguma coisa, visa sempre a alguma coisa, de tal maneira que perceber ésempre perceber alguma coisa, imaginar é sempre imaginar alguma coisa,lembrar é sempre lembrar alguma coisa, dizer é sempre dizer alguma coisa,pensar é sempre pensar alguma coisa. A consciência realiza atos (perceber, – 149 –

Convite à Filosofia _______________________________lembrar, imaginar, falar, refletir, pensar) e visa a conteúdos ou significações (opercebido, o lembrado, o imaginado, o falado, o refletido, o pensado). O sujeitodo conhecimento é aquele que reflete sobre as relações entre atos e significaçõese conhece a estrutura formada por eles (a percepção, a imaginação, a memória, alinguagem, o pensamento). – 150 –

Marilena Chauí _______________________________ Capítulo 2 A percepçãoSensação e percepçãoO conhecimento sensível também é chamado de conhecimento empírico ouexperiência sensível e suas formas principais são a sensação e a percepção.A tradição filosófica, até o século XX, distinguia sensação de percepção pelograu de complexidade.A sensação é o que nos dá as qualidades exteriores e interiores, isto é, asqualidades dos objetos e os efeitos internos dessas qualidades sobre nós. Nasensação vemos, tocamos, sentimos, ouvimos qualidades puras e diretas: cores,odores, sabores, texturas. Sentimos o quente e o frio, o doce e o amargo, o liso eo rugoso, o vermelho e o ve rde, etc.Sentir é algo ambíguo, pois o sensível é, ao mesmo tempo, a qualidade que estáno objeto e o sentimento interno que nosso corpo possui das qualidades sentidas.Por isso, a tradição costuma dizer que a sensação é uma reação corporal imediataa um estímulo ou excitação externa, sem que seja possível distinguir, no ato dasensação, o estímulo exterior e o sentimento interior. Essa distinção só poderiaser feita num laboratório, com análise de nossa anatomia, fisiologia e sistemanervoso.Quando examinamos a sensação, notamos que ninguém diz que sente o quente,vê o azul e engole o amargo. Pelo contrário, dizemos que a água está quente, queo céu é azul e que o alimento está amargo. Isto é, sentimos as qualidades comointegrantes de seres mais amplos e complexos do que a sensação isolada de cadaqualidade. Por isso, se diz que, na realidade, só temos sensações sob a forma depercepções, isto é, de sínteses de sensações.Empirismo e intelectualismoDuas grandes concepções sobre a sensação e a percepção fazem parte da tradiçãofilosófica: a empirista e a intelectualista.Para os empiristas, a sensação e a percepção dependem das coisas exteriores, istoé, são causadas por estímulos externos que agem sobre nossos sentidos e sobre onosso sistema nervoso, recebendo uma resposta que parte de nosso cérebro, voltaa percorrer nosso sistema nervoso e chega aos nossos sentidos sob a forma deuma sensação (uma cor, um sabor, um odor), ou de uma associação de sensaçõesnuma percepção (vejo um objeto vermelho, sinto o sabor de uma carne, sinto ocheiro da rosa, etc.). – 151 –

Convite à Filosofia _______________________________A sensação seria pontual, isto é, um ponto do objeto externo toca um de meusórgãos dos sentidos e faz um percurso no interior do meu corpo, indo ao cérebroe voltando às extremidades sensoriais. Cada sensação é independente das outras ecabe à percepção unificá-las e organizá-las numa síntese. A causa doconhecimento sensível é a coisa externa, de modo que a sensação e a percepçãosão efeitos passivos de uma atividade dos corpos exteriores sobre o nosso corpo.O conhecimento é obtido por soma e associação das sensações na percepção e talsoma e associação dependem da freqüência, da repetição e da sucessão dosestímulos externos e de nossos hábitos.Para os intelectualistas, a sensação e a percepção dependem do sujeito doconhecimento e a coisa exterior é apenas a ocasião para que tenhamos a sensaçãoou a percepção. Nesse caso, o sujeito é ativo e a coisa externa é passiva, ou seja,sentir e perceber são fenômenos que dependem da capacidade do sujeito paradecompor um objeto em suas qualidades simples (a sensação) e de recompor oobjeto como um todo, dando-lhe organização e interpretação (a percepção).A passagem da sensação para a percepção é, neste caso, um ato realizado pelointelecto do sujeito do conhecimento, que confere organização e sentido àssensações. Não haveria algo propriamente chamado percepção, mas sensaçõesdispersas ou elementares; sua organização ou síntese seria feita pela inteligênciae receberia o nome de percepção. Assim, na sensação, “sentimos” qualidadespontuais, dispersas, elementares e, na percepção, “sabemos” que estamos tendosensação de um objeto que possui as qualidades sentidas por nós. Como disse umfilósofo, perceber é “saber que percebo”; ver é “pensamento de ver”; ouvir é“pensamento de ouvir”, e assim por diante.Para os empiristas, a sensação conduz à percepção como uma síntese passiva, istoé, que depende do objeto exterior. Para os intelectualistas, a sensação conduz àpercepção como síntese ativa, isto é, que depende da atividade do entendimento.Para os empiristas, as idéias são provenientes das percepções. Para osintelectualistas, a sensação e a percepção são sempre confusas e devem serabandonadas quando o pensamento formula as idéias puras.Psicologia da forma e fenomenologiaEm nosso século, porém, a Filosofia alterou bastante essas duas tradições e assuperou numa nova concepção do conhecimento sensível. As mudanças foramtrazidas pelo fenomenologia de Husserl e pela Psicologia da Forma ou teoria daGestalt (Gestalt é uma palavra alemã que significa: configuração, figuraestruturada, forma). Ambas mostraram:? contra o empirismo, que a sensação não é reflexo pontual ou uma respostafísico-fisiológica a um estímulo externo também pontual;? contra o intelectualismo, que a percepção não é uma atividade sintética feitapelo pensamento sobre as sensações; – 152 –

Marilena Chauí _______________________________? contra o empirismo e o intelectualismo, que não há diferença entre sensação epercepção.Empiristas e intelectualistas, apesar de suas diferenças, concordavam numaspecto: julgavam que a sensação era uma relação de causa e efeito entre pontosdas coisas e pontos de nosso corpo. As coisas seriam como mosaicos dequalidades isoladas justapostas e nosso aparelho sensorial (órgãos dos sentidos,sistema nervoso e cérebro) também seria um mosaico de receptores isolados ejustapostos. Por isso, a percepção era considerada a atividade que “somava” ou“juntava” as partes numa síntese que seria o objeto percebido.Fenomenologia e Gestalt, porém, mostram que não há diferença entre sensação epercepção porque nunca temos sensações parciais, pontuais ou elementares, istoé, sensações separadas de cada qualidade, que depois o espírito juntaria eorganizaria como percepção de um único objeto. Sentimos e percebemos formas,isto é, totalidades estruturadas dotadas de sentido ou de significação.Assim, por exemplo, ter a sensação e a percepção de um cavalo é sentir/perceberde uma só vez sua cor (ou cores), suas partes, sua cara, seu lombo e seu rabo, seuporte, seu tamanho, seu cheiro, seus ruídos, seus movimentos. O cavalo-percebido não é um feixe de qualidades isoladas que enviam estímulos aos meusórgãos dos sentidos (como suporia o empirista), nem um objeto indeterminadoesperando que meu pensamento diga às minhas sensações: “Este objeto é umcavalo” (como suporia o intelectualista). O cavalo-percebido não é um mosaicode estímulos exteriores (empirismo), nem uma idéia (intelectualismo), mas é,exatamente, um cavalo-percebido.As experiências conhecidas como figura-e-fundo mostram que não temossensações parciais, mas percepções globais de uma forma ou de uma estrutura.As experiências com formas “incompletas” mostram que a percepção semprepercebe uma totalidade completa, o que seria impossível se tivéssemos sensaçõeselementares que o pensamento unificaria numa percepção.Se a percepção fosse uma soma de sensações parciais e se cada sensaçãodependesse dos estímulos diretos que as coisas produzissem em nossos órgãosdos sentidos, então teríamos que ver como sendo de mesmo tamanho duas linhasque são objetivamente de mesmo tamanho. Mas a experiência mostra que nós aspercebemos como formas ou totalidades diferentes.O que é a percepçãoA percepção possui as seguintes características:? é o conhecimento sensorial de configurações ou de totalidades organizadas edotadas de sentido e não uma soma de sensações elementares; sensação epercepção são a mesma coisa; – 153 –

Convite à Filosofia _______________________________? é o conhecimento de um sujeito corporal, isto é, uma vivência corporal, demodo que a situação de nosso corpo e as condições de nosso corpo são tãoimportantes quanto a situação e as condições dos objetos percebidos;? é sempre uma experiência dotada de significação, isto é, o percebido é dotadode sentido e tem sentido em nossa história de vida, fazendo parte de nosso mundoe de nossas vivências;? o próprio mundo exterior não é uma coleção ou uma soma de coisas isoladas,mas está organizado em formas e estruturas complexas dotadas de sentido. Umapaisagem, por exemplo, não é uma soma de coisas que estão apenas próximasumas das outras, mas é a percepção de coisas que formam um todo complexo ecom sentido: o vale só é vale por causa da montanha, cuja altura e distância sópodem ser avaliadas porque há o céu, as árvores, um rio e um caminho; o verdedo vale só pode ser percebido por contraste com o cinza ou o dourado damontanha; o azul do céu só pode ser percebido por causa do verde da vegetação eo marrom da terra; essa paisagem será um espetáculo de contemplação se osujeito da percepção estiver repousado, mas será um objeto digno de ser visto poroutros se o sujeito da percepção for um pintor, ou será um obstáculo, se o sujeitoda percepção for um viajante que descobre que precisa ultrapassar a montanha.Em resumo: na percepção, o mundo possui forma e sentido e ambos sãoinseparáveis do sujeito da percepção;? a percepção é assim uma relação do sujeito com o mundo exterior e não umareação físico-fisiológica de um sujeito físico-fisiológico a um conjunto deestímulos externos (como suporia o empirista), nem uma idéia formulada pelosujeito (como suporia o intelectualista). A relação dá sentido ao percebido e aopercebedor, e um não existe sem o outro;? O mundo percebido é qualitativo, significativo, estruturado e estamos nelecomo sujeitos ativos, isto é, damos às coisas percebidas novos sentidos e novosvalores, pois as coisas fazem parte de nossas vidas e interagimos com o mundo;? o mundo percebido é um mundo intercorporal, isto é, as relações seestabelecem entre nosso corpo, os corpos dos outros sujeitos e os corpos dascoisas, de modo que a percepção é uma forma de comunicação queestabelecemos com os outros e com as coisas;? a percepção depende das coisas e de nosso corpo, depende do mundo e denossos sentidos, depende do exterior e do interior, e por isso é mais adequadofalar em campo perceptivo para indicar que se trata de uma relação complexaentre o corpo-sujeito e os corpos-objetos num campo de significações visuais,tácteis, olfativas, gustativas, sonoras, motrizes, espaciais, temporais elingüísticas. A percepção é uma conduta vital, uma comunicação, umainterpretação e uma valoração do mundo, a partir da estrutura de relações entrenosso corpo e o mundo; – 154 –

Marilena Chauí _______________________________? a percepção envolve toda nossa personalidade, nossa história pessoal, nossaafetividade, nossos desejos e paixões, isto é, a percepção é uma maneirafundamental de os seres humanos estarem no mundo. Percebemos as coisas e osoutros de modo positivo ou negativo, percebemos as coisas como instrumentosou como valores, reagimos positiva ou negativamente a cores, odores, sabores,texturas, distâncias, tamanhos. O mundo é percebido qualitativamente,efetivamente e valorativamente. Quando percebemos uma outra pessoa, porexemplo, não temos uma coleção de sensações que nos dariam as partes isoladasde seu corpo, mas a percebemos como tendo uma fisionomia (agradável oudesagradável, bela ou feia, serena ou agitada, sadia ou doentia, sedutora ourepelente) e por essa percepção definimos nosso modo de relação com ela;? a percepção envolve nossa vida social, isto é, os significados e os valores dascoisas percebidas decorrem de nossa sociedade e do modo como nela as coisas eas pessoas recebem sentido, valor ou função. Assim, objetos que para nossasociedade não causam temor, podem causar numa outra sociedade. Por exemplo,em nossa sociedade, um espelho ou uma fotografia são objetos funcionais ouartísticos, meios de nos vermos em imagem; no entanto, para muitas sociedadesindígenas, ver a imagem de alguém ou a sua própria é ver a alma desse alguém efazê-lo perder a identidade e a vida, de modo que a percepção de um espelho oude uma fotografia pode ser uma percepção apavorante;? a percepção nos oferece um acesso ao mundo dos objetos práticos einstrumentais, isto é, nos orienta para a ação cotidiana e para as ações técnicasmais simples; a percepção é uma forma de conhecimento e de ação fundamentalpara as artes, que são capazes de criar um “outro” mundo pela simples alteraçãoque provoca em nossa percepção cotidiana e costumeira. Basta lembrar aqui otexto de Clarice Lispector sobre o inseto e sobre o ovo (unidade 3, capítulo 8);? a percepção não é uma idéia confusa ou inferior, como julgava a tradição, masuma maneira de ter idéias sensíveis ou significações perceptivas;? a percepção está sujeita a uma forma especial de erro: a ilusão, como vimos noexemplo dos versos de Mário de Andrade sobre a garoa de São Paulo, a confusãodo branco e do negro, do pobre e do rico.Percepção e teoria do conhecimentoDo ponto de vista das teorias do conhecimento, há três concepções principaissobre o papel da percepção:1. nas teorias empiristas, a percepção é a única fonte de conhecimento, estandona origem das idéias abstratas formuladas pelo pensamento. Hume, por exemplo,afirma que todo conhecimento é percepção e que existem dois tipos depercepção: as impressões (sensações, emoções e paixões) e as idéias (imagensdas impressões); – 155 –

Convite à Filosofia _______________________________2. nas teorias racionalistas intelectualistas, a percepção é considerada não muitoconfiável para o conhecimento porque depende das condições particulares dequem percebe e está propensa a ilusões, pois freqüentemente a imagem percebidanão corresponde à realidade do objeto.Vemos o Sol menor do que a Terra, mas ele realmente é maior do que ela.Descartes menciona o modo como percebemos um bastão mergulhado na água:embora o bastão seja reto e contínuo, percebemos a parte mergulhada como se obastão estivesse entortado e como se houvesse descontinuidade entre a parte queestá fora da água e a parte mergulhada. O bastão é percebido como distorcido,embora, na realidade, não esteja deformado.Para a concepção racionalista intelectualista, o pensamento filosófico e científicodeve abandonar os dados da percepção e formular as idéias em relação com opercebido; trata-se de explicar e corrigir a percepção;3. na teoria fenomenológica do conhecimento, a percepção é consideradaoriginária e parte principal do conhecimento humano, mas com uma estruturadiferente do pensamento abstrato, que opera com idéias. Qual a diferença? Apercepção sempre se realiza por perfis ou perspectivas, isto é, nunca podemosperceber de uma só vez um objeto, pois somente percebemos algumas de suasfaces de cada vez; no pensamento, nosso intelecto compreende uma idéia de umasó vez e por inteiro, isto é, captamos a totalidade do sentido de uma idéia de umasó vez, sem precisar examinar cada uma de suas “faces”.Na percepção, nunca poderemos ver, de uma só vez, as seis faces de um cubo,pois “perceber um cubo” significa, justamente, nunca vê -lo de uma só vez porinteiro. Ao contrário, quando o geômetra pensa o cubo, ele o pensa como figurade seis lados e, para seu pensamento, as seis faces estão todas presentessimultaneamente.Quanto ao problema da ilusão, a fenomenologia considera que ela não existe. Setomarmos, por exemplo, o verso de Mário de Andrade, diremos que perceberuma pessoa sob a garoa ou a neblina de São Paulo é percebê-la como negra delonge e branca de perto ou como branca de longe e negra de perto: são quatropercepções diferentes e que são como são porque perceber é sempre perceber umcampo de objetos que permite corrigir uma percepção por meio de outra.Podemos compreender mais claramente a diferença entre as três concepçõesatravés de um exemplo, oferecido pelo filósofo Merleau-Ponty: Olhemos para uma piscina ladrilhada de verde-claro e rodeada por um jardim. O que percebemos? O empirista dirá que recebemos estímulos de todos os elementos que estão em nosso campo visual: cores, sons, reflexos; que esses estímulos isolados são levados a nosso cérebro, onde causam uma impressão e que a consciência dessa impressão é a percepção como soma dos estímulos. – 156 –

Marilena Chauí _______________________________ O intelectualista nos dirá que vemos qualidades sensíveis – líquido, cor, reflexos – de uma realidade distorcida: vemos árvores sobre a superfície das águas, embora as árvores não estejam ali; vemos os ladrilhos do fundo como se fossem curvos, côncavos, convexos, embora sejam quadrados e lisos; vemos a água colorida, quando, na realidade, ela não tem cor. Vemos, portanto, algo que nosso intelecto ou nosso pensamento nos avisa que não corresponde à realidade. O fenomenólogo, porém, mostrará que perceber-uma-piscina-ladrilhada- com-água-e-rodeada-de-árvores é perceber exatamente isso: os reflexos das árvores na água, as nuances de cor no líquido, a movimentação dos ladrilhos. Não estamos recebendo estímulos que formarão impressões no cérebro: estamos percebendo uma forma organizada ou uma estrutura.Não estamos tendo ilusões visuais, vendo ladrilhos “apesar ” da água que osdeformaria; nem estamos vendo a água “apesar ” dos reflexos das árvores que adeformariam. Estamos vendo e percebendo ladrilhos-de-uma-piscina-com-água(portanto, formas móveis no chão e nas paredes da piscina); estamos vendo oupercebendo as-árvores-à-volta-de-uma-piscina-com-água (portanto, refletindo-senas águas e agitando-se aos ventos); estamos vendo ou percebendo a água-de-uma-piscina (portanto, agitando os ladrilhos, recebendo reflexos, mudando de core de tonalidade). Isso é perceber.A percepção se realiza num campo perceptivo e o percebido não está“deformado ” por nada, pois ver não é fazer geometria nem física. Não há ilusõesna percepção; perceber é diferente de pensar e não uma forma inferior edeformada do pensamento. A percepção não é causada pelos objetos sobre nós,nem é causada pelo nosso corpo sobre as coisas: é a relação entre elas e nós e nóse elas; uma relação possível porque elas são corpos e nós também somoscorporais. – 157 –

Convite à Filosofia _______________________________ Capítulo 3 A memóriaLembrança e identidade do EuTodos conhecem os belos versos do poeta : Oh! que saudades que tenho Da aurora da minha vida, Da minha infância querida, Que os anos não trazem mais! Que amor, que sonhos, que flores, Naquelas tardes fagueiras À sombra das bananeiras, Debaixo dos laranjais!Ou estes outros : Eu me lembro, Eu me lembro! Era pequeno e brincava na praia. O mar bramia E erguendo o dorso altivo sacudia A branca espuma para o céu sereno.A memória é uma evocação do passado. É a capacidade humana para reter eguardar o tempo que se foi, salvando-o da perda total. A lembrança conservaaquilo que se foi e não retornará jamais. É nossa primeira e mais fundamentalexperiência do tempo e uma das obras mais significativas da literatura universalcontemporânea é dedicada a ela: Em busca do tempo perdido, do escritor francêsMarcel Proust.Para Proust, como para alguns filósofos, a memória é a garantia de nossa própriaidentidade, o podermos dizer “eu” reunindo tudo o que fomos e fizemos a tudoque somos e fazemos. Em sua obra Confissões, santo Agostinho escreve: Chego aos campos e vastos palácios da memória, onde estão tesouros de inumeráveis imagens trazidas por percepções de toda espécie… Ali repousa tudo o que a ela foi entregue, que o esquecimento ainda não absorveu nem sepultou… Aí estão presentes o céu, a terra e o mar, com todos os pormenores que neles pude perceber pelos sentidos, exceto os que esqueci. É lá que me encontro a mim mesmo, e recordo das ações que fiz, o seu tempo, lugar, e até os sentimentos que me dominavam ao – 158 –

Marilena Chauí _______________________________ praticá-las. É lá que estão também todos os conhecimentos que recordo, aprendidos pela experiência própria ou pela crença no testemunho de outrem.Como consciência da diferença temporal – passado, presente e futuro -, amemória é uma forma de percepção interna chamada introspecção, cujo objeto éinterior ao sujeito do conhecimento: as coisas passadas lembradas, o própriopassado do sujeito e o passado relatado ou registrado por outros em narrativasorais e escritas.Além dessa dimensão pessoal e introspectiva (interior) da memória, é precisomencionar sua dimensão coletiva ou social, isto é, a memória objetiva gravadanos monumentos, documentos e relatos da História de uma sociedade.Os antigos e a memóriaOs antigos gregos consideravam a memória uma identidade sobrenatural oudivina: era a deusa Mnemosyne, mãe das Musas, que protegem as Artes e aHistória. A deusa Memória dava aos poetas e adivinhos o poder de voltar aopassado e de lembrá-lo para a coletividade. Tinha poder de conferir imortalidadeaos mortais, pois quando o artista ou o historiador registram em suas obras afisionomia, os gestos, os atos, os feitos e as palavras de um humano, este nuncaserá esquecido e, por isso, tornando-se memorável, não morrerá jamais.Os historiadores antigos colocavam suas obras sob a proteção das Musas,escreviam para que não fossem perdidos os feitos memoráveis dos humanos epara que servissem de exemplo às gerações futuras. Dizia Cícero: “A História émestra da vida”.A memória é, pois, inseparável do sentimento do tempo ou dapercepção/experiência do tempo como algo que escoa ou passa.A importância da memória não se limitava à poesia e à História, mas tambémaparecia com muita força e clareza na medicina dos antigos. Um aforismo,atribuído a Hipócrates, o pai da medicina, dizia: A vida é breve, a arte é longa, a ocasião escapa, o empirismo é perigoso e o raciocínio é difícil. É preciso não só fazer o que convém, mas também ser ajudado pelo paciente.Qual a ajuda trazida pelo paciente para a arte médica? Sua memória. O médicoantigo praticava com o paciente a anamnese, isto é, a reminiscência. Por meio deperguntas, o médico fazia o paciente lembrar-se de todas as circunstâncias queantecederam o momento em que ficara doente e as circunstâncias em queadoecera, pois essas lembranças auxiliavam o médico a fazer o diagnóstico e areceitar remédios, cirurgias e dietas que correspondiam à necessidade específicada cura do paciente. – 159 –

Convite à Filosofia _______________________________Além de imortalizar os mortais e de auxiliar a arte médica, para os antigos amemória ainda possuía outra função.Os antigos, sobretudo os romanos, desenvolveram uma arte chamada eloqüênciaou retórica, destinada a persuadir e a criar emoções nos ouvintes, através do usobelo e eficaz da linguagem. No aprendizado dessa arte, consideravam a memóriaindispensável, não só porque o bom orador (poeta, político, advogado) era aqueleque falava ou pronunciava longos discursos sem ler e sem se apoiar emanotações, como também porque o bom orador era aquele que aprendia de cor asregras fundamentais da eloqüência ou oratória.Assim, a memória era considerada essencial para o aprendizado e os mestres deretórica criaram métodos de memorização ou “memória artificial”, queconstituíam a “Arte da Memória”. Esta era parte central do ensino e doaprendizado de oratória, tornando-se, depois, uma arte usada por outrasdisciplinas de ensino e aprendizagem. Os romanos julgavam, portanto, que alémda memória natural, os seres humanos são capazes de desenvolver uma outramemória - que amplia e auxilia a memória espontânea - e justificavam a “Arte daMemória” narrando uma lenda sobre o criador da retórica, o poeta gregoSimônides de Céos.Conta a lenda que Simônides foi convidado pelo rei de Céos a fazer um poemaem sua homenagem. O poeta dividiu o poema em duas partes: na primeira,louvava o rei e, na segunda, os deuses Castor e Polux. O rei ofereceu umbanquete no qual Simônides leu o poema e pediu o pagamento. Como resposta, orei lhe disse que, como o poema também estava dedicado aos deuses, ele pagariametade e que Simônides fosse pedir a outra metade a Castor e Polux.Pouco depois, um mensageiro aproximou-se de Simônides dizendo-lhe que doisjovens o procuravam do lado de fora do palácio. Simônides saiu para encontrá-los, mas não encontrou ninguém. Enquanto estava no jardim, o palácio desabou etodos morreram. Castor e Polux, os dois jovens que fizeram Simônides sair dopalácio, salvando o poeta, pagaram o poema. As famílias dos demais convidadosdesesperaram-se porque não conseguiam reconhecer seus mortos. Simônides,porém, lembrava dos lugares e das roupas de cada um e pôde ajudar naidentificação dos mortos.A lembrança do palácio e dos lugares dos convidados levou à criação da “Arte daMemória” como um palácio com lugares nos quais colocamos imagens epalavras e, passeando por ele, ordenadamente, recordamos as coisas, as pessoas,os fatos e as palavras necessárias para escrever e dizer discursos, poesias, peçasteatrais. É por isso que todo o texto de santo Agostinho, que citamos, se refereaos “palácios da memória”.A idéia de memória artificial existe até hoje, quando nos referimos aoscomputadores e falamos de sua “memória”. A diferença entre a memóriaartificial dos antigos e a atual consiste no fato de que a deles era desenvolvida – 160 –

Marilena Chauí _______________________________como uma capacidade do sujeito do conhecimento humano, enquanto a atualdeposita a memória nas máquinas e quase nos despoja da necessidade de termosmemória.Em nossa sociedade, a memória é valorizada e desvalorizada. É valorizada com amultiplicação dos meios de registro e gravação dos fatos, acontecimentos epessoas (computadores, filmes, vídeos, fitas cassetes, livros) e das instituiçõesque os preservam (bibliotecas, museus, arquivos). É desvalorizada porque não éconsiderada uma atividade essencial para o conhecimento – podemos usarmáquinas no lugar de nossa própria memória – e porque a publicidade e apropaganda nos fazem preferir o “novo”, o “moderno ”, a “última moda”, pois aindústria e o comércio só terão lucros se não conservarmos as coisas e quisermossempre o “novo ”. A desvalorização da memória também aparece na proliferaçãode objetos descartáveis, na maneira como a indústria da construção civil destróicidades inteiras para torná-las “modernas”, destruindo a memória e a Históriadessas cidades. A desvalorização da memória aparece, por fim, no descaso pelosidosos, considerados inúteis e inservíveis em nossa sociedade, ao contrário deoutras em que os idosos são portadores de todo o saber da coletividade,respeitados e admirados por todos.O que é a memóriaA memória é uma atualização do passado ou a presentificação do passado e étambém registro do presente para que permaneça como lembrança. Algunsestudiosos julgaram que a memória seria um fato puramente biológico, isto é, ummodo de funcionamento das células do cérebro que registram e gravampercepções e idéias, gestos e palavras. Para esses estudiosos, a memória sereduziria, portanto, ao registro cerebral ou à gravação automática pelo cérebro defatos, acontecimentos, coisas, pessoas e relatos.Essa teoria, porém, não se sustenta. Em primeiro lugar, porque, se a memóriafosse mero registro cerebral de fatos e coisas passados, não se poderia explicar ofenômeno da lembrança, isto é, que selecionamos e escolhemos o que lembramose que a lembrança tem, como a percepção, aspectos afetivos, sentimentais,valorativos (há lembranças alegres e tristes, há saudade, há arrependimento eremorso). Em segundo lugar, também não se poderia explicar o esquecimento,pois se tudo está espontânea e automaticamente registrado e gravado em nossocérebro, não poderíamos esquecer coisa alguma, nem poderíamos ter dificuldadepara lembrar certas coisas e facilidade para recordar outras tantas.Isso não significa que não haja um componente biológico, fisiológico ou cerebralna memória, pois os estudos científicos mostram não só as zonas do cérebroresponsáveis pela memória, como também os estudos bioquímicos mostram opapel de algumas substâncias químicas na produção e conservação da memória.O que estamos dizendo é que os aspectos biológicos e químicos da memória não – 161 –

Convite à Filosofia _______________________________explicam o fenômeno no seu todo, isto é, como forma de conhecimento e decomponente afetivo de nossas vidas.Podemos dizer que, em nosso processo de memorização, entram componentesobjetivos e componentes subjetivos para formar as lembranças.São componentes objetivos: as atividades físico-fisiológicas e químicas degravação e registro cerebral das lembranças, bem como a estrutura do objeto queserá lembrado. Assim, por exemplo, a psicologia da Gestalt mostra que temosmaior facilidade para memorizar uma melodia do que sons isolados ou dispersos;que memorizamos mais facilmente figuras regulares (círculo, quadrado,triângulo, etc.) do que um conjunto disperso de linhas.São componentes subjetivos: a importância do fato e da coisa para nós; osignificado emocional ou afetivo do fato ou da coisa para nós; o modo comoalguma coisa nos impressionou e ficou gravada em nós; a necessidade para nossavida prática ou para o desenvolvimento de nossos conhecimentos; o prazer oudor que um fato ou alguma coisa produziram em nós, etc. Em outras palavras,mesmo que nosso cérebro grave e registre tudo, não é isso a memória e sim o quefoi gravado com um sentido ou com um significado para nós e para os outros.Os filósofos e a memóriaO filósofo francês Bergson distingue dois tipos de memória:1. a memória-hábito; e2. a memória pura ou memória propriamente dita.A memória-hábito é um automatismo psíquico que adquirimos pela repetiçãocontínua de alguma coisa, como, por exemplo, quando aprendemos alguma coisade cor. A memória é uma simples fixação mental conseguida à força de repetir amesma coisa. Aqui, basta iniciar um gesto ou pronunciar uma palavra, para quetudo seja lembrado automaticamente: recito uma lição, repito movimentos dedança, freio o carro ao sinal vermelho, piso na embreagem para mudar a marchado carro, risco uma palavra errada que escrevi, giro a chave para a direita ou paraa esquerda para abrir uma porta, etc. Todos esses gestos e essas palavras sãorealizados por nós quase sem pensarmos neles ou até mesmo sem pensarmosneles. O automatismo psíquico se torna um automatismo corporal.A memória pura ou a memória propriamente dita é aquela que não precisa darepetição para conservar uma lembrança. Pelo contrário, é aquela que guardaalguma coisa, fato ou palavra únicos, irrepetíveis e mantidos por nós por seusignificado especial afetivo, valorativo ou de conhecimento.É por isso que guardamos na memória aquilo que possui maior significação oumaior impacto em nossas vidas, mesmo que seja um momento fugaz, curtíssimoe que jamais se repetiu ou se repetirá. É por isso também que, muitas vezes, nãoguardamos na memória um fato inteiro ou uma coisa inteira, mas um pequeno – 162 –

Marilena Chauí _______________________________detalhe que, quando lembrado, nos traz de volta o todo acontecido. A memóriapura é um fluxo temporal interior.Podemos, então, distinguir duas formas principais de memorização: aquela quese dá por repetição e por atenção deliberada para fixar alguma coisa; e aquela quese dá espontaneamente pela força ou pelo impacto de alguma coisa ou de algumacontecimento dotados de significado importante em nossa existência. Aqui, ointeresse por alguma coisa ou algum fato é mais decisivo do que a atençãovoluntária que lhe damos.Existem seis grandes tipos de memória:1. a memória perceptiva ou reconhecimento, que nos permite reconhecer coisas,pessoas, lugares, etc. e que é indispensável para nossa vida cotidiana;2. a memória-hábito, que adquirimos por atenção deliberada ou voluntária e pelarepetição de gestos ou palavras, até gravá-los e poderem ser repetidos sem queneles tenhamos que pensar;3. a memória-fluxo-de-duração-pessoal, que nos faz guardar a lembrança decoisas, fatos, pessoas, lugares cujo significado é importante para nós, seja doponto de vista afetivo, seja do ponto de vista de nossos conhecimentos;4. a memória social ou histórica, que é fixada por uma sociedade através de mitosfundadores e de relatos, registros, documentos, monumentos, datas e nomes depessoas, fatos e lugares que possuem significado para a vida coletiva.Excetuando-se os mitos, que são fabulações, essa memória é objetiva, pois existeem objetos (textos, monumentos, instrumentos, ornamentos, etc.) e fora de nós;5. a memória biológica da espécie, gravada no código genético das diferentesespécies de vida e que permitem a repetição da espécie;6. a memória artificial das máquinas, baseada na estrutura simplificada docérebro humano.As quatro primeiras fazem parte da vida de nossa consciência individual ecoletiva; a quinta é inconsciente e puramente física; a última é uma técnica.Memória e teoria do conhecimentoDo ponto de vista da teoria do conhecimento, a memória possui as seguintesfunções:? retenção de um dado da percepção, da experiência ou de um conhecimentoadquirido;? reconhecimento e produção do dado percebido, experimentado ou conhecidonuma imagem, que, ao ser lembrada, permite estabelecer uma relação ou umnexo entre o já conhecido e novos conhecimentos;? recordação ou reminiscência de alguma coisa como pertencente ao tempopassado e, enquanto tal, diferente ou semelhante a alguma coisa presente; – 163 –

Convite à Filosofia _______________________________? capacidade para evocar o passado a partir do tempo presente ou de lembrar oque já não é, através do que é atualmente.Por essas funções, a memória é considerada essencial para a elaboração daexperiência e do conhecimento científico, filosófico e técnico. Por esse motivo,Aristóteles escreveu, na Metafísica: É da memória que os homens derivam a experiência, pois as recordações repetidas da mesma coisa produzem o efeito duma única experiência.A memória é retenção. Graças à lembrança e à prospecção, o conhecimentofilosófico, técnico e científico podem elaborar a experiência e alcançar novossaberes e práticas.Graças à memória, somos capazes de lembrar e recordar. As lembranças podemser trazidas ao presente tanto espontaneamente, quanto por um trabalhodeliberado de nossa consciência. Lembramos espontaneamente quando, porexemplo, diante de uma situação presente nos vem à lembrança alguma situaçãopassada. Recordamos quando fazemos o esforço para lembrar.Assim como há perturbações e problemas perceptivos (cegueira, surdez, perda detato) e imaginativos (loucura, ideologia), também existem problemas eperturbações da memória, indo desde uma dificuldade momentânea para recordaralguma coisa, até a amnésia, perda total ou parcial da memória.Quando perdemos a capacidade para lembrar palavras ou construir frases,sofremos a afasia. Quando perdemos a capacidade para lembrar e realizar gestose ações, sofremos de apraxia. Essas perturbações podem ser causadas por lesõesfísicas (no cérebro ou no sistema nervoso) ou traumas psicológicos, isto é, porsituações de grande sofrimento psíquico que nos forçam a esquecer alguma coisa,algum fato, alguma situação.Seja por lesão física, seja por sofrimento psíquico, seja por uma perturbaçãomomentânea e passageira, o esquecimento é a perda de nossa relação com opassado e, portanto, com uma dimensão do tempo e com uma dimensão de nossavida. Na amnésia, perdemos relação com o todo de nossa existência. Na afasiaperdemos a relação com os outros através da linguagem ou da comunicação. Naapraxia, perdemos a relação com o nosso corpo e com o mundo das coisas.Esquecer é ficar p rivado de memória e perder alguma coisa. Algumas vezes,porém, essa perda é um bem: esquecer alguma coisa terrível é ultrapassá-la parapoder viver bem novamente.A memória não é um simples lembrar ou recordar, mas revela uma das formasfundamentais de nossa existência, que é a relação com o tempo, e, no tempo, comaquilo que está invisível, ausente e distante, isto é, o passado. A memória é o queconfere sentido ao passado como diferente do presente (mas fazendo ou podendofazer parte dele) e do futuro (mas podendo permitir esperá-lo e compreendê-lo). – 164 –

Marilena Chauí _______________________________ Capítulo 4 A imaginaçãoCotidiano e imaginaçãoCom freqüência, ouvimos frases como: “Que falta de imaginação!”, “Por favor,use a sua imaginação!”, “Cuidado! Ela tem muita imaginação!”, “Que nada!Você ando u imaginando tudo isso!”, “Não comece a imaginar coisas!”, “Imaginese tivesse sido assim!”.Essas frases são curiosas porque indicam maneiras bastante diferentes deconcebermos o que seja a imaginação. Na frase: “Que falta de imaginação!”, aimaginação é tomada como algo positivo, cuja falta ou ausência é criticada.Imaginar, aqui, aparece como capacidade mais alargada para pensar, paraencontrar soluções inteligentes para algum problema, para adivinhar o sentido dealguma coisa que não está muito evidente. Ela aparece, também, como algo quenós temos e que podemos ou não usar.Já nas frases: “Cuidado! Ela tem muita imaginação!”, “Que nada! Você andouimaginando tudo isso!” ou “Não comece a imaginar coisas!”, a imaginação étomada como risco de irrealidade, invencionice, mentira, exagero, excesso.Agora, imaginar é inventar ou exagerar, perder o pé da realidade, assumindo,portanto, um sentido bastante diverso do anterior.Na frase: “Imagine se tivesse sido assim!”, ou em outra como “Imagine o que elevai dizer!”, a imaginação é tomada como uma espécie de suposição sobre ascoisas futuras, uma espécie de previsão ou de alerta sobre o que poderá oupoderia acontecer como conseqüência de outros acontecimentos.Apesar de diferentes, essas frases possuem alguns elementos comuns. Em todaselas:? positiva ou negativamente, a imaginação está referida ao inexistente. Dizer“Use sua imaginação!” significa: faça de outro modo ou invente alguma coisa.Exclamar “Que falta de imaginação!” significa: poderia ter feito muito melhor,poderia ter dito uma coisa muito mais interessante. Alertar com a frase “Cuidado!Ela tem muita imaginação!” significa: ela inventa e exagera. Supor “Imagine oque nos teria acontecido!” significa: criar a imagem de uma situação que nãoaconteceu;? a imaginaç ão aparece como algo que possui graus, isto é, pode haver falta ouexcesso; – 165 –

Convite à Filosofia _______________________________? a imaginaç ão se apresenta como capacidade para elaborar mentalmente algumacoisa possível, algo que não existiu, mas poderia ter existido, ou que não existe,mas poderá vir a existir.A imaginação surge, assim, como algo impreciso, situada entre dois tipos deinvenção – criação inteligente e inovadora, de um lado; exagero, invencionice,mentira, de outro. No primeiro caso ela faz aparecer o que não existia ou mostraser possível algo que não existe. No segundo caso, ela é incapaz de reproduzir oexistente ou o acontecido. Com isso, nossas frases cotidianas apontam os doisprincipais sentidos da imaginação: criadora e reprodutora.A imaginação na tradição filosóficaA tradição filosófica sempre deu prioridade à imaginação reprodutora,considerada como um resíduo do objeto percebido que permanece retido emnossa consciência. A imagem seria um rastro ou um vestígio deixado pelapercepção.Os empiristas, por exemplo, falam das imagens como reflexos mentais daspercepções ou das impressões, cujos traços foram gravados no cérebro. Desseponto de vista, a imagem e a lembrança difeririam apenas porque a primeira éatual enquanto a segunda é passada. A imagem seria, portanto, a reproduçãopresente que faço de coisas ou situações presentes.Por exemplo, se neste momento eu fechar os olhos, posso imaginar ocomputador, a mesa de trabalho, os livros nas estantes, o quebra-luz, a porta, ajanela. A imagem seria a coisa atual percebida quando ausente. Seria umapercepção enfraquecida, que, associada a outras, formaria as idéias nopensamento.Os filósofos intelectualistas também consideravam a imaginação uma formaenfraquecida da percepção e, por considerarem a percepção a principal causa denossos erros (as ilusões e deformações da realidade), também julgavam aimaginação fonte de enganos e erros. Tomando-a como meramente reprodutora,diziam, por exemplo, que a imaginação dos artistas nada mais faz do que juntarde maneira nova imagens de coisas percebidas: um cavalo alado é a junção daimagem de um cavalo percebido com a imagem de asas percebidas; uma sereia, ajunção de uma imagem de mulher percebida com a imagem de um peixepercebido.A imaginação seria, pois, diretamente reprodutora da percepção, no campo doconhecimento, e indiretamente reprodutora da percepção, no campo da fantasia.Por isso, na tradição filosófica, costumava-se usar a palavra imaginação comosinônimo de percepção ou como um aspecto da percepção. Percebemos imagensdas coisas, dizia a tradição.A tradição, porém, enfrentava alguns problemas que não podia resolver: – 166 –

Marilena Chauí _______________________________? em nossa vida, n confundimos percepção e imagem. Assim, por exemplo, ãodistinguimos perfeitamente a percepção direta de um bombardeio da imagem doque seria uma explosão atômica;? em nossa vida, não confundimos perceber e imaginar. Assim, por exemplo,distinguimos o sonho da vigília; distinguimos um fato que vemos na rua da cenade um filme;? em nossa vida, somos capazes de distinguir nossa percepção e a imaginação deuma outra pessoa. Assim, por exemplo, percebemos o sofrimento psíquico dealguém que está tendo alucinações, mas não somos capazes de alucinar juntocom ela.Dessa maneira, a suposição de que entre a percepção e a imaginação, entre opercebido e a imagem haveria apenas uma diferença de grau ou de intensidade (aimagem seria uma percepção fraca e a percepção seria a imagem forte) não semantém, pois há uma diferença de natureza ou uma diferença de essência entreambas.A fenomenologia e a imaginaçãoQuando falamos em imagens, referimo-nos a coisas bastante diversas: quadros,esculturas, fotografias, filmes, reflexos num espelho ou nas águas, ficçõesliterárias, contos, lendas e mitos, figuras de linguagem (como a metáfora e ametonímia), sonhos, devaneios, alucinações, imitações pela mímica e pela dança,sons musicais, poesia.Uma primeira diferença entre essas imagens pode ser logo notada: algumas sereferem a imagens exteriores à nossa consciência (pinturas, esculturas, fotos,filmes, mímica, etc.), outras podem ser consideradas internas ou mentais (sonhos,devaneios, alucinações, etc.), enquanto algumas são externas e internas aomesmo tempo (no caso da ficção literária, por exemplo, a imagem é externa, poisestá no livro, e é interna, pois leio palavras e com elas imagino).No entanto, algo é comum a todas elas: oferecem-nos um análogo das própriascoisas, seja porque estão no lugar das próprias coisas, seja porque nos fazemimaginar coisas através de outras.A segunda diferença entre as imagens decorre do tipo de análogo que cada umadelas propõe. Um análogo pode ser um símbolo (a bandeira é um símbolo danação), uma metáfora (dizer “a primavera da vida” para referir-se à juventude),uma ilustração (a foto de alguém junto a uma notícia de jornal ou uma paisagemnum livro de contos), um esquema (a planta de uma casa ou de uma máquina),um signo (vejo a luz vermelha do semáforo e ela é o signo de uma ordem:“Pare!”), um sentimento (a emoção que sinto ao ouvir uma sinfonia), umsubstituto (um armário transformado em navio pela criança que brinca).Embora sejam diferentes pela natureza da analogia, as imagens novamentepossuem algo em comum: raramente ou quase nunca a imagem corresponde – 167 –

Convite à Filosofia _______________________________materialmente à coisa imaginada. Por exemplo, a bandeira e a nação sãomaterialmente diferentes, os sons da sinfonia e meus sentimentos são diferentes,a fotografia e a pessoa fotografada são materialmente diferentes, um mímico queimita uma janela ou uma locomotiva não é nem uma coisa nem outra, etc.Notamos, assim, que é próprio das imagens algo que suporíamos próprio apenasda ficção, isto é, as imagens são irreai s, quando comparadas ao que é imaginadoatravés delas. Um quadro é real enquanto quadro percebido, mas é irreal secomparado à paisagem da qual é imagem.Apesar de irreal e, justamente por ser irreal , a imagem é dotada de um poderespecial: torna presente ou presentifica algo ausente, seja porque esse algo existee não se encontra onde estamos, seja porque é inexistente. No primeiro caso, aimagem ou o análogo é testemunha irreal de alguma coisa existente; nosegundo, é a criação de uma realidade imaginária, ou seja, de algo que existeapenas em imagem ou como imagem. Nos dois casos, porém, o objeto-em-imagem é imaginário.Consciência imaginativaDistanciando-se da tradição, a fenomenologia fala na consciência imaginativacomo uma forma de consciência diferente da percepção e da memória, tendocomo ato o imaginar e como conteúdo, ou correlato, o imaginário ou o objeto-em-imagem. A imaginação é a capacidade da consciência para fazer surgir osobjetos imaginários ou objetos-em-imagem.Pela imaginação, relacionamo-nos com o ausente e com o inexistente. Percebereste livro é relacionar-se com sua presença e existência. Imaginar um livro érelacionar-se ou com a imagem do livro percebido ou com um livro ausente einexistente, que ainda não foi escrito e é apenas o-livro-possível. Graças àimaginação, abre-se para nós o tempo futuro e o campo dos possíveis.A percepção observa as coisas, as pessoas, as situações. Observar é jamais teruma coisa, pessoa ou situação de uma só vez e por inteiro. A percepção observaporque alcança as coisas, as pessoas, as situações por perfis, perspectivas, facesdiferentes que vão sendo articuladas umas às outras, num processo sem fim,podendo sempre enriquecer nosso conhecimento, perceber aspectos novos, ir“completando” o percebido com novos dados ou aspectos.A imaginação, ao contrário, não observa o objeto: cada imagem põe o objeto porinteiro. O filósofo francês Sartre dá um exemplo: quando imagino uma rua ou umedifício, tenho de uma só vez a rua-em-imagem ou o edifício-em-imagem, cadaum deles possui uma única face e é essa que existe em imagem. Podemos termuitas imagens da mesma rua ou do mesmo edifício, mas cada uma delas é umaimagem distinta das outras. Uma imagem, diz Sartre, é inobservável.Se uma pessoa apaixonada tem diante de si a pintura ou a fotografia da pessoaamada, tem a imagem dela. Ao olhá-la, não olha para as manchas coloridas, para – 168 –

Marilena Chauí _______________________________os traços reproduzidos no papel, não presta atenção no trabalho do pintor nem dofotógrafo, mas torna presente a pessoa amada ausente. A imagem é diferente dopercebido porque ela é um análogo do ausente, sua presentificação.Em outras palavras, percebemos e imaginamos ao mesmo tempo, emboraperceber e imaginar sejam diferentes. Percebo a fotografia e imagino a pessoaamada. Percebo a fisionomia da pessoa fotografada (o olhar, o sorriso, as mãos, aroupa) e imagino a sedução do olhar, a doçura do sorriso, a sutileza dos gestos, apreferência por certas roupas. São dois estados de consciência simultâneos ediferentes.Quando Clarice Lispector descreve o inseto e o ovo, percepção e imaginação sãosimultâneos e diferentes. Diante do verde-corpo-superfície-traço-que-caminha(percepção do inseto), Clarice imagina como seriam o desejo e o amor das“esperanças” (pergunta sobre as glândulas do inseto cujo corpo percebido pareceimpossível de conter algo em seu interior porque não tem interior). O insetopercebido e o inseto imaginado são duas consciências diferentes do mesmoinseto.Quando a criança brinca, sua imaginação desfaz a percepção: todos os objetos,todas as pessoas e todos os lugares nada têm a ver com seu sentido percebido,mas remetem a outros sentidos, criam sentidos inexistentes ou presentificam oausente. Um armário é um navio-em-imagem, um tapete é um mar-em-imagem,um cabo de vassoura é uma espada-em-imagem, uma folha de jornal é um mapa-em-imagem, um avental preso às costas é uma capa-em-imagem. A imaginaçãoé, assim, uma capacidade irrealizadora.A força irrealizadora da imaginação significa, por um lado, que ela é capaz detornar ausente o que está presente (o armário deixa de estar presente), de tornarpresente o ausente (o navio torna-se presente) e criar inteiramente o inexistente (aaventura nos mares). É por isso que a imaginação tem também uma forçaprospectiva, isto é, consegue inventar o futuro, como na canção de John Lennon,Imagine, ou como na invenção de uma teoria científica ou de um objeto técnico.Pelo mesmo motivo, a imaginação pode criar um mundo irreal que julgamosmelhor do que o nosso, a ponto de recusarmos vive r neste para “viver”imaginariamente naquele, perdendo todo o contato com o real. É o que acontece,por exemplo, na loucura, quando passamos definitivamente para o “outro lado”.Mas é também o que acontece todos os dias, quando sonhamos ou entramos emdevaneio.Embora vigília e sonho sejam diferentes, a vigília pode ser sentida comointolerável e insuportável e somos arrastados pelo desejo de ficar no sonho e de,embora acordados, viver como se o sonho fosse real, porque nossa imaginação ofaz real para nós. Irrealizando o mundo percebido e realizando o sonho, aimaginação pode ocupar o lugar da percepção e passamos a perceberimaginariamente. – 169 –

Convite à Filosofia _______________________________Quando o fazemos para criar um outro mundo ao qual os outros seres humanostambém podem ter acesso, a imaginação passa do sonho à obra de arte. Quando ofazemos para criar um outro mundo só nosso e ao qual ninguém mais pode teracesso, a imaginação passa do sonho à loucura. Assim, a diferença entre sonho,arte e loucura é muito pequena e frágil: a imaginação aberta aos outros (arte) oufechada aos outros (loucura).As modalidades de imaginaçãoPartindo da diferença entre imaginação reprodutora e imaginação criadora,podemos distinguir várias modalidades de imaginação:1. imaginação reprodutora propriamente dita, isto é, a imaginação que toma suasimagens da percepção e da memória;2. imaginação evocadora, que presentifica o ausente por meio de imagens comforte tonalidade afetiva;3. imaginação irrealizadora, que torna ausente o presente e nos coloca vivendonuma outra realidade que é só nossa, como no sonho, no devaneio e nobrinquedo. Esta imaginação tem forte tonalidade mágica;4. imaginação fabulosa, de caráter social ou coletivo, que cria os mitos e aslendas pelos quais uma sociedade, um grupo social ou uma comunidadeimaginam sua própria origem e a origem de todas as coisas, oferecendo umaexplicação para seu presente e sobretudo para a morte. Aqui, a imaginação criaimagens simbólicas para o bem e o mal, o justo e o injusto, o puro e o impuro, obelo e o feio, o mortal e o imortal, o tempo e a Natureza pela referência àsdivindades e aos heróis criadores; explica os males desta vida por faltasoriginárias cometidas pelos humanos e prometeuma vida futura feliz, após a morte. É a imaginação religiosa;5. imaginação criadora, que inventa ou cria o novo nas artes, nas ciências, nastécnicas e na Filosofia. Aqui, combinam-se elementos afetivos, intelectuais eculturais que preparam as condições para que algo novo seja criado e que sóexistia, primeiro, como imagem prospectiva ou como possibilidade aberta. Aimaginação criadora pede auxílio à percepção, à memória, às idéias existentes, àimaginação reprodutora e evocadora para cumprir-se como criação ou invenção.Imaginação e teoria do conhecimentoDo ponto de vista da teoria do conhecimento, a imaginação possui duas faces: ade auxiliar precioso para o conhecimento da verdade e a de perigo imenso para oconhecimento verdadeiro.Quando lemos relatos dos cientistas sobre suas pesquisas e investigações, comfreqüência eles se referem aos momentos em que tiveram que imaginar, isto é,criar pelo pensamento a imagem total ou completa do fenômeno pesquisado para, – 170 –

Marilena Chauí _______________________________graças a ela, orientar os detalhes e pormenores da pesquisa concreta querealizavam.Essa imagem é negadora e antecipadora. Negadora: graças a ela, o cientista podenegar ou recusar as teorias já existentes. Antecipadora: graças a ela, o cientistapode antever o significado completo de sua própria pesquisa, mesmo que estaainda esteja em andamento; a imaginação orienta o pensamento. O filósofoGaston Bachelard atribui à imaginação a capacidade para encorajar o pensamentoa dizer “não” a teorias existentes e propor novas.Muitas vezes, lendo um romance ou vendo um filme, compreendemos econhecemos muito melhor uma realidade do que se lêssemos livros científicos oujornais. Por quê? Porque o artista, através da imaginação, capta o essencial ereúne o que estava disperso na realidade, fazendo-nos compreender o sentidoprofundo e invisível de alguma coisa ou de alguma situação. O artista nos mostrao inusitado, o excepcional, o exemplar ou o impossível por meio dos quais nossarealidade ganha sentido e pode ser mais bem conhecida.Outras vezes, porém, sobretudo quando se trata da imaginação reprodutora,somos lançados no mundo dos ídolos, de que fala Francis Bacon, ou no mundoda prevenção e dos preconceitos, de que fala Descartes.Agora surge um tecido de imagens ou um imaginário, que desvia nossa atençãoda realidade, ou que serve para nos dar compensações ilusórias para as desgraçasde nossas vidas ou de nossa sociedade, ou que é usado como máscara paraocultar a verdade. O imaginário reprodutor (nas ciências, na Filosofia, no cinema,na televisão, na literatura, etc.) bloqueia nosso conhecimento porque apenasreproduz nossa realidade, mas dando a ela aspectos sedutores, mágicos,embelezados, cheios de sonhos que já parecem realizados e que reforçam nossopresente como algo inquestionável e inelutável. É um imaginário de explicaçõesfeitas e acabadas, justificador do mundo tal como ele parece ser. Quando esseimaginário é social, chama-se ideologia.Sob esse aspecto, a imaginação reprodutora se opõe à imaginação utópica.Utopia é uma palavra grega que significa: em lugar nenhum e em tempo nenhum.A imaginação utópica cria uma outra realidade para mostrar erros, desgraças,infâmias, angústias, opressões e violências da realidade presente e para despertar,em nossa imaginação, o desejo de mudança. Assim, enquanto o imaginárioreprodutor procura abafar o desejo de transformação, o imaginário utópicoprocura criar esse desejo em nós. Pela invenção de uma outra sociedade que nãoexiste em lugar nenhum e em tempo nenhum, a utopia nos ajuda a conhecer arealidade presente e buscar sua transformação.Em outras palavras, o imaginário reprodutor opera com ilusões, enquanto aimaginação criadora e a imaginação utópica operam com a invenção do novo eda mudança, graças ao conhecimento crítico do presente. – 171 –

Convite à Filosofia _______________________________ Capítulo 5 A linguagemA importância da linguagemNa abertura da sua obra Política, Aristóteles afirma que somente o homem é um“animal político”, isto é, social e cívico, porque somente ele é dotado delinguagem. Os outros animais, escreve Aristóteles, possuem voz (phone) e comela exprimem dor e prazer, mas o homem possui a palavra (logos) e, com ela,exprime o bom e o mau, o justo e o injusto. Exprimir e possuir em comum essesvalores é o que torna possível a vida social e política e, dela, somente os homenssão capazes.Segue a mesma linha o raciocínio de Rousseau no primeiro capítulo do Ensaiosobre a origem das línguas: A palavra distingue os homens dos animais; a linguagem distingue as nações entre si. Não se sabe de onde é um homem antes que ele tenha falado.Escrevendo sobre a teoria da linguagem, o lingüista Hjelmslev afirma que “alinguagem é inseparável do homem, segue-o em todos os seus atos”, sendo “oinstrumento graças ao qual o homem modela seu pensamento, seus sentimentos,suas emoções, seus esforços, sua vontade e seus atos, o instrumento graças aoqual ele influencia e é influenciado, a base mais profunda da sociedade humana.”Prosseguindo em sua apreciação sobre a importância da linguagem, Rousseauconsidera que a linguagem nasce de uma profunda necessidade de comunicação: Desde que um homem foi reconhecido por outro como um ser sensível, pensante e semelhante a si próprio, o desejo e a necessidade de comunicar- lhe seus sentimentos e pensamentos fizeram-no buscar meios para isso.Gestos e vozes, na busca da expressão e da comunicação, fizeram surgir alinguagem.Por seu turno, Hjelmslev afirma que a linguagem é “o recurso último eindispensável do homem, seu refúgio nas horas solitárias em que o espírito lutacontra a existência, e quando o conflito se resolve no monólogo do poeta e nameditação do pensador.”A linguagem, diz ele, está sempre à nossa volta, sempre pronta a envolver nossospensamentos e sentimentos, acompanhando-nos em toda a nossa vida. Ela não éum simples acompanhamento do pensamento, “mas sim um fio profundamente – 172 –

Marilena Chauí _______________________________tecido na trama do pensamento”, é “o tesouro da memória e a consciênciavigilante transmitida de geração a geração”.A linguagem é, assim, a forma propriamente humana da comunicação, da relaçãocom o mundo e com os outros, da vida social e política, do pensamento e dasartes.No entanto, no diálogo Fedro, Platão dizia que a linguagem é um pharmakon.Esta palavra grega, que em português se traduz por poção, possui três sentidosprincipais: remédio, veneno e cosmético.Ou seja, Platão considerava que a linguagem pode ser um medicamento ou umremédio para o conhecimento, pois, pelo diálogo e pela comunicação,conseguimos descobrir nossa ignorância e aprender com os outros. Pode, porém,ser um veneno quando, pela sedução das palavras, nos faz aceitar, fascinados, oque vimos ou lemos, sem que indaguemos se tais palavras são verdadeiras oufalsas. Enfim, a linguagem pode ser cosmético, maquiagem ou máscara paradissimular ou ocultar a verdade sob as palavras. A linguagem pode serconhecimento-comunicação, mas também pode ser encantamento-sedução.Essa mesma idéia da linguagem como possibilidade de comunicação-conhecimento e de dissimulação-desconhecimento aparece na Bíblia judaico-cristã, no mito da Torre de Babel , quando Deus lançou a confusãoentre os homens, fazendo com que perdessem a língua comum e passassem afalar línguas diferentes, que impediam uma obra em comum, abrindo as portaspara todos os desentendimentos e guerras. A pluralidade das línguas é explicada,na Escritura Sagrada, como punição porque os homens ousaram imaginar quepoderiam construir uma torre que alcançasse o céu, isto é, ousaram imaginar queteriam um poder e um lugar semelhante ao da divindade. “Que sejamconfundidos”, disse Deus.A força da linguagemPodemos avaliar a força da linguagem tomando como exemplo os mitos e asreligiões.A palavra grega mythos, como já vimos, significa narrativa e, portanto,linguagem. Trata-se da palavra que narra a origem dos deuses, do mundo, doshomens, das técnicas (o fogo, a agricultura, a caça, a pesca, o a rtesanato, aguerra) e da vida do grupo social ou da comunidade. Pronunciados em momentosespeciais – os momentos sagrados ou de relação com o sagrado -, os mitos sãomais do que uma simples narrativa; são a maneira pela qual, através das palavras,os seres humanos organizam a realidade e a interpretam.O mito tem o poder de fazer com que as coisas sejam tais como são ditas oupronunciadas. O melhor exemplo dessa força criadora da palavra míticaencontra-se na abertura da Gênese, na Bíblia judaico-cristã, em que Deus cria o – 173 –

Convite à Filosofia _______________________________mundo do nada, apenas usando a linguagem: “E Deus disse: faça-se!”, e foi feito.Porque Ele disse, foi feito. A palavra divina é criadora.Também vemos a força realizadora ou concretizadora da linguagem nas liturgiasreligiosas. Por exemplo, na missa cristã, o celebrante, pronunciando as palavras“Este é o meu corpo” e “Este é o meu sangue ”, realiza o mistério da Eucaristia,isto é, a encarnação de Deus no pão e no vinho. Também nos rituais indígenas eafricanos, os deuses e heróis comparecem e se reúnem aos mortais quandoinvocados pelas palavras corretas, pronunciadas pelo celebrante.A linguagem tem, assim, um poder encantatório, isto é, uma capacidade parareunir o sagrado e o profano, trazer os deuses e as forças cósmicas para o meiodo mundo, ou, como acontece com os místicos em oração, tem o poder de levaros humanos até o interior do sagrado. Eis por que, em quase todas as religiões,existem profetas e oráculos, isto é, pessoas escolhidas pela divindade paratransmitir mensagens divi nas aos humanos.Esse poder encantatório da linguagem aparece, por exemplo, quando vemos (oulemos sobre) rituais de feitiçaria: a feiticeira ou o feiticeiro tem a força para fazercoisas acontecerem pelo simples fato de, em circunstâncias certas, pronunciaremdeterminadas palavras. É assim que, nas lendas sobre o rei Artur e os cavaleirosda Távola Redonda, os feiticeiros Merlin e Morgana decidem o destino dasguerras, pronunciando palavras especiais dotadas de poder. Também nos contosinfantis há palavras poderosas (“Abre-te, Sésamo!”, “Shazam!”) e encantatórias(“Abracadabra”). Essa dimensão maravilhosa da linguagem da infância éexplorada de maneira belíssima pelo cineasta Federico Fellini no filme Oito eMeio, quando a personagem adulta pronuncia as pal avras “Asa Nisa Nasa”,trazendo de volta o passado.As palavras assumem o poder contrário também, isto é, criam tabus. Ou seja, hácoisas que não podem ser ditas porque, se forem, não só trazem desgraças, comoainda desgraçam quem as pronunciar. As palavras-tabus existem nos contextosreligiosos de várias sociedades (por exemplo, em muitas sociedades não se devepronunciar a palavra “demônio” ou “diabo”, porque este aparece; em vez disso sediz “o cão ”, “o demo ”, “o tinhoso”). As palavras-tabus não existem apenas naesfera religiosa, mas também nos brinquedos infantis, quando certas palavras sãoproibidas a todos os membros do grupo, sob pena de punição para quem aspronunciar.Existem, ainda, palavras-tabus na vida social, sob os efeitos da repressão doscostumes, sobretudo os que se referem a práticas sexuais. Assim, para certosgrupos sociais de nossa sociedade e mesmo para nossa sociedade inteira, até osanos 60 do século passado, eram proibidas palavras como puta, homossexual,aborto, amante, masturbação, sexo oral, sexo anal, etc. Tais palavras erampronunciadas em meios masculinos e em locais privados ou íntimos. Também – 174 –

Marilena Chauí _______________________________palavras de cunho político tendem a tornar-se quase tabus: revolucionário,terrorista, guerrilheiro, socialista, comunista, etc.O poder mágico-religioso da palavra aparece ainda num outro contexto: o dodireito. Na origem, o direito não era um código de leis referentes à propriedade(de coisas ou bens, do corpo e da consciência), nem referentes à vida política(impostos, constituições, direitos sociais, civis, políticos), mas era um ato soleneno qual o juiz pronunciava uma fórmula pela qual duas partes em conflito fariama paz.O direito era uma linguagem solene de fórmulas conhecidas pelo árbitro ereconhecidas pelas partes em litígio. Era o juramento pronunciado pelo juiz eacatado pelas partes. Donde as expressões “Dou minha palavra” ou “Ele deu suapalavra”, para indicar o juramento feito e a “palavra empenhada” ou “palavra dehonra”. É por isso também que, até hoje, nos tribunais, se faz o(a) acusado(a) e astestemunhas responderem à pergunta: “Jura dizer a verdade, somente a verdade,nada além da verdade?”, dizendo: “Juro”. Razão pela qual o perjúrio – dizer ofalso, sob juramento de dizer o verdadeiro – é considerado crime gravíssimo.Nas sociedades menos complexas do que a nossa, isto é, nas sociedades que sãocomunidades, onde todos se conhecem pelo primeiro nome e se encontram todosos dias ou com freqüência, a palavra dada e empenhada é suficiente, pois, quandoalguém dá sua palavra, dá sua vida, sua consciência, sua honra e assume umcompromisso que só poderá ser desfeito com a morte ou com o acordo da outraparte. É por isso que, nos casamentos religiosos, em que os noivos fazem parte dacomunidade, basta que digam solenemente a celebrante “Aceito”, para que o ocasamento esteja concretizado.Independentemente de acreditarmos ou não em palavras místicas, mágicas,encantatórias ou tabus, o importante é que existam, pois sua existência revela opoder que atribuímos à linguagem. Esse poder decorre do fato de que as palavrassão núcleos, sínteses ou feixes de significações, símbolos e valores quedeterminam o modo como interpretamos as forças divinas, naturais, sociais epolíticas e suas relações conosco.A outra dimensão da linguagemPara referir-se à palavra e à linguagem, os gregos possuíam duas palavras:mythos e logos. Diferentemente do mythos, logos é uma síntese de três palavrasou idéias: fala/palavra, pensamento/idéia e realidade/ser. Logos é a palavraracional do conhecimento do real. É discurso (ou seja, argumento e prova),pensamento (ou seja, raciocínio e demonstração) e realidade (ou seja, os nexos eligações universais e necessários entre os seres).É a palavra-pensamento compartilhada: diálogo; é a palavra-pensamentoverdadeira: lógica; é a palavra-pensamento de alguma coisa: o “logia” quecolocamos no final de palavras como cosmologia, mitologia, teologia, ontologia, – 175 –

Convite à Filosofia _______________________________biologia, psicologia, sociologia, antropologia, tecnologia, filologia, farmacologia,etc.Do lado do logos desenvolve -se a linguagem como poder de conhecimentoracional e as palavras, agora, são conceitos ou idéias, estando referidas aopensamento, à razão e à verdade.Essa dupla dimensão da linguagem (como mythos e logos) explica por que, nasociedade ocidental, podemos comunicar-nos e interpretar o mundo sempre emdois registros contrários e opostos: o da palavra solene, mágica, religiosa,artística, e o da palavra leiga, científica, técnica, puramente racional e conceitual.Não por acaso, muitos filósofos das ciências afirmam que uma ciência nasce ouum objeto se torna científico quando uma explicação que era religiosa, mágica,artística, mítica cede lugar a uma explicação conceitual, causal, metódica,demonstrativa, racional.A origem da linguagemDurante muito tempo a Filosofia preocupou-se em definir a origem e as causas dalinguagem.Uma primeira divergência sobre o assunto surgiu na Grécia: a linguagem énatural aos homens (existe por natureza) ou é uma convenção social? Se alinguagem for natural, as palavras possuem um sentido próprio e necessário; sefor convencional, são decisões consensuais da sociedade e, nesse caso, sãoarbitrárias, isto é, a sociedade poderia ter escolhido outras palavras para designaras coisas. Essa discussão levou, séculos mais tarde, à seguinte conclusão: alinguagem como capacidade de expressão dos seres humanos é natural, isto é, oshumanos nascem com uma aparelhagem física, anatômica, nervosa e cerebral quelhes permite expressarem-se pela palavra; mas as línguas são convencionais, istoé, surgem de condições históricas, geográficas, econômicas e políticasdeterminadas, ou, em outros termos, são fatos culturais. Uma vez constituída umalíngua, ela se torna uma estrutura ou um sistema dotado de necessidade interna,passando a funcionar como se fosse algo natural, isto é, como algo que possuisuas leis e princípios próprios, independentes dos sujeitos falantes que aempregam.Perguntar pela origem da linguagem levou a quatro tipos de respostas:1. a linguagem nasce por imitação, isto é, os humanos imitam, pela voz, os sonsda Natureza (dos animais, dos rios, das cascatas e dos mares, do trovão e dovulcão, dos ventos, etc.). A origem da linguagem seria, portanto, a onomatopéiaou imitação dos sons animais e naturais;2. a linguagem nasce por imitação dos gestos, isto é, nasce como uma espécie depantomima ou encenação, na qual o gesto indica um sentido. Pouco a pouco, ogesto passou a ser acompanhado de sons e estes se tornaram gradualmentepalavras, substituindo os gestos; – 176 –

Marilena Chauí _______________________________3. a linguagem nasce da necessidade: a fome, a sede, a necessidade de abrigar-see proteger-se, a necessidade de reunir-se em grupo para defender-se dasintempéries, dos animais e de outros homens mais fortes levaram à criação depalavras, formando um vocabulário elementar e rudimentar, que, gradativamente,tornou-se mais complexo e transformou-se numa língua;4. a linguagem nasce das emoções, particularmente do grito (medo, surpresa oualegria), do choro (dor, medo, compaixão) e do riso (prazer, bem-estar,felicidade). Citando novamente Rousseau em seu Ensaio sobre a origem daslínguas: Não é a fome ou a sede, mas o amor ou o ódio, a piedade, a cólera, que aos primeiros homens lhes arrancaram as primeiras vozes… Eis por que as primeiras línguas foram cantantes e apaixonadas antes de serem simples e metódicas.Assim, a linguagem, nascendo das paixões, foi primeiro linguagem figurada epor isso surgiu como poesia e canto, tornando-se prosa muito depois; e as vogaisnasceram antes das consoantes. Assim como a pintura nasceu antes da escrita,assim também os homens primeiro cantaram seus sentimentos e só muito depoisexprimiram seus pensamentos.Essas teorias não são excludentes. É muito possível que a linguagem tenhanascido de todas essas fontes ou modos de expressão, e os estudos de PsicologiaGenética (isto é, da gênese da percepção, imaginação, memória, linguagem einteligência nas crianças) mostra que uma criança se vale de todos esses meiospara começar a exprimir-se. Uma linguagem se constitui quando passa dos meiosde expressão aos de significação, ou quando passa do expressivo ao significativo.Um gesto ou um grito exprimem, por exemplo, medo; palavras, frases eenunciados significam o que é sentir medo, dão conteúdo ao medo.O que é a linguagem?A linguagem é um sistema de signos ou sinais usados para indicar coisas, para acomunicação entre pessoas e para a expressão de idéias, valores e sentimentos.Embora tão simples, essa definição da linguagem esconde problemascomplicados com os quais os filósofos têm-se ocupado desde há muito tempo.Essa definição afirma que:1. a linguagem é um sistema, isto é, uma totalidade estruturada, com princípios eleis próprios, sistema esse que pode ser conhecido;2. a linguagem é um sistema de sinais ou de signos, isto é, os elementos queformam a totalidade lingüística são um tipo especial de objetos, os signos, ouobjetos que indicam outros, designam outros ou representam outros. Porexemplo, a fumaça é um signo ou sinal de fogo, a cicatriz é signo ou sinal de umaferida, manchas na pele de um determinado formato, tamanho e cor são signos de – 177 –

Convite à Filosofia _______________________________sarampo ou de catapora, etc. No caso da linguagem, os signos são palavras e oscomponentes das palavras (sons ou letras);3. a linguagem indica coisas, isto é, os signos lingüísticos (as pal avras) possuemuma função indicativa ou denotativa, pois como que apontam para as coisas quesignificam;4. a linguagem tem uma função comunicativa, isto é, por meio das palavrasentramos em relação com os outros, dialogamos, argumentamos, persuadimos,relatamos, discutimos, amamos e odiamos, ensinamos e aprendemos, etc.;5. a linguagem exprime pensamentos, sentimentos e valores, isto é, possui umafunção de conhecimento e de expressão, sendo neste caso conotativa, ou seja,uma mesma palavra pode exprimir sentidos ou significados diferentes,dependendo do sujeito que a emprega, do sujeito que a ouve e lê, das condiçõesou circunstâncias em que foi empregada ou do contexto em que é usada. Assim,por exemplo, a palavra água, se for usada por um professor numa aula dequímica, conotará o elemento químico que corresponde à fórmula H O; se for 2empregada por um poeta, pode conotar rios, chuvas, lágrimas, mar, líquido,pureza, etc.; se for empregada por uma criança que chora pode estar indicandouma carência ou necessidade como a sede.A definição nos diz, portanto, que a linguagem é um sistema de sinais comfunção indicativa, comunicativa, expressiva e conotativa.No entanto, essa definição não nos diz várias coisas. Por exemplo, como a fala seforma em nós? Por que a linguagem pode indicar coisas externas e tambémexprimir idéias (internas ao pensamento)? Por que a linguagem pode ser diferentequando falada pelo cientista, pelo filósofo, pelo poeta ou pelo político? Como alinguagem pode ser fonte de engano, de mal-entendido, de controvérsia ou dementira? O que se passa exatamente quando dialogamos com alguém? O que éescrever? E ler? Como podemos aprender uma outra língua?Na resposta a várias dessas perguntas, vamos encontrar uma divergência que jáencontramos quando estudamos a razão, a verdade, a percepção ou a imaginação,qual seja, a diferença entre empiristas e intelectualistas.Empiristas e intelectualistas diante da linguagemPara os empiristas, a linguagem é um conjunto de imagens corporais e mentaisformadas por associação e repetição e que constituem imagens verbais (aspalavras).As imagens corporais são de dois tipos: motoras e sensoriais. As imagensmotoras são as que adquirimos quando aprendemos a articular sons (falar) eletras (escrever), graças a mecanismos anatômicos e fisiológicos. As imagenssensoriais são as que adquirimos quando, graças aos nossos sentidos, à fisiologiade nosso sistema nervoso, sobretudo a de nosso cérebro, aprendemos a ouvir(compreender sons e vozes) e a reconhecer a grafia dos sons (ler). As imagens – 178 –

Marilena Chauí _______________________________verbais são aprendidas por associação, em função da freqüência e repetição dossinais externos que estimulam nossa capacidade motriz e sensorial. A palavra ouimagem verbal é uma síntese de imagens motoras e sensoriais armazenadas emnosso cérebro.O que levou a essa concepção empirista da linguagem foi o estudo médico de“perturbações da linguagem”: a afasia (incapacidade para usar e compreendertodas as palavras disponíveis na língua); a agrafia (incapacidade para escrever oupara escrever determinadas palavras); a surdez verbal (ouvir as palavras semconseguir compreendê-las) e a cegueira verbal (ler sem conseguir entender).Os médicos que estudaram essas perturbações concluíram que estavamrelacionadas com lesões no cérebro e que, portanto, a linguagem era umfenômeno físico (anatômico e fisiológico) do qual não temos consciência(desconhecemos suas causas), mas de cujos efeitos temos consciência, isto é,falamos, ouvimos, escrevemos, lemos e compreendemos o sentido das palavras.A linguagem seria uma soma de causas físicas e de efeitos psíquicos cujosátomos ou elementos seriam as imagens verbais associadas.Os intelectualistas, porém, apresentam uma concepção muito diferente desta.Embora aceitem que a possibilidade para falar, ouvir, escrever e ler esteja emnosso corpo (anatomia e fisiologia) afirmam que a capacidade para a linguagemé um fato do pensamento ou de nossa consciência. A linguagem, dizem eles, éapenas a tradução auditiva, oral, gráfica ou visível de nosso pensamento e denossos sentimentos. A linguagem é um instrumento do pensamento para exprimirconceitos e símbolos, para transmitir e comunicar idéias abstratas e valores. Apalavra, dizem eles, é uma representação de um pensamento, de uma idéia ou devalores, sendo produzida pelo sujeito pensante que usa os sons e as letras comessa finalidade.O pensamento puro seria silencioso ou mudo e formaria, para manifestar-se, aspalavras. Duas provas poderiam confirmar essa concepção da linguagem: o fatode que o pensamento procura e inventa palavras; e o fato de que podemosaprender outras línguas, porque o sentido de duas palavras diferentes em duaslínguas diferentes é o mesmo e tal sentido é a idéia formada pelo pensamentopara representar ou indicar as coisas.A grande prova dos intelectualistas contra os empiristas foi a história de HelenKeller. Nascida cega, surda e muda, Helen Keller aprendeu a usar a linguagemsem nunca ter visto as coisas e as palavras, sem nunca ter escutado ou emitidoum som. Se a linguagem dependesse exclusivamente de mecanismos edisposições corporais, Helen Keller jamais teria chegado à linguagem.Mas chegou. E chegou quando compreendeu a relação simbólica entre duasexpressões diferentes: numa das mãos, sentia correr a água de uma torneira,enquanto a outra mão, na qual segurava uma agulha, guiada por sua professora, iatraçando a palavra água; quando se tornou capaz de compreender que uma mão – 179 –

Convite à Filosofia _______________________________traduzia o que a outra sentia, tornou-se capaz de usar a linguagem. Assim, alinguagem, longe de ser um mecanismo instintivo e biológico, seria um fato puroda inteligência, uma atividade intelectual simbólica e de compreensão, uma puratradução de pensamentos.As concepções empirista e intelectualista, apesar de suas divergências, possuemdois pontos em comum:1. ambas consideram a linguagem como sendo fundamentalmente indicativa oudenotativa, isto é, os signos lingüísticos ou as palavras servem apenas paraindicar coisas;2. ambas consideram a linguagem como um instrumento de representação dascoisas e das idéias, ou seja, as palavras têm apenas uma função ou um usoinstrumental representativo.Esses dois pontos de concordância fazem com que, para as duas correntesfilosóficas, os aspectos conotativos ou a função conotativa da linguagem sejaconsiderada algo perturbador e negativo. Em outros termos, o fato de que acomunicação verbal se realize com as palavras assumindo sentidos diferentes,dependendo de quem fala e ouve, escreve e lê, do contexto e das circunstânciasem que as enunciamos, é considerado perturbador porque, afinal, as coisas sãosempre o que elas são e as idéias são sempre o que elas são, de modo que aspalavras deveriam ter sempre um só e mesmo sentido para indicar claramente ascoisas e representar claramente as idéias.Por esse motivo, periodicamente, aparecem na Filosofia correntes filosóficas quese preocupam em “purificar” a linguagem para que ela sirva docilmente àsrepresentações conceituais. Tais correntes julgam que a linguagem perfeita para opensamento é a das ciências e, particularmente, a da matemática e a da física.Purificar a linguagemUma dessas correntes filosóficas desenvolveu-se no século passado com o nomede positivismo lógico. Os positivistas lógicos distinguiram duas linguagens:1. a linguagem natural, isto é, aquela que usamos todos os dias e que é imprecisa,confusa, mescla de elementos afetivos, volitivos, perceptivos e imaginativos;2. a linguagem lógica, isto é, uma linguagem purificada, formalizada (ou seja,com enunciados sem conteúdo e avaliadores do conteúdo das linguagenscientíficas e filosóficas), inspirada na matemática e sobretudo na física.Essa linguagem obedecia a princípios e regras lógicas precisas e funcionava pormeio de operações chamadas cálculos simbólicos (semelhantes às operações damatemática), que permitiam avaliar com exatidão se um enunciado eraverdadeiro ou falso. Dava-se ênfase à sintaxe lógica dos enunciados, queasseguraria a verdade representativa e indicativa da linguagem. A conotação foiafastada. – 180 –

Marilena Chauí _______________________________A linguagem lógica era uma metalinguagem, isto é, uma segunda linguagem quefalava sobre língua natural e sobre linguagem científica para saber se osenunciados delas eram verdadeiros ou falsos. Assim, por exemplo, na linguagemcomum e diária dizemos: “O livro é de autoria de José Antônio Silva” e, nametalinguagem lógica, diremos: “A proposição ‘O livro é de autoria de JoséAntônio Silva’ é uma proposição verdadeira se e somente se forem preenchidasas condições x, y, z”.No entanto, descobriu-se, pouco a pouco, que havia expressões lingüísticas quenão possuíam caráter denotativo nem representativo, e, apesar disto, eramverdadeiras. Descobriu-se também que havia inúmeras formas de linguagem quenão podiam ser reduzidas aos enunciados lógicos e tipo matemático e físico.Descobriu-se, ainda, que a linguagem usa certas expressões para as quais nãoexiste denotação. Por exemplo, as preposições e as conjunções só têm existênciana linguagem e não na realidade.Além disso, descobriu-se que a redução da linguagem ao cálculo simbólico oulógico despojava de qualquer verdade e de qualquer pretensão ao conhecimento aontologia, a literatura, a história, bem como várias ciências humanas, isto é, todasas linguagens que são profundamente conotativas, para as quais a multiplicidadede sentido das palavras e das coisas é sua própria razão de ser.Crítica ao empirismo e ao intelectualismoAs concepções empiristas e intelectualistas também sofreram sérias críticas dosestudiosos da linguagem no campo da psicologia.Os psicólogos Goldstein e Gelb fizeram estudos aprofundados da afasia edescobriram situações curiosas. Por exemplo, ordena-se a um afásico: “Coloquenesta pilha todas as fitas azuis que você encontrar nesta caixa”. O afásico inicia aseparação. Ao encontrar uma fita azul-claro ele a coloca na pilha das fitas azuis,conforme lhe foi dito, mas também passa a colocar ali fitas verde-claro, rosa-claro e lilás-claro.Os dois psicólogos observaram, assim, que a palavra azul não formava umacategoria ou uma idéia geral para o afásico e que, portanto, seu p roblema delinguagem era também um problema de pensamento. No entanto, do ponto devista cerebral ou anatômico, a parte do cérebro destinada à inteligência estavaperfeita, sem nenhuma lesão. Com isso, compreendeu-se que os empiristasestavam enganados e que a linguagem não é um mero conjunto de imagensverbais, mas é inseparável de uma visão mais global da realidade e inseparáveldo pensamento.Esses estudos, porém, não reforçaram a concepção intelectualista, comopoderíamos supor. De fato, basta tentarmos imaginar o que seria um pensamentopuro, mudo, silencioso para compreendermos que não seria nada, não pensarianada. Não pensamos sem palavras, não há pensamento antes e fora da linguagem, – 181 –

Convite à Filosofia _______________________________as palavras não traduzem pensamentos, mas os envolvem e os englobam. Éjustamente por isso que a criança aprende a falar e a pensar ao mesmo tempo,pois, para ela, uma coisa se torna conhecida e pensável ao receber um nome.Como escreveu Merleau-Ponty, a linguagem é o corpo do pensamento.A lingüística e a linguagemDurante o século XIX, o estudo da linguagem ou lingüística tinha comopreocupação encontrar a origem da linguagem e das línguas, considerando oestado presente ou atual de uma língua como resultado ou efeito de causassituadas no passado.A linguagem era estudada sob duas perspectivas: a da filologia, que buscava ahistória das palavras pelo estudo das raízes, com o propósito de chegar a umaúnica língua original, mãe ou matriz de todas as outras; e a da gramáticacomparada, que estudava comparativamente as línguas existentes com opropósito de encontrar famílias lingüísticas e chegar à língua-mãe original.Nesses estudos, retomava-se a discussão sobre o caráter natural ou convencionalda linguagem. Também era comum aos filólogos e gramáticos a idéia de que aslínguas se transformam no tempo e que as transformações eram causadas porfatores extralingüísticos (migrações, guerras, invasões, mudanças sociais eeconômicas, etc.).Tais estudos, porém, viram-se diante de problemas que não conseguiam resolver.Um desses problemas foi o aparecimento do estudo das flexões (tempos verbais,maneira de indicar o plural e o singular, aumentativos e diminutivos,declinações), revelando que as línguas mudavam por razões internas e não porfatores externos.Essa descoberta teve resultados curiosos. Um deles, aparecido na Alemanha,tomava as flexões como prova de que cada povo tem uma língua diferente porqueesta exprimiria o caráter ou o espírito do povo. Haveria línguas doces e propíciasaos sentimentos profundos (como a alemã); línguas rudes e mais voltadas para aprosa e a guerra (como o latim), etc. Em suma, cada estudioso inventava o“caráter da língua” segundo as fantasias e ideologias de sua nação e dosnacionalismos da época.A partir do século XX, uma nova concepção da linguagem foi elaborada pelalingüística e seus pontos principais são:? a linguagem é constituída pela distinç ão entre língua e fala ou palavra: a línguaé uma instituição social e um sistema, ou uma estrutura objetiva que existe comsuas regras e princípios próprios, enquanto a fala ou palavra é o ato individual deuso da língua, tendo existência subjetiva por ser o modo como os sujeitosfalantes se apropriam da língua e a empregam. Assim, por exemplo, temos alíngua portuguesa e a palavra ou fala de Camões, Machado de Assis, FernandoPessoa, Guimarães Rosa, a sua e a minha; – 182 –

Marilena Chauí _______________________________? a língua é uma totalidade dotada de sentido no qual o todo confere sentido àspartes, isto é, as partes não existem isoladas nem somadas, mas apenas pelaposição e função que o todo da língua lhes dá e seu sentido vem dessa posição edessa função. Assim, por exemplo, os signos r e l só existem nas línguas onde adiferença desses sons tem uma função importante para diferenciar sentidos,motivo pelo qual não operam significativamente em chinês e em japonês (ouseja, os chineses usam l indiferentemente para todas as palavras, sejam elas em lou r; os japoneses usam r indiferentemente para todas as palavras, sejam elas eml ou r). Os signos são os elementos da língua; são valores e não coisas ouentidades, isto é, são o que valem por sua posição e por sua diferença comrelação aos demais signos;? numa língua, distinguem-se signo e significado, ou significante e significado: osigno é o elemento verbal material da língua (r, l, p, b, q, g, por exemplo),enquanto o significado são os conteúdos ou sentidos imateriais (afetivos,volitivos, perceptivos, imaginativos, evocativos, literários, científicos, retóricos,filosóficos, políticos, religiosos, etc.) veiculados pelos signos; o significante éuma cadeia ou um grupo organizado de signos (palavras, frases, orações,proposições, enunciados) que permitem a expressão dos significados e garantema comunicação;? a relação dos signos ou significantes com as coisas é convencional e arbitrária,mas, uma vez constituída a língua como sistema de relações entresignos/significantes e significados, a relação com as coisas indicadas, nomeadas,expressadas ou comunicadas torna-se uma relação necessária para todos osfalantes da língua. Assim, por exemplo, a distinção entre pa e ba, pata e bata éconvencional, mas uma vez fixada pela língua, torna-se necessária einquestionável;? como as partes (signos ou significantes) de uma língua recebem seu sentido esua função pelo lugar que o todo da língua lhes confere, essas partes distinguem-se umas das outras apenas por suas diferenças, e a língua é uma estruturaconstituída por diferenças internas ou por oposições pertinentes entre os signos.Por exemplo, em português, existem os signos p e b, d e t porque suas diferençassão pertinentes para o sentido das palavras (dizer pata e bata, dente e tente édizer sentidos diferentes); também existe a oposição pertinente entre o r e o l,mas tal oposição ou diferença não existe em japonês e em chinês e por isso,como vimos, tais signos não existem nessas línguas.Por relação com sua própria língua, quando um japonês fala o português, élevado a usar sempre o r (que corresponde a um som ou signo diferencialexistente em japonês, isto é, faz sentido em japonês) e a substituir o l por r.Quando um chinês fala o português ocorre exatamente o contrário, prevalece o lporque este som e signo tem relação com o todo da língua chinesa, e o r não. Eminglês, não existe o signo-som ão e, assim, quando um inglês fala o português,tende a usar an e am porque são signos-sons que fazem sentido em inglês. A – 183 –

Convite à Filosofia _______________________________língua, portanto, é feita dessas diferenças internas e por isso se diz que os signossão diacríticos e que a língua é uma estrutura diacrítica;? a língua é um código (conjunto de regras que permitem produzir informação ecomunicação) e se realiza através de mensagens, isto é, pela fala/palavra dossujeitos que veiculam informações e se comunicam de modo específico eparticular (a mensagem possui um emissor, aquele que emite ou envia amensagem, e um receptor, aquele que recebe e decodifica a mensagem, isto é,entende o que foi emitido);? o sujeito falante possui duas capacidades: a competência (isto é, sabe usar alíngua) e a performance (isto é, tem seu jeito pessoal e individual de usar alíngua); a competência é a participação do sujeito em uma comunidadelingüística e a performance são os atos de linguagem que realiza;? a língua se realiza em duas dimensões: a sincronia, ou seja, o todo da línguatomado na simultaneidade ou no seu estado atual ou presente; e a diacronia, ouseja, a língua vista sucessivamente, através de suas mudanças no tempo ou de suahistória;? a língua é inconsciente, isto é, nós a falamos sem ter consciência de suaestrutura, de suas regras e seus princípios, de suas funções e diferenças internas;vivemos nela e com ela e a empregamos sem necessidade de conhecê-lacientificamente.Alguns exemplos poderão ajudar-nos a compreender todos esses pontos. Umalíngua é como um jogo de xadrez: é um todo no qual cada peça tem seu sentido,seu lugar e sua função por diferença ou por oposição às demais peças. O jogo éuma convenção ou um código com suas regras próprias, princípios e leis, e cadapartida é a maneira como jogadores indi viduais usam e interpretam as regras, leise princípios gerais do jogo (a diferença entre os jogadores e os sujeitos falantes éque estes falam a língua respeitando o código, mas sem conhecê-loconscientemente, enquanto os jogadores precisam conhecer o código para poderjogar).O jogo existe antes e depois de cada partida. Cada partida rearranja o tabuleiro echega a resultados diferentes, mas as regras do jogo são sempre as mesmas. Emcada partida, os jogadores podem jogar porque conhecem o código e porquesabem interpretar os lances um do outro, respondendo a cada um deles.A lingüística veio mostrar algo muito interessante e que explica por que falaruma língua estrangeira ou traduzir um texto estrangeiro não são coisas simplescomo julgavam os intelectualistas.Por exemplo, em inglês, é possível dizer “The man I love ”. Quando traduzimospara o português temos: “O homem que amo”. Observamos que, em inglês,parece “faltar” uma palavra: o “que”. Notamos também que em inglês parece – 184 –

Marilena Chauí _______________________________“sobrar ” uma palavra: o “I”, o “eu”, que não usamos na frase em português. Paraum inglês, evidentemente, não falta e nem sobra nada.Este sentimento de falta ou sobra mostra que a diferença entre o inglês e oportuguês não é de vocabulário, mas de estrutura lingüística. No caso da traduçãoda palavra inglesa cheese e da palavra francesa fromage para o português, queijo,temos a impressão de que passamos sem problema de uma língua para outra. Masnão é o caso.Quando um inglês usa cheese, ele está se referindo ou a algo leitoso e cremoso,quase sem gosto, ou a algo mais duro e forte, que se pode comer sem outra coisa.O francês, por seu turno, ao dizer fromage estará pensando em queijos muitodiferentes, dependendo da região onde mora, da hora e do dia em que vai comero queijo, sempre acompanhado de pão e vinho.Para um inglês e para um francês, queijo jamais poderia ser imaginado junto comum doce, enquanto para nós, brasileiros, queijo (de Minas, prato, requeijãobaiano) vai bem com goiabada ou com doce de leite, com o pão com manteiga eo café com leite. Assim dizer cheese não é dizer fromage nem queijo; dizerfromage não é dizer cheese nem queijo; dizer queijo não é dizer cheese nemfromage.Esse segundo exemplo explica o que os lingüistas querem dizer quando afirmamque o momento da criação de um signo (cheese, fromage, queijo) é arbitrário ouconvencional, mas, uma vez criado, passa a ter um sentido necessário naquelalíngua (cheese é cheese e não é fromage nem queijo).Esse exemplo nos mostra também que uma língua é algo social, histórico,determinado por condições específicas de uma sociedade e de uma cultura.A experiência da linguagemDizer que somos seres falantes significa dizer que temos e somos linguagem, queela é uma criação humana (uma instituição sociocultural), ao mesmo tempo emque nos cria como humanos (seres sociais e culturais). A linguagem é nossa viade acesso ao mundo e ao pensamento, ela nos envolve e nos habita, assim como aenvolvemos e a habitamos. Ter experiência da linguagem é ter uma experiênciaespantosa: emitimos e ouvimos sons, escrevemos e lemos letras, mas, sem quesaibamos como, experimentamos sentidos, significados, significações, emoções,desejos, idéias.Após o caminho feito até aqui, podemos voltar à definição inicial que demos dalinguagem e nela fazer alguns acréscimos.Em primeiro lugar, teremos que especificar melhor que tipo de signo é o signolingüístico. Por que uma palavra é diferente, por exemplo, da fumaça que indicafogo? Ou, se se preferir, qual é a diferença entre a fumaça-signo-de-fogo, quevejo, e a palavra fumaça, que pronuncio ou escuto? A fumaça é uma coisa que – 185 –

Convite à Filosofia _______________________________indica outra coisa (fogo). A palavra fumaça, porém, é um símbolo, isto é, algoque indica, representa, exprime alguma coisa que é de natureza diferente dela.O símbolo é um análogo (a bandeira simboliza a nação, por exemplo) e não umefeito da coisa indicada, representada ou exprimida. O símbolo verbal ou palavrame reenvia a coisas que não são palavras: coisas materiais, idéias, pessoas,valores, seres inexistentes, etc. A linguagem é simbólica e, pelas palavras, noscoloca em relação com o ausente. A linguagem é, pois, inseparável daimaginação.Em segundo lugar, temos que especificar melhor as várias funções queatribuímos à linguagem (indicativa ou denotativa, comunicativa, expressiva,conotativa) e para isso precisamos indagar com o que a linguagem se relaciona enos relaciona. Evidentemente, diremos que a linguagem nos relaciona com omundo e com os outros seres humanos. Mas como se dá essa relação?Essa pergunta, como vi mos, era central para o Positivismo Lógico. Por seus errose acertos, ele foi responsável pelo surgimento de uma nova disciplina filosófica, aFilosofia da Linguagem, intimamente ligada às investigações lógicas,transformando-se com elas e graças a elas. A grande preocupação da Filosofia daLinguagem resume-se numa pergunta: As palavras realmente dizem as coisas taiscomo são? Descrevem e explicam verdadeiramente a realidade?Tradicionalmente, dizia-se que a linguagem possuía a forma de uma relaçãobinária, isto é, entre dois termos:signo verbal - coisa indicada (realidade)signo verbal - idéia, conceito, valor (pensamento)No entanto, é possível perceber que essa relação binária não nos explica por queuma palavra ou um signo verbal indica alguma coisa ou alguma idéia, pois, se elefosse simplesmente denotativo ou indicativo e dual, não poderia haver ofenômeno da conotação, isto é, uma mesma palavra indicando coisas e idéiasdiferentes.Tomemos um exemplo a que já nos referimos várias vezes em outros capítulos eque foi muito trabalhado pelo filósofo alemão Frege. “Estrela da manhã” e“estrela da tarde” indicam Vênus. Mas falar na estrela d’alva, na estrela da tarde,na estrela matutina e na estrela vespertina não é a mesma coisa, ainda que todasessas expressões se refiram a Vênus. Em cada uma dessas expressões, o sentidode Vênus muda e esse sentido é expresso pelas palavras que se referem aomesmo planeta. Assim, as palavras indicam-denotam alguma coisa, mas tambéma conotam, isto é, referem-se aos sentidos dessa coisa.Imaginemos ou recordemos a leitura de um romance. Começamos a lerentendendo tudo o que o escritor escreveu porque referimos suas palavras acoisas que já conhecemos, a idéias que já possuímos e ao vocabulário comumentre ele e nós. Pouco a pouco, porém, o livro vai ganhando espessura própria, – 186 –

Marilena Chauí _______________________________percebemos as coisas de outra maneira, mudamos idéias que já tínhamos, vemossurgir pessoas (personagens) com vida própria e história própria, sentimos que aspalavras significam de um modo diferente daquele com o qual estamoshabituados a usá-las todo dia.Uma realidade foi criada e penetramos em seu interior exclusivamente pelasmãos do escritor. Como isso é possível? Como as palavras poderiam criar ummundo, se elas apenas fossem sinais para indicar coisas e idéias já existentes?Com o romance descobrimos que as palavras se referem a significações,inventam significações, criam significações.Imaginemos ou recordemos um diálogo. Quantas vezes conversando comalguém, dizemos: “Puxa! Eu nunca tinha pensado nisso!”, ou então: “Você sabeque, agora, eu entendo melhor uma idéia que tinha, mas que não entendia muitobem?”, ou ainda: “Você me fez compreender uma coisa que eu sabia e não sabiaque sabia”.Como essas frases são possíveis? É que a linguagem tem a capacidade especialde nos fazer pensar enquanto falamos e ouvimos, nos faz compreender nossospróprios pensamentos tanto quanto os dos outros que falam conosco. Ela nos fazpensar e nos dá o que pensar porque se refere a significados, tanto os jáconhecidos por outros quanto os já conhecidos por nós, bem como os que nãoconhecíamos por estarmos conversando.Esses exemplos nos levam a considerar a linguagem sob uma forma ternária:palavra ou signo significante - sentido ou significação; significado -realidade ou mundo (coisas, pessoas) e instituições sociais, políticas, culturaisO mundo suscita sentidos e palavras, as significações levam à criação de novasexpressões lingüísticas, a linguagem cria novos sentidos e interpreta o mundo demaneiras novas. Há um vai-e-vem contínuo entre as palavras e as coisas, entreelas e as significações, de tal modo que a realidade, o pensamento e a linguagemsão inseparáveis, suscitam uns aos outros e interpretam-se uns aos outros.A linguagem:? refere-se ao mundo através das significações e, por isso, podemos nosrelacionar com a realidade através da palavra;? relaciona-se com sentidos já existentes e cria sentidos novos e, por isso,podemos nos relacionar com o pensamento através das palavras;? exprime e descobre significados e, por isso, podemos nos comunicar e nosrelacionar com os outros;? tem o poder de suscitar significações, de evocar recordações, de imaginar onovo ou o inexistente e, por isso, a literatura é possível. – 187 –

Convite à Filosofia _______________________________A linguagem revela nosso corpo como expressivo e significativo, os corpos dosoutros como expressivos e significativos, as coisas como expressivas esignificativas, o mundo como dotado de sentido e o pensamento como trabalhode descoberta do sentido. As palavras têm sentido e criam sentido.Como escreve Merleau-Ponty: A palavra, longe de ser um simples signo dos objetos e das significações, habita as coisas e veicula significações. Naquele que fala, a palavra não traduz um pensamento já feito, mas o realiza. E aquele que escuta recebe, pela palavra, o próprio pensamento.A linguagem não traduz imagens verbais de origem motora e sensorial, nemrepresenta idéias feitas por um pensamento silencioso, mas encarna assignificações.Linguagem simbólica e linguagem conceitualA diferença entre linguagem simbólica e linguagem conceitual é o que deveinteressar-nos agora. Fundamentalmente, a linguagem simbólica opera poranalogias (semelhanças entre palavras e sons, entre palavras e coisas) e pormetáforas (emprego de uma palavra ou de um conjunto de palavras parasubstituir outras e criar um sentido poético para a expressão).A linguagem simbólica realiza-se principalmente como imaginação. A linguagemconceitual procura evitar a analogia e a metáfora, esforçando-se para dar àspalavras um sentido direto e não figurado ou figurativo. Isso não quer dizer que alinguagem conceitual seja puramente denotativa. Pelo contrário, nela a conotaçãoé essencial, mas não possui uma natureza imaginativa ou imagética.A linguagem simbólica (dos mitos, da religião, da poesia, do romance, do teatro)e a linguagem conceitual (das ciências, da filosofia) diferem sob os seguintesaspectos:? a linguagem simbólica é fortemente emotiva e afetiva, enquanto a linguagemconceitual procura falar das emoções e dos afetos sem se confundir com eles esem se realizar por meio deles;? a linguagem simbólica oferece sínteses imediatas (imagens), enquanto alinguagem conceitual procede por desconstrução analítica e reconstruçãosintética dos objetos, fazendo com que acompanhemos cada passo da análise e dasíntese;? a linguagem simbólica nos oferece palavras polissêmicas, isto é, carregadas demúltiplos sentidos simultâneos e diferentes, tanto sentidos semelhantes e emharmonia, quanto sentidos opostos e contrários; a linguagem conceitual procuradiminuir ao máximo a polissemia e a conotação, buscando fazer com que cadapalavra tenha um sentido próprio e que seus diferentes sentidos dependam docontexto no qual é empregada; – 188 –

Marilena Chauí _______________________________? a linguagem simbólica leva-nos para dentro dela, arrasta-nos par a seu interiorpela força de seu sentido, de suas evocações, de sua beleza, de seu apelo emotivoe afetivo; a linguagem conceitual busca convencer-nos e persuadir-nos por meiode argumentos, raciocínios e provas. A linguagem simbólica fascina e seduz; alinguagem conceitual exige o trabalho lento do pensamento;? a linguagem simbólica nos dá a conhecer o mundo criando um outro, análogoao nosso, porém mais belo ou mais terrível do que o nosso, mais justo ou maisviolento do que o nosso, mais antigo ou mais novo do que o nosso, mais visívelou mais oculto do que o nosso; a linguagem conceitual busca dizer o nossomundo, decifrando seu sentido, ultrapassando suas aparências e seus acidentes;? a linguagem simbólica, privilegiando a memória e a imaginaç ão, nos diz comoas coisas ou os homens poderiam ter sido ou poderão ser, voltando-se para umpossível passado ou para um possível futuro; a linguagem conceitual busca dizero nosso presente, fala do necessário, determinando suas causas ou motivos erazões; procura também as linhas de força de suas transformações e o campo dospossíveis, como possibilidade objetiva e não apenas desejada ou sonhada.RESUMINDO…A linguagem em sentido amplo (isto é, englobando língua, fala e palavra) éconstituída por quatro fatores fundamentais:1. fatores físicos (anatômicos, neurológicos, sensoriais), que determinam paranós a possibilidade de falar, escutar, escrever e ler;2. fatores socioculturais, que determinam a diferença entre as línguas e entre aslínguas dos indivíduos. Assim, o português e o inglês correspondem a sociedadese culturas diferentes, bem como a linguagem de Machado de Assis e deGuimarães Rosa correspondem a momentos diferentes da cultura no Brasil;3. fatores psicológicos (emocionais, afetivos, perceptivos, imaginativos,lembranças, inteligência) que criam em nós a necessidade e o desejo dainformação e da comunicação, bem como criam nossa capacidade para aperformance lingüística, seja ela cotidiana, artística, científica ou filosófica;4. fatores lingüísticos propriamente ditos, isto é, a estrutura e o funcionamento dalinguagem que determinam nossa competência e nossa performance enquantoseres capazes de criar e compreender significações.Esses fatores nos dizem por que existe linguagem e como ela funciona, mas nãonos dizem o que é a linguagem. É a perspectiva fenomenológica que nos orientapara sabermos não só o que é a linguagem, mas também qual é seu papelfundamental no conhecimento:? a linguagem não é mecanismo psicomotor (os fatores 1 e 3 apresentam ascondições biológicas e psicológicas para haver linguagem, mas não qual é anatureza da experiência da palavra); – 189 –

Convite à Filosofia _______________________________? a linguagem não é simples relação binária entre signo e coisa, signo e idéia,mas é uma relação ternária, na qual os signos são símbolos que veiculamsignificações;? a linguagem não traduz pensamentos, mas participa ativamente da formação eformulação das idéias e dos valores;? a linguagem é uma forma de nossa experiência total de seres que vivem nomundo e com outros; é uma dimensão de nossa existência;? a linguagem, como a percepção e a imaginação, pode comprazer-se no já dado,já dito e já pensado, no instituído e estabelecido, ficando escrava dospreconceitos e das ideologias, pois, como disse Platão, ela pode ser remédio,veneno e máscara. Pode bloquear nosso conhecimento e pode produzirdesconhecimento (mentira, desinformação). É, assim, nosso meio de acesso aomundo, aos outros e à verdade, mas também o instrumento do engano, do falso eda mentira;? a linguagem cria, interpreta e decifra significações, podendo fazê-lomiticamente ou logicamente, magicamente ou racionalmente, simbolicamente ouconceitualmente. – 190 –

Marilena Chauí _______________________________ Capítulo 6 O pensamentoPensando…Certa vez um grego disse: “O pensamento é o passeio da alma”. Com isso quisdizer que o pensamento é a maneira como nosso espírito parece sair de dentro desi mesmo e percorrer o mundo para conhecê-lo. Assim como no passeio levamosnosso corpo a toda parte, no pensamento levamos nossa alma a toda parte e maislonge do que o corpo, pois a alma não encontra obstáculos físicos para seucaminhar.O pensamento é essa curiosa atividade na qual saímos de nós mesmos semsairmos de nosso interior. Por isso, outro filósofo escreveu que pensar é amaneira pela qual sair de si e entrar em si são uma só e mesma coisa. Como umvôo sem sair do lugar.Em nosso cotidiano usamos as palavras pensar e pensamento em sentidosvariados e múltiplos. Podemos chegar a uma pessoa amiga, vê -la silenciosa edizer-lhe: “Por favor, diga-me seu pensamento, em que você está pensando?”.Com isso, reconhecemos uma atividade solitária, invisível para nós e que precisaser proferida para ser compartilhada.Outras vezes, porém, podemos dizer a essa mesma pessoa: “Você pensa que nãosei o que você está pensando?”. Agora, damos a entender que dispomos de sinais– alguma coisa que foi dita, um gesto, um olhar, uma expressão fisionômica –que nos permitem “ver” o pensamento de alguém e, portanto, acreditamos quepensar também se traduz em sinais corporais e visíveis. O pensamento é menossolitário e menos secreto do que se poderia supor.Algumas vezes, chegamos para alguém e indagamos: “Como é, pensou?”, eouvimos a resposta: “Sim. Vamos fazer o trabalho”. Ou então: “Ainda estoupensando no assunto. Vamos ver depois”. Nesses casos, pensar é tomado por nóscomo sinônimo de deliberação e de decisão, como algo que resulta numa ação.Muitas vezes, podem dizer-nos: “Você pensa demais, não faz bem à saúde”. Ououvimos a frase: “Ela ficou parada lá na esquina, quieta, pensando, pensando”.Podemos falar: “Por mais que pense nisso não consigo acreditar e, quanto maispenso, menos acredito”. Agora, pensar é visto como preocupação (fazendo mal àsaúde), cisma (ficar parada, quieta, cismando), dúvida (quanto mais penso,menos acredito). – 191 –

Convite à Filosofia _______________________________Alguns jornais costumam publicar algo que alguém disse com o título: “Opensamento do dia é…”, querendo dizer com isso que uma determinada idéia,definindo algum assunto, foi publicamente anunciada. Essa mesma identificaçãoentre pensame nto e idéia pode aparecer quando, por exemplo, um crítico literárioescreve: “O livro de Fulano tem alguns bons pensamentos, mas tem outrosbanais”, classificando idéias em “boas ” e “banais”, isto é, umas que dizem algonovo e interessante e outras que repetem lugares-comuns ou frivolidades.Supomos, dessa maneira, que há bons e maus pensamentos, tanto assim quefalamos em “pensamento positivo ” e em “afastar os maus pensamentos”.Um professor pode criticar o trabalho de um aluno dizendo-lhe: “Esse trabalhomostra que você não quis pensar ”. Aqui, pensar não é só ter idéias, mas tambémalgo que se pode querer ou não querer, algo voluntário e deliberado, uma formade atenção e concentração. Essa imagem de concentração aparece, por exemplo,quando alguém se zanga e diz: “Querem, por favor, fazer silêncio? Não estãovendo que estou pensando?”.E já mencionamos o célebre “Penso, logo existo” (Cogito, ergo sum), deDescartes, e a definição do homem como “caniço pensante”, feita por Pascal.Aqui, pensar e pensamento indicam a própria essência da natureza humana.O que dizem os dicionáriosSe procurarmos pensar e pensamento nos dicionários, notaremos que os váriossentidos dados a esses termos recobrem os exemplos que demos do uso dessaspalavras em nosso cotidiano e ainda acrescentam alguns outros sentidos.Pensar, dizem os dicionários, significa: 1. aplicar a atividade do espírito aoselementos fornecidos pelo conhecimento; formar e combinar idéias; julgar,refletir, raciocinar, especular; 2. exercer a inteligência; meditar, ver; 3. exercer oespírito ou a atividade consciente de uma maneira global: sentir, querer, refletir;4. ter uma opinião, uma convicção; 5. supor, presumir, crer, admitir, suspeitar,achar; 6. esperar, tencionar; 7. preocupar-se; 8. avaliar; 9. cismar.Pensamento, de acordo com os dicionários, significa: 1. o ato de refletir, meditarou pensar, ou o processo mental que se concentra em idéias; 2. a atividade deconhecimento ou tendo por objeto o conhecimento; 3. consciência, mente,espírito, entendimento, intelecto, razão; 4. poder de formular idéias e conceitos;5. faculdade de pensar logicamente, raciocínio, ponto de vista, formulação de umjuízo; 6. aquilo que é pensado ou o resultado do ato de pensar: idéia, ponto devista, opinião, juízo; 7. fantasia, sonho, devaneio, lembrança, recordação,cuidado, preocupação, expectativa; 8. conjunto das idéias ou doutrina de umpensador, de uma sociedade, de um grupo, de uma coletividade.Assim, no exemplo “Você pensa demais, não é bom para a saúde ”, pensar epensamento significam preocupação; no exemplo “Por mais que pense nisso, nãoacredito que seja assim”, pensar e pensamento significam cisma e dúvida; no – 192 –

Marilena Chauí _______________________________exemplo “Ainda estou pensando no assunto”, pensar e pensamento significamformar uma opinião ou um ponto de vista; no exemplo “Acabem com essebarulho, não estão vendo que estou pensando?”, pensar e pensamento significamatividade mental ou intelectual para formular uma idéia ou um conceito.Se eu disser: “Penso que ela virá”, estou exprimindo uma expectativa; se disser:“Penso que você sabe disso”, estou exprimindo uma suposição; se disser: “Penseinele a noite inteira, nem pude dormir”, estou exprimindo preocupação; se disser:“Eu a vi perdida em pensamentos”, quero dizer que vi alguém cismando,fantasiando, imaginando. Mas se eu disser: “A teoria da relatividade resulta dotrabalho do pensamento de Einstein”, estou dizendo que o pensamento é umaatividade intelectual de produção de conhecimentos.Quando procuramos a origem das palavras pensamento e pensar, descobrimosque procedem de um verbo latino, o verbo pendere, que significa: ficar emsuspenso, estar ou ficar pendente ou pendurado, suspender, pesar, pagar,examinar, avaliar, ponderar, compensar, recompensar e equilibrar.Pensar, portanto, é suspender o julgamento (até formar uma idéia ou opinião),pesar (comparar idéias, opiniões, pontos de vista), avaliar (julgar o valor de umaidéia ou opinião, ou seja, se é verdadeira ou falsa, justa ou injusta, adequada ouinadequada), examinar (idéias, opiniões, juízos, pontos de vista), ponderar (isto é,pesar idéias e pontos de vista para escolher um deles), equilibrar (encontrar omeio-termo entre extremos ou entre opostos). Pensare, derivando-se de pendere,caracteriza-se mais como uma atividade sobre idéias, opiniões, juízos e pontos devista já existentes do que como criação ou produção de uma idéia ou ponto devista.Por esse motivo, quando lemos os textos filosóficos antigos e modernos, escritosem latim, notamos que não usam pendere e pensare para dizer pensar, masempregam dois outros verbos: cogitare e intelligere.Cogitare significa: considerar atentamente e meditar. Esse verbo vem do outro,agere, que significa: empurrar para diante de si, e também do verbo agitare, quesignifica: empurrar para frente com força, agitar. Pensar, enquanto cogitare, écolocar diante de si alguma coisa para considerá-la com atenção ou forçar algumacoisa a ficar diante de nós para ser examinada.O verbo intelligere vem da composição de duas outras palavras: inter, isto é,entre, e legere, que significa: colher, reunir, recolher, escolher e ler (isto é, reuniras letras com os olhos). Por isso, intelligere significa: escolher entre, reunir entrevários, apanhar, aprender, compreender, ler entre, ler dentro de. Donde: conhecere entender.Se reunirmos os vários sentidos dos três verbos – pensare, cogitare e intelligere -, veremos que pensar e pensamento sempre significam atividades que exigematenção: pesar, avaliar, equilibrar, colocar diante de si para considerar, reunir e – 193 –

Convite à Filosofia _______________________________escolher, colher e recolher. O pensamento é, assim, uma atividade pela qual aconsciência ou a inteligência coloca algo diante de si para atentamenteconsiderar, avaliar, pesar, equilibrar, reunir, compreender, escolher, entender eler por dentro.Isso explica todos os sentidos que vimos surgir nos dicionários da línguaportuguesa e nos exemplos que demos: meditar, concentrar-se, cismar, opinar, teridéias, compreender as coisas, raciocinar, formular conceitos, ter um ponto devista, refletir, avaliar, preocupar-se.O pensamento é a consciência ou a inteligência saindo de si ( “passeando”) para ircolhendo, reunindo, recolhendo os dados oferecidos pela experiência, pelapercepção, pela imaginação, pela memória, pela linguagem, e voltando a si, paraconsiderá-los atentamente, colocá-los diante de si, observá-los intelectualmente,pesá-los, avaliá-los, retirando deles conclusões, formulando com eles idéias,conceitos, juízos, raciocínios, valores.O pensamento exprime nossa existência como seres racionais e capazes deconhecimento abstrato e intelectual, e sobretudo manifesta sua própriacapacidade para dar a si mesmo leis, normas, regras e princípios para alcançar averdade de alguma coisa.Experiências de pensamentoMuitas vezes nos acontece de passarmos horas matutando, cismando, querendocompreender alguma coisa que nos escapa. Fazemos nossas atividades de tododia, mas parecemos distraídos porque nossa atenção está concentrada noutraparte, naquilo que estamos querendo compreender e não conseguimos. Cansados,paramos de cismar e de dar atenção ao assunto. De repente, com susto e alegria,quase gritamos: “Entendi!”. Sentimos o mesmo que quando completamos umquebra-cabeça, todas as peças em seus devidos lugares, a figura bem visíveldiante de nós. Tivemos uma experiência de pensamento.Outras vezes, assistindo a uma aula, lendo um livro científico, fazendo umtrabalho no laboratório, resolvendo um problema no computador, vamosacompanhando passo a passo as idéias, os encadeamentos dos raciocínios, asrelações de causa e efeito entre certas coisas, as conseqüências de uma afirmaçãoe de uma negação e, finalmente, a conclusão a que chegam a aula, o livro, otrabalho no laboratório ou no computador. Ao término de cada uma dessasatividades temos consciência de que aprendemos alguma coisa que não sabíamose que fizemos um percurso para conhecê-la e compreendê-la. Tivemos umaexperiência de pensamento.Em certas ocasiões, dialogando com uma outra pessoa, a conversa vai fazendosurgir idéias nas quais eu nunca havia pensado, ou vai fazendo com que euperceba que algumas idéias, que julgava claras e corretas, não são assim, sãoconfusas e incorretas. Falando com a outra pessoa, vou desenvolvendo idéias que – 194 –

Marilena Chauí _______________________________eu nem sabia que tinha e que foram despertadas em mim por alguma coisa que ooutro me disse. Clarifico algumas, corrijo outras, abandono outras tantas,descubro novas, tiro conclusões ou me encho de perplexidade. Tive umaexperiência de pensamento.Quando pensamos, pomos em movimento o que nos vem da percepção, daimaginação, da memória; apreendemos o sentido das palavras; encadeamos earticulamos significações, algumas vindas de nossa experiência sensível, outrasde nosso raciocínio, outras formadas pelas relações entre imagens, palavras,lembranças e idéias anteriores. O pe nsamento apreende, compara, separa, analisa,reúne, ordena, sintetiza, conclui, reflete, decifra, interpreta, interroga.A inteligênciaA psicologia costuma definir a inteligência por sua função, considerando-a umaatividade de adaptação ao ambiente, através do estabelecimento de relações entremeios e fins para a solução de um problema ou de uma dificuldade. Essadefinição concebe, portanto, a inteligência como uma atividade eminentementeprática e a distingue de duas outras que também possuem finalidade adaptativa erelacionam meios e fins: o instinto e o hábito.Compartilhamos o instinto e o hábito com os animais. O instinto, por exemplo,nos leva automaticamente a contrair a pupila quando nossos olhos estão muitoexpostos à luz e a dilatá-la quando estamos na escuridão; leva-nos a afastarrapidamente a mão de uma superfície muito quente que possa queimar-nos. Oinstinto é inato. Ao contrário, o hábito é adquirido, mas, como o instinto, tende arealizar-se automaticamente. Por exemplo, quem adquire o hábito de dirigir umveículo, muda as marchas, pisa na embreagem, no acelerador ou no freio semprecisar pensar nessas operações; quem aprende a patinar ou a nadar, realizamaquinalmente os gestos necessários, depois de adquiri-los.Instinto e hábito são formas de comportamento cuja principal característica éserem especializados ou específicos: a abelha sabe fazer a colméia, mas é incapazde fazer o ninho; o joão-de-barro constrói uma “casa”, mas é incapaz de fazeruma colméia; posso aprender a nadar, mas esse hábito não me faz saber andar debicicleta.O instinto e o hábito especializam as funções, os meios e os fins e não possuemflexibilidade para mudá-los ou para adaptar um novo meio para um novo fim,nem para usar meios novos para um fim já existente. A tendência do instinto oudo hábito é a repetição e o automatismo das respostas aos problemas.A inteligência difere do instinto e do hábito por sua flexibilidade, pelacapacidade de encontrar novos meios para um novo fim, ou de adaptar meiosexistentes para uma finalidade nova, pela possibilidade de enfrentar de maneiradiferente situações novas e inventar novas soluções para elas, pela capacidade deescolher entre vários meios possíveis e entre vários fins possíveis. Nesse nível – 195 –

Convite à Filosofia _______________________________prático, a inteligência é capaz de criar instrumentos, isto é, de dar uma funçãonova e um sentido novo a coisas já existentes, para que sirvam de meios a novosfins.Compartilhamos a inteligência prática com alguns animais, especialmente comos chimpanzés. O psicólogo Köhler fez experiências com alguns desses animais edemonstrou que eram capazes de comportamentos inteligentes:? colocado um chimpanzé numa pequena sala, põe-se a seu lado um certonúmero de caixotes e prende-se uma banana no teto. Após saltos instintivos(infrutíferos) para a agarrar a banana, o chimpanzé consegue empilhar oscaixotes, subir neles e agarrar o alimento;? colocado um chimpanzé numa pequena sala, nas mesmas circunstânciasanteriores, mas oferecendo bambus em vez de caixotes, o chimpanzé termina porencaixar os bambus uns nos outros, formando um instrumento para apanhar abanana.Os gestaltistas explicam o comportamento do chimpanzé mostrando que ele secomporta percebendo um campo perceptivo no qual a banana, os caixotes e osbambus formam uma totalidade e se relacionam enquanto partes de um todo, demodo que os caixotes e os bambus são percebidos como parte da paisagem ecomo meios para um fim (agarrar a banana).O fato de que o chimpanzé percebe um campo perceptivo, e não objetos isolados,é demonstrado quando, no lugar dos bambus, são colocados arames, que o animalenganchará uns nos outros para colher a fruta; ou quando, no lugar dos caixotes,são colocadas mesinhas de tamanhos diferentes, que podem ser empilhadas peloanimal para agarrar a banana.No entanto, observa-se algo interessante. Depois de comer a banana, ochimpanzé nada faz com os caixotes, os bambus, os arames ou as mesas. Ficam àsua volta como objetos sem sentido. Ao contrário, uma criança nas mesmascircunstâncias, depois de conseguir apanhar um doce, por exemplo, examinará osobjetos. Se descobrir que são desmontáveis, ela tentará fazer, com os caixotes eas mesas, uma escada, e com os bambus e os arames, uma rede.Essa diferença nos comportamentos do chimpanzé e da criança revela que estaúltima ultrapassa a situação imediata de fome e de uso direto dos objetos e prevêuma situação futura para a qual encontra uma solução, transformando os objetosem instrumentos propriamente ditos.A criança antecipa uma situação e transforma os dados de uma situaçãopresente, fabricando meios para certos fins que ainda estão ausentes. Ela selembra da situação passada, espera a situação futura, organiza a situaçãopresente a partir dos dados lembrados, esperados e percebidos, imagina umasituação nova e responde a ela, mesmo que ainda esteja ausente. – 196 –

Marilena Chauí _______________________________A criança se relaciona com o tempo e transforma seu espaço por essa relaçãotemporal. A criança representa seu mundo e atua praticamente sobre ele. Suainteligência difere, portanto, da do animal.Inteligência e linguagemNão somos dotados apenas de inteligência prática ou instrumental, mas tambémde inteligência teórica e abstrata. Pensamos.O exercício da inteligência como pensamento é inseparável da linguagem, comojá vimos, pois a linguagem é o que nos permite estabelecer relações, concebê-lase compreendê-las. Graças às significações escada e rede, a criança pode pensarnesses objetos e fabricá-los.A linguagem articula percepções e memórias, percepções e imaginações,oferecendo ao pensamento um fluxo temporal que conserva e interliga as idéias.O psicólogo Piaget, estudando a gênese da inteligência nas crianças, mostroucomo a aquisição da linguagem e a do pensamento caminham juntas. Assim, porexemplo, uma criança de quatro anos ainda não é capaz de pensar relaçõesreversíveis ou recíprocas porque não domina a linguagem desse tipo de relações.Se se perguntar a ela: “Você tem um irmão?”, ela responderá: “Sim”. Secontinuarmos a perguntar: “Quem é o seu irmão?”, ela responderá: “Pedrinho”.No entanto, se lhe perguntarmos: “Pedrinho tem uma irmã?”, ela dirá: “Não”,pois a linguagem que ela possui permite-lhe estabelecer relações entre ela e omundo, mas não entre o mundo e ela.A inteligência humana, enquanto atividade mental e de linguagem, pode serdefinida como a capacidade para enfrentar ou colocar diante de si problemaspráticos e teóricos, para os quais encontra, elabora ou concebe soluções, seja pelacriação de instrumentos práticos (as técnicas), seja pela criação de significações(idéias e conceitos). Caracteriza-se pela flexibilidade, plasticidade e inovação,bem como pela possibilidade de transformar a própria realidade (trabalho, artes,técnicas, ações políticas, etc.). A inteligência se realiza, portanto, comoconhecimento e ação.O conhecimento inteligente apreende o sentido das palavras, interpreta-o, inventanovos sentidos para palavras antigas ou cria novas palavras para novos sentidos.O movimento de conhecer é, pois, um movimento cujo corpo é a linguagem.Graças a ela, compartilhamos com outros os nossos conhecimentos e recebemosde outros os conhecimentos.Comunicação, informação, memória cultural, transmissão, inovação e ruptura: eiso que a linguagem permite à inteligência. Clarificação, organização,ordenamento, análise, interpretação, compreensão, síntese, articulação: eis o quea inteligência oferece à linguagem. – 197 –

Convite à Filosofia _______________________________Inteligência e pensamentoA inteligência colhe, recolhe e reúne os dados oferecidos pela percepção, pelaimaginação, pela memória e pela linguagem, formando redes de significaçõescom as quais organizamos e ordenamos nosso mundo e nossa vida, recebendo edoando sentido a eles. O pensamento, porém, vai além do trabalho dainteligência: abstrai (ou seja, separa) os dados das condições imediatas de nossaexperiência e os elabora sob a forma de conceitos, idéias e juízos, estabelecendoarticulações internas e necessárias entre eles pelo raciocínio (indução e dedução),pela análise e pela síntese. Formula teorias, procura prová-las e verificá-las, poisestá voltado para a verdade do conhecimento.Um conceito ou uma idéia é uma rede de significações que nos oferece: osentido interno e essencial daquilo a que se refere; os nexos causais ou asrelações necessárias entre seus elementos, de sorte que por eles conhecemos aorigem, os princípios, as conseqüências, as causas e os efeitos daquilo a que serefere. O conceito ou idéia nos oferece a essência-significação necessária dealguma coisa, sua origem ou causa, suas conseqüências ou seus efeitos, seu modode ser e de agir.Assim, por exemplo, ve jo rosas, margaridas, girassóis. Mas concebo pelopensamento o conceito ou a idéia universal de flor. Sinto corpos quentes, mornos,frios, gelados, sinto o frio da neve, o calor do Sol, a tepidez agradável da água domar ou da piscina. Mas concebo pelo pensamento o conceito ou idéia detemperatura. Vejo uma bola, no conjunto musical toco um triângulo, escrevosobre uma mesa cujo tampo tem quatro lados iguais. Mas pelo pensamentoconcebo o conceito ou a idéia de esfera ou círculo, de triângulo, de quadrado.Vou além: pelo puro pensamento, formulo o conceito de figura geométrica e dasleis que a regem, elaborando axiomas, postulados e teoremas.Os conceitos ou idéias são redes de significações cujos nexos um ligações sãoexpressos pelo pensamento através dos juízos i, pelos quais estabelecemos os elosinternos e necessários entre um ser e as qualidades, as propriedades, os atributosque lhe pertencem, assim como aqueles predicados que lhe são acidentais e quepodem ser retirados sem que isso afete o sentido e a realidade de um ser.Um conjunto de juízos constitui uma teoria, quando:? estabelece com clareza um campo de objetos e os procedimentos para conhecê-los e enunciá-los;? organizam-se e ordenam-se os conceitos;? articulam-se e demonstram-se os juízos, verificando seu acordo com regras eprincípios de racionalidade e demonstraç ão.Teoria é explicação, descrição e interpretação geral das causas, formas,modalidades e relações de um campo de objetos, conhecidos graças aconhecimentos específicos, próprios à natureza dos objetos investigados. – 198 –

Marilena Chauí _______________________________O pensamento elabora teorias, ou seja, uma explicação ou interpretaçãointelectual de um conjunto de fenômenos e significações (objetos, fatos,situações, acontecimentos), que estabelece a natureza, o valor e a verdade de taisfenômenos. Por isso falamos em teoria da relatividade, teoria genética, teoriaaristotélica, teoria psicanalítica, etc.Uma teoria pode ou não nascer diretamente de uma prática e ter ou não umaaplicação prática direta, mas não é a prática que permite determinar a verdade oufalsidade teórica e sim critérios internos à própria teoria (seja suacorrespondência com as coisas teorizadas, seja a coerência interna de seusargumentos, seus raciocínios, suas demonstrações e suas provas, seja, enfim, aconsistência lógica de suas significações). A prática orienta o trabalho teórico,verifica suas conclusões, mas não determina sua verdade ou falsidade.O pensamento propõe e elabora teorias e cria métodos.A necessidade do métodoA palavra método vem do grego, methodos, composta de meta: através de, pormeio de, e de hodos: via, caminho. Usar um método é seguir regular eordenadamente um caminho através do qual uma certa finalidade ou um certoobjetivo é alcançado. No caso do conhecimento, é o caminho ordenado que opensamento segue por meio de um conjunto de regras e procedimentos racionais,com três finalidades:1. conduzir à descoberta de uma verdade até então desconhecida;2. permitir a demonstração e a prova de uma verdade já conhecida;3. permitir a verificação de conhecimentos para averiguar se são ou nãoverdadeiros.O método é, portanto, um instrumento racional para adquirir, demonstrar ouverificar conhecimentos.Por que se sente a necessidade de um método? Porque, como vimos, o erro, ailusão, o falso, a mentira rondam o conhecimento, interferem na experiência e nopensamento. Para dar segurança ao conhecimento, o pensamento cria regras eprocedimentos que permitam ao sujeito cognoscente aferir e controlar todos ospassos que realiza no conhecimento de algum objeto ou conjunto de objetos.A Filosofia conheceu diferentes concepções de método.Platão, por exemplo, considerava que o melhor caminho para o conhecimentoverdadeiro era o que permitia ao pensamento libertar-se do conhecimentosensível (crenças, opiniões), isto é, das imagens e aparências das coisas. Atribuíaesse papel liberador à discussão racional, sob a forma do diálogo.No diálogo, os interlocutores, guiados pelas perguntas do filósofo (no caso,Sócrates), examinam e discutem opiniões que cada um deles possui sobre alguma – 199 –

Convite à Filosofia _______________________________coisa; descobrem que suas opiniões são contraditórias e não levam aconhecimento algum. Aceitam abandoná-las e conseguem, pouco a pouco, chegarà idéia universal ou à essência da coisa procurada. Por se tratar de um confrontoentre imagens e opiniões contrárias ou contraditórias, esse método ou caminhoera chamado por Platão de dialética (discussão de teses contrárias e em conflitoou oposição).Aristóteles, no entanto, considerou a dialética inadequada ao pensamento, pois,dizia ele, tal procedimento lida com meras opiniões prováveis, não oferecendoqualquer garantia de que tenhamos superado o conflito de opiniões e alcançado aessência verdadeira da coisa investigada. Por esse motivo, definiu oprocedimento filosófico-científico como um método demonstrativo que se realizapor meio de silogismos. O silogismo é um conjunto de três juízos ou proposiçõesque permite obter uma conclusão verdadeira. Trata-se de um método dedutivo noqual, de duas premissas, deduz-se uma conclusão. Por exemplo: Todos os homens são mortais. Sócrates é homem. Logo, Sócrates é mortal.Aristóteles considerava, porém, que os objetos que são conhecidos porexperiência, e não só pelo puro pensamento, deveriam seguir um métodoindutivo, no qual o silogismo seria o resultado final conseguido peloconhecimento.Durante a modernidade (isto é, a partir do século XVII), a necessidade de ummétodo tornou-se ainda mais imperiosa do que antes, pois, como vimos, o sujeitodo conhecimento não sabe se pode alcançar a verdade.O sujeito do conhecimento descobre-se como uma consciência que parece nãopoder contar com o auxílio do mundo para guiá-lo, desconfia dos conhecimentossensíveis e dos conhecimentos herdados. Está só. Conta apenas com seu própriopensamento. Separado do mundo, isolado com suas percepções, opiniões, idéias,sua solidão torna indispensável um método que possa guiar o pensamento emdireção aos conhecimentos verdadeiros e distingui-los dos falsos. Eis porqueDescartes escreve o Discurso do método e as Regras para a direção do espírito.Sobre o método, diz ele, na regra IV das Regras: Por método, entendo regras certas e fáceis, graças às quais todos os que as observem exatamente jamais tomarão como verdadeiro aquilo que é falso e chegarão, sem se cansar com esforços inúteis e aumentando progressivamente sua ciência, ao conhecimento verdadeiro de tudo o que lhes é possível esperar.Descartes enuncia, portanto, as três principais características das regras dométodo: – 200 –

Marilena Chauí _______________________________1. certas (o método dá segurança ao pensamento);2. fáceis (o método economiza esforços inúteis); e3. que permitam alcançar todos os conhecimentos possíveis para o entendimentohumano.Por sua vez, Francis Bacon definiu o método como o modo seguro e certo de“aplicar a razão à experiência”, isto é, de aplicar o pensamento lógico aos dadosoferecidos pelo conhecimento sensível.O método, nas várias formulações que recebeu no correr da história da Filosofia edas ciências, sempre teve o papel de um regulador do pensamento, isto é, deaferidor e avaliador das idéias e teorias: guia o trabalho intelectual (produção dasidéias, dos experimentos, das teorias) e avalia os resultados obtidos.Desde Aristóteles, a Filosofia considera que, ao lado de um método geral quetodo e qualquer conhecimento deve seguir, tanto para a aquisição quanto para ademonstração e verificação de verdades, outros métodos particulares sãonecessários, pois os objetos a serem conhecidos também exigem métodos queestejam em conformidade com eles e, assim, haverá diferentes métodos conformea especificidade do objeto a ser conhecido. Dessa maneira, são diferentes entre sios métodos da geometria e da física, da biologia e da sociologia, da história e daquímica, e assim por diante.É interessante notar, todavia, que, em certos períodos da história da Filosofia edas ciências, chegou-se a pensar num método único que ofereceria os mesmosprincípios e as mesmas regras para todos os campos do conhecimento. Assim,por exemplo, Galileu julgou que o método matemático deveria ser usado emtodos os conhecimentos da Natureza, pois, dizia ele, “A Natureza é um livroescrito em caracteres matemáticos”.Descartes, indo mais longe que Galileu, julgou que um só e mesmo métododeveria ser empregado pela Filosofia e por todas as ciências, uma mathesisuniversalis, ou o conhecimento da ordem necessárias das idéias, válida paratodos os objetos de conhecimento. Conhecer seria ordenar e encadear em nexoscontínuos as idéias referentes a um objeto e tal procedimento deveria ser omesmo em todos os conhecimentos porque esse é o modo próprio dopensamento, seja qual for o objeto a ser conhecido.Os filósofos e cientistas do final do século XIX também afirmavam que ummétodo único deveria ser seguido. Entusiasmados com os desenvolvimentos dafísica, julgaram que todos os campos do saber deveriam empregar o métodousado pela “ciência da Natureza”, mesmo quando o objeto fosse o homem.Agora, não era tanto a idéia de ordenamento interno das idéias que levava àdefesa de um único método de conhecimento, mas a idéia da causalidade ou deexplicação causal de todos os fatos, fossem eles naturais ou humanos. – 201 –

Convite à Filosofia _______________________________Hoje, porém, sobretudo com a fenomenologia de Husserl e com a corrente dopensamento conhecida como estruturalismo, considera-se que cada campo doconhecimento deva ter seu método próprio, determinado pela natureza do objeto,pela forma como o sujeito do conhecimento pode aproximar-se desse objeto epelo conceito de verdade que cada esfera do conhecimento define para si própria.Assim, por exemplo, considera-se o método matemático, isto é, dedutivo,próprio para objetos que existem apenas idealmente e que são construídosinteiramente pelo nosso pensamento; ao contrário, o método experimental, isto é,indutivo, é próprio das ciências naturais, que observam seus objetos e realizamexperimentos.Já as ciências humanas têm métodos de compreensão e de interpretação dosentido das ações, das práticas, dos comportamentos, das instituições sociais epolíticas, dos sentimentos, dos desejos, das transformações históricas, pois ohomem, objeto dessas ciências, é um ser histórico-cultural que produz asinstituições e o sentido delas. Tal sentido é o que precisa ser conhecido.No caso das ciências exatas (as matemáticas), o método é chamado axiomático,isto é, baseia o conhecimento num conjunto de termos primitivos e de axiomas,que são o ponto de partida da construção e demonstração dos objetos.No caso das ciências naturais (física, química, biologia, etc.), o método échamado experimental e hipotético. Experimental, porque se baseia emobservações e em experimentos, tanto para formular quanto para verificar asteorias. Hipotético, porque os cientistas partem de hipóteses sobre os objetos queguiam os experimentos e a avaliação dos resultados.No caso das ciências humanas (psicologia, sociologia, antropologia, história,etc.), o método é chamado compreensivo-interpretativo, porque seu objeto sãoas significações ou os sentidos dos comportamentos, das práticas e dasinstituições realizadas ou produzidas pelos seres humanos.Quanto à Filosofia, embora os filósofos tenham oscilado entre vários métodospossíveis, atualmente quatro traços são comuns aos diferentes métodosfilosóficos:1. o método é reflexivo – parte da auto-análise ou do autoconhecimento dopensamento;2. é crítico – investiga os fundamentos e as condições necessárias dapossibilidade do conhecimento verdadeiro, da ação ética, da criação artística e daatividade política;3. é descritivo – descreve as estruturas internas ou essências de cada campo deobjetos do conhecimento e das formas de ação humana; – 202 –

Marilena Chauí _______________________________4. é interpretativo – busca as formas da linguagem e as significações ou ossentidos dos objetos, dos fatos, das práticas e das instituições, suas origens etransformações.Pensamento mítico e pensamento lógicoNo capítulo anterior, vimos que a língua grega possuía duas palavras para referir-se à linguagem: mythos e logos. Vimos também, tanto no estudo da linguagemquanto no da inteligência, que falar e pensar são inseparáveis. Por isso mesmo,podemos referir-nos a duas modalidades do pensamento, conforme predomine omythos ou o logos.A tradição filosófica, sobretudo a partir do século XVIII (com a filosofia daIlustração) e do século XIX (com a filosofia da história de Hegel e o positivismode Comte), afirmava que do mito à lógica havia uma evolução do espíritohumano, isto é, o mito era uma fase ou etapa do espírito humano e da civilizaçãoque antecedia o advento da lógica ou do pensamento lógico, considerado a etapaposterior e evoluída do pensamento e da civilização. Essa tradição filosófica fezcrer que o mito pertenceria a culturas “inferiores”, “primitivas” ou “atrasadas ”,enquanto o pensamento lógico ou racional pertenceria a culturas “superiores”,“civilizadas ” e “adiantadas”.Essa separação temporal e evolutiva de duas modalidades de pensamento faziacom que se julgasse a presença, em nossas sociedades, de explicações míticas(isto é, as religiões, a literatura, as artes) como uma espécie de “resíduo” ou“resto” de uma fase passada da evolução da humanidade, destinada a desaparecercom a plena evolução da racionalidade científica e filosófica.Hoje, porém, sabe-se que a concepção evolutiva está equivocada. O pensamentomítico pertence ao campo do pensamento simbólico e da linguagem simbólica,que coexistem com o campo do pensamento e da linguagem conceituais. Duaslinhas de estudos mostraram essa coexistência, embora essas duas modalidadesde pensamento e de linguagem sejam não só diferentes, mas também,freqüentemente, contrárias e opostas.A primeira linha vem da antropologia social, que estuda os mitos das sociedadesditas selvagens e também as mitologias de nossas sociedades, ditas civilizadas.Os antropólogos mostraram que, no caso de nossas sociedades, a presençasimultânea do conceitual e do mítico decorre do modo como a imaginação socialtransforma em mito aquilo que o pensamento conceitual elabora nas ciências e naFilosofia. Basta ver o caráter mágico-maravilhoso dado aos satélites ecomputadores para vermos a passagem da ciência ao mito.A segunda linha vem da neurologia e da análise da anatomia e da fisiologia docérebro humano, mostrando que esse órgão possui duas partes ou doishemisférios, num deles localizando-se a linguagem e o pensamento simbólicos enoutro, a linguagem e o pensamento conceituais. Certas pessoas, como os – 203 –

Convite à Filosofia _______________________________artistas, desenvolvem mais o hemisfério simbólico, enquanto outras, como oscientistas, desenvolvem mais o hemisfério conceitual e lógico.Assim, a predominância de uma ou outra forma do pensamento depende, por umlado, das tendências pessoais e da história da vida dos indivíduos e, de outrolado, do modo como uma sociedade ou uma cultura recorrem mais a uma do queà outra forma para interpretar a realidade, intervir no mundo e explicar-se a simesma.Numa passagem célebre de uma de suas obras, Marx dizia que o mito de Zeus(portador de raios, trovões e tempestades) não mais poderia funcionar numasociedade que inventou o pára-raios, isto é, descobriu cientificamente aeletricidade. Mas o próprio Marx mostrou como tal sociedade cria novos mitos,adaptados à era da máquina e da tecnologia.Como o mito funcionaO antropólogo Claude Lévi -Strauss estudou o “pensamento selvagem” paramostrar que os chamados selvagens não são atrasados nem primitivos, masoperam com o pensamento mítico.O mito e o rito, escreve Lévi -Strauss, não são lendas nem fabulações, mas umaorganização da realidade a partir da experiência sensível enquanto tal. Paraexplicar a composição de um mito, Lévi-Strauss se refere a uma atividade queexiste em nossa sociedade e que, em francês, se chama bricolage.Que faz um bricoleur, ou seja, quem pratica bricolage? Produz um objeto novo apartir de pedaços e fragmentos de outros objetos. Vai reunindo, sem um planomuito rígido, tudo o que encontra e que serve para o objeto que está compondo.O pensamento mítico faz exatamente a mesma coisa, isto é, vai reunindo asexperiências, as narrativas, os relatos, até compor um mito geral. Com essesmateriais heterogêneos produz a explicação sobre a origem e a forma das coisas,suas funções e suas finalidades, os poderes divinos sobre a Natureza e sobre oshumanos. O mito possui, assim, três características principais:1. função explicativa: o presente é explicado por alguma ação passada cujosefeitos permaneceram no tempo. Por exemplo, uma constelação existe porque, nopassado, crianças fugitivas e famintas morreram na floresta e foram levadas aocéu por uma deusa que as transformou em estrelas; as chuvas existem porque,nos tempos passados, uma deusa apaixonou-se por um humano e, não podendounir-se a ele diretamente, uniu-se pela tristeza, fazendo suas lágrimas caíremsobre o mundo, etc.;2. função organizativa: o mito organiza as relações sociais (de parentesco, dealianças, de trocas, de sexo, de idade, de poder, etc.) de modo a legitimar egarantir a permanência de um sistema complexo de proibições e permissões. Porexemplo, um mito como o de Édipo ii existe (com narrativas diferentes) em quasetodas as sociedades selvagens e tem a função de garantir a proibição do incesto, – 204 –

Marilena Chauí _______________________________sem a qual o sistema sociopolítico, baseado nas leis de parentesco e de alianças,não pode ser mantido;3. função compensatória: o mito narra uma situação passada, que é a negaçãodo presente e que serve tanto para compensar os humanos de alguma perda comopara garantir-lhes que um erro passado foi corrigido no presente, de modo aoferecer uma visão estabilizada e regularizada da Natureza e da vida comunitária.Por exemplo, entre os mitos gregos, encontra-se o da origem do fogo, quePrometeu roubou do Olimpo para entregar aos mortais e permitir-lhes odesenvolvimento das técnicas. Numa das versões desse mito, narra-se quePrometeu disse aos homens que se protegessem da cólera de Zeus realizando osacrifício de um boi, mas que se mostrassem mais astutos do que esse deus,comendo as carnes e enviando-lhe as tripas e gorduras. Zeus descobriu aartimanha e os homens seriam punidos com a perda do fogo se Prometeu nãolhes ensinasse uma nova artimanha: colocar perfumes e incenso nas partesdedicadas ao deus.Com esse mito, narra-se o modo como os humanos se apropriaram de algo divino(o fogo) e criaram um ritual (o sacrifício de um animal com perfumes e incenso)para conservar o que haviam roubado dos deuses.Como opera o pensamento mítico?Antes de tudo, pela reunião de heterogêneos. O mito reúne, junta, relaciona e fazelementos diferentes e heterogêneos agirem uns sobre os outros. Por exemplo,corpos de crianças são estrelas, lágrimas de uma deusa são chuva, o dia é o carrodo deus Apolo, a noite é o manto de uma deusa, o tempo é um deus (na mitologiagrega, Cronos), etc.Em segundo lugar, o mito organiza a realidade, dando às coisas, aos fatos, àsinstituições um sentido analógico e metafórico, isto é, uma coisa vale por outra,substitui outra, representa outra. No mito de Édipo, por exemplo, os pés e omodo de andar têm um significado analógico, metafórico e simbólico muitopreciso. Labdáco, avô de Édipo, quer dizer coxo; Laio, pai de Édipo, quer dizerpé torto; Édipo quer dizer pé inchado.Essa referência aos pés e ao modo de andar é uma referência da relação doshumanos com o solo e, portanto, com a terra, e simboliza ou metaforiza umaquestão muito grave: os humanos nasceram da terra ou da união de um homem ede uma mulher? Se da terra, deveriam ser imortais. No entanto, morrem. Paraexprimir a angústia de serem mortais e que os humanos, portanto, nasceram deum homem e de uma mulher e não da terra, o mito simboliza a mortalidadeatravés da dificuldade para se relacionar com a terra, isto é, para andar (coxo,torto, inchado). Para exprimir a dificuldade de aceitar uma origem humanamortal, o mito simboliza a fragilidade das leis humanas fazendo Laio mandar – 205 –

Convite à Filosofia _______________________________matar seu filho Édipo, Édipo assassinar seu pai Laio e casar-se com sua mãe,Jocasta.Em terceiro lugar, o mito estabelece relações entre os seres naturais e humanos,seja fazendo humanos nascerem, por exemplo, de animais, seja fazendo os astrosdecidirem a sorte e o destino dos humanos (como na astrologia), seja fazendocores, metais e pedras definirem a natureza de um humano (como a magia, porexemplo).Coisas e humanos se relacionam por participação, simpatia, antipatia, por formassecretas de ação à distância. O mundo é um tecido de laços e vínculos secretosque precisam ser decifrados e sobre os quais os homens podem adquirir algumpoder por meio da imitação (vestir peles de animais, fabricar talismãs, ficar emcertas posições, plantar fazendo certos gestos, pronunciar determinadas palavras).O mito decifra o secreto. O rito imita o poder.Analogias e metáforas formam símbolos, isto é, imagens carregadas e saturadasde sentidos múltiplos e simultâneos, servindo para explicar coisas diferentes oupara substituir uma coisa por outra. Assim, por exemplo, o fogo pode simbolizarum deus, uma paixão, como o amor e a cólera (porque são ardentes), oconhecimento (porque este é uma iluminação), a purificação de alguma coisa(como na alquimia), o poder sobre a Natureza (porque permite odesenvolvimento das técnicas), a diferença entre os animais e os homens (porqueestes cozem os alimentos enquanto aqueles os comem crus), etc.A peculiaridade do símbolo mítico está no fato de ele encarnar aquilo que elesimboliza. Ou seja, o fogo não representa alguma coisa, mas é a própria coisasimbolizada: é deus, é amor, é guerra, é conhecimento, é pureza, é fabricação epurificação, é o humano.O fato de o símbolo mítico não representar, mas encarnar aquilo que ésignificado por ele, leva a dizer (como faz Lévi -Strauss) que o pensamentomítico é um pensamento sensível e concreto, um pensamento onde imagens sãocoisas e onde coisas são idéias, onde as palavras dão existência ou morte àscoisas (como vimos ao estudar a palavra mágica e a palavra-tabu).Como funciona o pensamento conceitualO pensamento conceitual ou lógico opera de maneira diferente e mesmo oposta àdo pensamento mítico. A primeira e fundamental diferença está no fato de queenquanto o pensamento mítico opera por bricolage (associação dos fragmentosheterogêneos), o pensamento conceitual opera por método (procedimento lógicopara a articulação racional entre elementos homogêneos). Dessa diferençaresultam outras:? um conceito ou uma idéia não é uma imagem nem um símbolo, mas umadescrição e uma explicação da essência ou natureza própria de um ser, referindo-se a esse ser e somente a ele; – 206 –

Marilena Chauí _______________________________? um conceito ou uma idéia não são substitutos para as coisas, mas acompreensão intelectual delas;? um conceito ou uma idéia n são formas de participação ou de relação de ãonosso espírito em outra realidade, mas são resultado de uma análise ou de umasíntese dos dados da realidade ou do próprio pensamento;? um juízo e um raciocínio não permanecem no nível da experiência, nemorganizam a experiência nela mesma, mas, partindo dela, a sistematizam emrelações racionais que a tornam compreensível do ponto de vista lógico;? um juízo e um raciocínio buscam as causas universais e necessárias pelas quaisuma realidade é tal como é, distinguindo o modo como ela nos aparece do modocomo é em si mesma; as causas e os efeitos são homogêneos, isto é, são demesma natureza;? um juízo e um raciocínio estudam e investigam a diferença entre nossasvivências subjetivas, pessoais e coletivas, e os conhecimentos gerais e objetivos,que são de todos e de ninguém em particular. Estabelecem a diferença entrevivências subjetivas e a estrutura objetiva do pensamento em geral;? o pensamento lógico submete seus procedimentos a métodos, isto é, a regras deverificação e de generalização dos conhecimentos adquiridos; a regras deordenamento e sistematização dos procedimentos e dos resultados, de modo queum conhecimento novo não pode simplesmente acrescentar-se aos anteriores(como no bricolage), mas só se junta a eles se obedecer a certas regras eprincípios intelectuais. Assim, por exemplo, a teoria física elaborada porAristóteles não pode ser acrescida pela de Galileu, pois são contrárias; do mesmomodo, a física de Galileu e de Newton não podem ser acrescentadas à teoria darelatividade, mas podem apenas ser consideradas um caso especial da física,quando os objetos são macroscópicos e quando a separação entre o observador eo observado são possíveis.O pensamento lógico ou racional (ou o pensamento objetivo) opera de acordocom os princípios de identidade, contradição, terceiro excluído, razão suficiente ecausalidade; distingue verdades de fato e verdades de razão; diferencia intuição,dedução, indução e abdução; distingue análise e síntese; diferencia reflexão everificação, teoria e prática, ciência e técnica.Se compararmos a explicação cosmogônica e a cosmológica da realidade, taiscomo foram elaboradas na Grécia, perceberemos melhor a diferença entre as duasmodalidades de pensamento.O pensamento cosmogônico narrava a origem da Natureza através degenealogias divinas: as forças e os seres naturais estavam personalizados esimbolizados pelos deuses, titãs e heróis, cujas relações sexuais davam origem àscoisas, aos homens, às estações do ano, ao dia e à noite, às colheitas, à sociedade.Suas paixões não correspondidas se exprimiam por raios, trovões, tempestades, – 207 –

Convite à Filosofia _______________________________tufões, desertos. Seus amores e desejos realizados manifestavam-se naabundância da primavera, das colheitas, da procriação dos animais.O pensamento cosmológico explicava a origem da Natureza pela existência deum ou alguns elementos naturais (terra-seco, água-úmido, ar-frio, fogo-quente),que, por sua força interna natural, se transformavam, dando origem a todas ascoisas e aos homens. Os primeiros filósofos consideravam os elementosoriginários como forças divinas, mas já não eram personalizadas, nem sua açãoexplicada por desejos, paixões e furores.Aristóteles sistematizou lógica e racionalmente as cosmologias ou teorias sobre aNatureza numa física, isto é, numa teoria ou ciência sobre a matéria e a formados seres naturais e sobre as causas de seus movimentos.Para os gregos, como vimos, movimento (kinesis) significa:? toda mudança qualitativa de um ser qualquer (por exemplo, uma semente quese torna árvore, um objeto branco que amarelece, um animal que adoece, algoquente que esfria, algo frio que esquenta, o duro que amolece, o mole queendurece, etc.);? toda mudança ou alteração quantitativa (por exemplo, um corpo que aumente ediminua, que se divida em outros menores, que encompride ou encurte, alargueou estreite, etc.);? toda mudança de lugar ou locomoção (subir, descer, cair, a trajetória de umaflecha, o deslocamento de um barco, a queda de uma pedra, o levitar de umapluma, etc.);? toda geração ou nascimento e toda corrupção ou morte dos seres.Esses movimentos, diz Aristóteles, possuem causas, pois tudo o que existe possuicausa, e o conhecimento verdadeiro é o conhecimento das causas. São quatro ascausas dos movimentos:1. causa material, isto é, a matéria de que alguma coisa é feita (madeira, pedra,metal, líquido);2. causa formal, isto é, a forma que alguma coisa possui e que a individualiza e adiferencia das outras (a mesa é causa formal da madeira, a estátua é causa formalda pedra, a taça é causa formal do metal, o vinho é causa formal do líquido);3. causa motriz ou eficiente, isto é, aquilo que faz uma matéria receber umaforma determinada (no caso dos objetos artificiais ou artefatos, a causa eficienteé o artesão – o carpinteiro que faz a mesa, o escultor que faz a estátua, o ferreiroque faz a taça, o vinicultor que faz o vinho; no caso dos seres naturais, a causaeficiente também é uma coisa natural – por exemplo, o calor derrete o metal, oSol esquenta um corpo e lhe dá outra consistência ou forma, etc.); – 208 –

Marilena Chauí _______________________________4. causa final, isto é, o motivo ou finalidade para a qual a coisa existe, setransforma e se realiza (a mesa existe para que possamos usá-la para refeições,escrever, depositar objetos, etc.; a estátua, para o culto de um deus; a taça, paracolocarmos bebidas; o vinho, para bebermos).Com a física aristotélica vemos a Natureza tornar-se inteligível ao pensamento,que pode explicá-la, descrevê -la, compreendê-la e interpretá-la conceitualmente. – 209 –

Convite à Filosofia _______________________________ Capítulo 7 A consciência pode conhecer tudo?Consciência e conhecimentoVimos que a teoria do conhecimento, distinguindo o Eu, a pessoa, o cidadão e osujeito, assim como distinguindo graus de consciência (passiva, vivida,reflexiva), tem como centro a figura do sujeito do conhecimento, na qualidade deconsciência de si reflexiva ou atividade permanente racional que conhece a simesma.Que acontecerá, porém, se o sujeito do conhecimento descobrir que a consciênciapossui mais um grau, além dos três que mencionamos e, sobretudo, quandodescobrir que não se trata exatamente de mais um grau da consciência, mas dealgo que a consciência desconhece e sobre o qual nunca poderá refletirdiretamente? Que esse algo, desconhecido ou só indiretamente conhecido,determina tudo quanto a consciência e o sujeito sentem, fazem, dizem e pensam?Em outras palavras, que sucederá quando o sujeito do conhecimento descobrirum limite intransponível chamado o inconsciente?O inconscienteFreud escreveu que, no transcorrer da modernidade, os humanos foram feridostrês vezes e que as feridas atingiram o nosso narcisismo iii, isto é, a bela imagemque possuíamos de nós mesmos como seres conscientes racionais e com a qual,durante séculos, estivemos encantados. Que feridas foram essas?A primeira foi a que nos infligiu Copérnico, ao provar que a Terra não estava nocentro do Universo e que os homens não eram o centro do mundo. A segunda foicausada por Darwin, ao provar que os homens descendem de um primata, quesão apenas um elo na evolução das espécies e não seres especiais, criados porDeus para dominar a Natureza. A terceira foi causada por Freud com apsicanálise, ao mostrar que a consciência é a menor parte e a mais fraca de nossavida psíquica.Na obra Cinco ensaios sobre a psicanálise, Freud escreve: A Psicanálise propõe mostrar que o Eu não somente não é senhor na sua própria casa, mas também está reduzido a contentar-se com informações raras e fragmentadas daquilo que se passa fora da consciência, no restante da vida psíquica… A divisão do psíquico num psíquico consciente e num psíquico inconsciente constitui a premissa fundamental da psicanálise, sem a qual ela seria incapaz de compreender os processos patológicos, tão – 210 –

Marilena Chauí _______________________________ freqüentes quanto graves, da vida psíquica e fazê-los entrar no quadro da ciência… A psicanálise se recusa a considerar a consciência como constituindo a essência da vida psíquica, mas nela vê apenas uma qualidade desta, podendo coexistir com outras qualidades e até m esmo faltar.A psicanáliseFreud era médico psiquiatra. Seguindo os médicos de sua época, usava a hipnosee a sugestão no tratamento dos doentes mentais, mas sentia-se insatisfeito com osresultados obtidos.Certa vez, recebeu uma paciente, Anna O., que apresentava sintomas de histeria,isto é, apresentava distúrbios físicos (paralisias, enxaquecas, dores de estômago),sem que houvesse causas físicas para eles, pois eram manifestações corporais deproblemas psíquicos. Em lugar de usar a hipnose e a sugestão, Freud usou umprocedimento novo: fazia com que Anna relaxasse num divã e falasse. Dizia a elapalavras soltas e pedia-lhe que dissesse a primeira palavra que lhe viesse àcabeça ao ouvir a que ele dissera (posteriormente, Freud denominaria esseprocedimento de “técnica de associação livre”).Freud percebeu que, em certos momentos, Anna reagia a certas palavras e nãopronunciava aquela que lhe viera à cabeça, censurando-a por algum motivoignorado por ela e por ele. Notou também que, em outras ocasiões, depois defazer a associação livre de palavras, Anna ficava muito agitada e falava muito.Observou que, certas vezes, algumas palavras a faziam chorar sem motivoaparente e, outras vezes, a faziam lembrar de fatos da infância, narrar um sonhoque tivera na noite anterior.Pela conversa, pelas reações da paciente, pelos sonhos narrados e pelaslembranças infantis, Freud descobriu que a vida consciente de Anna eradeterminada por uma vida inconsciente, que, tanto ela quanto ele, desconheciam.Compreendeu também que somente interpretando as palavras, os sonhos, aslembranças e os gestos de Anna chegaria a essa vida inconsciente.Freud descobriu, finalmente, que os sintomas histéricos tinham três finalidades:1. contar indiretamente aos outros e a si mesma os sentimentos inconscientes; 2.punir-se por ter tais sentimentos; 3. realizar, pela doença e pelo sofrimento, umdesejo inconsciente intolerável.Tratando de outros pacientes, Freud descobriu que, embora, conscientemente,quisessem a cura, algo neles criava uma barreira, uma resistência inconsciente àcura. Por quê? Porque os pacientes sentiam-se interiormente ameaçados poralguma coisa dolorosa e temida, algo que haviam penosamente esquecido e quenão suportavam lembrar. Freud descobriu, assim, que o esquecimento conscienteoperava simultaneamente de duas maneiras: 1. como resistência à terapia; 2. sob – 211 –

Convite à Filosofia _______________________________a forma da doença psíquica, pois o inconsciente não esquece e obriga o esquecidoa reaparecer sob a forma dos sintomas da neurose e da psicose.Desenvolvendo com outros pacientes e consigo mesmo esses procedimentos enovas técnicas de interpretação de sintomas, sonhos, lembranças, esquecimentos,Freud foi criando o que chamou de análise da vida psíquica ou psicanálise, cujoobjeto central era o estudo do inconsciente e cuja finalidade era a cura deneuroses e psicoses, tendo como método a interpretação e como instrumento alinguagem (tanto a linguagem verbal das palavras quanto a linguagem corporaldos sintomas e dos gestos).A vida psíquicaDurante toda sua vida, Freud não cessou de reformular a teoria psicanalítica,abandonando alguns conceitos, criando outros, abandonando algumas técnicasterapêuticas e criando outras. Não vamos, aqui, acompanhar a história daformação da psicanálise, mas apresentar algumas de suas principais idéias einovações.A vida psíquica é constituída por três instâncias, duas delas inconscientes eapenas uma consciente: o id, o superego e o ego (ou o isso, o supereu e o eu).Os dois primeiros são inconscientes; o terceiro, consciente.O id é formado por instintos, impulsos orgânicos e desejos inconscientes, ou seja,pelo que Freud designa como pulsões. Estas são regidas pelo princípio doprazer, que exige satisfação imediata. O id é a energia dos instintos e dosdesejos em busca da realização desse princípio do prazer. É a libido. Instintos,impulsos e desejos, em suma, as pulsões, são de natureza sexual e a sexualidadenão se reduz ao ato sexual genital, mas a todos os desejos que pedem eencontram satisfação na totalidade de nosso corpo.Freud descobriu três fases da sexualidade humana que se diferenciam pelosórgãos que sentem prazer e pelos objetos ou seres que dão prazer. Essas fases sedesenvolvem entre os primeiros meses de vida e os cinco ou seis anos, ligadas aodesenvolvimento do id: a fase oral , quando o desejo e o prazer localizam-seprimordialmente na boca e na ingestão de alimentos e o seio materno, amamadeira, a chupeta, os dedos são objetos do prazer; a fase anal , quando odesejo e o prazer localizam-se primordialmente no ânus e as excreções, fezes,brincar com massas e com tintas, amassar barro ou argila, comer coisas cremosase sujar-se são os objetos do prazer; e a fase genital ou fase fálica, quando odesejo e o prazer localizam-se primordialmente nos órgãos genitais e nas partesdo corpo que excitam tais órgãos. Nessa fase, para os meninos, a mãe é o objetodo desejo e do prazer; para as meninas, o pai.No centro do id, determinando toda a vida psíquica, encontra-se o que Freuddenominou de complexo de Édipo, isto é, o desejo incestuoso pelo pai ou pela – 212 –

Marilena Chauí _______________________________mãe. É esse o desejo fundamental que organiza a totalidade da vida psíquica edetermina o sentido de nossas vidas.O superego, também inconsciente, é a censura das pulsões que a sociedade e acultura impõem ao id, impedindo-o de satisfazer plenamente seus instintos edesejos. É a repressão, particularmente a repressão sexual. Manifesta-se àconsciência indiretamente, sob a forma da moral, como um conjunto deinterdições e de deveres, e por meio da educação, pela produção da imagem do“eu ideal”, isto é, da pessoa moral, boa e virtuosa. O superego ou censuradesenvolve -se num período que Freud designa como período de latência,situado entre os seis ou sete anos e o início da puberdade ou adolescência. Nesseperíodo, forma-se nossa personalidade moral e social, de maneira que, quando asexualidade genital ressurgir, estará obrigada a seguir o caminho traçado pelosuperego.O ego ou o eu é a consciência, pequena parte da vida psíquica submetida aosdesejos do id e à repressão do superego. Obedece ao princípio da realidade, ouseja, à necessidade de encontrar objetos que possam satisfazer ao id semtransgredir as exigências do superego.O ego, diz Freud, é “um pobre coitado”, espremido entre três escravidões: osdesejos insaciáveis do id, a severidade repressiva do superego e os perigos domundo exterior. Por esse motivo, a forma fundamental da existência para o ego éa angústia. Se se submeter ao id, torna-se imoral e destrutivo; se se submeter aosuperego, enlouquece de desespero, pois viverá numa insatisfação insuportável;se não se submeter à realidade do mundo, será destruído por ele. Cabe ao egoencontrar caminhos para a angústia existencial. Estamos divididos entre oprincípio do prazer (que não conhece limites) e o princípio da realidade (que nosimpõe limites externos e internos).Ao ego-eu, ou seja, à consciência, é dada uma função dupla: ao mesmo temporecalcar o id, satisfazendo o superego, e satisfazer o id, limitando o poderio dosuperego. A vida consciente normal é o equilíbrio encontrado pela consciênciapara realizar sua dupla função. A loucura (neuroses e psicoses) é a incapacidadedo ego para realizar sua dupla função, seja porque o id ou o superego sãoexcessivamente fortes, seja porque o ego é excessivamente fraco.O inconsciente, em suas duas formas, está impedido de manifestar-se diretamenteà consciência, mas consegue fazê-lo indiretamente. A maneira mais eficaz para amanifestação é a substituição, isto é, o inconsciente oferece à consciência umsubstituto aceitáve l por ela e por meio do qual ela pode satisfazer o id ou osuperego. Os substitutos são imagens (isto é, representações analógicas dosobjetos do desejo) e formam o imaginário psíquico, que, ao ocultar e dissimular overdadeiro desejo, o satisfaz indiretamente por meio de objetos substitutos (achupeta e o dedo, para o seio materno; tintas e pintura ou argila e escultura paraas fezes, uma pessoa amada no lugar do pai ou da mãe). Além dos substitutos – 213 –

Convite à Filosofia _______________________________reais (chupeta, argila, pessoa amada), o imaginário inconsciente também ofereceoutros substitutos, os mais freqüentes sendo os sonhos, os lapsos e os atos falhos.Neles, realizamos desejos inconscientes, de natureza sexual. São a satisfaçãoimaginária do desejo.Alguém sonha, por exemplo, que sobe uma escada, está num naufrágio ou numincêndio. Na realidade, sonhou com uma relação sexual proibida. Alguém querdizer uma palavra, esquece-a ou se engana, comete um lapso e diz uma outra quenos surpreende, pois nada tem a ver com aquela que se queria dizer. Realizou umdesejo proibido. Alguém vai andando por uma rua e, sem querer, torce o pé equebra o objeto que estava carregando. Realizou um desejo proibido.A vida psíquica dá sentido e coloração afetivo -sexual a todos os objetos e todasas pessoas que nos rodeiam e entre os quais vivemos. Por isso, sem que saibamospor que, desejamos e amamos certas coisas e pessoas, odiamos e tememos outras.As coisas e os outros são investidos por nosso inconsciente com cargas afetivasde libido.É por esse motivo que certas coisas, certos sons, certas cores, certos animais,certas situações nos enchem de pavor, enquanto outras nos enchem de bem-estar,sem que o possamos explicar. A origem das simpatias e antipatias, amores eódios, medos e prazeres está em nossa mais tenra infância, em geral nosprimeiros meses e anos de nossa vida, quando se formam as relações afetivasfundamentais e o complexo de Édipo.Essa dimensão imaginária de nossa vida psíquica – substituições, sonhos, lapsos,atos falhos, prazer e desprazer com objetos e pessoas – indica que os recursosinconscientes para surgir indiretamente à consciência possuem dois níveis: onível do conteúdo manifesto (escada, mar e incêndio, no sonho; a palavraesquecida e a pronunciada, no lapso; pé torcido ou objeto partido, no ato falho;afetos contrários por coisas e pessoas) e o nível do conteúdo latente, que é oconteúdo inconsciente real e oculto (os desejos sexuais).Nossa vida normal se passa no plano dos conteúdos manifestos e, portanto, noimaginário. Somente uma análise psíquica e psicológica desses conteúdos, pormeio de técnicas especiais (trazidas pela psicanálise), nos permite decifrar oconteúdo latente que se dissimula sob o conteúdo manifesto.Além dos recursos individuais cotidianos que nosso inconsciente usa paramanifestar-se, e além dos recursos extremos e dolorosos usados na loucura (nela,os recursos são os sintomas), existe um outro recurso, de enorme importânciapara a vida cultural e social, isto é, para a existência coletiva. Trata-se do queFreud designa com o nome de sublimação.Na sublimação, os desejos inconscientes são transformados em uma outra coisa,exprimem-se pela criação de uma outra coisa: as obras de arte, as ciências, areligião, a Filosofia, as técnicas, as instituições sociais e as ações políticas. – 214 –

Marilena Chauí _______________________________Artistas, místicos, pensadores, escritores, cientistas, líderes políticos satisfazemseus desejos pela sublimação e, portanto, pela realização de obras e pela criaçãode instituições religiosas, sociais, políticas, etc.Porém, assim como a loucura é a impossibilidade do ego para realizar sua própriafunção, também a sublimação pode não ser alcançada e, em seu lugar, surgir umaperversão social ou coletiva, uma loucura social ou coletiva. O nazismo é umexemplo de perversão, em vez de sublimação. A propaganda, que induz em nósfalsos desejos sexuais pela multiplicação das imagens de prazer, é um outroexemplo de perversão ou de incapacidade para a sublimação.O inconsciente, diz Freud, não é o subconsciente. Este é aquele grau deconsciência como consciência passiva e consciência vivida não-reflexiva,podendo tornar-se plenamente consciente. O inconsciente, ao contrário, jamaisserá consciente diretamente, podendo ser captado apenas indiretamente e pormeio de técnicas especiais de interpretação desenvolvidas pela psicanálise.A psicanálise descobriu, assim, uma poderosa limitação às pretensões daconsciência para dominar e controlar a realidade e o conhecimento.Paradoxalmente, porém, nos revelou a capacidade fantástica da razão e dopensamento para ousar atravessar proibições e repressões e buscar a verdade,mesmo que para isso seja preciso desmontar a bela imagem que os sereshumanos têm de si mesmos.Longe de desvalorizar a teoria do conhecimento, a psicanálise exige dopensamento que não faça concessões às idéias estabelecidas, à moral vigente, aospreconceitos e às opiniões de nossa sociedade, mas que as enfrente em nome daprópria razão e do pensamento. A consciência é frágil, mas é ela que decide eaceita correr o risco da angústia e o risco de desvendar e decifrar o inconsciente.Aceita e decide enfrentar a angústia para chegar ao conhecimento: somos umcaniço pensante.A alienação socialÀs três feridas narcísicas mencionadas por Freud, precisamos acrescentar maisuma: a que nos foi infligida por Marx com a noção de ideologia. Paracompreendê-la, precisamos primeiro compreender o fenômeno da alienaçãosocial.Marx era filósofo, advogado e historiador, e interessou-se por um estudo feitopor um outro filósofo, Feuerbach. Este investigara o modo como se formam asreligiões, isto é, o modo como os seres humanos sentem necessidade de ofereceruma explicação para a origem e a finalidade do mundo.Ao buscar essa explicação, os humanos projetam fora de si um ser superiordotado das qualidades que julgam as melhores: inteligência, vontade livre,bondade, justiça, beleza, mas as fazem existir nesse ser superior comosuperlativas, isto é, ele é onisciente e onipotente, sabe tudo, faz tudo, pode tudo. – 215 –

Convite à Filosofia _______________________________Pouco a pouco, os humanos se esquecem de que foram os criadores desse ser epassam a acreditar no inverso, ou seja, que esse ser foi quem os criou e osgoverna. Passam a adorá-lo, prestar-lhe culto, temê-lo. Não se reconhecem nesseOutro que criaram. Em latim, “outro” se diz: alienus. Os homens se alienam eFeuerbach designou esse fato com o nome de alienação.A alienação é o fenômeno pelo qual os homens criam ou produzem alguma coisa,dão independência a essa criatura como se ela existisse por si mesma e em simesma, deixam-se governar por ela como se ela tivesse poder em si e por simesma, não se reconhecem na obra que criaram, fazendo-a um ser-outro,separado dos homens, superior a eles e com poder sobre eles.Marx não se interessou apenas pela alienação religiosa, mas investigou sobretudoa alienação social. Interessou-se em compreender as causas pelas quais oshomens ignoram que são os criadores da sociedade, da política, da cultura eagentes da História. Interessou-se em compreender por que os humanosacreditam que a sociedade não foi instituída por eles, mas por vontade e obra dosdeuses, da Natureza, da Razão, em vez de perceberem que são eles próprios que,em condições históricas determinadas, criam as instituições sociais – família,relações de produção e de trabalho, relações de troca, linguagem oral, linguagemescrita, escola, religião, artes, ciências, filosofia – e as instituições políticas – leis,direitos, deveres, tribunais, Estado, exército, impostos, prisões. A açãosociopolítica e histórica chama-se práxis e o desconhecimento de suas origens ede suas causas, alienação.Por que os seres humanos não se reconhecem como sujeitos sociais, políticos,históricos, como agentes e criadores da realidade na qual vivem? Por que, alémde não se perceberem como sujeitos e agentes, os humanos se submetem àscondições sociais, políticas, culturais, como se elas tivessem vida própria, poderpróprio, vontade própria e os governassem, em lugar de serem controladas egovernadas por eles? Por que existe a alienação social? Por que os homens sedeixam dominar pela sua própria obra ou criação histórica? Por que filósofos,teólogos, cientistas (portanto, o sujeito do conhecimento) elaboram teorias quereforçam a alienação? Por que filósofos dizem que a sociedade é produzida pelaNatureza? Por que teólogos dizem que a família e o Estado existem por vontadede Deus? Por que os cientistas afirmam que a sociedade é racional e criada pelaRazão Universal?Para compreender o fenômeno da alienação, Marx estudou o modo como associedades são produzidas historicamente pela práxis dos seres humanos.Verificou que, historicamente, uma sociedade (pequena, grande, tribal, imperial,não importa) sempre começa por uma divisão e que essa divisão organiza todasas relações sociais que serão instituídas a seguir. Trata-se da divisão social dotrabalho. Na luta pela sobrevivência, os seres humanos se agrupam para exploraros recursos da Natureza e dividem as tarefas: tarefas dos homens adultos, tarefas – 216 –

Marilena Chauí _______________________________das mulheres adultas, tarefas dos homens jovens, tarefas das mulheres jovens,tarefas das crianças e dos idosos. A partir dessa divisão, organizam a primeirainstituição social: a família, na qual o homem adulto, na qualidade de pai, torna-se chefe e domina a mulher adulta, sua esposa e mãe de seus filhos, os quaistambém são dominados pelo pai.As famílias trabalham e trocam entre si os produtos do trabalho. Surge umasegunda instituição social: a troca, isto é, o comércio. Algumas famíliasconquistam terras melhores do que outras e conseguem colheitas ou gado emmaior quantidade que outras, trocando seus produtos por uma quantidade maiorque a de outras. Ficam mais ricas. As muito pobres, não tendo conseguidoproduzir nada ou muito pouco, vêem-se obrigadas a trabalhar para as mais ricasem troca de produtos para a sobrevivência. Começa a surgir uma terceirainstituição social: o trabalho servil, que desembocará na escravidão.Os mais ricos e poderosos reúnem-se e decidem controlar o conjunto de famílias,distribuindo entre si os poderes e excluindo algumas famílias de todo poder.Começa a surgir uma quarta instituição social: o poder político, de onde virá oEstado.Nessa altura, os seres humanos já começaram a explicar a origem e a finalidadedo mundo, já elaboraram mitos e ritos. As famílias ricas e poderosas dão a algunsde seus membros autoridade exclusiva para narrar mitos e celebrar ritos. Criamuma outra instituição social: a religião, dominada por sacerdotes saídos dasfamílias poderosas e que, por terem a autoridade para se relacionar com osagrado, tornam-se temidos e venerados pelo restante da sociedade. São um novopoder social.Os vários grupos de famílias dirigentes disputam entre si terras, animais e servose dão início a uma nova instituição social: a guerra, com a qual os vencidos setornam escravos dos vencedores, e o poder econômico, social, militar, religioso epolítico se concentra ainda mais em poucas mãos. Como escreveu Maquiavel,toda sociedade é constituída pela divisão entre o desejo dos grandes de oprimir ecomandar e o desejo do povo de não ser oprimido nem comandado.Com essa descrição, Marx observou que a sociedade nasce pela estruturação deum conjunto de divisões: divisão sexual do trabalho, divisão social do trabalho,divisão social das trocas, divisão social das riquezas, divisão social do podereconômico, divisão social do poder militar, divisão social do poder religioso edivisão social do poder político. Por que divisão? Porque em todas as instituiçõessociais (família, trabalho, comércio, guerra, religião, política) uma parte detémpoder, riqueza, bens, armas, idéias e saberes, terras, trabalhadores, poder político,enquanto outra parte não possui nada disso, estando subjugada à outra, rica,poderosa e instruída.Esse conjunto estruturado de divisões torna-se cada vez mais complexo,intrincado, numeroso, multiplicando-se em muitas outras divisões, sob a forma – 217 –

Convite à Filosofia _______________________________de numerosas instituições sociais e acabam por revelar a estrutura fundamentaldas sociedades como divisão social das classes sociais. A esse conjunto (tantosimples quanto complexo) de instituições nascidas da divisão social Marx deu onome de condições materiais da vida social e política. Por que materiais?Porque se referem ao conjunto de práticas sociais pelas quais os homensgarantem sua sobrevivência por meio do trabalho e da troca dos produtos dotrabalho, e que constituem a economia.A variação das condições materiais de uma sociedade constitui a História dessasociedade e Marx as designou como modos de produção. A História é amudança, passagem ou transformação de um modo de produção para outro. Talmudança não se realiza por acaso nem por vontade livre dos seres humanos, masacontece de acordo com condições econômicas, sociais e culturais jáestabelecidas, que podem ser alteradas de uma maneira também determinada,graças à práxis humana diante de tais condições dadas.O fato de que a mudança de uma sociedade ou a mudança histórica se faça emcondições determinadas, levou Marx a afirmar que: “Os homens fazem aHistória, mas o fazem em condições determinadas ”, isto é, que não foramescolhidas por eles. Por isso também, ele disse: “Os homens fazem a História,mas não sabem que a fazem”.Estamos, aqui, diante de uma situação coletiva muito parecida com a queencontramos no caso de nossa vida psíquica individual. Assim como julgamosque nossa consciência sabe tudo, pode tudo, faz o que pensa e quer, mas, narealidade, está determinada pelo inconsciente e ignora tal determinação, assimtambém, na existência social, os seres humanos julgam que sabem o que é asociedade, dizendo que Deus ou a Natureza ou a Razão a criaram, instituíram apolítica e a História, e que os homens são seus instrumentos; ou, então, acreditamque fazem o que fazem e pensam o que pensam porque são indivíduos livres,autônomos e com poder para mudar o curso das coisas como e quando quiserem.Por exemplo, quando alguém diz que uma pessoa é pobre porque quer, porque épreguiçosa, ou perdulária, ou ignorante, está imaginando que somos o que somossomente por nossa vontade, como se a organização e a estrutura da sociedade, daeconomia, da política não tivesse qualquer peso sobre nossas vidas. A mesmacoisa acontece quando alguém diz ser pobre “pela vontade de Deus ” e não porcausa das condições concretas em que vive. Ou quando faz uma afirmaçãoracista, segundo a qual “a Natureza fez alguns superiores e outros inferiores”.A alienação social é o desconhecimento das condições histórico-sociais concretasem que vivemos, produzidas pela ação humana também sob o peso de outrascondições históricas anteriores e determinadas. Há uma dupla alienação: por umlado, os homens não se reconhecem como agentes e autores da vida social comsuas instituições, mas, por outro lado e ao mesmo tempo, julgam-se indivíduosplenamente livres, capazes de mudar suas vidas individuais como e quando – 218 –

Marilena Chauí _______________________________quiserem, apesar das instituições sociais e das condições históricas. No primeirocaso, não percebem que instituem a sociedade; no segundo caso, ignoram que asociedade instituída determina seus pensamentos e ações.As três formas da alienação socialPodemos falar em três grandes formas de alienação existentes nas sociedadesmodernas ou capitalistas:1. A alienação social, na qual os humanos não se reconhecem como produtoresdas instituições sociopolíticas e oscilam entre duas atitudes: ou aceitampassivamente tudo o que existe, por ser tido como natural, divino ou racional, ouse rebelam individualmente, julgando que, por sua própria vontade e inteligência,podem mais do que a realidade que os condiciona. Nos dois casos, a sociedade éo outro (alienus), algo externo a nós, separado de nós, diferente de nós e compoder total ou nenhum poder sobre nós.2. A alienação econômica, na qual os produtores não se reconhecem comoprodutores, nem se reconhecem nos objetos produzidos por seu trabalho. Emnossas sociedades modernas, a alienação econômica é dupla:Em primeiro lugar, os trabalhadores, como classe social, vendem sua força detrabalho aos proprietários do capital (donos das terras, das indústrias, docomércio, dos bancos, das escolas, dos hospitais, das frotas de automóveis, deônibus ou de aviões, etc.). Vendendo sua força de trabalho no mercado dacompra e venda de trabalho, os trabalhadores são mercadorias e, como todamercadoria, recebem um preço, isto é, o salário. Entretanto, os trabalhadores nãopercebem que foram reduzidos à condição de coisas que produzem coisas; nãopercebem que foram desumanizados e coisificados.Em segundo lugar, os trabalhos produzem alimentos (pelo cultivo da terra e dosanimais), objetos de consumo (pela indústria), instrumentos para a produção deoutros trabalhos (máquinas), condições para a realização de outros trabalhos(transporte de matérias-primas, de produtos e de trabalhadores). A mercadoria-trabalhador produz mercadorias. Estas, ao deixarem as fazendas, as usinas, asfábricas, os escritórios e entrarem nas lojas, nas feiras, nos supermercados, nosshoppings centers parecem ali estar porque lá foram colocadas (não pensamos notrabalho humano que nelas está cristalizado e não pensamos no trabalho humanorealizado para que chegassem até nós) e, como o trabalhador, elas tambémrecebem um preço.O trabalhador olha os preços e sabe que não poderá adquirir quase nada do queestá exposto no comércio, mas não lhe passa pela cabeça que foi ele, nãoenquanto indivíduo e sim como classe social, quem produziu tudo aquilo com seutrabalho e que não pode ter os produtos porque o preço deles é muito mais altodo que o preço dele, trabalhador, isto é, o seu salário. – 219 –

Convite à Filosofia _______________________________Apesar disso, o trabalhador pode, cheio de orgulho, mostrar aos outros as coisasque ele fabrica, ou, se comerciário, que ele vende, aceitando não possuí-las,como se isso fosse muito justo e natural. As mercadorias deixam de serpercebidas como produtos do trabalho e passam a ser vistas como bens em si epor si mesmas (como a propaganda as mostra e oferece).Na primeira forma de alienação econômica, o trabalhador está separado de seutrabalho – este é alguma coisa que tem um preço; é um outro (alienus), que nãoo trabalhador. Na segunda forma da alienação econômica, as mercadorias nãopermitem que o trabalhador se reconheça nelas. Estão separadas dele, sãoexteriores a ele e podem mais do que ele. As mercadorias são igualmente umoutro, que não o trabalhador.3. A alienação intelectual, resultante da separação social entre trabalho material(que produz mercadorias) e trabalho intelectual (que produz idéias). A divisãosocial entre as duas modalidades de trabalho leva a crer que o trabalho material éuma tarefa que não exige conhecimentos, mas apenas habilidades manuais,enquanto o trabalho intelectual é responsável exclusivo pelos conhecimentos.Vivendo numa sociedade alienada, os intelectuais também se alienam. Suaalienação é tripla:Primeiro, esquecem ou ignoram que suas idéias estão ligadas às opiniões epontos de vista da classe a que pertencem, isto é, a classe dominante, eimaginam, ao contrário, que são idéias universais, válidas para todos, em todosos tempos e lugares.Segundo, esquecem ou ignoram que as idéias são produzidas por eles paraexplicar a realidade e passam a crer que elas se encontram gravadas na própriarealidade e que eles apenas as descobrem e descrevem sob a forma de teoriasgerais.Terceiro, esquecem ou ignoram a origem social das idéias e seu próprio trabalhopara criá-las; acreditam que as idéias existem em si e por si mesmas, criam arealidade e a controlam, dirigem ou dominam. Pouco a pouco, passam a acreditarque as idéias se produzem umas às outras, são causas e efeitos umas das outras eque somos apenas receptáculos delas ou instrumentos delas. As idéias se tornamseparadas de seus autores, externas a eles, transcendentes a eles: tornam-se umoutro.As três grandes formas da alienação (social, econômica e intelectual) são a causado surgimento, da implantação e do fortalecimento da ideologia.A ideologiaA alienação se exprime numa “teoria” do conhecimento espontânea, formando osenso comum da sociedade. Por seu intermédio, são imaginadas explicações ejustificativas para a realidade tal como é diretamente percebida e vivida. – 220 –

Marilena Chauí _______________________________Um exemplo desse senso comum aparece no caso da “explicação ” da pobreza,em que o pobre é pobre por sua própria culpa (preguiça, ignorância) ou porvontade divina ou por inferioridade natural. Esse senso comum social, naverdade, é o resultado de uma elaboração intelectual sobre a realidade, feita pelospensadores ou intelectuais da sociedade – sacerdotes, filósofos, cientistas,professores, escritores, jornalistas, artistas -, que descrevem e explicam o mundoa partir do ponto de vista da classe a que pertencem e que é a classe dominante deuma sociedade. Essa elaboração intelectual incorporada pelo senso comum socialé a ideologia. Por meio dela, o ponto de vista, as opiniões e as idéias de uma dasclasses sociais – a dominante e dirigente – tornam-se o ponto de vista e a opiniãode todas as classes e de toda a sociedade.A função principal da ideologia é ocultar e dissimular as divisões sociais epolíticas, dar-lhes a aparência de indivisão e de diferenças naturais entre os sereshumanos. Indivisão: apesar da divisão social das classes, somos levados a crerque somos todos iguais porque participamos da idéia de “humanidade”, ou daidéia de “nação” e “pátria”, ou da idéia de “raça”, etc. Diferenças naturais: somoslevados a crer que as desigualdades sociais, econômicas e políticas não sãoproduzidas pela divisão social das classes, mas por diferenças individuais dostalentos e das capacidades, da inteligência, da força de vontade maior ou menor,etc.A produção ideológica da ilusão social tem como finalidade fazer com que todasas classes sociais aceitem as condições em que vivem, julgando-as naturais,normais, corretas, justas, sem pretender transformá-las ou conhecê-las realmente,sem levar em conta que há uma contradição profunda entre as condições reais emque vivemos e as idéias.Por exemplo, a ideologia afirma que somos todos cidadãos e, portanto, temostodos os mesmos direitos sociais, econômicos, políticos e culturais. No entanto,sabemos que isso não acontece de fato: as crianças de rua não têm direitos; osidosos não têm direitos; os direitos culturais das crianças nas escolas públicas sãoinferiores aos das crianças que estão em escolas particulares, pois o ensino não éde mesma qualidade em ambas; os negros e índios são discriminados comoinferiores; os homossexuais são perseguidos como pervertidos, etc.A maioria, porém, acredita que o fato de ser eleitor, pagar as dívidas e contribuircom os impostos já nos faz cidadãos, sem considerar as condições concretas quefazem alguns serem mais cidadãos do que outros. A função da ideologia éimpedir-nos de pensar nessas coisas.Os procedimentos da ideologiaComo procede a ideologia para obter esse fantástico resultado? Em primeirolugar, opera por inversão, isto é, coloca os efeitos no lugar das causas etransforma estas últimas em efeitos. Ela opera como o inconsciente: este fabricaimagens e sintomas; aquela fabrica idéias e falsas causalidades. – 221 –

Convite à Filosofia _______________________________Por exemplo, o senso comum social afirma que a mulher é um ser frágil,sensitivo, intuitivo, feito para as doçuras do lar e da maternidade e que, por isso,foi destinada, por natureza, para a vida doméstica, o cuidado do marido e dafamília. Assim o “ser feminino” é colocado como causa da “função socialfeminina”.Ora, historicamente, o que ocorreu foi exatamente o contrário: na divisão sexual-social do trabalho e na divisão dos poderes no interior da família, atribuiu-se àmulher um lugar levando-se em conta o lugar masculino; como este era o lugardo domínio, da autoridade e do poder, deu-se à mulher o lugar subordinado eauxiliar, a função complementar e, visto que o número de braços para o trabalhoe para a guerra aumentava o poderio do chefe da família e chefe militar, a funçãoreprodutora da mulher tornou-se imprescindível, trazendo como conseqüênciasua designação prioritária para a maternidade.Estabelecidas essas condições sociais, era preciso persuadir as mulheres de queseu lugar e sua função não provinham do modo de organização social, mas daNatureza, e eram excelentes e desejáveis. Para isso, montou-se a ideologia do“ser feminino” e da “função feminina” como naturais e não como históricos esociais. Como se observa, uma vez implantada uma ideologia, passamos a tomaros efeitos pelas causas.A segunda maneira de operar da ideologia é a produção do imaginário social ,através da imaginação reprodutora. Recolhendo as imagens diretas e imediatas daexperiência social (isto é, do modo como vivemos as relações sociais), aideologia as reproduz, mas transformando-as num conjunto coerente, lógico esistemático de idéias que funcionam em dois registros: como representações darealidade (sistema explicativo ou teórico) e como normas e regras de conduta ecomportamento (sistema prescritivo de normas e valores). Representações,normas e valores formam um tecido de imagens que explicam toda a realidade eprescrevem para toda a sociedade o que ela deve e como deve pensar, falar, sentire agir. A ideologia assegura, a todos, modos de entender a realidade e de secomportar nela ou diante dela, eliminando dúvidas, ansiedades, angústias,admirações, ocultando as contradições da vida social, bem como as contradiçõesentre esta e as idéias que supostamente a explicam e controlam.Enfim, uma terceira maneira de operação da ideologia é o silêncio. Umimaginário social se parece com uma frase onde nem tudo é dito, nem pode serdito, porque, se tudo fosse dito, a frase perderia a coerência, tornar-se-iaincoerente e contraditória e ninguém acreditaria nela. A coerência e a unidade doimaginário social ou ideologia vêm, portanto, do que é silenciado (e, sob esseaspecto, a ideologia opera exatamente como o inconsciente descrito pelapsicanálise).Por exemplo, a ideologia afirma que o adultério é crime (tanto assim que homensque matam suas esposas e os amantes delas são considerados inocentes porque – 222 –

Marilena Chauí _______________________________praticaram um ato em nome da honra), que a virgindade feminina é preciosa eque o homossexualismo é uma perversão e uma doença grave (tão grave que,para alguns, Deus resolveu punir os homossexuais enviando a peste, isto é, aAIDS).O que está sendo silenciado pela ideologia? Por que, em nossa sociedade, ovínculo entre sexo e procriação é tão importante (coisa que não acontece emtodas as sociedades, mas apenas em algumas, como a nossa)? Nossa sociedadeexige a procriação legítima e legal – a que se realiza pelos laços do casamento -,porque ela garante, para a classe dominante, a transmissão do capital aosherdeiros. Assim sendo, o adultério e a perda da virgindade são perigosos para ocapital e para a transmissão legal da riqueza; por isso, o adultério se torna crime ea virgindade é valorizada como virtude suprema das mulheres jovens.Em nossa sociedade, a reprodução da força de trabalho se faz pelo aumento donúmero de trabalhadores e, portanto, a procriação é considerada fundamentalpara o aumento do capital que precisa da mão-de-obra. Por esse motivo, todasexualidade que não se realizar com finalidade reprodutiva será consideradaanormal, perversa e doentia, donde a condenação do homossexualismo. Aideologia, porém, perderia sua força e coerência se dissesse essas coisas e porisso as silencia.Ideologia e inconscienteDissemos que a ideologia se assemelha ao inconsciente freudiano. Há, pelomenos, três semelhanças principais entre eles:1. o fato de que adotamos crenças, opiniões, idéias sem saber de onde vieram,sem pensar em suas causas e motivos, sem avaliar se são ou não coerentes everdadeiras;2. ideologia e inconsciente operam através do imaginário (as representações eregras saídas da experiência imediata) e do silêncio, realizando-se indiretamenteperante a consciência. Falamos, agimos, pensamos, temos comportamentos epráticas que nos parecem perfeitamente naturais e racionais porque a sociedadeos repete, os aceita, os incute em nós pela família, pela escola, pelos livros, pelosmeios de comunicação, pelas relações de trabalho, pelas práticas políticas. Umvéu de imagens estabelecidas interpõe-se entre nossa consciência e a realidade;3. inconsciente e ideologia não são deliberações voluntárias. O inconscienteprecisa de imagens, substitutos, sonhos, lapsos, atos falhos, sintomas,sublimação para manifestar-se e, ao mesmo tempo, esconder-se da consciência.A ideologia precisa das idéias-imagens, da inversão de causas e efeitos, dosilêncio para manifestar os interesses da classe dominante e escondê-los comointeresse de uma única classe social. A ideologia não é o resultado de umavontade deliberada de uma classe social para enganar a sociedade, mas é o efeito – 223 –

Convite à Filosofia _______________________________necessário da existência social da exploração e dominação, é a interpretaçãoimaginária da sociedade do ponto de vista de uma única classe social.Erguendo o véu, tirando a máscaraDiante do poder do inconsciente e da ideologia poderíamos ser levados a“entregar os pontos”, dizendo: Para que tanto esforço na teoria do conhecimento,se, afinal, tudo é ilusão, véu e máscara? Para que compreender a atividade daconsciência, se ela é a “pobre coitada”, espremida entre o id e o superego,esmagada entre a classe dominante e os ideólogos?Todavia, uma pergunta também é possível: Como, sendo a consciência tão frágil,o inconsciente e a ideologia tão poderosos, Freud e Marx chegaram a conhecê-los, explicar seus modos de funcionamento e suas finalidades?No caso de Freud, foram a prática médica e a busca de uma técnica terapêuticapara indivíduos que permitiram a descoberta do inconsciente e o trabalho teóricode onde nasceu a psicanálise. No caso de Marx, foi a decisão de compreender arealidade a partir da prática política de uma classe social (os trabalhadores) quepermitiu a percepção dos mecanismos de dominação e exploração sociais, deonde surgiu a formulação teórica da ideologia.A busca da cura dos sofrimentos psíquicos, em Freud, e a luta pela emancipaçãodos explorados, em Marx, criaram condições para uma tomada de consciênciapela qual o sujeito do conhecimento pôde recomeçar a crítica das ilusões e dospreconceitos que iniciara desde a Grécia, mas, agora, como crítica de suaspróprias ilusões e preconceitos.Em lugar de invalidar a razão, a reflexão, o pensamento e a busca da verdade, asdescobertas do inconsciente e da ideologia fizeram o sujeito do conhecimentoconhecer as condições – psíquicas, sociais, históricas – nas quais o conhecimentoe o pensamento se realizam.Como disseram os filósofos existencialistas acerca dessas descobertas: Encarnaram o sujeito num corpo vivido real e numa história coletiva real, situaram o sujeito. Desvendando os obstáculos psíquicos e histórico- sociais para o conhecimento, puseram em primeiro plano as relações entre pensar e agir, ou, como se costuma dizer, entre a teoria e a prática. – 224 –

Convite à Filosofia _______________________________ Capítulo 1 O nascimento da lógicaÉ lógico!“É lógico que eu vou!”, “É lógico que ela disse isso!”. Quando dizemos frasescomo essas, a expressão “é lógico que ” indica, para nós e para a pessoa comquem estamos falando, que se trata de alguma coisa evidente. A expressãoaparece como se fosse a conclusão de um raciocínio implícito, compartilhadopelos interlocutores do discurso. Ao dizer “É lógico que eu vou!”, estou supondoque quem me ouve sabe, sem que isso seja dito explicitamente, que tambémestou afirmando: “Você me conhece, sabe o que penso, gosto ou quero, sabe oque vai acontecer no lugar x e na hora y e, portanto, não há dúvida de que ireiaté lá”.Ao dizer “É lógico que ela disse isso!”, a situação é semelhante. A expressãoseria a conclusão de algo que eu e a outra pessoa sabemos, como se eu estivessedizendo: “Sabendo quem ela é, o que pensa, gosta, quer, o que costuma dizer efazer, e vendo o que está acontecendo agora, concluo que é evidente que eladisse isso, pois era de se esperar que ela o dissesse”.Nesses casos, estamos tirando uma conclusão que nos parece óbvia, e dizer “élógico que” seria o mesmo que dizer: “é claro que” ou “não há dúvida de que ”.Em certas ocasiões, ouvimos, lemos, vemos alguma coisa e nossa reação é dizer:“Não. Não pode ser assim. Isso não tem lógica!”. Ou, então: “Isso não é lógico!”.Essas duas expressões indicam uma situação oposta às anteriores, ou seja, agorauma conclusão foi tirada por alguém, mas o que já sabemos (de uma pessoa, deum fato, de uma idéia, de um livro) nos faz julgar que a conclusão é indevida,está errada, deveria ser outra. É possível, também, que as duas expressõesestejam indicando que o conhecimento que possuímos sobre alguma coisa, sobrealguém ou sobre um fato não é suficiente para compreendermos o que estamosouvindo, vendo, lendo e por isso nos parece “não ter lógica”.Nesses vários exemplos, podemos perceber que as palavras lógica e lógico sãousadas por nós para significar:1. ou uma inferência: visto que conheço x, disso posso concluir y comoconseqüência;2. ou a exigência de coerência: visto que x é assim, então é preciso que y sejaassim; – 226 –

Marilena Chauí _______________________________3. ou a exigência de que não haja contradição entre o que sabemos de x e aconclusão y a que chegamos;4. ou a exigência de que, para entender a conclusão y, precisamos saber osuficiente sobre x para conhecer por que se chegou a y.Inferência, coerência, conclusão sem contradições, conclusão a partir deconhecimentos suficientes são algumas noções implicitamente pressupostas pornós toda vez que afirmamos que algo é lógico ou ilógico.Ao usarmos as palavras lógica e lógico estamos participando de uma tradição depensamento que se origina da Filosofia grega, quando a palavra logos –significando linguagem-discurso e pensamento-conhecimento – conduziu osfilósofos a indagar se o logos obedecia ou não a regras, possuía ou não normas,princípios e critérios para seu uso e funcionamento. A disciplina filosófica que seocupa com essas questões chama-se lógica.O aparecimento da lógica: Heráclito e ParmênidesQuando estudamos o nascimento da Filosofia, vimos que os primeiros filósofosse preocupavam com a origem, a transformação e o desaparecimento de todos osseres. Preocupavam-se com o devir. Duas grandes tendências adotaram posiçõesopostas a esse respeito, na época do surgimento da Filosofia: a do filósofoHeráclito de Éfeso e a do filósofo Parmênides de Eléia.Heráclito afirmava que somente o devir ou a mudança é real. O dia se torna noite,o inverno se torna primavera, esta se torna verão, o úmido seca, o seco umedece,o frio esquenta, o quente esfria, o grande diminui, o pequeno cresce, o doenteganha saúde, a treva se faz luz, esta se transforma naquela, a vida cede lugar àmorte, esta dá origem àquela.O mundo, dizia Heráclito, é um fluxo perpétuo onde nada permanece idêntico asi mesmo, mas tudo se transforma no seu contrário. A luta é a harmonia doscontrários, responsável pela ordem racional do universo. Nossa experiênciasensorial percebe o mundo como se tudo fosse estável e permanente, mas opensamento sabe que nada permanece, tudo se torna contrário de si mesmo. Ologos é a mudança e a contradição.Parmênides, porém, afirmava que o devir, o fluxo dos contrários, é umaaparência, mera opinião que formamos porque confundimos a realidade com asnossas sensações, percepções e lembranças. O devir dos contrários é umalinguagem ilusória, não existe, é irreal, não é. É o Não-Ser, o nada, impensável eindizível. O que existe real e verdadeiramente é o que não muda nunca, o que nãose torna oposto a si mesmo, mas permanece sempre idêntico a si mesmo, semcontrariedades internas. É o Ser.Pensar e dizer só são possíveis se as coisas que pensamos e dizemos guardarem aidentidade, forem permanentes. Só podemos dizer e pensar aquilo que é sempreidêntico a si mesmo. Por isso somente o Ser pode ser pensado e dito. Nossos – 227 –

Convite à Filosofia _______________________________sentidos nos dão a aparência mutável e contraditória, o Não-Ser; somente opensamento puro pode alcançar e conhecer aquilo que é ou existe realmente, oSer, e dizê-lo em sua verdade. O logos é o ser como pensamento e linguagemverdadeiros e, portanto, a verdade é a afirmação da permanência contra amudança, da identidade contra a contradição dos opostos.Assim, Heráclito afirmava que a verdade e o logos são a mudança das coisas nosseus contrários, enquanto Parmênides afirmava que são a identidade do Serimutável, oposto à aparência sensível da luta dos contrários. Parmênides introduza idéia de que o que é contrário a si mesmo, ou se torna o contrário do que era,não pode ser (existir), não pode ser pensado nem dito porque é contraditório, e acontradição é o impensável e o indizível, uma vez que uma coisa que se torneoposta de si mesma destrói-se a si mesma, torna-se nada. Para Heráclito, acontradição é a lei racional da realidade; para Parmênides, a identidade é essa leiracional.A história da Filosofia grega será a história de um gigantesco esforço paraencontrar uma solução para o problema posto por Heráclito e Parmênides, pois,se o primeiro tiver razão, o pensamento deverá ser um fluxo perpétuo e a verdadeserá a perpétua contradição dos seres em mudança contínua; mas se Parmênidestiver razão, o mundo em que vivemos não terá sentido, não poderá ser conhecido,será uma aparência impensável e viveremos na ilusão.Será preciso, portanto, uma soluç ão que prove que a mudança e os contráriosexistem e podem ser pensados, mas, ao mesmo tempo, que prove que aidentidade ou permanência dos seres também existe, é verdadeira e pode serpensada. Como encontrar essa solução?O aparecimento da lógica: Platão e AristótelesNo momento de seu apogeu, isto é, de Platão e de Aristóteles, a Filosofiaoferecerá as duas soluções mais importantes para o problema da contradição-mudança e identidade-permanência dos seres. Não vamos, aqui, falar dessas duasfilosofias, mas destacar um aspecto de cada uma delas relacionado com o nossoassunto, isto é, com o surgimento da lógica.Platão considerou que Heráclito tinha razão no que se refere ao mundo materialou físico, isto é, ao mundo dos seres corporais, pois a matéria é o que está sujeitoa mudanças contínuas e a oposições internas. Heráclito está certo no que dizrespeito ao mundo de nossas sensações, percepções e opiniões: o mundo naturalou material (que Platão chama de mundo sensível) é o devir permanente.No entanto, dizia Platão, esse mundo é uma aparência (é o mundo dosprisioneiros da caverna), é uma cópia ou sombra do mundo verdadeiro e real e,nesse, Parmênides é quem tem razão. O mundo verdadeiro é o das essênciasimutáveis (que Platão chama de mundo inteligível), sem contradições nemoposições, sem transformação, onde nenhum ser passa para o seu contraditório. – 228 –

Marilena Chauí _______________________________Mas como conhecer as essências e abandonar as aparências? Como sair dacaverna? Através de um método do pensamento e da linguagem chamadodialética.Em grego, a palavra dia quer dizer dois, duplo; o sufixo lética deriva-se de logose do verbo legin (cujo sentido estudamos nos capítulos dedicados à linguagem eao pensamento). A dialética, como já vimos, é um diálogo ou uma conversa emque os interlocutores possuem opiniões opostas sobre alguma coisa e devemdiscutir ou argumentar de modo a passar das opiniões contrárias à mesma idéiaou ao mesmo pensamento sobre aquilo que conversam. Devem passar deimagens contraditórias a conceitos idênticos para todos os pensantes.A dialética platônica é um procedimento intelectual e lingüístico que parte dealguma coisa que deve ser separada ou dividida em dois ou duas partes contráriasou opostas, de modo que se conheça sua contradição e se possa determinar qualdos contrários é verdadeiro e qual é falso. A cada divisão surge um par decontrários, que devem ser separados e novamente divididos, até que se chegue aum termo indivisível, isto é, não formado por nenhuma oposição ou contradiçãoe que será a idéia verdadeira ou a essência da coisa investigada. Partindo desensações, imagens, opiniões contraditórias sobre alguma coisa, a dialética vaiseparando os opostos em pares, mostrando que um dos termos é aparência eilusão e o outro, verdadeiro ou essência.A dialética é um debate, uma discussão, um diálogo entre opiniões contrárias econtraditórias para que o pensamento e a linguagem passem da contradição entreas aparências à identidade de uma essência. Superar os contraditórios e chegar aoque é sempre idêntico a si mesmo é a tarefa da discussão dialética, que revela omundo sensível como heraclitiano (a luta dos contrários, a mudança incessante) eo mundo inteligível como parmenidiano (a identidade perene de cada idéiaconsigo mesma).Aristóteles, por sua vez, segue uma vi a diferente da escolhida por Platão.Considera desnecessário separar realidade e aparência em dois mundos diferentes– há um único mundo no qual existem essências e aparências – e não aceita que amudança ou o devir seja mera aparência ilusória. Há seres cuja essência é mudare há seres cuja essência é imutável. O erro de Heráclito foi supor que a mudançase realiza sob a forma da contradição, isto é, que as coisas se transformam nosseus opostos, pois a mudança ou transformação é a maneira pela qual as coisasrealizam todas as potencialidades contidas em suas essência e esta não écontraditória, mas uma identidade que o pensamento pode conhecer.Assim, por exemplo, quando a criança se torna adulta ou quando a semente setorna árvore, nenhuma delas tornou-se contrária a si mesma, mas desenvolveuuma potencialidade definida pela identidade própria de sua essência. Cabe àFilosofia conhecer como e por que as coisas, sem mudarem de essência,transformam-se, assim como cabe à Filosofia conhecer como e por que há seres – 229 –

Convite à Filosofia _______________________________imutáveis (como as entidades matemáticas e as divinas). Parmênides tem razão: opensamento e a linguagem exigem a identidade. Heráclito tem razão: as coisasmudam. Ambos se enganaram ao supor que identidade e mudança sãocontraditórias. Tal engano levou Platão à desnecessária divisão dos mundos.Em segundo lugar, Aristóteles considera que a dialética não é um procedimentoseguro para o pensamento e a linguagem da Filosofia e da ciência, pois tem comoponto de partida simples opiniões contrárias dos debatedores, e a escolha de umaopinião contra outra não garante chegar à essência da coisa investigada. Adialética, diz Aristóteles, é boa para as disputas oratórias da política e do teatro,para a retórica, pois esta tem como finalidade persuadir alguém, oferecendoargumentos fortes que convençam o oponente e os ouvintes. É adequada para osassuntos sobre os quais só cabe a persuasão, mas não para a Filosofia e a ciência,porque, nestas, interessa a demonstração e a prova de uma verdade.Substituindo a dialética por um conjunto de procedimentos de demonstração eprova, Aristóteles criou a lógica propriamente dita, que ele chamava de analítica(a palavra lógica será empregada, séculos mais tarde, pelos estóicos e Alexandrede Afrodísia).Qual a diferença entre a dialética platônica e a lógica (ou analítica) aristotélica?Em primeiro lugar, a dialética platônica é o exercício direto do pensamento e dalinguagem, um modo de pensar que opera com os conteúdos do pensamento e dodiscurso. A lógica aristotélica é u instrumento que antecede o exercício do mpensamento e da linguagem, oferecendo-lhes meios para realizar o conhecimentoe o discurso. Para Platão, a dialética é um modo de conhecer. Para Aristóteles, alógica (ou analítica) é um instrumento para o conhecer.Em segundo lugar, a dialética platônica é uma atividade intelectual destinada atrabalhar contrários e contradições para superá-los, chegando à identidade daessência ou da idéia imutável. Depurando e purificando as opiniões contrárias, adialética platônica chega à verdade do que é idêntico e o mesmo para todas asinteligências. A lógica aristotélica oferece procedimentos que devem serempregados naqueles raciocínios que se referem a todas as coisas das quaispossamos ter um conhecimento universal e necessário, e seu ponto de partida nãosão opiniões contrárias, mas princípios, regras e leis necessárias e universais dopensamento. – 230 –

Marilena Chauí _______________________________ Capítulo 2 Elementos de lógicaPrincipais características da lógicaAristóteles propôs a primeira classificação geral dos conhecimentos ou dasciências dividindo-as em três tipos: teoréticas, práticas e produtivas. Todos ossaberes referentes a todos os seres, todas as ações e produções humanasencontravam-se distribuídos nessa classificação que ia da ciência mais alta – afilosofia primeira – até o conhecimento das técnicas criadas pelos homens para afabricação de objetos. No entanto, nessa classificação não encontramos a lógica.Por quê?Para Aristóteles, a lógica não era uma ciência teorética, nem prática ou produtiva,mas um instrumento para as ciências. Eis por que o conjunto das obras lógicasaristotélicas recebeu o nome de Órganon, palavra grega que significainstrumento.A lógica caracteriza-se como:? instrumental : é o instrumento do pensamento para pensar corretamente everificar a correção do que está sendo pensado;? formal : não se ocupa com os conteúdos pensados ou com os objetos referidospelo pensamento, mas apenas com a forma pura e geral dos pensamentos,expressa através da linguagemiv ;? propedêutica: é o que devemos conhecer antes de iniciar uma investigaçãocientífica ou filosófica, pois somente ela pode indicar os procedimentos(métodos, raciocínios, demonstrações) que devemos empregar para cadamodalidade de conhecimento;? normativa: fornece princípios, leis, regras e normas que todo pensamento deveseguir se quiser ser verdadeiro;? doutrina da prova: estabelece as condições e os fundamentos necessários detodas as demonstrações. Dada uma hipótese, permite verificar as conseqüênciasnecessárias que dela decorrem; dada uma conclusão, permite verificar se éverdadeira ou falsa;? geral e temporal : as formas do pensamento, seus princípios e suas leis nãodependem do tempo e do lugar, nem das pessoas e circunstâncias, mas sãouniversais, necessárias e imutáveis como a própria razão. – 231 –

Convite à Filosofia _______________________________O objeto da lógica é a proposição, que exprime, através da linguagem, os juízosformulados pelo pensamento. A proposição é a atribuição de um predicado a umsujeito: S é P. O encadeamento dos juízos constitui o raciocínio e este seexprime logicamente através da conexão de proposições; essa conexão chama-sesilogismo. A lógica estuda os elementos que constituem uma proposição (ascategorias), os tipos de proposições e de silogismos e os princípios necessários aque toda proposição e todo silogismo devem obedecer para serem verdadeiros(princípio da identidade, da não-contradição e do terceiro excluído).A proposiçãoUma proposição é constituída por elementos que são seus termos.Aristóteles define os termos ou categorias como “aquilo que serve para designaruma coisa”. São palavras não combinadas com outras e que aparecem em tudoquanto pensamos e dizemos. Há dez categorias ou termos:1. substância (por exemplo, homem, Sócrates, animal);2. quantidade (por exemplo, dois metros de comprimento);3. qualidade (por exemplo, branco, grego, agradável);4. relação (por exemplo, o dobro, a metade, maior do que);5. lugar (por exemplo, em casa, na rua, no alto);6. tempo (por exemplo, ontem, hoje, agora);7. posição (por exemplo, sentado, deitado, de pé);8. posse (por exemplo, armado, isto é, tendo armas);9. ação (por exemplo, corta, fere, derrama);10. paixão ou passividade (por exemplo, está cortado, está ferido).As categorias ou termos indicam o que uma coisa é ou faz, ou como está. Sãoaquilo que nossa percepção e nosso pensamento captam imediata e diretamentenuma coisa, não precisando de qualquer demonstração, pois nos dão a apreensãodireta de uma entidade simples. Possuem duas propriedades lógicas: a extensão ea compreensão.Extensão é o conjunto de objetos designados por um termo ou uma categoria.Compreensão é o conjunto de propriedades que esse mesmo termo ou essacategoria designa. Por exemplo: uso a palavra homem para designar Pedro,Paulo, Sócrates, e uso a palavra metal para designar ouro, ferro, prata, cobre.A extensão do termo homem será o conjunto de todos os seres que podem serdesignados por ele e que podem ser chamados de homens; a extensão do termometal será o conjunto de todos os seres que podem ser designados como metais.Se, porém, tomarmos o termo homem e dissermos que é um animal, vertebrado,mamífero, bípede, mortal e racional, essas qualidades formam sua compreensão. – 232 –

Marilena Chauí _______________________________Se tomarmos o termo metal e dissermos que é um bom condutor de calor, refletea luz, etc., teremos a compreensão desse termo.Quanto maior a extensão de um termo, menor sua compreensão, e quanto maior acompreensão, menor a extensão. Se, por exemplo, tomarmos o termo Sócrates,veremos que sua extensão é a menor possível, pois possui todas as propriedadesdo termo homem e mais suas próprias propriedades enquanto uma pessoadeterminada. Essa distinção permite classificar os termos ou categorias em trêstipos:1. gênero: extensão maior, compreensão menor. Exemplo: animal;2. espécie: extensão média e compreensão média. Exemplo: homem;3. indivíduo: extensão menor, compreensão maior. Exemplo: Sócrates.Na proposição, as categorias ou termos são os predicados atribuídos a umsujeito. O sujeito (S) é uma substância; os predicados (P) são as propriedadesatribuídas ao sujeito; a atribuição ou predicação se faz por meio do verbo deligação ser. Por exemplo: Pedro é alto.A proposição é um discurso declarativo (apofântico), que enuncia ou declaraverbalmente o que foi pensado e relacionado pelo juízo. A proposição reúne ousepara verbalmente o que o juízo reuniu ou separou mentalmente.A reunião ou separação dos termos recebe o valor de verdade ou de falsidadequando o que foi reunido ou separado em pensamento e linguagem está reunidoou separado na realidade (verdade), ou quando o que foi reunido ou separado empensamento e linguagem não está reunido ou separado na realidade (falsidade).A reunião se faz pela afirmação: S é P. A separação se faz pela negação: S não éP.A proposição representa o juízo (coloca o pensamento na linguagem) e arealidade (declara o que está unido e o que está separado).Do ponto de vista do sujeito, existem dois tipos de proposições:1. proposição existencial : declara a existência, posição, ação ou paixão dosujeito. Por exemplo: “Um homem é (existe)”, “Um homem anda”, “Um homemestá ferido”. E suas negativas: “Um homem não é (não existe)”, “Um homem nãoanda”, “Um homem não está ferido”;2. proposição predicativa: declara a atribuição de alguma coisa a um sujeito pormeio da cópula é. Por exemplo: “Um homem é justo”, “Um homem não é justo”.As proposições se classificam segundo a qualidade e quantidade.Do ponto de vista da qualidade, as proposições de dividem em:? afirmativas: as que atribuem alguma coisa a um sujeito: S é P.? negativas: as que separam o sujeito de alguma coisa: S não é P. – 233 –

Convite à Filosofia _______________________________Do ponto de vista da quantidade, as proposições se dividem em:? universais: quando o predicado se refere à extensão total do sujeito,afirmativamente ( Todos os S são P) ou negativamente (Nenhum S é P);? particulares: quando o predicado é atribuído a uma parte da extensão dosujeito, afirmativamente (Alguns S são P) ou negativamente (Alguns S não sãoP);? singulares: quando o predicado é atribuído a um único indivíduo,afirmativamente (Este S é P) ou negativamente (Este S não é P).Além da distinção pela qualidade e pela quantidade, as proposições sedistinguem pela modalidade, sendo classificadas como:? necessárias: quando o predicado está incluído necessariamente na essência dosujeito, fazendo parte dessa essência. Por exemplo: “Todo triângulo é uma figurade três lados”, “Todo homem é mortal”;? não-necessárias ou impossíveis: quando o predicado não pode, de modoalgum, ser atribuído ao sujeito. Por exemplo: “Nenhum triângulo é figura dequatro lados”, “Nenhum planeta é um astro com luz própria”;? possíveis: quando o predicado pode ser ou deixar de ser atribuído ao sujeito.Por exemplo: “Alguns homens são justos”.Como todo pensamento e todo juízo, a proposição está submetida aos trêsprincípios lógicos fundamentais, condições de toda verdade:1. princípio da identidade: um ser é sempre idêntico a si mesmo: A é A;2. princípio da não-contradição: é impossível que um ser seja e não sejaidêntico a si mesmo ao mesmo tempo e na mesma relação. É impossível que Aseja A e não-A;3. princípio do terceiro excluído: dadas duas proposições com o mesmo sujeitoe o mesmo predicado, uma afirmativa e outra negativa, uma delas énecessariamente verdadeira e a outra necessariamente falsa. A é x ou não-x, nãohavendo terceira possibilidade.Graças a esses princípios, obtemos a última maneira pela qual as proposições sedistinguem. Trata-se da classificação das proposições segundo a relação:? contraditórias: quando temos o mesmo sujeito e o mesmo predicado, uma dasproposições é universal afirmativa (Todos os S são P) e a outra é particularnegativa (Alguns S não são P); ou quando se tem uma universal negativa(Nenhum S é P) e uma particular afirmativa (Alguns S são P);? contrárias: quando, tendo o mesmo sujeito e o mesmo predicado, uma dasproposições é universal afirmativa (Todo S é P) e a outra é universal negativa(Nenhum S é P); ou quando uma das proposições é particular afirmativa (AlgunsS são P) e a outra é particular negativa (Alguns S não são P); – 234 –

Marilena Chauí _______________________________? subalternas: quando uma universal afirmativa subordina uma particularafirmativa de mesmo sujeito e predicado, ou quando uma universal negativasubordina uma particular negativa de mesmo sujeito e predicado.Quando a proposição é universal e necessária (seja afirmativa ou negativa), diz-se que ela declara um juízo apodítico. Quando a proposição é universal ouparticular possível (afirmativa ou negativa), diz-se que ela declara um juízohipotético, cuja formulação é: Se… então… Quando a proposição é universal ouparticular (afirmativa ou negativa) e comporta uma alternativa que depende dosacontecimentos ou das circunstâncias, diz-se que ela declara um juízodisjuntivo, cuja formulação é: Ou… ou…Assim, a proposição “Todos os homens são mortais” e a proposição “Nenhumtriângulo é uma figura de quatro lados” são apodíticas. A proposição “Se aeducação for boa, ele será virtuoso” é hipotética. A proposição “Ou choveráamanhã ou não choverá amanhã” é disjuntiva.O silogismoAristóteles elaborou uma teoria do raciocínio como inferência. Inferir é tirar umaproposição como conclusão de uma outra ou de várias outras proposições que aantecedem e são sua explicação ou sua causa. O raciocínio é uma operação dopensamento realizada por meio de juízos e enunciada lingüística e logicamentepelas proposições encadeadas, formando um silogismo. Raciocínio e silogismosão operações mediatas de conhecimento, pois a inferência significa que sóconhecemos alguma coisa (a conclusão) por meio ou pela mediação de outrascoisas. A teoria aristotélica do silogismo é o coração da lógica, pois é a teoria dasdemonstrações ou das provas, da qual depende o pensamento científico efilosófico.O silogismo possui três características principais:1. é mediato: exige um percurso de pensamento e de linguagem para que sepossa chegar a uma conclusão;2. é dedutivo: é um movimento de pensamento e de linguagem que parte decertas afirmações verdadeiras para chegar a outras também verdadeiras e quedependem necessariamente das primeiras;3. é necessário: porque é dedutivo (as conseqüências a que se chega naconclusão resultam necessariamente da verdade do ponto de partida). Por isso,Aristóteles considera o silogismo que parte de proposições apodíticas superior aoque parte de proposições hipotéticas ou possíveis, designando-o com o nome deostensivo, pois ostenta ou mostra claramente a relação necessária e verdadeiraentre o ponto de partida e a conclusão. O exemplo mais famoso do silogismoostensivo é: Todos os homens são mortais. – 235 –

Convite à Filosofia _______________________________ Sócrates é homem. Logo, Sócrates é mortal.Um silogismo é constituído por três proposições. A primeira é chamada depremissa maior; a segunda, de premissa menor; e a terceira, de conclusão,inferida das premissas pela mediação de um termo chamado termo médio. Aspremissas possuem termos chamados extremos e a função do termo médio éligar os extremos. Essa ligação é a inferência ou dedução e sem ela não háraciocínio nem demonstração. Por isso, a arte do silogismo consiste em saberencontrar o termo médio que ligará os extremos e permitirá chegar à conclusão.O silogismo, para chegar a uma conclusão verdadeira, deve obedecer a umconjunto complexo de regras. Dessas regras, apresentaremos as maisimportantes, tomando como referência o silogismo clássico que oferecemosacima:? a premissa maior deve conter o termo extremo maior (no caso, “mortais”) e otermo médio (no caso, “homens ”);? a premissa menor deve conter o termo extremo menor (no caso, “Sócrates”) eo termo médio (no caso, “homem”);? a conclus ão deve conter o maior e o menor e jamais deve conter o termomédio (no caso, deve conter “Sócrates” e “mortal” e jamais deve conter“homem”). Sendo função do médio ligar os extremos, deve estar nas premissas,mas nunca na conclusão.A idéia geral da dedução ou inferência silogística é: A é verdade de B. B é verdade de C. Logo, A é verdade de C.A inferência silogística também é feita com negativas: Nenhum anjo é mortal. (A é verdade de B.) Miguel é anjo. (B é verdade de C.) Logo, Miguel não é mortal. (A é verdade de C.)A proposição é uma predicação ou atribuição. As premissas fazem a atribuiçãoafirmativa ou negativa do predicado ao sujeito, estabelecendo a inclusão ouexclusão do médio no maior e a inclusão ou exclusão do menor no médio. Graç asa essa dupla inclusão ou exclusão, o menor estará incluído ou excluído do maior.Por ser um sistema de inclusões (ou exclusões) entre sujeitos e predicados, osilogismo é a declaração da inerência do predicado ao sujeito (inerênciaafirmativa, quando o predicado está incluído no sujeito; inerência negativa, – 236 –

Marilena Chauí _______________________________quando o predicado está excluído do sujeito). A ciência é a investigação dessasinerências, por meio das quais se alcança a essência do objeto investigado.A inferência silogística deve obedecer a oito regras, sem as quais a dedução nãoterá validade, não sendo possível dizer se a conclusão é verdadeira ou falsa:1. um silogismo deve ter um termo maior, um menor e um médio e somente trêstermos, nem mais, nem menos;2. o termo médio deve aparecer nas duas premissas e jamais aparecer naconclusão; deve ser tomado em toda a sua extensão (isto é, como um universal)pelo menos uma vez, pois, do contrário, não se poderá ligar o maior e o menor.Por exemplo, se eu disser “Os nordestinos são brasileiros” e “Os paulistas sãobrasileiros”, não poderei tirar conclusão alguma, pois o termo médio “brasileiros”foi tomado sempre em parte de sua extensão e nenhuma vez no todo de suaextensão;3. nenhum termo pode ser mais extenso na conclusão do que nas premissas, pois,nesse caso, concluiremos mais do que seria permitido. Isso significa que uma daspremissas sempre deverá ser universal (afirmativa ou negativa);4. a conclusão não pode conter o termo médio, já que a função deste se esgota naligação entre o maior e o menor, ligação que é a conclusão;5. de duas premissas negativas nada pode ser concluído, pois o médio não teráligado os extremos;6. de duas premissas particulares nada poderá ser concluído, pois o médio nãoterá sido tomado em toda a sua extensão pelo menos uma vez e não poderá ligaro maior e o menor;7. duas premissas afirmativas devem ter a conclusão afirmativa, o que é evidentepor si mesmo;8. a conclusão sempre acompanha a parte mais fraca, isto é, se houver umapremissa negativa, a conclusão será negativa; se houver uma premissa particular,a conclusão será particular; se houver uma premissa particular negativa, aconclusão será particular negativa.Essas regras dão origem às figuras e modos do silogismo. As figuras são quatroe se referem à posição ocupada pelo termo médio nas premissas (sujeito namaior, sujeito na menor, sujeito em ambas, predicado na maior, predicado namenor, predicado em ambas). Os modos se referem aos tipos de proposições queconstituem as premissas (universais afirmativas em ambas, universais negativasem ambas, particulares afirmativas em ambas, particulares negativas em ambas,universal afirmativa na maior e particular afirmativa na menor, etc.).Existem 64 modos possíveis, mas, desses, apenas dez são considerados válidos.Combinando-se as quatro figuras e os dez modos tem-se as dezenove formasválidas de silogismo. – 237 –

Convite à Filosofia _______________________________Tomemos um exemplo da chamada primeira figura e os modos em que pode seapresentar. Na primeira figura, o termo médio é sujeito na maior e predicado namenor:1º modo – todas as proposições são universais afirmativas: Todos os homens são mortais. Todos os atenienses são homens. Todos os atenienses são mortais.2º modo – a maior é universal negativa, a menor é universal afirmativa e aconclusão é universal negativa: Nenhum astro é perecível. Todas as estrelas são astros. Nenhuma estrela é perecível.3º modo – a maior é universal afirmativa, a menor é particular afirmativa e aconclusão é particular afirmativa: Todos os homens são mortais. Sócrates é homem. Sócrates é mortal.4º modo – a maior é universal negativa, a menor é particular afirmativa e aconclusão é particular negativa: Nenhum tirano é amado. Dionísio é tirano. Dionísio não é amado.Aristóteles considera a primeira figura a mais própria para o silogismo científico,porque nela a inerência do predicado no sujeito é a mais perfeita. A ciência,segundo Aristóteles, encontra a essência das coisas demonstrando a ligaçãonecessária entre um indivíduo, a espécie e o gênero, isto é, a inclusão doindivíduo na espécie e desta no gênero. A primeira figura é a que melhorevidencia essa inclusão (ou a exclusão).O silogismo científicoAristóteles distingue dois grandes tipos de silogismos: os dialéticos e oscientíficos. Os primeiros são aqueles cujas premissas se referem ao que é apenaspossível ou provável, ao que pode ser de uma maneira ou de uma maneiracontrária e oposta, ao que pode acontecer ou deixar de acontecer. Suas premissassão hipotéticas e por isso sua conclusão também é hipotética. – 238 –

Marilena Chauí _______________________________O silogismo científico é aquele que se refere ao universal e necessário, ao que éde uma maneira e não pode deixar de ser tal como é, ao que acontece sempre esempre da mesma maneira. Suas premissas são apodíticas e sua conclusãotambém é apodítica.O silogismo dialético é o que comporta argumentações contrárias, porque suaspremissas são meras opiniões sobre coisas ou fatos possíveis ou prováveis. Asopiniões não são objetos de ciência, mas de persuasão. A dialética é umadiscussão entre opiniões contrárias que oferecem argumentos contrários,vencendo aquele argumento cuja conclusão for mais persuasiva do que a doadversário. O silogismo dialético é próprio da retórica, ou arte da persuasão, naqual aquele que fala procura tocar as emoções e paixões dos ouvintes e não noraciocínio ou na inteligência deles.O silogismo científico não admite premissas contraditórias. Suas premissas sãouniversais necessárias e sua conclusão não admite discussão ou refutação, masexige demonstração. Por esse motivo, o silogismo científico deve obedecer aquatro regras, sem as quais sua demonstração não terá valor:1. as premissas devem ser verdadeiras (não podem ser possíveis ou prováveis,nem falsas);2. as premissas devem ser primárias ou primeiras, isto é, indemonstráveis, pois setivermos que demonstrar as premissas, teremos que ir de regressão em regressão,indefinidamente, e nada demonstraremos;3. as premissas devem ser mais inteligíveis do que a conclusão, pois a verdadedesta última depende inteiramente da absoluta clareza e compreensão quetenhamos das suas condições, isto é, das premissas;4. as premissas devem ser causa da conclusão, isto é, devem estabelecer as coisasou os fatos que causam a conclusão e que a explicam, de tal maneira que, aoconhecê-las, estamos obedecendo as causas da conclusão. Esta regra é da maiorimportância porque, para Aristóteles, conhecer é conhecer as causas ou pelascausas.O que são as premissas de um silogismo científico? São verdadesindemonstráveis, evidentes e causais. São de três tipos:1. axiomas, como, por exemplo, os três princípios lógicos ou afirmações do tipo“O todo é maior do que as partes”;2. postulados, isto é, os pressupostos de que se vale uma ciência para iniciar oestudo de seus objetos. Por exemplo, o espaço plano, na geometria; o movimentoe o repouso, na física;3. definições (que, para Aristóteles, são as premissas mais importantes de umaciência) do gênero que é o objeto da ciência investigada. A definição deve dizer oque a coisa estudada é, como é, por que é, sob quais condições é (a definição – 239 –

Convite à Filosofia _______________________________deve dar o que, o como, o porquê e o se da coisa investigada, que é o sujeito daproposição).A definição está referida ao termo médio, pois é ele que pode preencher as quatroexigências (que, como, por que, se) e é por seu intermédio que o silogismoalcança o conceito da coisa investigada. Através do termo médio, a definiçãooferece o conceito da coisa por meio das categorias (substância, quantidade,qualidade, relação, lugar, tempo, posição, posse, ação, paixão) e da inclusãonecessária do indivíduo na espécie e no gênero.O conceito nos oferece a essência da coisa investigada (suas propriedadesnecessárias ou essenciais) e o termo médio é o atributo essencial para chegar àdefinição. Por isso, a definição consiste em encontrar para um sujeito (umasubstância) seus atributos essenciais (seus predicados). Um atributo é essencialquando faz uma coisa ser o que ela é, ou cuja ausência impediria a coisa de ser talcomo é (“mortal ” é um atributo essencial de Sócrates). Um atributo é acidentalquando sua presença ou sua ausência não afetam a essência da coisa (“gordo” éum atributo acidental de Sócrates). O silogismo científico não lida com ospredicados ou atributos acidentais.A ciência é um conhecimento que vai de seu gênero mais alto às suas espéciesmais singulares. A passagem do gênero à espécie singular se faz por uma cadeiadedutiva ou cadeia silogística, na qual cada espécie funciona como gênero parasuas subordinadas e cada uma delas se distingue das outras por uma diferençaespecífica. Definir é encontrar a diferença específica entre seres do mesmogênero.A tarefa da definição é oferecer a definição do gênero e a diferença específicaessencial que distingue uma espécie da outra. A demonstração (o silogismo)partirá do gênero, oferecerá a definição da espécie e incluirá o indivíduo naespécie e no gênero, de sorte que a essência ou o conceito do indivíduo nada maisé do que sua inclusão ou sua inerência à espécie e ao gênero. A demonstraçãoparte da definição do gênero e dos axiomas e postulados referentes a ele; deveprovar que o gênero possui realmente os atributos ou predicados que a definição,os axiomas e postulados afirmam que ele possui. O que é essa prova? É a provade que as espécies são os atributos ou predicados do gênero e são elas o objeto daconclusão do silogismo.Com isso, percebe-se que uma ciência possui três objetos: os axiomas epostulados, que fundamentam a demonstração; a definição do gênero, cujaexistência não precisa nem deve ser demonstrada; e os atributos essenciais oupredicados essenciais do gênero, que são suas espécies, às quais chega aconclusão. Numa etapa seguinte, a espécie a que se chegou na conclusão de umsilogismo torna-se gênero, do qual parte uma nova demonstração, e assimsucessivamente. – 240 –

Marilena Chauí _______________________________Para que o silogismo científico cumpra sua função, ele deve respeitar, além dasregras gerais do silogismo, quatro exigências relativas às suas premissas:1. devem ser premissas verdadeiras para todos os casos de seu sujeito;2. devem ser premissas essenciais, isto é, a relação entre o sujeito e o predicadodeve ser sempre necessária, seja porque o predicado está contido na essência dosujeito (por exemplo, o predicado “linha” está contido na essência do sujeito“triângulo”), seja porque o predicado é uma propriedade essencial do sujeito (porexemplo, o predicado “curva” tem que estar necessariamente referido ao sujeito“linha”), seja porque existe uma relação causal entre o predicado e o sujeito (porexemplo, o predicado “eqüidistantes do centro” é a causa do sujeito “círculo”,uma vez que esta é a figura geométrica cuja circunferência tem todos os pontoseqüidistantes do centro). Em resumo, as premissas devem estabelecer a inerênciado predicado à essência do sujeito;3. devem ser premissas próprias, isto é, referem-se exclusiva mente ao sujeitodaquela ciência e de nenhuma outra. Por isso, não posso ir buscar premissas dageometria (cujo sujeito são as figuras) na aritmética (cujo sujeito são osnúmeros), nem as da biologia (cujo sujeito são os seres vivos) na astronomia(cujo sujeito são os astros), etc. Em outras palavras, o termo médio do silogismocientífico se refere aos atributos essenciais dos sujeitos de uma ciênciadeterminada e de nenhuma outra;4. devem ser premissas gerais, isto é, nunca devem referir-se aos indivíduos, masaos gêneros e às espécies, pois o indivíduo define-se por eles e não eles peloindivíduo. – 241 –

Convite à Filosofia _______________________________ Capítulo 3 A lógica após AristótelesA lógica estóicaVimos que Aristóteles emprega a palavra analítica para referir-se ao estudo dasleis ou regras que o pensamento deve seguir para exprimir a verdade. Nãoemprega a palavra lógica. Esta foi introduzida por uma corrente filosófica doperíodo final da Filosofia grega, o estoicismo.Os estóicos afirmavam que só existem corpos (mesmo a alma era corporal, sendoum sopro sutil e invisível, o pneuma). Afirmavam também que há certas coisasque não existem propriamente, mas subsistem por meio de outras, sendoincorporais. Entre os incorporais colocavam o exprimível , isto é, a linguagem ouo discurso, e consideravam o estudo dos discursos ou dos logoi uma disciplinafilosófica especial: a lógica.Por afirmarem que somente os corpos existem, os estóicos afirmavam, comoconseqüência, que os juízos e as proposições só poderiam referir-se ao particularou ao singular, uma ve z que os universais não têm existência, ou seja, nãoexistem corpos universais, mas apenas singulares. As coisas singulares seimprimem em nós por meio da percepção ou da representação; sobre elasformulamos os juízos e os exprimimos em proposições verdadeiras ou falsas,cabendo à lógica duas tarefas:1. determinar os critérios pelos quais uma proposição pode ser consideradaverdadeira ou falsa; e2. estabelecer as condições para o encadeamento verdadeiro de proposições, istoé, o raciocínio como ligação entre proposições singulares.Por meio da percepção temos a representação direta de uma realidade. Nossamemória guarda a recordação dessa representação e de muitas outras, formando aexperiência. Da experiência nascem noções gerais sobre as coisas, noçõescomuns, que são antecipações sobre as coisas singulares de que temos outeremos percepções.A lógica se refere à relação entre as noções comuns gerais e as representaçõesparticulares. As noções comuns gerais correspondem ao que Aristóteles chamoude categorias, mas reduzidas a apenas quatro:1. o sujeito ou substância, expresso por um substantivo ou por um pronome;2. a qualidade, expressa por adjetivos; – 242 –

Marilena Chauí _______________________________3. a ação e a paixão, expressas pelos verbos;4. a relação, que se estabelece entre as três primeiras categorias.Uma outra inovação importante trazida pelos estóicos refere-se à proposição.Esta não é, como era para Aristóteles, a atribuição de um predicado ao sujeito (Sé P), mas é um acontecimento expresso por palavras: o predicado é um verboque indica algo que acontece ou aconteceu com o sujeito: “Pedro morre” (e não“Pedro é mortal”); “É dia, está claro” (e não “O dia é claro”); “João adoece” (enão “João é doente”).Como conseqüência das inovações (só há corpos, só há coisas singulares, só háquatro categorias, somente o verbo é predicado), os estóicos concebem a lógicacomo uma disciplina que se ocupa dos significados, buscando, por meio deles,aquilo que significa e aquilo que é. Por exemplo, se eu disser “Sócrates”, temosnessa palavra aquilo que o significado significa – alguém chamado Sócrates -, enela temos também o próprio Sócrates, que é aquilo que é, ou seja, a coisa realsignificada pela palavra Sócrates.O significado estabelece a relação entre a palavra Sócrates e o homem realSócrates. O significado é, ao mesmo tempo, a representação mental ou o conceitoou a noção que formamos de Sócrates e a relação entre essa representação e o serreal de Sócrates. Em suma, o significado é o que permite estabelecer a relaçãoentre uma palavra e um ser, pela mediação da representação mental quepossuímos desse ser. É o sentido. A lógica estóica opera com o sentido ou com osignificado.Uma proposição, para os estóicos, é sempre um enunciado simples sobre umacontecimento referente a um significado (“Sócrates escreve ”, “Sócrates anda”,“Sócrates senta-se”). Existem cinco tipos de ligações entre as proposições,formando cinco tipos de raciocínios:1. raciocínio hipotético, que exprime uma relação entre um antecedente e umconseqüente, do tipo Se… então… Por exemplo: “Se há fumaça, então há fogo;há fumaça, portanto, há fogo”; “Se é noite, então há trevas; é noite, portanto, hátrevas”;2. raciocínio conjuntivo, que simplesmente justapõe os acontecimentos. Porexemplo: “É dia, está claro”; ou “É dia e está claro”;3. raciocínio disjuntivo, que separa os enunciados, de modo que somente umdeles seja verdadeiro. Por exemplo: “Ou é dia ou é noite”;4. raciocínio causal , que exprime a causa do acontecimento. Por exemplo: “Vistoque está claro, portanto, é dia”;5. raciocínio relativo, que exprime o mais (ou maior) e o menos (ou menor). Porexemplo: “Está menos escuro quando é mais dia”. – 243 –

Convite à Filosofia _______________________________De todos os tipos de raciocínio, o mais importante é o hipotético, porque osoutros são variantes dele, como se pode observar no exemplo: “Este soldado temsangue no peito; se tem sangue no peito, feriu-se; tem sangue no peito, portanto,feriu-se”. Outro exemplo: “Será dia ou noite?; se está claro, então é dia; portanto,não é noite”.Durante a Idade Média, os filósofos se dividiram em duas grandes correntes: osaristotélicos, como santo Tomás de Aquino, e os chamados terministas, queadotaram a lógica estóica, como foi o caso de Guilherme de Ockham. Osprimeiros são considerados racionalistas, enquanto os segundos são consideradosempiristas, já que só admitem a existência e a experiência de coisas singulares deque temos sensação ou percepção, e porque só aceitam a conexão de proposiçõescuja conclusão exprima fatos ou acontecimentos presentes.A lógica contemporânea irá buscar nos estóicos a idéia de relação, contrapondo-aà atribuição aristotélica, que estabelece a inclusão do predicado no sujeito.Os medievais e os clássicosPara Platão, a dialética era o instrumento para alcançar a verdade. Por meio dela,a faculdade de conhecer subi a das opiniões contrárias ou opostas até às idéias ouessências universais, a realidade verdadeira. A dialética era, assim, um método dediálogo que partia da discussão entre interlocutores que, possuindo apenasimagens confusas das coisas, defendiam posições contrárias sobre um assunto ousobre alguma coisa; as contradições entre as opiniões iam sendo discutidas,depuradas, purificadas pelos argumentos racionais da dialética, que persuadia osinterlocutores a alcançar a identidade da idéia, a mesma para todos.Para Aristóteles, porém, a dialética não poderia cumprir o papel de instrumentodo pensamento verdadeiro, porque este exige procedimentos de prova oudemonstração, para além da simples argumentação. Por esse motivo, Aristótelesreservava a dialética para os campos em que a argumentação e a persuasão eramimportantes, mas colocava a lógica (a analítica) como instrumento indispensáveldo pensamento científico e filosófico, isto é, do pensamento que demonstra averdade das suas teses e conclusões. A lógica era, assim, o instrumentodemonstrativo do pensamento verdadeiro.Os estóicos mantiveram a idéia aristotélica de que a lógica era um instrumento deprova. No entanto, como sua teoria do conhecimento afirmava que sóconhecemos aquilo de que temos experiência direta, a prova era considerada amaneira pela qual se podia chegar a uma conclusão partindo de premissasmeramente prováveis, isto é, do raciocínio hipotético. Por esse motivo, a provapossuía um caráter persuasivo ou argumentativo, levando o estoicismo aidentificar lógica e dialética.Durante a Idade Média, embora os filósofos tivessem feito opções diferentes –uns optaram pela concepção de Aristóteles e outros pela dos estóicos -, todos – 244 –

Marilena Chauí _______________________________tenderam a identificar lógica e dialética, isto é, a considerar que a lógica é umaarte racional de demonstração, mas que essa demonstração tem a força de umargumento persuasivo. A lógica oferecia os procedimentos racionais da prova eda dialética, os meios de persuadir o ouvinte ou o leitor.A principal contribuição dos medievais esteve no esforço para dar um passo alémde Aristóteles, com a proposta de quantificar também o predicado dasproposições. Assim, além das proposições serem universais ou particulares emfunção do sujeito – todos os S, nenhum S, alguns S, este S – deveriam sertambém universais ou particulares conforme o predicado - todos os P, nenhumP, alguns P, este P. Por exemplo: “Todos os homens são alguns mortais” (poisos animais e as plantas também são mortais); “Todos os homens são todos osseres compostos de corpo e espírito” (pois os anjos só têm espírito, enquanto osanimais e as plantas só têm corpo).Os medievais também contribuíram para a lógica, deixando mais clara a relaçãoentre ela e a linguagem, isto é, mostrando que a lógica é inseparável de um usoordenado e regulado da linguagem. Partindo do latim – que era a língua cultausada pela Filosofia, pela ciência, pelas artes e pelo direito -, estabeleceramregras para todas as funções sintáticas e semânticas dos signos da língua latina.Essa concepção da lógica como relação entre o pensamento e uma linguagemperfeitamente ordenada e regulada, capaz de exprimir claramente as idéias, foiintensamente desenvolvida no século XVII por Leibniz, que propôs uma ArteCombinatória, inspirada na álgebra.Assim como a álgebra possui símbolos próprios, inconfundíveis, universais paratodos os matemáticos, assim também a lógica deveria ser uma linguagemperfeita, totalmente purificada das ambigüidades e contra-sensos da linguagemcotidiana. Leibniz propôs uma linguagem simbólica artificial, isto é, construídaespecialmente para garantir ao pensamento plena clareza nas demonstrações enas provas.A relação entre lógica e matemática também foi desenvolvida no século XVIIpelo filósofo inglês Hobbes, tendo a geometria como modelo. Hobbesconsiderava o raciocínio um cálculo, isto é, quando raciocinamos, simplesmentesomamos, subtraímos, multiplicamos ou dividimos idéias, cabendo à lógicaestabelecer as regras universais desse cálculo.A linguagem, dizia Hobbes, é uma convenção social. É por convenção quefazemos determinados sons e determinadas grafias – isto é, determinadaspalavras – corresponderem a certas coisas e não a outras e, conseqüentemente, osignificado lingüístico e mental resulta dessa convenção social. À lógica caberiaorganizar, ordenar e sistematizar as formas corretas do uso das convenções,garantindo que cada palavra e cada idéia, cada proposição e cada conceitopudessem corresponder-se, livres de toda confusão e ambigüidade. – 245 –

Convite à Filosofia _______________________________Esse ideal de uma lógica simbólica perfeita, inspirada na linguagem matemática,veio concretizar-se apenas nos meados do século XIX, com a publicação de duasobras: Análise matemática da lógica, de Boole (em 1847), e Lógica formal, deMorgan (também em 1847). Caberia mais tarde ao filósofo alemão Frege e aosfilósofos ingleses Bertrand Russell e Alfred Whitehead completar e consolidar agrande transformação da lógica, abandonando as teorias aristotélicas dainferência por uma nova concepção de proposição lógica.A lógica matemáticaPara os antigos e os medievais aristotélicos, os princípios e as leis da lógicacorrespondiam à estrutura da própria realidade, pois o pensamento exprime o reale dele participa. Aristóteles dizia que a verdade e a falsidade são propriedades dopensamento e não das coisas; que a realidade e a irrealidade (aparência ilusória)são propriedades das coisas e não do pensamento; mas que um pensamentoverdadeiro devia exprimir a realidade da coisa pensada, enquanto um pensamentofalso nada podia exprimir.Para os medievais terministas e para os modernos (século XVII), a lógica erauma arte de pensar, para bem conduzir a razão nas ciências. Os princípios e asleis da lógica correspondiam à estrutura do próprio pensamento, sobretudo à doraciocínio dedutivo – par a os filósofos franceses de Port-Royal – e à doraciocínio indutivo – para o filósofo inglês Francis Bacon. Como arte de pensar,a lógica oferecia ao conhecimento científico e filosófico as leis do pensamentoverdadeiro e os procedimentos para a avaliação dos conhecimentos adquiridos.Essa lógica – antiga e moderna – não era plenamente formal, pois não eraindiferente aos conteúdos das proposições, nem às operações intelectuais dosujeito do conhecimento. A forma lógica recebia o valor de verdade ou falsidadea partir da verdade ou falsidade dos atos de conhecimento do sujeito e darealidade ou irrealidade dos objetos conhecidos. Ao contrário, a lógicacontemporânea, procurando tornar-se um puro simbolismo do tipo matemático eum cálculo simbólico, preocupa-se cada vez menos com o conteúdo material dasproposições (a realidade dos objetos referidos pela proposição) e com asoperações intelectuais do sujeito do conhecimento (a estrutura do pensamento).Tornou-se plenamente formal.Assim, como o matemático lida com objetos que foram construídos pelaspróprias operações matemáticas, de acordo com princípios e regras prefixados eaceitos por todos, assim também o lógico elabora os símbolos e as operações queconstituem o objeto lógico por excelência, a proposição. O lógico indaga queforma deve possuir uma proposição para que:? seja-lhe atribuída o valor de verdade ou falsidade;? represente a forma do pensamento; e? represente a relação entre pensamento, linguagem e realidade. – 246 –

Marilena Chauí _______________________________A lógica descreve as formas, as propriedades e as relações das proposições,graças à construção de um simbolismo regulado e ordenado que permitediferenciar linguagem cotidiana e linguagem lógica formalizada.Boole definiu a lógica como o “método que repousa sobre o emprego desímbolos, dos quais se conhecem as leis gerais de combinação e cujos resultadosadmitem interpretação coerente”.A lógica tornou-se cada vez mais uma ciência formal da linguagem, mas de umalinguagem muito especial, que nada tem a ver com a linguagem cotidiana, poistrata-se de uma linguagem inteiramente construída por ela mesma, partindo domodelo da matemática.Dois aspectos devem ser mencionados para melhor compreendermos a relaçãoentre a lógica contemporânea e a matemática.1. A mudança no modo de conceber o que seja a matemática:Durante séculos (na verdade, desde os gregos), considerou-se a matemática umaciência baseada na intuição intelectual de verdades absolutas, existentes em si epor si mesmas, sem depender de qualquer interferência humana. Os axiomas, asfiguras geométricas, os números e as operações aritméticas, os símbolos e asoperações algébricas eram considerados verdades absolutas, universais,necessárias, que existiriam com ou sem os homens e que permaneceriamexistindo mesmo se os humanos desaparecessem (para muitos filósofos, amatemática chegou a ser considerada a ciência divina por excelência).No entanto, desde o século XIX passou-se a considerar a matemática uma ciênciaque resulta de uma construção intelectual , uma invenção do espírito humano,sem que suas entidades sejam existentes em si e por si mesmas. Os entesmatemáticos são puras idealidades construídas pelo intelecto ou pelopensamento, que formula um conjunto rigoroso de princípios, regras, normas eoperações, para a criação de figuras, números, símbolos, cálculos, etc.No final do século XIX, o matemático italiano Peano realizou um estudo sobre aaritmética dos números cardinais finitos demonstrando que podia ser derivada decinco axiomas ou proposições primitivas e de três termos não definíveis – zero,número e sucessor de.Desta maneira, a matemática surgia como um ramo da lógica, cabendo ao alemãoFrege e aos ingleses Bertrand Russell e Alfred Whitehead prosseguir o trabalhode Peano, oferecendo as definições lógicas dos três termos que o matemáticoitaliano julgara indefiníveis. Frege ofereceu o primeiro conceito de sistemaformal e os primeiros exemplos do cálculo de proposições e de predicados.A matemática é uma ciência de formas e cálculos puros organizados numalinguagem simbólica perfeita, na qual cada signo é um algoritmo, isto é, umsímbolo com um único sentido. É elaborada pelo espírito humano e não um – 247 –

Convite à Filosofia _______________________________pensamento intuitivo que contemplaria entidades perfeitas e eternas, existentesem si e por si mesmas.2. Mudança no modo de conceber o pensamento, distinguindo psicologia e teoriado conhecimento:Durante muitos séculos, psicologia e teoria do conhecimento estiveramconfundidas, constituindo uma só disciplina filosófica, encarregada de estudar osmodos como conhecemos as coisas, distinguindo o que é puramente pessoal eindividual (a vida psíquica ou mental de cada um de nós) do que é universal enecessário (válido em todos os tempos e lugares, para todos os sujeitos doconhecimento).Quando a psicologia se tornou uma ciência (descrição dos fatos psíquicos e suasleis) independente da Filosofia e a teoria do conhecimento permaneceu filosófica(por não ser apenas uma descrição da vida mental, mas um estudo das diferençasno conteúdo e na forma dos conhecimentos), surgiu a pergunta: “Onde fica alógica?”. Alguns responderam: “Na psicologia”. Alegavam que os progressos daciência psicológica iriam definir as regras universais a que todo e qualquerpensamento se submete, e a lógica seria apenas um ramo da psicologia, aqueleque estuda como funciona o pensamento científico.Essa corrente lógica recebeu o nome de psicologismo lógico, mas foi logorefutada pela maioria dos lógicos e particularmente pelo alemão EdmundHusserl, o criador da fenomenologia. À pergunta: “Onde fica a lógica?” oslógicos responderam: “Consigo mesma”. Em outras palavras, a lógica não é parteda psicologia nem da teoria do conhecimento, mas uma disciplina filosóficaindependente. Essa independência decorre da complexidade do pensamento, poisquando pensamos, há quatro fatores que nos permitem pensar: 1. o sujeito quepensa (o sujeito do conhecimento estudado pela teoria do conhecimento); 2. o atode pensar (as operações mentais estudadas pela psicologia); 3. o objeto pensado(estudado pelas ciências); e 4. o pensamento decorrente do ato de pensar (esse, oobjeto da lógica).A lógica não se confunde com a psicologia, nem com a teoria do conhecimento,porque seu objeto é o pensamento enquanto operação demonstrativa, que segueregras orientadas para determinar se a demonstração é verdadeira ou falsa doponto de vista do próprio pensamento, isto é, se a demonstração obedeceu ou nãoaos princípios lógicos.Qual o efeito dessas duas mudanças sobre a lógica contemporânea?Em primeiro lugar, ao manter a proximidade e a relação com a matemática, alógica passou a ser entendida como avaliadora da verdade ou falsidade dopensamento, concebido como uma construção intelectual. Ora, se o pensamentoconstrói seus próprios objetos, em vez de descobri-los ou contemplá-los, essaconstrução, segundo os próprios matemáticos, faz com que a matemática deva ser – 248 –

Marilena Chauí _______________________________entendida como um discurso ou como uma linguagem que obedece a certoscritérios e padrões de funcionamento. Assim sendo, a lógica adotou para si omodelo de um discurso ou de uma linguagem que lida com puras formas semconteúdo e tais formas são símbolos de tipo matemático (algoritmos).Em segundo lugar, distinguindo-se da psicologia e da teoria do conhecimento, alógica passou a dedicar-se menos ao pensamento e muito mais à linguagem, sejacomo tradução, representação ou expressão do pensamento, seja como discursoindependente do pensamento. Seu objeto passou a ser o estudo de um tipodeterminado de discurso: a proposição e as relações entre proposições. Suafinalidade tornou-se o projeto de oferecer normas e critérios para uma linguagemperfeita, capaz de avaliar as demais linguagens (científicas, filosóficas, artísticas,cotidianas, etc.).Linguagem e metalinguagemPara conseguir seu propósito, a lógica distingue dois níveis de linguagem:1. linguagem natural , isto é, aquela que usamos em nossa vida cotidiana, nasartes, na política, na filosofia;2. linguagem formal , isto é, aquela que é construída segundo princípios e regrasdeterminados que descrevem um tipo específico de objeto, o objeto das ciências.Essa distinção também pode ser apresentada como diferença entre dois tipos delinguagem simbólicas:1. a linguagem simbólica cultural (a linguagem “natural”), que usa signos,metáforas, analogias, esquemas para exprimir significações cotidianas, religiosas,artísticas, políticas, filosóficas. A principal característica desse simbolismo é serconotativo, isto é, os símbolos carregam muitos sentidos e referem-se a muitassignificações. A linguagem cultural é polissêmica, isto é, nela as palavr aspossuem inúmeros significados;2. a linguagem simbólica lógico-científica (a linguagem “construída”), que usaum sistema fechado de signos ou símbolos (o algoritmo), em que cada símbolo ésímbolo de uma única coisa e corresponde a uma única significação. Suaprincipal característica é ser essencialmente um simbolismo denotativo ouindicativo, evitando a polissemia e afirmando a univocidade do sentidosimbolizado. Por exemplo: H2O, , x, =, → , ≡ , etc. são símbolos denotativos ouindicativos de um só objeto ou de um só sentido; são algoritmos.A lógica ocupa-se com a linguagem formal ou com a linguagem simbólico-científica. Por ser um discurso ou uma linguagem que fala de outro discurso oude outra linguagem, se diz que ela é uma metalinguagem.Na vida cotidiana, podemos dizer, por exemplo, uma frase como: “O Sol é umaestrela”. A lógica começará dizendo: “A frase ‘O Sol é uma estrela’ é umaproposição afirmativa”. Prosseguirá dizendo: “A proposição ‘A frase O Sol é – 249 –

Convite à Filosofia _______________________________uma estrela é uma proposição afirmativa’ é uma proposição verdadeira”. E assimpor diante.A idéia da lógica como metalinguagem transparece com clareza quandoexaminamos, por exemplo, as teses principais do austríaco Ludwig Wittgenstein,cuja influência seria sentida por toda a lógica do século passado:1. qualquer proposição que tenha significado é composta por proposiçõeselementares, nas quais se encontra a verdade ou falsidade da proposição comsignificado;2. as proposições elementares adquirem significado porque afiguram (retratam) omundo não como fatos e coisas, mas como “estado de coisas”;3. as proposições da lógica são verdadeiras independentemente das noções de“significado” e de “estado de coisas”, porque, rigorosamente, não falam de nada,pois referem-se a qualquer fato, significado ou estado de coisas que possamocorrer ou não no Universo. As proposições lógicas são verdades vazias,referidas apenas ao próprio uso das convenções lógicas.Lógica dos predicados e lógica das relaçõesVimos que alguns filósofos medievais e clássicos julgaram necessárioquantificar, além do sujeito da proposição, também o predicado. No século XIX,o lógico inglês Hamilton levou avante a quantificação dos predicados, chegandoa oito tipos de proposições:1. afirmativas toto-totais, em que sujeito e predicado são tomados em toda suaextensão (universais): “Todo S é todo P”. Por exemplo: “Todo triângulo é todotrilateral”;2. afirmativas toto-parciais, em que o sujeito é tomado universalmente e opredicado particularmente: “Todo S é algum P”. Por exemplo: “Todo triângulo éalguma figura”;3. afirmativas parti-totais, em que o sujeito é particular e o predicado é tomadouniversalmente: “Alguns S são todo P”. Por exemplo: “Alguns sul-americanossão todos os brasileiros”;4. afirmativas parti-parciais, em que o sujeito e o predicado são tomados comoparticulares: “Algum S é algum P”. Por exemplo: “Algumas figuras eqüilateraissão alguns triângulos”;5. negativas toto-totais, em que o sujeito em toda a sua extensão é excluído detoda a extensão do predicado: “Nenhum S é nenhum P”. Por exemplo: “Nenhumtriângulo é nenhum quadrado”;6. negativas toto-parciais, em que todo sujeito é excluído de apenas uma partedo predicado: “Nenhum S é algum P”. Por exemplo: “Nenhum triângulo é algumeqüilateral ”; – 250 –

Marilena Chauí _______________________________7. negativas parti-totais, em que só uma parte do sujeito é excluída da extensãodo predicado: “Algum S não é nenhum P”. Por exemplo: “Alguma figuraeqüilateral não é nenhum triângulo”;8. negativas parti-parciais, em que uma parte da extensão do sujeito é excluídade uma parte da extensão do predicado: “Alguns S não são alguns P”. Porexemplo: “Algum triângulo não é alguma figura eqüilateral”.As proposições poderiam converter-se simplesmente umas nas outras e,finalmente, uma proposição era apenas uma equação entre um sujeito e umpredicado. Com isso, o raciocínio já não consistia em fazer uma noção entrar emoutra (a antiga inerência aristotélica), mas ser capaz de substituir outraequivalente, em proposições dadas, de sorte que proposições usando palavrascomo homem, animal, mortal, etc. poderiam ser tratadas como os raciocíniosmatemáticos que usam símbolos como x, y e z. Estava aberta a porta para queBoole propusesse o cálculo lógico.O cálculo lógico realizou-se em duas etapas diferentes. Na primeira, com aintrodução das noções de classe e função, manteve -se a idéia de que aproposição é a inclusão de um sujeito num predicado, ou melhor, a inclusão detoda ou parte da extensão do sujeito em toda ou parte da extensão do predicado.Na segunda etapa, com a introdução da idéia de relação, passou-se da concepçãoinclusiva-exclusiva do sujeito e do predicado à de sua equivalência ousubstituição de um por outro.À medida que se desenvolveu a formalização e a matematização da lógica, anoção de predicado recebeu um novo sentido e um novo tratamento. Passou a sertratado como classe. Esta é um conjunto de objetos, que, possuindo algo emcomum, “vão juntos”. Um predicado é o que permite reunir determinados objetosem classes: a classe dos azuis, a classe dos esféricos, a classe dos sul-americanos,a classe dos felizes, a classe dos miseráveis, a classe dos sólidos, etc.Um predicado isolado – azul, feliz, sólido, miserável, etc. – não é verdadeiro nemfalso. Recebe tal valor apenas a partir da inclusão ou exclusão do sujeito numaclasse. Com a classe, o predicado se torna uma relação entre duas variáveis e essarelação chama-se função. A lógica passa a construir um simbolismo que permitedefinir as funções do predicado, introduzindo novos quantificadores com os quaisa função é calculada. Esse cálculo constitui a lógica dos predicados.Por exemplo, a proposição tradicional “Sócrates é homem” será formalizadacomo F(a), onde F, a função, significa a “quantidade de ser homem” e a, avariável, designa “Sócrates”. Todavia, a variável poderá designar um indivíduoqualquer, um sujeito indeterminado, e a proposição será escrita como F(x). Talproposição pode ser quantificada:? a universal será escrita como (x)F(x), devendo ser lida como “para todo x, F dex”; – 251 –

Convite à Filosofia _______________________________? a particular ou existencial será escrita como (∃ x)F(x), devendo ser lida como“existe um x tal que F de x”.Se, em lugar da inclusão tradicional do predicado no sujeito, tivermos classes, arelação será estabelecida entre “elemento” e “classe”, ou entre as própriasclasses, tornando a proposição muito mais abrangente e complexa. Tomemos, porexemplo, a proposição “Os homens são mortais” e a proposição “Sócrates émortal”. Para calculá-las, devemos começar pela relação entre a classe doshomens e a dos mortais: A (Classe dos homens) B (Classe dos mortais) A ⊂ B (A classe dos homens está incluída na classe dos mortais.) x (Sócrates) A (Classe dos homens) x ∈ A (Sócrates pertence à classe dos homens.) Donde: (x) (x ∈ A) → (x ∈ B), onde “ → “ significa implica. Lemos: “Para todo x, x pertence a A implica que x pertence a B”. Portanto, “Sócrates é mortal”.São seis as operações que podem ser realizadas com as classes:1. inclusão de uma classe em outra: A ⊂ B;2. reunião de várias classes: D ∪ M ∪ N;3. intersecção de várias classes com elementos comuns: A ∩ B ∩ C;4. a da classe universal que abrange todos os elementos e cujo símbolo é ∨ ;5. a da classe vazia, isto é, que não contém elemento algum e cujo símbolo é ∧ ;6. a da classe complementar A’ de A, formada por todos os elementos que nãopertencem a A.Os lógicos que mais desenvolveram a possibilidade de uma lógica das classes,das funções proposicionais e do cálculo dos predicados foram Frege, Whitehead,Bertrand Russell e Wittgenstein.A lógica dos predicados foi enriquecida e modificada com a lógica das relações,iniciada no século XIX pelos filósofos ingleses Morgan (que também eramatemático) e Peirce.A lógica das relações ocupa-se, como o nome indica, com relações entreconjuntos de objetos: maior do que, menor do que, perto de, longe de, mais velho – 252 –

Marilena Chauí _______________________________que, mais novo que, pai de, mãe de, irmão de, causa de, finalidade de,semelhança com, diferente de, etc. As relações podem abranger dois ou maisobjetos, sendo binárias, ternárias, quaternárias, etc., dependendo do número deobjetos abrangidos por ela. A relação mais conhecida é a binária, expressa nafórmula xRy, que significa: há uma relação entre x e y.As relações possuem propriedades calculáveis. Tais propriedades permitemdiferenciar os vários tipos de relação, como por exemplo:? relação transitiva: dados x, y e z e dadas xRy e yRz, há uma relação xRz. Porexemplo: x é maior do que y (xRy), y é maior do que z (yRz), x é maior do que z(xRz). Ou: (xRy) • (yRz) → (xRz)? relação não-transitiva: dados x, y e z, e dadas xRy e yRz, não se pode ter xRz,embora haja uma relação entre x e z. Por exemplo: Pedro é pai de João (xRy),João é pai de Antônio (yRz), mas Pedro não é pai de Antônio, pois é seu avô;? relação intransitiva: dados x, y e z e dadas xRy e yRz, não é possíveldeterminar qual seria a relação entre x e z. Por exemplo: x é maior do que y(xRy), y é menor do que z (yRz), mas não podemos saber se x é maior ou menordo que z;? relação de simetria: xRy é o mesmo que yRx. Por exemplo: a é igual a b, b éigual a a; Ou: (x)(y)(xRy) → (yRx)? relação de assimetria: quando se tem xRy não se pode ter yRx. Por exemplo: aé maior do que b e, portanto, não se pode ter b é maior do que a. Ou: ~(x)~(y)(xRy) → (yRx)? relação reflexiva: estabelece-se entre uma relação transitiva e uma relaçãosimétrica. Assim, por exemplo, “x pode ver y” é reflexiva num mundo onde hajaespelhos, onde “y pode ver x”.? relação irreflexiva: estabelece-se entre relações intransitivas e assimétricas;? relação inversa: uma relação é inversa (S) a uma outra relação (R), quandopara todos os objetos x, y e z, verifica-se xRy, se e somente se houver ySx. É ocaso, por exemplo, da relação “pai de ” e “filho de”.Tanto a lógica dos predicados quanto a lógica das relações estão submetidas auma lógica mais ampla, que é a das proposições ou do cálculo proposicional ,pois a proposição é o campo da lógica propriamente dita. O cálculo dasproposições consiste em estabelecer os procedimentos pelos quais podemos – 253 –

Convite à Filosofia _______________________________determinar a verdade ou a falsidade de uma proposição, de acordo com sualigação com outra ou com outras. Os casos mais simples de cálculos deproposições referem-se à conjunção (“Pedro canta e Pedro dança”), negação(“Pedro canta. Pedro não canta”), disjunção (“Pedro canta ou Pedro dança”) eimplicação ( “Se Pedro canta, então Pedro dança”).O cálculo consiste em atribuir o valor “verdade ” a uma das proposições, o valor“falsidade” à outra e inferir o valor da ligação entre elas. Para que se perceba queo conteúdo das proposições é irrelevante, só interessando sua forma, vejamoscomo são simbolizados os vários cálculos das ligações proposicionais:? cálculo da conjunç ão e (símbolo da conjunção • ) p q p• q v v v v f f f v f f f f? cálculo da negação não (símbolo da negação ~) p ~p v f f v? cálculo da disjunç ão ou (símbolo da disjunção ∨ ) p q p∨ q v v v v f v f v v f f f? cálculo da implicação implica que (símbolo da implicação ⊃ ) p q p⊃ q v v v v f f f v v f f vUm exemplo poderá nos ajudar a compreender como funciona o cálculo. Sedissermos: “Se Pedro é cearense (p) ou catarinense (q), então é brasileiro (r). Ora,Pedro não é brasileiro. Portanto, não é cearense nem catarinense”, teremos: (p ∨ q ⊃ r) • r ⊃ ~p ∨ ~q? cálculo da bi-implicação ou equivalência (símbolo da equivalência ↔ ) p q p↔q v v v – 254 –

Marilena Chauí _______________________________ v f f f v f f f vEsses cálculos constituem as matrizes, que são como tabelas que apresentamtodas as situações possíveis que cada ligação associa a um par de proposiçõeselementares p e q. – 255 –

Convite à Filosofia _______________________________ Capítulo 4 Lógica e DialéticaVimos a diferença entre Platão e Aristóteles a respeito do papel da dialética noconhecimento. Vimos também a maneira como os estóicos e os medievaisarticularam lógica e dialética. Vimos, por fim, que a lógica moderna econtemporânea enfatizaram o formalismo lógico e aproximaram ao máximológica e matemática. Entretanto, entre o século XVII e o século XX, houve umaoutra posição filosófica que, procurando superar as diferenças entre Plat ão eAristóteles, de um lado, e recusando a identificação entre lógica e matemática, deoutro lado, reuniu, mais uma vez, lógica e dialética. Trata-se da filosofiahegeliana, no século XIX.Para compreendermos a posição de Hegel, precisamos levar em consideraçãodois acontecimentos filosóficos alemães muito importantes: o idealismo críticode Kant e o romantismo filosófico.Como já analisamos anteriormente, Kant, ao escrever a Crítica da razão pura e aCrítica da razão prática, havia estabelecido uma distinção profunda entre arealidade em si e o conhecimento da realidade. A primeira, dizia ele, éinalcançável por nosso entendimento, embora nossa razão aspire por ela, tendocriado a metafísica como conhecimento racional das coisas em si.Mas a metafísica não é possível: é uma ilusão (inevitável) de nossa razão.Conhecemos apenas o modo como a realidade se apresenta a nós (os fenômenos),organizada pela estrutura de nossa própria capacidade de conhecer, isto é,segundo as formas do espaço e do tempo, e segundo os conceitos ou categoriasde nosso entendimento (substância, qualidade, quantidade, causalidade,atividade, passividade). Embora a realidade em si, isto é, a essência em si deDeus, da alma e do mundo, não possa ser racionalmente conhecida por nós,permanece, porém, como um ideal de nossa razão, que, fazendo dessas essênciasidéias puras, as coloca como fundamentos de nossa vida ética ou moral.A separação kantiana entre entendimento e razão, conceitos e idéias, fenômenose realidades em si foi interpretada como separação entre sujeito e mundo, sereshumanos e Natureza, espírito e Natureza. Como o sujeito e sua atividade deconhecimento, assim como sua atividade ética e política criam o mundo humanoda Cultura, a separação kantiana foi interpretada como separação entre Cultura eNatureza.Os filósofos e artistas românticos alemães não aceitavam tal separação ebuscaram caminhos pelos quais humanos e Natureza pudessem reunir-se – 256 –

Marilena Chauí _______________________________novamente, ou, como diziam, pudessem “reconciliar-se”. Julgavam haverencontrado o caminho para isso nas Artes. Elas seriam o reencontro dos humanose da Natureza, através da beleza e do sentimento estético ou da imaginação e dasensibilidade.Hegel, porém, recusou a solução romântica. Dizia ele que, no fundo, não tinhahavido reconciliação alguma. Enquanto Kant coloca tudo no sujeito, osromânticos haviam colocado tudo na Natureza, desejando fundir-se com ela pormeio da imaginação e da sensibilidade. Os dois termos – Cultura e Natureza,sujeito e mundo, espírito e realidade – continuavam separados.Como reuni-los verdadeiramente? Como alcançar a verdadeira reconciliação?Respondeu Hegel: compreendendo que só existe o Espírito, que a Natureza éuma manifestação do próprio Espírito, uma exteriorização do Espírito, que aCultura também é uma exteriorização do Espírito, manifestação espiritual, e queambos serão reunidos e reconciliados na interiorização do próprio Espírito,quando este se reconhecer como a interioridade que se manifestou externamentecomo Natureza e Cultura.O movimento pelo qual o Espírito se exterioriza como Natureza e Cultura e peloqual retorna a si mesmo como interioridade de ambas é a História, não comoseqüência temporal de acontecimentos e de causas e de efeitos, mas como vidado Espírito.O que é o Espírito? É o ve rbo divino. Em grego: o logos. O que é a vida dologos? (a História)? É a lógica. Que é a lógica como vida do Espírito? É omovimento pelo qual o Espírito produz o mundo (Natureza e Cultura), conhecesua produção e se reconhece como produtor – é, portanto, o movimento daatividade de criação e de autoconhecimento do Espírito. É a ciência da lógica,entendendo-se por ciência não a descrição e explicação dos fatos e de seusencadeamentos causais, mas a atividade pela qual o Espírito se conhece a simesmo ao criar-se a si mesmo, manifestando-se ou exteriorizando-se comoNatureza e Cultura.Essa ciência da lógica é a dialética.O que é a dialética? Platão e Aristóteles, divergindo quanto ao papel da dialéticano conhecimento, concordavam porém num ponto: a dialética é o logos divididointernamente em predicados opostos ou contrários, dividido internamente porpredicados contraditórios.Ora, que fizeram Platão e Aristóteles? Consideraram que a realidade e a verdadeobedecem ao princípio de identidade e expulsam a contradição. Esta éconsiderada irreal (do ponto de vista da realidade) e impossível (do ponto devista da verdade), pois é irreal e impossível que uma coisa seja e não seja elamesma ao mesmo tempo e na mesma relação. Em outras palavras, algo é real everdadeiro quando podemos conhecer o conjunto de seus predicados positivos e – 257 –

Convite à Filosofia _______________________________afastar os predicados negativos contrários e contraditórios. Em Platão, a funçãoda dialética era expulsar a contradição. Em Aristóteles, a função da lógica eragarantir o uso correto do princípio de identidade.Ambos se enganaram, julga Hegel. A dialética é a única maneira pela qualpodemos alcançar a realidade e a verdade como movimento interno dacontradição, pois Heráclito tinha razão ao considerar que a realidade é o fluxoeterno dos contraditórios. No entanto, ele também se enganou ao julgar que ostermos contraditórios eram pares de termos positivos opostos. A verdadeiracontradição dialética possui duas características principais:1. nela, os termos contraditórios não são dois positivos contrários ou opostos,mas dois predicados contraditórios do mesmo sujeito, que só existem negandoum ao outro. Em vez de dizer quente-frio, doce-amargo, material-espiritual,natural-cultural, devemos compreender que é preciso dizer: quente-não quente,frio-não frio, doce-não doce, amargo-não amargo, material-não material,espiritual-não espiritual, natural-não natural, cultural-não cultural;2. o negativo (o não x: não quente, não-doce, não material, não natural, etc.) nãoé um positivo contrário a outro positivo, mas é verdadeiramente negativo. Se eudisser, por exemplo, “o caderno não é a árvore”, esse não não é um negativoverdadeiro, pois o caderno e a árvore continuam como dois termos positivos.Esse não, escreve Hegel, é mera negação externa. Nesta, qualquer termo pode sernegação de qualquer outro. Assim, por exemplo, posso dizer: o caderno não é aárvore, não é a porta, não é João, não é a mesa, etc. O verdadeiro negativo é umanegação interna, como aquela que surge se eu disser, por exemplo, “o caderno éa não-árvore”, pois, aqui, o ser do caderno, a sua realidade, é a negação darealidade da árvore; o caderno é a árvore negada como árvore. Não tenho umaárvore que virou um caderno, mas uma árvore que deixou de ser árvore porquefoi transformada em caderno. A negação interna é aquela na qual um ser é asupressão de seu outro, de seu negativo.A contradição dialética nos revela um sujeito que surge, se manifesta e setransforma graças à contradição de seus predicados. Em lugar de a contradiçãoser o que destrói o sujeito (como julgavam todos os filósofos), ela é o quemovimenta e transforma o sujeito, fazendo-o síntese ativa de todos os predicadospostos e negados por ele.Que é a lógica, vida do Espírito? É o movimento dialético pelo qual o Espírito,como sujeito vivo, põe ou cria seus predicados, manifesta-se através deles, nega-os e os suprime como termos separados dele e diferentes dele, para fazê-loscoincidirem com ele. Os predicados não são, como na lógica formal ematemática, termos positivos inertes que atribuímos ou recusamos a um sujeito,mas são realidades criadas, negadas, suprimidas e reincorporadas pelo própriosujeito, isto é, pelo Espírito. – 258 –

Marilena Chauí _______________________________Se retornarmos agora ao nosso ponto de partida – a separação sujeito-mundo,Cultura-Natureza – poderemos compreender por que a ciência da lógica, tal comoHegel a concebe, é a reconciliação racional dos termos.O Espírito começa como um sujeito que se exterioriza no predicado Natureza,isto é, manifestando-se como coisa (substância, qualidade, quantidade, relaçõesde causa e efeito, etc.). Ele é terra, água, ar, fogo, céu, astros, mares, minerais,vegetais, animais. Para conservar-se vivo, o ser natural (a coisa) precisa consumiros seres que o rodeiam: o Espírito como Natureza nega-se a si mesmoconsumindo-se a si mesmo (os animais consomem água, plantas, outros animais,ar, calor, luz; as plantas consomem calor, água, luz; os astros consomem energiae matéria, etc.).Essa negação pelo consumo não é transformadora, pois ela se realiza paraconservar as coisas. Entretanto, o Espírito se manifesta num outro predicado, aConsciência. Esta também busca conservar-se, mas, agora, o faz não pelosimples consumo das coisas naturais mas pela negação da mera naturalidadedelas. O que é essa negação?Quando digo “Isto é uma montanha”, tenho a impressão de que me refiro a umacoisa natural, diferente de mim, existente em si mesma e com característicaspositivas próprias. Entretanto, o simples fato de que chame uma coisa demontanha indica que ela não existe em si, mas existe para mim, isto é, possuium sentido em minha experiência.Suponhamos agora que eu pertença a uma comunidade politeísta, que acreditaque os deuses, superiores aos homens, mas dotados de forma humana, habitem oslugares altos. Para mim, agora, a montanha não é mais uma simples coisa, mas amorada sagrada dos deuses. Imaginemos em seguida que somos uma empresacapitalista exploradora de minérios e que haja uma jazida de ferro na montanha.Como empresários, compramos a montanha para explorá-la. Novamente, eladeixou de ser uma simples coisa natural para tornar-se propriedade privada, localde trabalho e capital.Consideremos, por fim, que somos pintores. Nesse caso, a montanha não é nemmorada dos deuses, nem propriedade privada capitalista, nem local de trabalho,mas forma, cor, volume, linhas, profundidade – um campo de visibilidade.Sob essas quatro formas: “isto é uma montanha”, “morada dos deuses”, “jazidade minério de ferro/propriedade privada/capital ” e “campo de visibilidade”, amontanha como coisa natural desapareceu, foi negada como mera coisa pelaconsciência e pela ação humanas. Tornou-se não-coisa porque tornou-semontanha-para-nós, significação, ente cultural. Foi consumida-destruída-suprimida-negada pela Cultura. Em termos hegelianos, o Espírito negou-se comoNatureza e afirmou-se como Cultura. Negou-se como ser-em-si, tornando-se ser-para-si. Deve-se compreender que a negação dialética não significa a destruiçãoempírica ou material de coisas empíricas ou materiais, e sim a destruição de seu – 259 –

Convite à Filosofia _______________________________sentido imediato que é superado por um sentido novo, posto pelo próprioespírito.Ao reconhecer-se como movimento interno de posição, negação e supressão deseus predicados (S é Natureza; S é não-Natureza porque é Cultura), o Espíritoreconhece-se como sujeito que se produz a si mesmo e que é o movimento deautoprodução de si mesmo (S é Natureza e Cultura porque é o Espírito). Nessereconhecimento, reconcilia-se consigo mesmo; é, ao mesmo tempo, em si e parasi.Como se observa, em Hegel, a lógica não é um instrumento formal para o bomuso do pensamento, mas é ontologia. – 260 –

Convite à Filosofia _______________________________ Introdução As indagações metafísicasPor que há seres em vez do nada?Por que uma coisa pode mudar e, no entanto, conservar sua identidade individual,de tal maneira que podemos dizer que é a mesma coisa, ainda que a vejamosdiferente do que fora antes? Como sabemos que uma determinada roseira é amesma que, no ano passado, não passava de um ramo com poucas folhas e semflor? Como sabemos que Paulo, hoje adulto, é o mesmo Paulo que conhecemoscriança?Por que sinto que sei que sou diferente das coisas? Porém, por que também sintoque sei que um outro corpo, diferente e semelhante do meu, não é uma coisa,mas um alguém?Por que eu e o outro podemos ver de modo diferente, sentir e gostar de mododiferente, discordar sobre tantas coisas, fazer coisas diferentes e, no entanto,ambos admitimos, sem sombra de dúvida, que um triângulo, o número 5, ocírculo, os arcos do palácio da Alvorada, ou as pirâmides do Egito sãoexatamente as mesmas coisas para ele e para mim?O que é uma coisa? E um objeto?O que é a subjetividade?O que é o corpo humano? E uma consciência?Perguntas como essas constituem o campo da metafísica, ainda que nem sempreas mesmas palavras tenham sido usadas para formulá-las.Por exemplo, um filósofo grego não falaria em “nada”, mas em “não-ser”. Nãofalaria em “objeto”, mas em “ente”, pois a palavra objeto só foi usada a partir daIdade Média e, no sentido em que a empregamos hoje, só foi usada a partir doséculo XVII. Também, não falaria em “consciência”, mas em “psyche”, isto é,alma. Jamais falaria em “subjetividade”, pois essa palavra, com o sentido que lhedamos hoje, só foi usada a partir do século XVIII.A mudança do vocabulário da Filosofia no curso desses 25 séculos indica quemudaram os modos de formular as questões e respondê-las, pois a Filosofia estána História e possui uma história. No entanto, sob essas mudanças profundas,permaneceu a questão metafísica fundamental: O que é? – 262 –

Marilena Chauí _______________________________A pergunta pelo que éA metafísica é a investigação filosófica que gira em torno da pergunta “O que é?”Este “é” possui dois sentidos:1. significa “existe”, de modo que a pergunta se refere à existência da realidade epode ser transcrita como: “O que existe?”;2. significa “natureza própria de alguma coisa”, de modo que a pergunta se refereà essência da realidade, podendo ser transcrita como: “Qual é a essência daquiloque existe?”.Existência e essência da realidade em seus múltiplos aspectos são, assim, ostemas principais da metafísica, que investiga os fundamentos, as causas e o seríntimo de todas as coisas, indagando por que existem e por que são o que são.A história da metafísica pode ser dividida em três grandes períodos, o primeirodeles separado dos outros dois pela filosofia de David Hume:1. período que vai de Platão e Aristóteles (séculos IV e III a.C.) até David Hume(século XVIII d.C.);2. período que vai de Kant (século XVIII) até a fenomenologia de Husserl(século XX);3. metafísica ou ontologia contemporânea, dos anos 20 aos anos 70 do séculopassado (XX).Características da metafísica em seus períodosNo primeiro período, a metafísica possui as seguintes características:? investiga aquilo que é ou existe, a realidade em si;? é um conhecimento racional apriorístico, isto é, não se baseia nos dadosconhecidos diretamente pela experiência sensível ou sensorial (nos dadosempíricos), mas nos puros conceitos formulados pelo pensamento puro ou pelointelecto;? é um conhecimento sistemático, isto é, cada conceito depende de outros e serelaciona com outros, formando um sistema coerente de idéias ligadas entre si;? exige a distinção entre ser e parecer ou entre realidade e aparência, seja porquepara alguns filósofos a aparência é irreal e falsa, seja porque para certos filósofosa aparência só pode ser compreendida e explicada pelo conhecimento darealidade que subjaz a ela.Esse primeiro período da metafísica termina quando Hume demonstra que osconceitos metafísicos não correspondem a nenhuma realidade externa, existenteem si mesma e independente de nós, mas são meros nomes gerais para as coisas,nomes que nos vêm pelo hábito mental ou psíquico de associar em idéias as – 263 –

Convite à Filosofia _______________________________sensações, as percepções e as impressões dos sentidos, quando são constantes,freqüentes e regulares.O segundo período tem seu centro na filosofia de Kant, que demonstra aimpossibilidade dos conceitos tradicionais da metafísica para alcançar e conhecera realidade em si das coisas. Em seu lugar, Kant propõe que a metafísica seja oconhecimento de nossa própria capacidade de conhecer – seja uma críticav darazão pura teórica – tomando a realidade como aquilo que existe para nósenquanto somos o sujeito do conhecimento.A metafísica poderá continuar usando o mesmo vocabulário que us avatradicionalmente, mas o sentido conceitual das palavras mudará totalmente, poisnão se referem ao que existe em si e por si, mas ao que existe para nós e éorganizado por nossa razão. Embora com muitas diferenças (que veremos maistarde), Husserl trilhará um caminho próximo ao de Kant.A metafísica contemporânea é chamada de ontologia (veremos posteriormente osentido dessa palavra) e procura superar tanto a antiga metafísica (conhecimentoda realidade em si, independente de nós), quanto a concepção kantiana(conhecimento da realidade como aquilo que é para nós, porque posto por nossarazão). Considera o objeto da metafísica a relação originária mundo-homem.Suas principais características são:? investiga os diferentes modos como os entes ou os seres existem;? investiga a essência ou o sentido (a significação) e a estrutura desses entes ouseres;? investiga a relaç ão necessária entre a existência e a essência dos entes e omodo como aparecem para nossa consciência, manifestação que se dá nas váriasformas em que a consciência se realiza (percepção, imaginação, memória,linguagem, intersubjetividade, reflexão, ação moral e política, prática artística,técnicas);? alguns consideram que a metafísica ou ontologia contemporânea deveria serchamada de descritiva, porque, em vez de oferecer uma explicação apriorística darealidade, é uma interpretação racional da lógica da realidade, descrevendo asestruturas do mundo e as do nosso pensamento. – 264 –

Marilena Chauí _______________________________ Capítulo 1 O nascimento da metafísicaO realismo da Filosofia nascenteEstudamos até aqui a figura do sujeito do conhecimento. Passaremos, agora, aoobjeto do conhecimento. Convém, no entanto, fazer uma observação preliminar,pois essa seqüência, indo do sujeito ao objeto, não foi sempre aquela seguida pelaFilosofia.A maneira como tratamos o conhecimento até este momento poderia sugerir quea Filosofia teria começado indagando como nossa razão pode conhecer arealidade. Mas não foi assim que tudo começou. Iniciar pelo sujeito doconhecimento é algo novo na Filosofia, algo que aconteceu a partir do séculoXVII, com o que chamamos de racionalismo clássico, cujo ponto de partida era aindagação: Pode nosso pensamento alcançar a realidade?Até o século XVII, porém, não era essa a indagação filosófica principal.Desde os gregos, partia-se da afirmação da existência da realidade e de que elapoderia ser conhecida verdadeiramente pela razão ou pelo pensamento. Apergunta filosófica era: O que é a realidade? Por isso, costuma-se dizer que aFilosofia nasceu como um realismo e desse realismo surgiu a metafísica.Veremos, mais adiante, como os problemas metafísicos acabaram fazendo aFilosofia mudar sua pergunta (passando a indagar: “Como podemos conhecer arealidade?”) e dar à teoria do conhecimento, ou ao estudo do sujeito doconhecimento, o lugar predominante que já examinamos.Da cosmologia à metafísicaA Filosofia nasce da admiração e do espanto, dizem Platão e Aristóteles.Admiração: Por que o mundo existe? Espanto: Por que o mundo é tal como é?Desde seu nascimento, a Filosofia perguntou: O que existe? Por que existe? Oque é isso que existe? Como é isso que existe? Por que e como surge, muda edesaparece? Por que a Natureza ou o mundo se mantêm ordenados e constantes,apesar da mudança contínua de todas as coisas?Essas perguntas – ou esse espanto ou admiração diante do mundo – levaram osprimeiros filósofos a buscar uma explicação racional para a origem de um mundoordenado, o cosmos. Por esse motivo, a Filosofia nasce como cosmologia. Abusca do princípio que causa e ordena tudo quanto existe na Natureza (minerais,vegetais, animais, humanos, astros, qualidades como úmido, seco, quente, frio) e – 265 –

Convite à Filosofia _______________________________tudo quanto nela acontece (dia e noite, estações do ano, nascimento,transformação e morte, crescimento e diminuição, saúde e doença, bem e mal,belo e feio, etc.) foi a busca de uma força natural perene e imortal, subjacente àsmudanças, denominada pelos primeiros filósofos com o nome de physis. Acosmologia era uma explicação racional sobre a physis do Universo e, portanto,uma física.Como, então, surgiu a metafísica? Como surgiu um saber que suplantou acosmologia ou física dos primeiros filósofos? Como e por que a metafísicaacabou se tornando o centro e a disciplina mais importante da Filosofia?Metafísica ou ontologiaA palavra metafísica foi empregada pela primeira vez por Andrônico de Rodes,por volta do ano 50 a.C., quando recolheu e classificou as obras de Aristótelesque, durante muitos séculos, haviam ficado dispersas e perdidas. Com essapalavra – ta meta ta physika -, o organizador dos textos aristotélicos indicava umconjunto de escritos que, em sua classificação, localizavam-se após os tratadossobre a física ou sobre a Natureza, pois a palavra grega meta quer dizer: depoisde, após, acima de.Ta: aqueles; meta: após, depois; ta physika: aqueles da física. Assim, a expressãota meta ta physika significa literalmente: aqueles que estão após os da física. Ora, tais escritos haviam recebido umadesignação por parte do próprio Aristóteles, quando este definira o assunto deque tratavam: são os escritos da Filosofia Primeira, cujo tema é o estudo do “serenquanto ser”. Desse modo, o que Aristóteles chamou de Filosofia Primeirapassou a ser designado como metafísica.No século XVII, o filósofo alemão Jacobus Thomasius considerou que a palavracorreta para designar os estudos da metafísica ou Filosofia Primeira seria apalavra ontologia.A palavra ontologia é composta de duas outras: onto e logia. Onto deriva-se dedois substantivos gregos, ta onta (os bens e as coisas realmente possuídas poralguém) e ta eonta (as coisas realmente existentes). Essas duas palavras, por suavez, derivam-se do verbo ser, que, em grego, se diz einai. O particípio presentedesse verbo se diz on (sendo, ente) e ontos (sendo, entes). Dessa maneira, aspalavras onta e eonta (as coisas) e on (ente) levaram a um substantivo: to on, quesignifica o Ser. O Ser é o que é realmente e se opõe ao que parece ser, àaparência. Assim, ontologia significa: estudo ou conhecimento do Ser, dos entesou das coisas tais como são em si mesmas, real e verdadeiramente.Por que Thomasius julgou a palavra ontologia mais adequada do que a palavrametafísica? Para responder a essa pergunta devemos retornar ao que escreveuAristóteles, quando propôs a Filosofia Primeira. – 266 –

Marilena Chauí _______________________________Ao definir a Filosofia Primeira, Aristóteles afirmou que ela estuda o ser dascoisas, a ousia. A palavra ousia é o feminino do particípio presente do verbo ser,isto é, do verbo einai. Em português, ousia é traduzido por essência, porque étraduzida da palavra latina essentia.Em latim o verbo ser se diz esse e a palavra essentia foi inventada pelos filósofospara traduzir ousia. Assim, a Filosofia Primeira é o estudo ou o conhecimento daessência das coisas ou do ser real e verdadeiro das coisas, daquilo que elas sãoem si mesmas, apesar das aparências que possam ter e das mudanças que possamsofrer.Thomasius considerou que Aristóteles definira a Filosofia Primeira como oestudo do ser das coisas, como o que há de íntimo, perene e verdadeiro nos entes.Não estuda esta ou aquela coisa, este ou aquele ente, mas busca aquilo que faz deum ente ou de uma coisa, um ser. Busca a essência de um ente ou de uma coisa.Por isso, por ser o estudo da ousia e porque a ousia oferece o ser real everdadeiro de um ente, oferece o on íntimo e perene, a Filosofia Primeira deveriaser designada com a palavra ontologia. Nesse caso, a palavra metafísica seriaapenas a indicação do lugar ocupado nas estantes pelos livros aristotélicos deFilosofia Primeira, localizados depois dos tratados sobre a física ou a Natureza.A palavra ontologia diria qual é o assunto da Filosofia Primeira, enquanto apalavra metafísica diria apenas qual é o lugar dos livros da Filosofia Primeira nocatálogo das obras de Aristóteles.Por que, então, a tradição filosófica consagrou a palavra metafísica, em lugar deontologia? Porque Aristóteles, ao definir a Filosofia Primeira, também afirmouque ela estuda os primeiros princípios e as causas primeiras de todos os seres oude todas as essências, estudo que deve vir antes de todos os outros, porque é acondição de todos eles.Que quer dizer “vir antes”? Para Aristóteles, significa estar acima dos demais,estar além do que vem depois, ser superior ao que vem depois, ser a condição daexistência e do conhecimento do que vem depois. Ora, a palavra meta quer dizerisso mesmo: o que está além de, o que está acima de, o que vem depois, mas nosentido de ser superior ou de ser a condição de alguma coisa. Se assim é,então a palavra metafísica não quer dizer apenas o lugar onde se encontram osescritos posteriores aos tratados de física, não indica um mero lugar numcatálogo de obras, mas significa o estudo de alguma coisa que está acima e alémdas coisas físicas ou naturais e que é a condição da existência e do conhecimentodelas.Por isso, a tradição consagrou a palavra metafísica, mais do que a palavraontologia. Metafísica, nesse caso, quer dizer: aquilo que é condição efundamento de tudo o que existe e de tudo o que puder ser conhecido. – 267 –

Convite à Filosofia _______________________________Até aqui respondemos à pergunta: Por que metafísica em lugar de ontologia?Mas ainda não respondemos à pergunta principal: Por que a metafísica ouontologia ocupou o lugar que, no início da Filosofia, era ocupado pelacosmologia ou física? Para isso, precisamos acompanhar os motivos que levarama uma crise da cosmologia e ao surgimento da ontologia, que receberia o nomede metafísica.O surgimento da ontologia: Parmênides de EléiaQuando estudamos o surgimento da lógica, vimos a importância do pensamentode Parmênides. Foi ele o primeiro filósofo a afirmar que o mundo percebido pornossos sentidos – o cosmos estudado pela cosmologia – é um mundo ilusório,feito de aparências, sobre as quais formulamos nossas opiniões. Foi ele também oprimeiro a contrapor a esse mundo mutável (feito de mudança perene doscontrários que se transformam uns nos outros) a idéia de um pensamento e de umdiscurso verdadeiros referidos àquilo que é realmente, ao Ser – to on, On.O Ser é, diz Parmênides. Com isso, pretendeu dizer que o Ser é sempre idêntico asi mesmo, imutável, eterno, imperecível, invisível aos nossos sentidos e visívelapenas para o pensamento. Foi Parmênides o primeiro a dizer que a aparênciasensível das coisas da Natureza não possui realidade, não existe real everdadeiramente, não é. Contrapôs, assim, o Ser (On) ao Não-Ser (me On),declarando: o Não-Ser não é. A Filosofia é chamada por Parmênides de a Via daVerdade (aletheia), que nega realidade e conhecimento à Via da Opinião (doxa),pois esta se ocupa com as aparências, com o Não-Ser.Ora, a cosmologia ou física ocupava-se justamente com o mundo quepercebemos e no qual vivemos com as demais coisas naturais. Ocupava-se com aNatureza enquanto um cosmos ou ordem regular e constante de surgimento,transformação e desaparecimento das coisas. A cosmologia buscava a explicaçãopara o devir, isto é, para a mudança das coisas, para a passagem de uma coisa aum outro modo de existir, contrário ao que possuía. (O dia vira noite, a saúdevira doença, o frio esquenta, o quente esfria, o úmido seca, o seco umedece, onovo envelhece, o vivo morre, o pequeno aumenta, o grande diminui, etc.). Acosmologia dedicava-se à multiplicidade dos seres, à mutabilidade deles e àsoposições entre eles.Parmênides tornou a cosmologia impossível ao afirmar que o pensamentoverdadeiro exige a identidade e a não-contradição do Ser. Considerando amudança de uma coisa em outra contrária como o Não-Ser, Parmênides tambémafirmava que o Ser não muda porque não tem como e nem por que mudar e nãotem no que mudar, pois, se mudasse, deixaria de ser o Ser, tornando-se contrárioa si mesmo, o Não-Ser. Como conseqüência, mostrou que o pensamentoverdadeiro não admite a multiplicidade ou pluralidade de seres e que o Ser é unoe único.Os argumentos da Escola Eleata eram rigorosos. Diziam: – 268 –

Marilena Chauí _______________________________? admitamos que o Ser não seja uno, mas múltiplo. Nesse caso, cada ser é elemesmo e não é os outros seres; portanto, cada ser é e não é ao mesmo tempo, oque é impensável ou absurdo. O Ser é uno e não pode ser múltiplo;? admitamos que o Ser n seja eterno, mas teve um começo e terá um fim. ãoAntes dele, o que havia? Outro Ser? Não, pois o Ser é uno. O Não-Ser? Não, poiso Não-Ser é o nada. Portanto, o Ser não pode ter tido um começo. Terá um fim?Se tiver, que virá depois dele? Outro Ser? Não, pois o Ser é uno. O Não-Ser?Não, pois o Não-Ser é o nada. Portanto, o Ser não pode acabar. Sem começo esem fim, o Ser é eterno;? admitamos que o Ser não seja imutável, mas mutável. No que o Ser mudaria?Noutro Ser? Não, pois o Ser é uno. No Não-Ser? Não, pois o Não-Ser é o nada.Portanto, se o Ser mudasse, tornar-se-ia Não-Ser e desapareceria. O Ser éimutável e o devir é uma ilusão de nossos sentidos.O que Parmênides afirmava era a diferença entre pensar e perceber. Percebemosa Natureza na multiplicidade e na mutabilidade das coisas que se transformamumas nas outras e se tornam contrárias a si mesmas. Mas pensamos o Ser, isto é,a imutabilidade e a eternidade daquilo que é em si mesmo. Perceber é veraparências. Pensar é contemplar a realidade como idêntica a si mesma. Pensar écontemplar o to on, o Ser.Multiplicidade, mudança, nascimento e perecimento são aparências, ilusões dossentidos. Ao abandoná-las, a Filosofia passou da cosmologia à ontologia.Platão e o mundo das essênciasTambém ao estudarmos a lógica, vimos que Platão dedicou a sua obra àresolução do impasse filosófico criado pelo antagonismo entre o pensamento deHeráclito de Éfeso e o de Parmênides de Eléia.Platão considerou que Heráclito tinha razão no que se refere ao mundo material esensível, mundo das imagens e das opiniões. A matéria, diz Platão, é, poressência e por natureza, algo imperfeito, que não consegue manter a identidadedas coisas, mudando sem cessar, passando de um estado a outro, contrário ouoposto. O mundo material ou de nossa experiência sensível é mutável econtraditório e, por isso, dele só nos chegam as aparências das coisas e sobre elesó podemos ter opiniões contrárias e contraditórias.Por esse motivo, diz Platão, Parmênides está certo ao exigir que a Filosofia devaabandonar esse mundo sensível e ocupar-se com o mundo verdadeiro, invisívelaos sentidos e visível apenas ao puro pensamento. O verdadeiro é o Ser, uno,imutável, idêntico a si mesmo, eterno, imperecível, puramente inteligível.Eis por que a ontologia platônica introduz uma divisão no mundo, afirmando aexistência de dois mundos inteiramente diferentes e separados: o mundo sensívelda mudança, da aparência, do devir dos contrários, e o mundo inteligível daidentidade, da permanência, da verdade, conhecido pelo intelecto puro, sem – 269 –

Convite à Filosofia _______________________________qualquer interferência dos sentidos e das opiniões. O primeiro é o mundo dascoisas. O segundo, o mundo das idéias ou das essências verdadeiras. O mundodas idéias ou das essências é o mundo do Ser; o mundo sensível das coisas ouaparências é o mundo do Não-Ser. O mundo sensível é uma sombra, uma cópiadeformada ou imperfeita do mundo inteligível das idéias ou essências.Notamos, aqui, uma diferença entre a ontologia de Parmênides e a de Platão. Parao primeiro, o mundo sensível das aparências é o Não-Ser em sentido forte, isto é,não existe, não é, não tem realidade nenhuma, é o nada. Para Platão, porém, oNão-Ser não é o puro nada. Ele é alguma coisa. O que ele é? Ele é o outro(alienus) do Ser, o que é diferente do Ser, o que é inferior ao Ser, o que nosengana e nos ilude, a causa dos erros. Em lugar de ser um puro nada, o Não-Ser éum falso ser, uma sombra do Ser verdadeiro, aquilo que Platão chama depseudo-Ser. O Não-Ser é sensível.Há ainda uma outra diferença importante entre a ontologia de Parmênides e a dePlatão. O primeiro afirmava que o Ser, além de imutável, eterno e idêntico a simesmo, era único ou uno. Havia o Ser. Qual o problema dessa afirmaçãoparmenideana?Se, do lado do devir heraclitiano, havia uma multiplicidade infinita de serescontrários uns aos outros e contrários a si mesmos (pois cada um se tornavacontrário a si próprio - o dia tornando-se noite, o seco tornando-se úmido, etc.),multiplicidade contraditória que não poderia ser pensada nem dita, visto que opensamento exige a identidade do pensado, no entanto, do lado da identidadeuna-única de Parmênides, que restava para a Filosofia? Só lhe restava pensar edizer três frases: O Ser é. O Não-Ser não é. O Ser é uno, idêntico, eterno eimutável.Em suma, a Filosofia começava e terminava nessas três frases, nada maispodendo pensar ou dizer. Parmênides paralisava a Filosofia. Se esta quisesseprosseguir como investigação da verdade e se tivesse mais objetos a conhecer,era preciso quebrar a unidade-unicidade do Ser de Parmênides. Foi o que fezPlatão. Que disse ele?Em primeiro lugar, seguindo Sócrates e os sofistas, Platão distinguiu doissentidos para a palavra Ser: o sentido forte, em que Ser significa realidade ouexistência (o Ser é), e o sentido mais fraco, em que Ser é o verbo ser como verbode ligação, isto é, o verbo que permite ligar um sujeito a um predicado (porexemplo: O homem é mortal). Distinguiu, assim, dois sentidos para o verbo ser:o sentido existencial e o sentido predicativo. Por exemplo: “O homem é” (existe)e “O homem é mortal ”.Em segundo lugar, afirmou que, no sentido forte de Ser, existem múltiplos serese não um só, mas cada um deles possui os atributos do Ser de Parmênides(identidade, unidade, eternidade, imutabilidade). Esses seres são as idéias ouformas imateriais, que constituem o mundo verdadeiro, o mundo inteligível. – 270 –

Marilena Chauí _______________________________São seres reais as idéias do bem, do belo, do justo, do homem, dos astros, doamor, do animal, do vegetal, etc.Em terceiro lugar, afirmou que, no sentido mais fraco do verbo de ligação ou dapredicação, cada idéia é um sujeito real, que possui um conjunto de predicadosreais ou de propriedades essenciais e que a fazem ser o que ela é em si mesma.Uma idéia é (existe) e uma idéia é uma essência ou conjunto de qualidadesessenciais que a fazem ser o que ela é necessariamente (possui predicadosverdadeiros). Por exemplo, a justiça é (há a idéia de justiça) e há seres humanosque são justos (possuem o predicado da justiça como parte de sua essência).Dessa maneira, cada idéia, em si mesma, é una, idêntica a si mesma, eterna eimutável – uma idéia é. Ao mesmo tempo, cada idéia difere de todas as outraspelo conjunto de qualidades ou propriedades internas e necessárias pelas quaisela é uma essência determinada, diferente das demais (a idéia de homem édiferente da idéia de planeta, que é diferente da idéia de beleza, que é diferenteda idéia de coragem, etc.).A tarefa da Filosofia é dupla:1. deve conhecer que idéias existem, isto é, que idéias são ;2. deve conhecer quais são as qualidades ou propriedades essenciais de umaidéia, isto é, o que uma idéia é, sua essência.As idéias ou formas imateriais (ou essências inteligíveis), diz Platão, são seresperfeitos e, por sua perfeição, tornam-se modelos inteligíveis ou paradigmasinteligíveis perfeitos que as coisas sensíveis materiais tentam imitarimperfeitamente. O sensível é, pois, uma imitação imperfeita do inteligível: ascoisas sensíveis são imagens das idéias, são não-seres tentando inutilmente imitara perfeição dos seres inteligíveis.Cabe à Filosofia passar das cópias imperfeitas aos modelos perfeitos,abandonando as imagens ou aparências pelas essências, e as opiniões pelasidéias. O pensamento deve passar da instabilidade contraditória das coisassensíveis à identidade racional das coisas inteligíveis, à identidade das idéias quesão a realidade, o ser, o to on.Como passamos das coisas sensíveis, das cópias, imagens ou opiniões às idéiasou essências? Pela dialética (que estudamos na unidade dedicada à lógica).Tomemos alguns exemplos para melhor compreendermos o que é a ontologiaplatônica.Numa obra, o diálogo Laques, Platão coloca seu mestre Sócrates conversandocom alguns atenienses. São pais de família preocupados com a educação de seusfilhos. Os gregos, como sabemos, valorizavam muito o jovem de corpo belo,educado pela ginástica e pela dança para tornar-se um guerreiro corajoso. Acoragem era, assim, extremamente valorizada. – 271 –

Convite à Filosofia _______________________________Os pais com quem conversa Sócrates estão a caminho de uma aula de esgrima,num curso dado por um professor muito famoso. Indagam, então, se oaprendizado da esgrima será benéfico para seus filhos quando forem à guerra.Uns acham que sim, outros dizem que não. Há, pois, duas opiniões contrárias oucontraditórias na conversa. Apelam para Sócrates dizendo-lhe: “Como você é umsábio, venha ajudar-nos em nossa polêmica e diga-nos se a esgrima é ou nãobenéfica para formar a coragem de nossos filhos”.Sócrates intervém, afirmando: “Só poderei ajudá-los a decidir sobre esse assuntose primeiro discutirmos uma outra coisa e não a esgrima”. “O que devemosdiscutir primeiro?”, indagam os pais. Responde Sócrates: “O que é a coragem,uma vez que vocês desejam filhos corajosos. Enquanto não soubermos o que é aessência da coragem não saberemos qual educação é benéfica para ela.Precisamos conhecer a idéia da coragem para saber, em nosso mundo, quando ecomo existem pessoas corajosas e atos corajosos. Para saber o que são as coisasque percebemos, precisamos, primeiro, saber o que são as coisas em si mesmas,isto é, precisamos pensar suas idéias ou essências ”.Os pais se põem novamente a discutir. Cada um dá exemplos de atos que julgacorajosos. E, novamente, suas opiniões são contrárias. Diz Sócrates: “Vocês nãome entenderam. Não pedi para darem exemplos de coragem, nem opiniões sobreatos corajosos. Eu lhes pedi que me dissessem o que é, em si mesma, a coragem.Qual é a essência da coragem que nos permite dizer, diante de uma açãoparticular, que tal ação é ou não corajosa? Qual é o ser da coragem?”A discussão recomeça e, agora, cada um dos participantes da conversa ofereceuma definição da coragem. Diz um: “A coragem é não fugir na guerra”. RetrucaSócrates: “Mas, e os espartanos, tidos como dos mais corajosos, e queinventaram uma tática de recuar, fugir, levando o inimigo para seu campo e alipodendo derrotá-lo? Fogem. Não são corajosos?”. Diz outro: “A coragem é nãotemer o perigo”. “Ora”, contrapõe Sócrates, “e as histórias maravilhosas queconhecemos de capitães de navio que salvaram os passageiros de grandestempestades, justamente escolhendo não zarpar quando os ventos eramdesfavoráveis e, portanto, fugindo do perigo? Não são corajosos?”.E, finalmente, outro pai dá a sua definição: “A coragem é saber o que se deve e oque não se deve temer”. “Será?”, indaga Sócrates. “Se assim for, teremos quedizer que os comerciantes espertos, que sabem quando um negócio é temerário enão o fazem, são corajosos?” “Creio”, diz Sócrates, “que ainda não me fizentender. Vocês estão oferecendo opiniões sobre a coragem e imagens dacoragem, mas não estão buscando a essência da coragem. Não conseguiram aindachegar, pelo pensamento, à idéia da coragem; estão falando da aparência dacoragem. Estão falando da coragem sensível e não estão pensando a corageminteligível.” – 272 –

Marilena Chauí _______________________________O diálogo é interrompido nesse ponto, quando Sócrates sugere aos interlocutoresque, talvez, ainda não tenham conseguido chegar à idéia da coragem porque nãoprocuraram uma outra idéia que deve vir antes da coragem. Que idéia? “Todos,aqui”, diz Sócrates, “julgam a coragem um valor positivo e, portanto, umavirtude. Nesse caso, antes de saber o que é a coragem, temos que conhecer umaoutra idéia da qual a idéia de coragem depende: a idéia de virtude. Sem conhecera essência da virtude, sem conhecer o ser da virtude, não sabemos qual é aessência da coragem”. Ao se despedir, Sócrates promete voltar a conversar comos pais para com eles buscar a essência ou a idéia da virtude.Em todos os seus diálogos, Platão procede da mesma maneira. O diálogo começacom os interlocutores julgando que sabem do que falam. Sócrates (que, nosdiálogos, representa Platão), leva-os a descobrir que não sabem o queimaginavam saber, mostrando-lhes que possuem imagens e opiniõescontraditórias sobre aquilo de que falam.Possuem a aparência do que discutem, mas não a essência e por isso se enganamo tempo todo, contradizendo-se uns aos outros. O diálogo, isto é, a dialética oufilosofia, é o caminho que nos conduz das sensações, das percepções, dasimagens e das opiniões à contemplação intelectual do ser real das coisas, à idéiaverdadeira, que existe em si mesma no mundo das puras idéias ou no mundointeligível.Num outro diálogo, o Banquete, será buscada a idéia ou a essência do amor.Numa festa, oferecida por um poeta que ganhou um prêmio por sua poesia,conversam cinco amigos e Sócrates. Um deles afirma que todos os deusesrecebem hinos e poemas de louvor, mas nenhum foi feito ao melhor dos deuses,Eros, o amor. Propõe-se, então, que cada um faça uma homenagem a Erosdizendo o que é o amor.Para um deles, o amor é o mais bondoso dos deuses, porque nos leva ao sacrifíciopelo ser amado, inspira-nos devotamento e o desejo de fazer o bem. Para oseguinte, é preciso distinguir dois tipos de amor: o amor sexual e grosseiro e oamor espiritual entre as almas, pois o primeiro é breve e logo acaba, enquanto osegundo é eterno. Já o terceiro afirma que os que o antecederam limitaram muitoo amor, tomando-o apenas como uma relação entre duas pessoas. O amor, dizele, é o que ordena, organiza e orienta o mundo, pois é ele que faz os semelhantesse aproximarem e os diferentes se afastarem. O amor é uma força cósmica deordem e harmonia do universo.O quarto prefere retornar ao amor entre as pessoas e narra um mito. No princípio,os humanos eram de três tipos: havia o homem duplo, a mulher dupla e ohomem-mulher, isto é, o andrógino. Tinham um só corpo, com duas cabeças,quatro braços e quatro pernas. Como se julgavam seres completos, decidiramhabitar no céu. Zeus, rei dos deuses, enfureceu-se, tomou de uma espada e oscortou pela metade. – 273 –

Convite à Filosofia _______________________________Decaídos, separados e desesperados, os humanos teriam desaparecido se Erosnão lhes tive sse dado órgãos sexuais e os ajudasse a procurar a metade perdida.Os que eram homens duplos e mulheres duplas amam os de mesmo sexo,enquanto os que eram andróginos amam a pessoa do sexo oposto. Amar éencontrar a nossa metade e o amor é esse encontro.Finalmente, o poeta, anfitrião da festa, toma a palavra dizendo: Todos os que meprecederam louvaram o amor pelo bem que faz aos humanos, mas nenhumlouvou o amor por ele mesmo. É o que farei. O amor, Eros, é o mais belo, omelhor dos deuses. O mais belo, porque sempre jovem e sutil, porque penetraimperceptivelmente nas almas; o melhor, porque odeia a violência e a desfazonde existir; inspira os artistas e poetas, trazendo a beleza ao mundo.Resta Sócrates. “Não poderei falar”, diz ele. “Não tenho talento para fazerdiscursos tão belos.” Os outros, porém, não se conformam e o obrigam a falar.“Está bem”, retruca ele. “Mas falarei do meu jeito.”Com essa pequena frase, Platão mudará todo o tom do diálogo, pois, “falar domeu jeito” significa: Não vou fazer elogios e louvores às imagens e aparências doamor, não vou emitir mais uma opinião sobre o amor, mas vou buscar a essênciado amor, o ser do amor, vou investigar a idéia do amor.Sócrates também começa com um mito. Quando a deusa Afrodite nasceu, houveuma grande festa para os deuses, mas esqueceram-se de convidar a deusa Penúria(Pênia). Miserável e faminta, Penúria esperou o final da festa, esgueirou-se pelosjardins e comeu os restos, enquanto os demais deuses dormiam. Num canto dojardim, viu Engenho Astuto (Poros) e desejou conceber um filho dele, deitando-se ao seu lado. Desse ato sexual nasceu Eros, o amor. Como sua mãe, Eros estásempre carente, faminto, miserável; como seu pai, Eros é astuto, sabe criarexpedientes engenhosos para conseguir o que quer.Qual o sentido do mito? Nele descobrimos que o amor é carência e astúcia,desejo de saciar a fome e a sede, desejo de preenchimento, desejo de completar-se e de encontrar a plenitude. Amar é desejar o amado como o que nos completa,nos sacia e satisfaz, nos dá plenitude. Amar é desejar fundir-se na plenitude doamado e ser um só com ele.O que pode completar e dar plenitude a um ser carente? O que é em si mesmocompleto e pleno, isto é, o que é perfeito. O amor é desejo de perfeição.O que é a perfeição? A harmonia, a proporção, a integridade ou inteireza daforma. Desejamos as formas perfeitas. O que é uma forma perfeita? A formaperfeita é a forma acabada, plena, inteiramente realizada, sem falhas, sem faltas,sem defeitos, sem necessidade de transformar-se, isto é, sem necessidade demudar de forma. A forma perfeita é o que chamamos de beleza. O amor é desejode beleza. – 274 –

Marilena Chauí _______________________________Onde está a beleza nas coisas corporais? Nos corpos belos, cuja união engendrauma beleza: a imortalidade dos pais através dos filhos. Onde está a beleza nascoisas incorporais? Nas almas belas, cuja beleza está na perfeição de seuspensamentos e ações, isto é, na inteligência.Que amamos quando amamos corpos belos? O que há de imperecível naquiloque, por natureza, é perecível, isto é, amamos a posteridade ou a descendência.Que amamos quando amamos almas belas? O que há de imperecível nainteligência, isto é, as idéias. O amor pelos corpos belos é uma imagem ou umasombra do amor pelo imperecível, mas o amor pelas almas belas é o amor poralgo que é em si mesmo e por si mesmo imperecível e absolutamente perfeito.Se o amor é desejo de identificar-se com o amado, de fundir-se nele tornando-secomo ele, então a qualidade ou a natureza do ser amado determina se um amor éplenamente verdadeiro ou uma aparência de amor. Amar o perecível é tornar-seperecível também. Amar o mutável é tornar-se mutável também. O perecível e omutável são sombras, cópias imperfeitas do ser verdadeiro, imperecível eimutável. As formas corporais belas são sombras ou imagens da verdadeirabeleza imperecível. Abandonando-as pela verdadeira beleza, amamos não esta ouaquela coisa bela, mas a idéia ou a essência da beleza, o belo em si mesmo,único, real.As almas belas são belas porque nelas há a presença, ainda que invisível àprimeira vista, de algo imperecível: o intelecto, parte imortal de nossa alma. Queama o intelecto? Um outro intelecto que seja mais belo e mais perfeito do que elee que, ao ser amado, torna perfeito e belo quem o ama. O que é um intelectoverdadeiramente belo e perfeito? O que ama a beleza perfeita. Onde se encontra atal beleza? Nas idéias.O que é a essência ou a idéia do amor? O amor é o desejo da perfeiçãoimperecível das formas belas, daquilo que permanece sempre idêntico a simesmo, daquilo que pode ser contemplado plenamente pelo intelecto e conhecidoplenamente pela inteligência. Sendo amor intelectual pelo inteligível ou pelasidéias, o amor é o desejo de saber: philo sophia, amor da sabedoria. Pelo amor, ointelecto humano participa do inteligível, toma parte no mundo das idéias ou dasessências, conhecendo o ser verdadeiro.A ontologia é, assim, a própria Filosofia e o conhecimento do Ser, isto é, dasidéias, é a passagem das opiniões sobre as coisas sensíveis mutáveis rumo aopensamento sobre as essências imutáveis. Passar do sensível ao inteligível –tarefa da Filosofia – é passar da aparência ao real, do Não-Ser ao Ser. – 275 –

Convite à Filosofia _______________________________ Capítulo 2 A metafísica de AristótelesDiferença entre Aristóteles e seus predecessoresEmbora a ontologia ou metafísica tenha começado com Parmênides e Platão,costuma-se atribuir seu nascimento a Aristóteles por três motivos principais:1. diferentemente de seus dois predecessores, Aristóteles não julga o mundo dascoisas sensíveis, ou a Natureza, um mundo aparente e ilusório. Pelo contrário, éum mundo real e verdadeiro cuja essência é, justamente, a multiplicidade deseres e a mudança incessante.Em lugar de afastar a multiplicidade e o devir como ilusões ou sombras doverdadeiro Ser, Aristóteles afirma que o ser da Natureza existe, é real, que seumodo próprio de existir é a mudança e que esta não é uma contradiçãoimpensável. É possível uma ciência teorética verdadeira sobre a Natureza e amudança: a física. Mas é preciso, primeiro, demonstrar que o objeto da física éum ser real e verdadeiro e isso é tarefa da Filosofia Primeira ou da metafísica.2. diferentemente de seus dois predecessores, Aristóteles considera que aessência verdadeira das coisas naturais e dos seres humanos e de suas ações nãoestá no mundo inteligível, separado do mundo sensível, onde as coisas físicas ounaturais existem e onde vivemos. As essências, diz Aristóteles, estão nas própriascoisas, nos próprios homens, nas próprias ações e é tarefa da Filosofia conhecê-las ali mesmo onde existem e acontecem.Como conhecê-las? Partindo da sensação até alcançar a intelecção. A essência deum ser ou de uma ação é conhecida pelo pensamento, que capta as propriedadesinternas desse ser ou dessa ação, sem as quais ele ou ela não seriam o que são. Ametafísica não precisa abandonar este mundo, mas, ao contrário, é oconhecimento da essência do que existe em nosso mundo. O que distingue aontologia ou metafísica dos outros saberes (isto é, das ciências e das técnicas) é ofato de que nela as verdades primeiras ou os princípios universais e toda equalquer realidade são conhecidos direta ou indiretamente pelo pensamento oupor intuição intelectual, sem passar pela sensação, pela imaginação e pelamemória.3. ao se dedicar à Filosofia Primeira ou metafísica, a Filosofia descobre que hádiferentes tipos ou modalidades de essências ou de ousiai. – 276 –

Marilena Chauí _______________________________Existe a essência dos seres físicos ou naturais (minerais, vegetais, animais,humanos), cujo modo de ser se caracteriza por nascer, viver, mudar, reproduzir-se e desaparecer – são seres em devir e que existem no devir.Existe a essência dos seres matemáticos, que não existem em si mesmos, masexistem como formas das coisas naturais, podendo, porém, ser separados delaspelo pensamento e ter suas essências conhecidas; são seres que, por essência, nãonascem, não mudam, não se transformam nem perecem, não estando em devirnem no devir.Existe a essência dos seres humanos, que compartilham com as coisas físicas osurgir, o mudar e o desaparecer, compartilhando com as plantas e os animais acapacidade para se reproduzir, mas distinguindo-se de todos os outros seres porserem essencialmente racionais, dotados de vontade e de linguagem. Pela razão,conhecem; pela vontade, agem; pela experiência, criam técnicas e artes. E,finalmente, existe a essência de um ser eterno, imutável, imperecível, sempreidêntico a si mesmo, perfeito, imaterial, conhecido apenas pelo intelecto, que oconhece como separado de nosso mundo, superior a tudo que existe, e que é o serpor excelência: o ser divino.Se há tão diferentes tipos de essências, se para cada uma delas há uma ciência(física, biologia, meteorologia, astronomia, psicologia, matemática, ética,política, etc.), deve haver uma ciência geral, mais ampla, mais universal, anteriora todas essas, cujo objeto não seja essa ou aquela modalidade de essência, mas aessência em geral. Trata-se de uma ciência teorética que investiga o que é aessência e aquilo que faz com que haja essências particulares e diferenciadas.Essa ciência mais alta, mais ampla, mais universal, que se ocupa com a essência,que estuda por que há essências e como são as essências investigadas pelasdemais ciências, é a Filosofia Primeira, escreve Aristóteles no primeiro livro daMetafísica.A metafísica aristotélicaNa Metafísica, Aristóteles afirma que a Filosofia Primeira estuda os primeirosprincípios e as causas primeiras de todas as coisas e investiga “o Ser enquantoSer”.Ao definir a ontologia ou metafísica como estudo do “Ser enquanto Ser”,Aristóteles está dizendo que a Filosofia Primeira estuda as essências semdiferenciar essências físicas, matemáticas, astronômicas, humanas, técnicas, etc.,pois cabe às diferentes ciências estudá-las enquanto diferentes entre si. Àmetafísica cabem três estudos:1. o do ser divino, a realidade primeira e suprema da qual todo o restante procuraaproximar-se, imitando sua perfeição imutável. As coisas se transformam, dizAristóteles, porque desejam encontrar sua essência total e perfeita, imutávelcomo a essência divina. É pela mudança incessante que buscam imitar o que não – 277 –

Convite à Filosofia _______________________________muda nunca. Por isso, o ser divino é o Primeiro Motor Imóvel do mundo, isto é,aquilo que, sem agir diretamente sobre as coisas, ficando à distância delas, asatrai, é desejado por elas. Tal desejo as faz mudar para, um dia, não mais mudar(esse desejo, diz Aristóteles, explica por que há o devir e por que o devir éeterno, pois as coisas naturais nunca poderão alcançar o que desejam, isto é, aperfeição imutável).Observamos, assim, que Aristóteles, como Platão, também afirma que a Naturezaou o mundo físico ou humano imitam a perfeição do imutável; porém,diferentemente de Platão, para Aristóteles essa imitação não é uma cópiadeformada, uma imagem ou sombra do Ser verdadeiro, mas o modo de existir oude ser das coisas naturais e humanas.A mudança ou o devir são a maneira pela qual a Natureza, ao seu modo, seaperfeiçoa e busca imitar a perfeição do imutável divino. O ser divino chama-sePrimeiro Motor porque é o princípio que move toda a realidade, e chama-sePrimeiro Motor Imóvel porque não se move e não é movido por nenhum outroente, pois, como já vimos, movervi significa mudar, sofrer alterações qualitativase quantitativas, nascer é perecer, e o ser divino, perfeito, não muda nunca;2. o dos primeiros princípios e causas primeiras de todos os seres ou essênciasexistentes;3. o das propriedades ou atributos gerais de todos os seres, sejam eles quaisforem, graças aos quais podemos determinar a essência particular de um serparticular existente. A essência ou ousia é a realidade primeira e última de umser, aquilo sem o qual um ser não poderá existir ou sem o qual deixará de ser oque é. À essência, entendida sob essa perspectiva universal, Aristóteles dá onome de substância: o substrato ou o suporte permanente de qualidades ouatributos necessários de um ser. A metafísica estuda a substância em geral.Os principais conceitos da metafísica aristotélicaDe maneira muito breve e simplificada, os principais conceitos da metafísicaaristotélica (e que se tornarão as bases de toda a metafísica ocidental) podem serassim resumidos:? primeiros princípios: são os três princípios que estudamos na lógica, isto é,identidade, não-contradição e terceiro excluído. Os princípios lógicos sãoontológicos porque definem as condições sem as quais um ser não pode existirnem ser pensado; os primeiros princípios garantem, simultaneamente, a realidadee a racionalidade das coisas;? causas primeiras: são aquelas que explicam o que a essência é e também aorigem e o motivo da existência de uma essência. Causa (para os gregos)significa não só o porquê de alguma coisa, mas também o o que e o como umacoisa é o que ela é. As causas primeiras nos dizem o que é, como é, por que é epara que é uma essência. São quatro as causas primeiras: – 278 –

Marilena Chauí _______________________________1. caus a material, isto é, aquilo de que uma essência é feita, sua matéria (porexemplo, água, fogo, ar, terra);2. causa formal, isto é, aquilo que explica a forma que uma essência possui (porexemplo, o rio ou o mar são formas da água; mesa é a forma assumida p elamatéria madeira com a ação do carpinteiro; margarida é a forma que a matériavegetal possui na essência de uma flor determinada, etc.);3. causa eficiente ou motriz, isto é, aquilo que explica como uma matéria recebeuuma forma para constituir uma essência (por exemplo, o ato sexual é a causaeficiente que faz a matéria do espermatozóide e do óvulo receber a forma de umnovo animal ou de uma criança; o carpinteiro é a causa eficiente que faz amadeira receber a forma da mesa; o fogo é a causa eficiente que faz os corposfrios tornarem-se quentes, etc.); e4. a causa final, isto é, a causa que dá o motivo, a razão ou finalidade paraalguma coisa existir e ser tal como ela é (por exemplo, o bem comum é a causafinal da política, a felicidade é a causa final da ação ética; a flor é a causa final dasemente transformar-se em árvore; o Primeiro Motor Imóvel é a causa final domovimento dos seres naturais, etc.).? matéria: é o elemento de que as coisas da Natureza, os animais, os homens, osartefatos são feitos; sua principal característica é possuir virtualidades ou conterem si mesma possibilidades de transformação, isto é, de mudança;? forma: é o que individualiza e determina uma matéria, fazendo existir as coisasou os seres particulares; sua principal característica é ser aquilo que uma essênciaé num determinado momento, pois a forma é o que atualiza as virtualidadescontidas na matéria;? potência: é o que está contido numa matéria e pode vir a existir, se foratualizado por alguma causa; por exemplo, a criança é um adulto em potência ouum adulto em potencial; a semente é a árvore em potência ou em potencial;? ato: é a atualidade de uma matéria, isto é, sua forma num dado instante dotempo; o ato é a forma que atualizou uma potência contida na matéria. Porexemplo, a árvore é o ato da semente, o adulto é o ato da criança, a mesa é o atoda madeira, etc. Potência e matéria são idênticos, assim como forma e ato sãoidênticos. A matéria ou potência é uma realidade passiva que precisa do ato e daforma, isto é, da atividade que cria os seres determinados;? essência: é a unidade interna e indissolúvel entre uma matéria e uma forma,unidade que lhe dá um conjunto de propriedades ou atributos que a fazem sernecessariamente aquilo que ela é. Assim, por exemplo, um ser humano é poressência ou essencialmente um animal mortal racional dotado de vontade, geradopor outros semelhantes a ele e capaz de gerar outros semelhantes a ele, etc.;? acidente: é uma propriedade ou atributo que uma essência pode ter ou deixarde ter sem perder seu ser próprio. Por exemplo, um ser humano é racional ou – 279 –

Convite à Filosofia _______________________________mortal por essência, mas é baixo ou alto, gordo ou magro, negro ou branco, poracidente. A humanidade é a essência essencial (animal, mortal, racional,voluntário), enquanto o acidente é o que, existindo ou não existindo, nunca afetao ser da essência (magro, gordo, alto, baixo, negro, branco). A essência é ouniversal; o acidente, o particular;? substância ou sujeito: é o substrato ou o suporte onde se realizam a matéria-potência, a forma-ato, onde estão os atributos essenciais e acidentais, sobre oqual agem as quatro causas (material, formal, eficiente e final) e que obedece aostrês princípios lógico-ontológicos (identidade, não-contradição e terceiroexcluído); em suma, é o Ser. Aristóteles usa o conceito de substância em doissentidos: num primeiro sentido, substância é o sujeito individual (Sócrates, estamesa, esta flor, Maria, Pedro, este cão, etc.); num segundo sentido, a substância éo gênero ou a espécie a que o sujeito individual pertence (homem, grego; animal,bípede; vegetal, erva; mineral, ferro; etc.).No primeiro sentido, a substância é um ser individual existente; no segundo é oconjunto das características gerais que os sujeitos de um gênero e de uma espéciepossuem. Aristóteles fala em substância primeira para referir-se aos seres ousujeitos individuais realmente existentes, com sua essência e seus acidentes (porexemplo, Sócrates); e em substância segunda para referir-se aos sujeitosuniversais, isto é, gêneros e espécies que não existem em si e por si mesmos, massó existem encarnados nos indivíduos, podendo, porém, ser conhecidos pelopensamento. Assim, por exemplo, o gênero “animal ” e as espécies “vertebrado”,“mamífero” e “humano ” não existem em si mesmos, mas existem em Sócrates ouatravés de Sócrates.O gênero é um universal formado por um conjunto de propriedades da matéria eda forma que caracterizam o que há de comum nos seres de uma mesma espécie.A espécie também é um universal formado por um conjunto de propriedades damatéria e da forma que caracterizam o que há de comum nos indivíduossemelhantes. Assim, o gênero é formado por um conjunto de espéciessemelhantes e as espécies, por um conjunto de indivíduos semelhantes. Osindivíduos ou substâncias primeiras são seres realmente existentes; os gêneros eas espécies ou substâncias segundas são universalidades que o pensamentoconhece através dos indivíduos;? predicados: são as oito categorias que vimos no estudo da lógica e quetambém são ontológicas, porque se referem à estrutura e ao modo de ser dasubstância ou da essência. Em outras palavras, os predicados atribuídos a umasubstância ou essência são constitutivos de seu ser e de seu modo de ser, poistoda realidade pode ser conhecida porque possui qualidades (mortal, imortal,finito, infinito, bom, mau, etc.), quantidades (um, muitos, alguns, pouco, muito,grande, pequeno), relaciona-se com outros (igual, diferente, semelhante, maior,menor, superior, inferior), está em algum lugar (aqui, ali, perto, longe, no alto,embaixo, em frente, atrás, etc.), está no tempo (antes, depois, agora, ontem, hoje, – 280 –

Marilena Chauí _______________________________amanhã, de dia, de noite, sempre, nunca), realiza ações ou faz alguma coisa(anda, pensa, dorme, corta, cai, prende, cresce, nasce, morre, germina, frutifica,floresce, etc.) e sofre ações de outros seres (é cortado, é preso, é morto, équebrado, é arrancado, é puxado, é atraído, é levado, é curado, é envenenado,etc.).As categorias ou predicados podem ser essenciais ou acidentais, isto é, podem sernecessários e indispensáveis à natureza própria de um ser, ou podem ser algo queum ser possui por acaso ou que lhe acontece por acaso, sem afetar sua natureza.Tomemos um exemplo. Se eu disser “Sócrates é homem”, necessariamente tereique lhe dar os seguintes predicados: mortal, racional, finito, animal, pensa, sente,anda, reproduz, fala, adoece, é semelhante a outros atenienses, é menor do queuma montanha e maior do que um gato, ama, odeia. Acidentalmente, ele poderáter outros predicados: é feio, é baixo, é diferente da maioria dos atenienses, écasado, conversou com Laques, esteve no banquete de Agáton, esculpiu trêsestátuas, foi forçado a envenenar-se pelo tribunal de Atenas.Se nosso exemplo, porém, fosse uma substância genérica ou específica, todos ospredicados teriam de ser essenciais, pois o acidente é o que acontece somentepara o indivíduo existente e o gênero e a espécie são universais que só existem nopensamento e encarnados nas essências individuais.Com esse conjunto de conceitos forma-se o quadro da ontologia ou metafísicaaristotélica como explicação geral, universal e necessária do Ser, isto é, darealidade. Esse quadro conceitual será herdado pelos filósofos posteriores, queproblematizarão alguns de seus aspectos, estabelecerão novos conceitos,suprimirão alguns outros, desenvolvendo o que conhecemos como metafísicaocidental.A metafísica aristotélica inaugura, portanto, o estudo da estrutura geral de todosos seres ou as condições universais e necessárias que fazem com que exista umser e que possa ser conhecido pelo pensamento. Afirma que a realidade no seutodo é inteligível ou conhecível e apresenta-se como conhecimento teorético darealidade sob todos os seus aspectos gerais ou universais, devendo preceder asinvestigações que cada ciência realiza sobre um tipo determinado de ser.A metafísica investiga:? aquilo sem o que não há seres nem conhecimento dos seres: os três princípioslógico-ontológicos (identidade, não-contradição e terceiro excluído) e as quatrocausas (material, formal, eficiente e final);? aquilo que faz um ser ser necessariamente o que ele é: matéria, potência, formae ato;? aquilo que faz um ser ser necessariamente como ele é: essência e predicados oucategorias; – 281 –

Convite à Filosofia _______________________________? aquilo que faz um ser existir como algo determinado: a substância individual(substância primeira) e a substância como gênero ou espécie (substânciasegunda).É isto estudar “o Ser enquanto Ser”. – 282 –

Marilena Chauí _______________________________ Capítulo 3 As aventuras da metafísicaO cristianismo e a tarefa da evangelizaçãoAo surgir, o cristianismo era mais uma entre as várias religiões orientais; suasraízes encontravam-se na religião judaica, isto é, numa religião que, como todasas religiões antigas, era nacional ou de um povo particular. No entanto, havianele algo inexistente no judaísmo e nas outras religiões antigas: a idéia deevangelização, isto é, de espalhar a “boa nova” para o mundo inteiro, a fim deconverter os não-cristãos e tornar-se uma religião universal.Ora, como converter a essa religião pessoas de outras religiões, que possuíam umpassado e um sentido próprios para elas? Os evangelizadores usaram muitosexpedientes para isso, levando em conta as condições e a mentalidade dos quedeveriam ser convertidos. Para o nosso assunto, interessa apenas um tipo deevangelização e conversão: o dos intelectuais gregos e romanos, isto é, daquelesque haviam sido formados não só em religiões diferentes da judaica, comotambém haviam sido educados na tradição racionalista da Filosofia. Paraconvertê-los e mostrar a superioridade da verdade cristã sobre a tradiçãofilosófica, os primeiros Padres da Igreja ou intelectuais cristãos (são Paulo, sãoJoão, santo Ambrósio, santo Eusébio, santo Agostinho, entre outros) adaptaramas idéias filosóficas à religião cristã e fizeram surgir uma Filosofia cristã.Sob vários aspectos, podemos dizer que o cristianismo, enquanto tal, nãoprecisava de uma filosofia:? sendo uma religião da salvação, seu interesse maior estava na moral, naprática dos preceitos virtuosos deixados por Jesus, e não em uma teoria sobre arealidade;? sendo uma religião vinda do judaísmo, já possuía uma idéia muito clara do queera o Ser, pois Deus disse a Moisés “Eu sou aquele que é, foi e será. Eu souaquele que sou”;? sendo uma religi ão, seu interesse maior estava na fé e não na razão teórica, nacrença e não no conhecimento intelectual, na Revelação e não na reflexão.Foi, portanto, o desejo de converter os intelectuais gregos e os chefes eimperadores romanos (isto é, aqueles que estavam acostumados à Filosofia) que“empurrou” os cristãos para a metafísica. – 283 –

Convite à Filosofia _______________________________As tradições metafísicas encontradas pelo cristianismoEvidentemente, as duas grandes tradições metafísicas incorporadas pelocristianismo foram o platonismo e o aristotelismo. No entanto, como as obras dePlatão e Aristóteles haviam ficado perdidas durante vários séculos, antes deincorporá-las o cristianismo tomou contato com três outras tradições metafísicas,que formaram, assim, o conteúdo das primeiras elaborações metafísicas cristãs: oneoplatonismo, o estoicismo e o gnosticismo.O neoplatonismo, como o nome indica, foi uma retomada da filosofia de Platão,mas com um conteúdo espiritualista e místico. Os neoplatônicos afirmavam aexistência de três realidades distintas por essência: o mundo sensível da matériaou dos corpos, o mundo inteligível das puras formas imateriais, e, acima dessesdois mundos, uma realidade suprema, separada de todo o resto, inalcançável pelointelecto humano, luz pura e esplendor imaterial, o Uno ou o Bem. Por ser umaluz, o Uno se irradia; suas irradiações (que os neoplatônicos chamavam deemanações) formaram o mundo inteligível, onde estão o Ser, a Inteligência e aAlma do Mundo.Dessas primeiras emanações perfeitas, seguiram outras, mais afastadas do Uno e,por isso, imperfeitas: o mundo sensível da matéria, imagem decaída ou cópiaimperfeita do mundo inteligível. Por seu intelecto, o homem participa do mundointeligível. Purificando-se da matéria de seu corpo, desenvolvendo seu intelecto,o homem pode subir além do pensamento e ter o êxtase místico, pelo qual sefunde com a luz do Uno e retorna ao seio da realidade suprema ou do Bem.O estoicismo, embora muito diferente do neoplatonismo – pois negava aexistência de realidades separadas e superiores ao mundo sensível -, tambéminfluenciou o pensamento cristão. Os estóicos afirmavam a existência de umaRazão Universal ou Inteligência Universal, que produz e governa toda arealidade, de acordo com um plano racional necessário, a que davam o nome deProvidência. O homem, embora impulsionado por instintos como os animais,participa da Razão Universal porque possui razão e vontade.A participação na racionalidade universal não se dá pelo simples conhecimentointelectual, mas pela ação moral, isto é, pela renúncia a todos os instintos, pelodomínio voluntário racional de todos os desejos e pela aceitação da Providência.A Razão Universal é a Natureza; a Providência é o conjunto das leis necessáriasque regem a Natureza; a ação racional humana (própria do sábio) é a vida emconformidade com a Natureza e com a Providência.O gnosticismo era um dualismo metafísico, isto é, afirmava a existência de doisprincípios supremos de onde provinha toda a realidade: o Bem, ou a luzimaterial, e o Mal, ou a treva material. Para os gnósticos, o mundo natural ou omundo sensível é o resultado da vitória do Mal sobre o Bem e por issoafirmavam que a salvação estava em libertar-se da matéria (do corpo), através doconhecimento intelectual e do êxtase místico. Gnosticismo vem da palavra grega – 284 –

Marilena Chauí _______________________________gnosis, que significa: conhecimento. Para os gnósticos, o conhecimentointelectual pode, por si mesmo, alcançar a verdade plena e total do Bem e afastaros poderes materiais do Mal.Que fez o cristianismo nascente?Adaptou à nova fé várias concepções da metafísica neoplatônica, dissoresultando os seguintes pontos doutrinários:? separação entre material-corporal e espiritual-incorporal;? separação entre Deus-Uno e o mundo material;? transformação da primeira emanação neoplatônica (Ser, Inteligência, Alma doMundo) na idéia da Trindade divina, pela afirmação de que o Deus-Uno semanifesta em três emanações idênticas a ele próprio: o Ser, que é o Pai; aInteligência, que é o Espírito Santo; a Alma do Mundo, que é o Filho;? afirmação de que há uma segunda emanação, isto é, aquela que vem da luz daTrindade e que forma o mundo inteligível das puras formas ou inteligênciasimateriais perfeitas, que são os anjos (arcanjos, querubins, serafins, etc.);? modificação da idéia neoplatônica quanto ao mundo sensível pela afirmação deque o mundo sensível ou material não é uma emanação de Deus, mas umacriação: Deus fez o mundo do nada, como diz a Bíblia, no livro da Gênese;? admissão de que a alma humana participa da divindade, mas não diretamente, esim pela mediação do Filho e do Espírito Santo, e que o conhecimento intelectualnão é suficiente para levar ao êxtase místico e ao contato com Deus, sendonecessária a graça santificante, que o crente recebe por um mistério divino.Do estoicismo, o cristianismo manteve duas idéias:? a de que existe uma Providência divina racional, que governa todas as coisas eo homem;? a de que a perfeição humana depende de abandonar todos os apetites, impulsose desejos corporais ou carnais, entregando-se à Providência. Essa entrega, porém,não é, como pensavam os estóicos, uma ação deliberada de nossa vontade guiadapela razão, mas exige como condição a fé em Cristo e a graça santificante.O gnosticismo será considerado uma heresia e, por isso, rejeitado. No entanto, ocristianismo conservará do gnosticismo duas idéias:? que o Mal existe realmente: é o demônio;? que a matéria ou a carne é o centro onde o demônio, isto é, o Mal, age sobre omundo e sobre o homem.Alguns séculos mais tarde, o cristianismo tomou conhecimento de algumas dasobras de Platão e de algumas das obras de Aristóteles que haviam sidoconservadas e traduzidas por filósofos árabes, como Averróis, Avicena e Alfarabi – 285 –

Convite à Filosofia _______________________________e comentadas por filósofos judeus como Filon de Alexandria e Maimônides.Reunindo essas obras e as elaborações precedentes, baseadas nas três tradiçõesmencionadas, o cristianismo reorganizou a metafísica grega, adaptando-a àsnecessidades da religião cristã.A metafísica cristãEmbora a metafísica cristã seja uma reelaboração da metafísica grega, muitas dasidéias gregas não poderiam ser aceitas pelo cristianismo. Vejamos algunsexemplos:? para os gregos, o mundo (sensível e inteligível) é eterno; para os cristãos, omundo foi criado por Deus a partir do nada e terminará no dia do Juízo Final.? para os gregos, a divindade é uma força cósmica racional impessoal; para oscristãos, Deus é pessoal, é a unidade de três pessoas e por isso é dotado deintelecto e de vontade, como o homem, embora superior a este, porque o intelectodivino é onisciente (sabe tudo desde toda a eternidade) e a vontade divina éonipotente (pode tudo desde toda a eternidade);? para os gregos, o homem é um ser natural, dotado de corpo e alma, estapossuindo uma parte superior e imortal que é o intelecto ou razão; para oscristãos, o homem é um ser misto, natural por seu corpo, mas sobrenatural porsua alma imortal;? para os gregos, a liberdade humana é uma forma de ação, isto é, a capacidadeda razão para orientar e governar a vontade, a fim de que esta escolha o que ébom, justo e virtuoso; para os cristãos, o homem é livre porque sua vontade éuma capacidade para escolher tanto o bem quanto o mal, sendo mais poderosa doque a razão e, pelo pecado, destinada à perversidade e ao vício, de modo que aação moral só será boa, justa e virtuosa se for guiada pela fé e pela Revelação;? para os gregos, o conhecimento é uma atividade do intelecto (o êxtase místicode que falavam os neoplatônicos não era algo misterioso ou irracional, mas aforma mais alta da intuição intelectual); para os cristãos, a razão humana élimitada e imperfeita, incapaz de, por si mesma e sozinha, alcançar a verdade,precisando ser socorrida e corrigida pela fé e pela Revelação.Essas diferenças – e muitas outras que não foram mencionadas aqui –acarretaram muitas mudanças na metafísica herdada dos gregos. O problemaprincipal para os cristãos foi o de encontrar um meio para reunir as verdades darazão (Filosofia) e as verdades da fé (religião), isto é, para reunir novamenteaquilo que, ao nascer, a Filosofia havia separado, pois separara razão e mito. Demodo bastante resumido, podemos dizer que os aspectos que passaram aconstituir o centro da nova metafísica foram os seguintes:? provar a existência de Deus e os atributos ou predicados de sua essência. Para ametafísica grega, a divindade era uma força imaterial, racional e impessoalconhecida por nossa razão. Para a metafísica cristã, Deus é uma pessoa trina ou – 286 –

Marilena Chauí _______________________________uma pessoa misteriosa, que se revela ao espírito dos que possuem fé. Comoconciliar a concepção racionalista dos gregos e a concepção religiosa doscristãos? Provando racionalmente que Deus existe, mesmo que a causa de suaexistência seja um mistério da fé. E provando racionalmente que ele possui, poressência, os seguintes predicados: eternidade, infinitude, onisciência,onipotência, bondade, justiça e misericórdia, mesmo que tais atributos sejam ummistério da fé;? provar que o mundo existe e não é eterno, mas foi criado do nada por Deus eretornará ao nada, no dia do Juízo Final; provar que o mundo resulta da vontadedivina e é governado pela Providência divina, a qual age tanto por meios naturais(as leis da Natureza), quanto por meios sobrenaturais (os milagres). Por que eranecessária essa prova? Porque, do ponto de vista da razão, Deus, sendo perfeito,completo, pleno e eterno, não carecia de nada, não precisava de nada e, portanto,não tinha por que nem para que criar o mundo;? provar que, embora Deus seja imaterial e infinito, são ação pode ter efeitosmateriais e finitos, como o mundo e o homem; portanto, provar que Deus é causaeficiente de todas as coisas e que uma causa imaterial e infinita pode produzir umefeito material e finito, mesmo que isso seja um mistério da fé que a razão éobrigada a aceitar.De fato, a Filosofia grega, em nome dos princípios da identidade e da não-contradição, sempre demonstrou que uma causa precisa ser de mesma naturezaque seu efeito e, por esse motivo, as Idéias (em Platão) e o Primeiro MotorImóvel (em Aristóteles) eram causas finais e jamais causas materiais, formais oueficientes. Por quê? Porque uma causa final age à distância, sem se identificarcom aquilo que a deseja, a procura. Ao contrário, as outras três causas agemdiretamente sobre as coisas semelhantes a elas, de mesma natureza que elas. Umaplanta causa outra planta, um animal causa outro animal semelhante, um humanocausa o nascimento de outro ser humano, e assim por diante.Ora, a criação do mundo por Deus seria, para a metafísica grega, umairracionalidade e uma contradição, pois se trata de um ser infinito e imaterial,cuja ação produz um efeito oposto à natureza da causa, isto é, finito e material.Um mistério da fé, dirão os metafísicos cristãos.? provar que a alma humana existe e que é imortal, estando destinada à salvaçãoou à condenação eternas, segundo a vontade da Providência divina;? provar que não há contradição entre a liberdade humana e a onisciência-onipotência de Deus. A contradição existe para a razão, mas não existe para a fé.Qual seria a contradição racional entre a liberdade humana para fazer o bem ou omal, e a onisciência-onipotência divina? A contradição estaria no fato de que, seDeus fez cada um dos homens e, desde a eternidade, sabe o que cada um deles – 287 –

Convite à Filosofia _______________________________escolherá, então o homem não é livre, mas já foi predeterminado pela vontade deDeus. Para a fé não há contradição alguma nisso, embora haja mistério.? provar que as idéias (platônicas), ou as emanações (neoplatônicas), ou osgêneros e espécies (aristotélicos) existem, são substâncias reais, criadas pelointelecto e pela vontade de Deus e existem na mente divina. Em outras palavras,idéias, emanações, gêneros e espécies são substâncias universais e os universaisexistem tanto quanto os indivíduos;? provar que o Ser se diz ou deve ser entendido de modo diferente conforme serefira a Deus ou às criaturas. Para os gregos, no entanto, o Ser existia dediferentes maneiras, mas possuía um único sentido no que se refere à realidade eà essência de todos os entes. Essa idéia, para os cristãos, não poderá ser mantida.Platão, por exemplo, afirmou que o Ser só podia estar referido às idéias domundo inteligível, pois as coisas sensíveis eram o Não-Ser, cópia, imagem,sombra do verdadeiro Ser. Já Aristóteles considerou o Ser como real para ascoisas naturais ou sensíveis, para o Primeiro Motor Imóvel, para os seresmatemáticos, pois a diferença entre eles referia-se apenas ao fato de poderemestar ou não submetidos à mudança ou ao devir.No caso do cristianismo, porém, não era possível manter a diferença platônicaentre o Ser e o Não-Ser, pois este mundo e tudo o que nele existe é obra de Deus,é criatura de Deus e não mera aparência. Mas também não era possível manter aidéia aristotélica de que a diferença entre os seres estaria apenas na presença ouausência do devir ou da mudança, pois para os cristãos o ser de Deus é denatureza diferente do ser das coisas, uma vez que ele é criador e elas sãocriaturas, e não há nada em comum entre eles. O resultado da necessidade deafirmar que o Ser não possui o mesmo sentido, quando aplicado a Deus e àscriaturas, foi a divisão da metafísica em três tipos de conhecimento:1. a teologia, que se refere ao Ser como ser divino ou Deus;2. a psicologia racional, que se refere ao Ser como essência da alma humana;3. a cosmologia racional, que se refere ao Ser como essência das coisas naturaisou do mundo.? finalmente, e como conseqüência de todas essas concepções, provar que fé erazão, revelação e conhecimento intelectual são não incompatíveis nemcontraditórios e, quando o forem, a fé ou revelação deve ser considerada superiorà razão e ao intelecto, que devem submeter-se a ela.Evidentemente, os pensadores cristãos nunca se puseram de acordo sobre todosesses aspectos, e uma das marcas características da metafísica cristã foi acontrovérsia.Para alguns, por exemplo, os chamados “universais” (idéias, emanações, gêneros,espécies) eram nomes gerais criados por nossa razão e não seres, substâncias ou – 288 –

Marilena Chauí _______________________________essências reais. Para outros, o Ser deveria ser afirmado com o mesmo sentidopara Deus e para as criaturas, a diferença entre eles sendo de grau e não denatureza. Para muitos, fé e razão eram incompatíveis e deveriam ser inteiramenteseparadas, cada qual com seu campo próprio de conhecimento, sem que umadevesse submeter-se à outra. E assim por diante.Independentemente das controvérsias, divergências e diferenças entre ospensadores, o cristianismo legou para a metafísica a separação entre teologia(Deus), psicologia racional (alma) e cosmologia racional (mundo), bem como aidentificação de três conceitos: ser, essência e substância, que se tornaramsinônimos.Como conseqüência da identificação entre ser, essência e substância, de um lado,e, de outro a afirmação de que existem essências ou substâncias universais tantoquanto individuais, a metafísica passou a ter um número ilimitado de seres parainvestigar: as substâncias universais como água, ar, terra, fogo, homem, anjo,animal, vegetal, o bem, o verdadeiro, o justo, o belo, o pesado, o leve; assubstâncias individuais ou os seres particulares; as substâncias celestes, asterrestres, as aquáticas, as matemáticas, as orgânicas, as inorgânicas, etc. Cadauma delas era investigada segundo os três princípios (identidade, contradição,terceiro excluído), as quatro causas (material, formal, eficiente, final), o ato e apotência, a matéria e a forma, as categorias (qualidade, quantidade, ação, paixão,relação, tempo, lugar, etc.), o simples e o composto, etc.A metafísica clássica ou modernaA partir do final do século XVI e, com maior intensidade, no início do séculoXVII, o pensamento ocidental começa a sofrer uma mudança considerável, queirá manifestar-se na metafísica.Os filósofos clássicos (século XVII) julgavam-se modernos por terem rompidocom a tradição do pensamento platônico, aristotélico e neoplatônico e, porconseguinte, por não mais aceitarem a tradição que havia sido elaborada pelosmedievais. Um dos exemplos mais conhecidos da modernidade é a recusa dogeocentrismo e a adoção do heliocentrismo, em astronomia. Um outro exemplo éa nova física ou mecânica, elaborada por Galileu contra a herança aristotélica.Podemos, de modo resumido, apontar os seguintes traços característicos da novametafísica:? afirmação da incompatibilidade entre fé e razão, acarretando a separação deambas, de sorte que a religião e a Filosofia possam seguir caminhos próprios,mesmo que a segunda não esteja publicamente autorizada a expor idéias quecontradigam as verdades ou dogmas da fé (a Inquisição e o Santo Ofício, criadospela Igreja Católica para controlar os pensamentos dos cristãos, eram atuantes enão foram poucos os pensadores submetidos a tais tribunais, como foi o caso deGalileu); – 289 –

Convite à Filosofia _______________________________? redefinição do conceito de ser ou substância. Em lugar de considerar queexistem inumeráveis tipos de seres ou substâncias, afirma-se que existem três eapenas três seres ou substâncias: a substância infinita (Deus), a substânciapensante (alma) e a substância extensa (corpo). Uma substância é definida peloseu atributo principal: a substância infinita é definida por sua infinitude; apensante, pelo intelecto e pela vontade; a extensa, pelo movimento e pelorepouso, que determinam a massa, a figura e o vo lume (isto é, por atributosgeométricos e físicos).Os entes individuais concretos se distribuem como substâncias pensantes ouextensas e o homem é uma substância mista. À substância infinita correspondeum único ente, Deus. Não há seres ou substâncias ou essências universais, massomente individuais. Nota-se, portanto, uma imensa simplificação do campo deinvestigação da metafísica, graças à redefinição da substância.Substância é o ser que existe em si e por si mesmo, que subsiste em si e por simesmo. Uma substância não se define pelo conjunto de atributos essenciais eacidentais que possui, mas pelo seu modo de existir. A essência da substância é aexistência em si e por si, a auto-suficiência. Há, portanto, três e apenas trêssubstâncias: a que existe absolutamente em si e por si, isto é, o infinito ou Deus;a que existe em si, mas para existir teve que ser criada pelo infinito, isto é, acriada ou finita, que existe sob duas formas: como pensamento (ou alma) e comoespaço ou figura-volume-massa (ou corpo).Os seres individuais nada mais são do que manifestações diversificadas das duassubstâncias criadas finitas. Mesmo que os consideremos substâncias, eles os sãosimplesmente por serem realizações particulares das substâncias pensante eextensa;? redefinição do conceito de causa ou causalidade. Causa é aquilo que produz umefeito. O efeito pode ser produzido por uma ação anterior ou por uma finalidadeposterior. Por exemplo, o fogo realiza uma ação anterior, cujo efeito é oaquecimento e a dilatação de um outro corpo; uma pessoa pode escolher entrefazer ou não fazer alguma coisa, tendo em vista a finalidade que pretendealcançar, de sorte que o fim ou o objetivo é algo posterior à ação e causa dadecisão tomada.Causa eficiente é aquela na qual uma ação anterior determina como conseqüêncianecessária a produção de um efeito. Causa final é aquela que determina, para osseres pensantes, a realização ou não-realização de uma ação. Há duas e somenteduas modalidades de causas – a eficiente e a final – e a causa final só atua nasubstância pensante, referindo-se às ações de um sujeito. Não há causa final paraos corpos ou para a substância extensa, mas apenas causa eficiente.Desaparecendo as noções de causa material e causa formal, desaparecem as depotência e ato, matéria e forma como explicações da pluralidade dos seres e desuas transformações; – 290 –

Marilena Chauí _______________________________? a metafísica não se divide em teologia, psicologia racional e cosmologiaracional. A teologia é um conhecimento diferente da metafísica, embora, comoesta, estude a substância infinita; a psicologia racional é um conhecimentodiferente da metafísica, embora, como esta, estude a substância pensante; acosmologia é diferente da metafísica, embora, como esta, estude a substânciaextensa.Que estuda a metafísica? A essência do infinito, a essência do pensamento e aessência da extensão. Como as estuda a metafísica? Como conceitos ou idéiasrigorosamente racionais.A substância infinita é a idéia racional de um fundamento ou princípio absolutoque produz a essência e a existência de tudo o que existe. A substância pensante éa idéia racional de uma faculdade intelectual e volitiva que produz pensamentos eações segundo normas, regras e métodos estabelecidos por ela mesma enquantopoder de conhecimento – é a consciência como faculdade de reflexão e derepresentação da realidade por meio de idéias verdadeiras. A s ubstância extensa éa idéia racional de uma realidade físico-geométrica que produz os corpos comofiguras e formas dotadas de massa, volume e movimento – é a Natureza comosistema de leis necessárias definidas pela mecânica e pela matemática;? o ponto de partida da metafísica é a teoria do conhecimento, isto é, ainvestigação sobre a capacidade humana para conhecer a verdade, de modo queuma coisa ou um ente só é considerado real se a razão humana puder conhecê-lo,isto é, se puder ser objeto de uma idéia verdadeira estabelecida rigorosa emetodicamente pelo intelecto humano. Assim, a metafísica não começa com apergunta: “O que é realidade?”, mas com a questão: “Podemos conhecer arealidade?”.Três idéias e apenas três operam na metafísica: a idéia da substância infinitacomo causa eficiente da Natureza e do homem; a idéia da substância pensantecomo causa eficiente dos pensamentos, dos conceitos e das ações humanas; aidéia da substância extensa ou Natureza como causa eficiente que, pelas relaçõesde movimento e repouso, produz todos os corpos. A substância infinita ou Deus éa causa da existência e da essência das substâncias pensante e extensa; e é causadas relações entre ambas, no caso do homem (já que este é uma substânciamista).Deus, homem e Natureza são os objetos da metafísica. Infinito, finito, causaeficiente e causa final são os primeiros princípios de que se ocupa a metafísica.Idéias verdadeiras produzidas pelo intelecto humano, com as quais o sujeito doconhecimento representa e conhece a realidade, são os fundamentos dametafísica como ciência verdadeira ou como Primeira Filosofia.Se tomarmos a história da metafísica, veremos que seu campo de investigaçãofoi, gradualmente, comportando novos temas e objetos de estudo, que exprimem – 291 –

Convite à Filosofia _______________________________as exigências do pensamento de cada época. Resumidamente, os temas e objetosda metafísica podem ser assim apresentados:? O Ser como substância e como essência;? diferença entre essência e acidente;? origem e estrutura do mundo ou da realidade;? o infinito e o finito (diferenças e relações);? o espírito e a matéria (diferenças e relações);? o espaço e o tempo (diferenças e relações);? a vida e a morte;? a alma e o corpo (diferenças e relações);? a essência da mente humana;? a consciência e o mundo (diferenças e relações);? essência e existência (diferenças e relações);? a destinação do homem;? Deus, a Natureza e o homem (diferenças e relações).A grande crise da metafísica: David HumeO lugar ocupado pela teoria do conhecimento como condição da metafísica, istoé, a antecedência da pergunta “O que e como podemos conhecer?” diante dapergunta antiga “O que é a realidade?”, forçou a Filosofia a pagar um alto preço.Esse preço foi a crise da metafísica.Se a realidade investigada pela metafísica é aquela que pode e deve serracionalmente estabelecida pelas idéias verdadeiras produzidas pelo pensamentoou pela razão humana, que acontecerá se se provar que tais idéias são hábitosmentais do sujeito do conhecimento e não correspondem a realidade alguma?A metafísica antiga e medieval baseava-se na afirmação de que a realidade ou oSer existe em si mesmo e que ele se oferece tal como é ao pensamento.A metafísica clássica ou moderna baseava-se na afirmação de que o intelectohumano ou o pensamento possui o poder para conhecer a realidade tal como é emsi mesma e que, graças às operações intelectuais ou aos conceitos querepresentam as coisas e as transformam em objetos de conhecimento, o sujeito doconhecimento tem acesso ao Ser.Tanto num caso como noutro, a metafísica baseava-se em dois pressupostos: 1. arealidade em si existe e pode ser conhecida; 2. idéias ou conceitos são umconhecimento verdadeiro da realidade, porque a verdade é a correspondênciaentre as coisas e os pensamentos, ou entre o intelecto e a realidade. – 292 –

Marilena Chauí _______________________________Esses dois pressupostos assentavam-se num único fundamento: a existência deum Ser Infinito (Deus) que garantia a realidade e a inteligibilidade de todas ascoisas, dotando os humanos de um intelecto capaz de conhecê-las tais como sãoem si mesmas.David Hume dirá que os dois pressupostos da metafísica não têm fundamento,não possuem validade alguma.A metafísica – antiga, medieval e clássica ou moderna – era sustentada por trêsprincípios: identidade, não-contradição e razão suficiente ou causalidade. Os doisprimeiros serviam de garantia para a idéia de substância ou essência; o terceiroservia de garantia para explicar a origem e a finalidade das coisas, bem como asrelações entre os seres.Hume, partindo da teoria do conhecimento, mostrou que o sujeito doconhecimento opera associando sensações, percepções e impressões recebidaspelos órgãos dos sentidos e retidas na memória. As idéias nada mais são do quehábitos mentais de associação de impressões semelhantes ou de impressõessucessivas.Que é a idéia de substância ou de essência? Nada mais do que um nome geraldado para indicar um conjunto de imagens e de idéias que nossa consciência temo hábito de associar por causa das semelhanças entre elas. O princípio daidentidade e o da não-contradição são simplesmente o resultado de percebermosrepetida e regularmente certas coisas semelhantes e sempre da mesma maneira,levando-nos a supor que, porque as percebemos como semelhantes e sempre damesma maneira, isso lhes daria uma identidade própria, independente de nós.Que é a idéia de causalidade? O mero hábito que nossa mente adquire deestabelecer relações de causa e efeito entre percepções e impressões sucessivas,chamando as anteriores de causas e as posteriores de efeitos. A repetiçãoconstante e regular de imagens ou impressões sucessivas nos leva à crença de quehá uma causalidade real, externa, própria das coisas e independente de nós.Substância, essência, causa, efeito, matéria, forma e todos os outros conceitos dametafísica (Deus, mundo, alma, infinito, finito, etc.) não correspondem a seres, aentidades reais e externas, independentes do sujeito do conhecimento, mas sãonomes gerais com que o sujeito nomeia e indica seus próprios hábitosassociativos. Eis porque a metafísica foi sempre alimentada por controvérsiasinfindáveis, pois não se referia a nenhuma realidade externa existente em si e porsi, mas a hábitos mentais dos sujeitos, hábitos que são muito variáveis e dãoorigem a inúmeras doutrinas filosóficas sem qualquer fundamento real.A partir de Hume, a metafísica, tal como existira desde o século IV a.C., tornava-se impossível. – 293 –

Convite à Filosofia _______________________________Kant e o fim da metafísica clássicaO primeiro a reagir aos problemas postos por Hume foi Kant, ao declarar que,graças ao filósofo inglês, pôde “despertar do sono dogmático”. O que é o sonodogmático? É tomar como ponto de partida da metafísica a idéia de que existeuma realidade em si (Deus, alma, mundo, infinito, finito, matéria, forma,substância, causalidade), que pode ser conhecida por nossa razão ou, o que dá nomesmo, tomar como ponto de partida da metafísica a afirmação de que as idéiasproduzidas por nossa razão correspondem exatamente a uma realidade externa,que existe em si e por si mesma.Dogmático é aquele que aceita, sem exame e sem crítica, afirmações sobre ascoisas e sobre as idéias. Hume despertou a metafísica do sono dogmático, porquea forçou a indagar sobre sua própria validade e sua pretensão ao conhecimentoverdadeiro.O que é despertar do sono dogmático? É indagar, antes de tudo, se a metafísicaé possível e, se for, em que condições é possível. Despertar do dogmatismo éelaborar uma crítica da razão teórica, isto é, um estudo sobre a estrutura e opoder da razão para determinar o que ela pode e o que ela não pode conhecerverdadeiramente.Quando examinamos os conceitos de razão e verdade vii, vimos que Kant realizouuma “revolução copernicana” em filosofia, isto é, exigiu que, antes de qualquerafirmação sobre as idéias, houvesse o estudo da própria capacidade de conhecer,isto é, da razão. Vimos também que ele distinguira duas grandes modalidades deconhecimento: os conhecimentos empíricos, isto é, baseados nos dados daexperiência psicológica de cada um de nós, e os conhecimentos apriorísticos, istoé, baseados exclusivamente na estrutura interna da própria razão,independentemente da experiência individual de cada um. Vimos, além disso,que ele distinguira as duas maneiras pelas quais esses dois tipos deconhecimentos se exprimem: os juízos sintéticos e os juízos analíticos.Finalmente, vimos que a questão do conhecimento estava resumida numapergunta fundamental: São possíveis juízos sintéticos apriorísticos?Recordemos a distinção entre os tipos de juízos. O juízo analítico é aquele emque o predicado não é senão a explicitação do conteúdo do sujeito. Por exemplo:“O triângulo é uma figura de três lados”. O juízo sintético é aquele no qual opredicado acrescenta novos dados sobre o sujeito. Por exemplo: “Sócrates éfilósofo”.Um juízo, para ter valor científico e filosófico ou valor teórico, deve preencherduas condições:1. deve ser universal e necessário;2. deve ser verdadeiro, isto é, corresponder à realidade que enuncia. – 294 –

Marilena Chauí _______________________________Os juízos analíticos, diz Kant, preenchem as duas condições, mas não os juízossintéticos. Por quê? Porque um juízo sintético se baseia nos dados da experiênciapsicológica individual e, como bem mostrou Hume, tal experiência nos dásensações e impressões que associamos em idéias, mas estas não são universais enecessárias, nem correspondem à realidade.Ora, um juízo analítico não nos traz conhecimentos, pois simplesmente repete, nopredicado, o conteúdo do sujeito. Somente juízos sintéticos são fonte deconhecimento. Portanto, se quisermos realizar metafísica e ciência, temos,primeiro, que provar que são possíveis juízos sintéticos universais, necessários everdadeiros e, portanto, demonstrar que tais juízos não podem ser empíricos.Dizer que um juízo sintético é universal, necessário e verdadeiro e dizer que nãopode ser empírico significa dizer que o juízo sintético filosófico e científico temque ser um juízo sintético apriorístico ou a priori, isto é, tem que depender dealguma coisa que não seja a experiência.A pergunta: “É possível a metafísica?” só poderá ser respondida se, primeiro, forprovado que há ou que não pode haver juízos sintéticos a priori sobre asrealidades metafísicas, isto é, Deus, alma, mundo, substância, matéria, forma,infinito, finito, causalidade, etc.Vimos que Kant demonstrou a existência e validade dos juízos sintéticos a priorinas ciências, demonstrando que o conhecimento da realidade nada mais é do quea maneira como a razão, através de sua estrutura uni versal, organiza de modouniversal e necessário os dados da experiência. Em outras palavras, vimos que,graças às formas a priori da sensibilidade (espaço e tempo) e dos conceitos apriori do entendimento (as categorias de substância, causalidade, relação,quantidade, qualidade, etc.), possuímos uma capacidade de conhecimento inata,universal e necessária que não depende da experiência, mas se realiza por ocasiãoda experiência sobre os objetos que esta nos oferece.O que é exatamente um juízo?Um juízo é uma afirmação ou uma negação referente a propriedades de umsujeito, isto é, a maneira como o conhecimento afirma ou nega o que uma coisa éou não é. Como a realidade ou o objeto é aquilo que pode ser conhecido atravésdas formas a priori da sensibilidade e dos conceitos a priori do entendimento,um juízo é a afirmação ou a negação da realidade de um objeto pela afirmaçãoou negação de suas propriedades.O que é conhecer?Conhecer é formular juízos que nos apresentem todas as propriedades positivasde um objeto e excluam todas as propriedades negativas que o objeto não podepossuir. Por exemplo, quando digo: “O número 4 é um inteiro par ”, esse juízoafirma que um certo objeto – 4 – é alguma coisa – é um número -, que possuideterminadas propriedades positivas – inteiro, par – e, por conseguinte, dele – 295 –

Convite à Filosofia _______________________________estão excluídas propriedades negativas, diferentes das que possui – fracionário eímpar.Quando digo: “Isto é uma mesa, é de madeira, possui quatro pés, está junto àjanela, é usada para escrever”, este juízo afirma que um certo objeto – isto – éalguma coisa –mesa -, que possui certas qualidades – madeira, quatro pés, servepara escrever, está junto à janela – e, por conseguinte, dele estão excluídas outrascoisas – não é uma cadeira, não é um livro – e a ele são negadas certaspropriedades – não é de vidro, não está junto à porta, não serve para deitar, etc.Um juízo, portanto, nos dá a conhecer alguma coisa, desde que esta possa serapreendida sob as formas do espaço e do tempo e sob os conceitos doentendimento. Uma coisa passa a existir quando se torna objeto de um juízo. Issonão significa que o juízo cria a própria coisa, mas sim que a faz existir paranós. O juízo põe a realidade de alguma coisa ao colocá-la como sujeito de umaproposição, isto é, ao colocá-la como objeto de um conhecimento. É, portanto, ojuízo que põe a qualidade, a quantidade, a causalidade, a substância, a matéria, aforma, a essência das coisas, na medida em que estas existem apenas enquantosão objetos de conhecimento postos pelas formas do espaço, do tempo e pelosconceitos do entendimento.Em outras palavras, uma coisa existe quando pode ser posta pelo sujeito doconhecimento, entendido não como um sujeito individual e psicológico (João,Pedro, Maria, Ana), mas como o sujeito universal ou estrutura a priori universalda razão humana, aquilo que Kant denomina de Sujeito Transcendental viii.Quando o juízo for sintético e a priori, o conhecimento obtido é universal,necessário e verdadeiro.No entanto, a demonstração de que, graças às formas a priori da sensibilidade egraças aos conceitos a priori do entendimento, os juízos sintéticos a priori sãopossíveis, é uma demonstração que não ajuda em nada a pergunta sobre apossibilidade da metafísica. Por quê?Kant distinguiu duas modalidades de realidade. A realidade que se oferece a nósna experiência e a realidade que não se oferece à experiência. A primeira foichamada por ele de fenômeno, isto é, aquilo que se apresenta ao sujeito doconhecimento na experiência, é estruturado pelo sujeito com as formas do espaçoe do tempo e com os conceitos do entendimento, é sujeito de um juízo e objeto deum conhecimento. A segunda foi chamada por ele de nôumeno, isto é, aquiloque não é dado à sensibilidade nem ao entendimento, mas é afirmado pela razãosem base na experiência e no entendimento.O fenômeno é a coisa para nós ou o objeto do conhecimento propriamente dito, éo objeto enquanto sujeito do juízo. O nôumeno é a coisa em si ou o objeto dametafísica, isto é, o que é dado para um pensamento puro, sem relação com aexperiência. Ora, só há conhecimento universal e necessário daquilo que éorganizado pelo sujeito do conhecimento nas formas do espaço e do tempo e de – 296 –

Marilena Chauí _______________________________acordo com os conceitos do entendimento. Se o nôumeno é aquilo que nunca seapresenta à sensibilidade, nem ao entendimento, mas é afirmado pelo pensamentopuro, não pode ser conhecido. E se o nôumeno é o objeto da metafísica, esta nãoé um conhecimento possível.Tomemos um exemplo que nos ajude a compreender a argumentação kantiana.Quando a metafísica se refere a Deus, ela o define como imaterial, infinito,eterno, incausado, princípio e fundamento das essências e existências de todos osseres.Vejamos cada uma das qualidades atribuídas ao sujeito “Deus” ou à idéia deDeus. Imaterial: portanto, não espacial; infinito: portanto, não espacial; eterno:portanto, não temporal; incausado: portanto, sem causa; princípio e fundamentode tudo: portanto, acima e fora de toda a realidade conhecida ou incondicionado.A idéia metafísica de Deus é a idéia de um ser que não pode nos aparecer sob aforma do espaço e tempo; de um ser ao qual a categoria de causalidade não seaplica; de um ser que, nunca tendo sido dado a nós, é posto, entretanto, comofundamento e princípio de toda a realidade e de toda a verdade. Assim, a idéiametafísica de Deus escapa de todas as condições de possibilidade doconhecimento humano e, portanto, a metafísica usa ilegitimamente essa idéiapara afirmar que Deus existe e para dizer o que ele é.Até agora, diz Kant, a metafísica tem sido uma insensatez dogmática. Tem sido apretensão de conhecer aqueles seres que, justamente, escapam de todapossibilidade humana de conhecimento, pois são seres aos quais não se aplicamas condições universais e necessárias dos juízos, isto é, espaço, tempo,causalidade, qualidade, quantidade, substancialidade, etc. Essa metafísica não épossível.Mas isso não significa que toda metafísica seja impossível.Qual é a metafísica possível? É aquela que tem como objeto a investigação dosconceitos usados pelas ciências – espaço, tempo, quantidade, qualidade,causalidade, substancialidade, universalidade, necessidade, etc. -, isto é, que temcomo objeto o estudo das condições de possibilidade de todo conhecimentohumano e de toda a experiência humana possíveis. A metafísica estuda, portanto,as condições universais e necessárias da objetividade em geral e não o “Serenquanto Ser”, nem Deus, alma e mundo, nem substância infinita, pensante eextensa. Estuda as maneiras pelas quais o sujeito do conhecimento, ou a razãoteórica, põe a realidade, isto é, estabelece os objetos do conhecimento e daexperiência. A metafísica é o conhecimento do conhecimento humano e daexperiência humana, ou, em outras palavras, do modo como os seres humanos,enquanto expressões do Sujeito Transcendental, definem e estabelecemrealidades. – 297 –

Convite à Filosofia _______________________________Há, além desse, um outro objeto para a metafísica. Não se trata, porém, de umobjeto teórico e sim de um objeto prático, qual seja, a ação humana enquantoação moral, ou o que Kant chama de ação livre por dever. Por que a moral, ou aética, se torna objeto da metafísica? Por causa da liberdade.A razão teórica mostra que todos os seres, incluindo os homens, são seresnaturais. Isso significa que são seres submetidos a relações necessárias de causa eefeito. A Natureza é o reino das leis naturais de causalidade. Nela, tudo acontecede modo necessário ou causal, não havendo lugar para escolhas livres. Noentanto, os seres humanos são capazes de agir por escolha livre, pordeterminação racional de sua vontade e são capazes de agir em nome de fins oufinalidades humanas, e não apenas condicionados por causas naturais necessárias.A ação livre ou por escolha voluntária ou racional é uma ação por finalidade enão por causalidade. Nesse sentido, a ação moral mostra que, além do reinocausal da Natureza, existe o reino ético da liberdade e da finalidade. Cabe àmetafísica o estudo dessa outra modalidade de realidade, que não é natural nemteórica, mas prática. Assim, ao lado do conhecimento da razão teórica, ametafísica tem como objeto o estudo da razão prática ou da ética.Como é possível a liberdade? Como é possível a ação livre por finalidade? Quaissão as finalidades da vida ética? O que é o dever? O que é e como é possível agirpor dever? O que é a virtude? Eis alguns dos temas da metafísica como estudo darazão prática. – 298 –

Marilena Chauí _______________________________ Capítulo 4 A ontologia contemporâneaA herança kantianaApós a solução kantiana para o problema da metafísica, esta não mais retornou àantiga concepção de conhecimento da realidade em si, mas caminhou no sentidoinaugurado por Kant, conhecido como idealismo.Por que idealismo?Vimos que a Filosofia (na Antiguidade, na Idade Média e na Modernidade) erarealista, isto é, partia da afirmação de que a realidade ou o Ser existem em simesmos e que, enquanto tais, podem ser conhecidos pela razão humana. Vimostambém que o realismo clássico ou moderno introduzira uma mudança norealismo antigo e medieval, pois exigira que, antes de iniciar uma investigaçãometafísica da realidade, fosse respondida a questão: “Podemos conhecer arealidade?”.Em outras palavras, exigira que a teoria do conhecimento antecedesse ametafísica. Vimos, a seguir, o resultado dessa exigência: David Humedemonstrando que o conteúdo da metafísica são apenas nossas idéias e que estassão nomes gerais atribuídos aos hábitos psicológicos de associar os dados dasensação e da percepção. O sentimento subjetivo ou psicológico de regularidade,constância e freqüência de nossas impressões são transformados em entidadesmetafísicas que, na verdade, não existem.Kant completou a trajetória moderna, mas com duas inovações fundamentais: emprimeiro lugar, transformou a própria teoria do conhecimento em metafísica, aoafirmar que esta investiga as condições gerais da objetividade, isto é, doconhecimento universal e necessário dos fenômenos e, em segundo lugar,demonstrou que o sujeito do conhecimento não é, como pensara Hume, o sujeitopsicológico individual, mas uma estrutura universal, idêntica para todos os sereshumanos em todos os tempos e lugares, e que é a razão, como faculdade a prioride conhecer ou o Sujeito Transcendental.Nunca saberemos o que é e como é a realidade em si mesma, separada eindependente de nós. Conhecemos apenas a realidade como fenômeno, isto é,organizada pelo sujeito do conhecimento segundo as formas do espaço e dotempo e segundo os conceitos do entendimento. A realidade conhecível econhecida é aquela posta pela objetividade estabelecida pela razão ou peloSujeito Transcendental. – 299 –

Convite à Filosofia _______________________________O que é a objetividade? O que é fenômeno? O que é a realidade enquanto objetoou fenômeno? É a realidade estruturada pelas idéias produzidas pelo sujeito. Porisso a metafísica se torna idealista ou um idealismo. O conhecimento não vemdas coisas para a consciência, mas vem das idéias da consciência para as coisas.A história da metafísica foi sempre o trabalho filosófico para responder a duasperguntas: O que é aquilo que existe? Como podemos conhecer aquilo queexiste? Duas foram as respostas: a realista, cujo exemplo mais acabado foi ametafísica de Aristóteles ou o estudo do “Ser enquanto Ser”; e a idealista, cujoexemplo mais acabado foi a críticaix da razão teórica e prática de Kant.A contribuição da fenomenologia de HusserlQuando estudamos a teoria do conhecimento, vimos que o filósofo alemãoHusserl trouxe, no início do século passado, uma nova abordagem doconhecimento a que deu o nome de fenomenologia. Essa abordagem, comoveremos agora, teve conseqüências para a metafísica.Segundo Husserl, a fenomenologia está encarregada, entre outras, de três tarefasprincipais: separar psicologia e filosofia, manter o privilégio do sujeito doconhecimento ou consciência reflexiva diante dos objetos e ampliar/renovar oconceito de fenômeno.Separação entre psicologia e filosofiaNo final do século XIX e no início do século XX, muitos pensadores julgaramque a psicologia tomaria o lugar da teoria do conhecimento e da lógica e,portanto, da Filosofia. Na opinião deles, a ciência positiva do psiquismo seriasuficiente para explicar as causas das formas de conhecimento e dasdemonstrações, sem necessidade de investigações filosóficas.Husserl, porém, veio demonstrar o equívoco de tal opinião.A psicologia, diz ele, como toda e qualquer ciência, estuda e explica fatosobserváveis, mas não pode oferecer os fundamentos de tais estudos eexplicações, pois esses cabem à Filosofia.A psicologia explica, por meio de observações e de relações causais, fatosmentais e comportamentais, isto é, os mecanismos físicos, fisiológicos epsíquicos que nos fazem ter sensações, percepções, lembranças, pensamentos ouque nos permitem realizar ações pelas quais nos adaptamos ao meio ambiente. AFilosofia, porém, difere da psicologia, porque investiga o que é o físico, ofisiológico, o psíquico, o comportamental. Em outras palavras, não explica fatosmentais e de comportamento, mas descreve as essências da vida física e psíquica.Tomemos um exemplo.Quando um psicólogo estuda a percepção, procura distinguir dois tipos de fatos:os fatos externos observáveis, a que dá o nome de estímulos (luz, calor, cor,forma dos objetos, distância, etc.), e os fatos internos indiretamente observáveis, – 300 –

Marilena Chauí _______________________________a que dá o nome de respostas. Divide o fato perceptivo em estímulos externos einternos (o que acontece no sistema nervoso e no cérebro) e em respostas internase externas (as operações do sistema nervoso e o ato sensorial de sentir ouperceber alguma coisa).Quando um filósofo estuda a percepção, procede de modo muito diferente.Começa perguntando: “O que é a percepção?”, diferentemente do psicólogo, queparte da pergunta: “Como acontece uma percepção?”.O que é a percepção? Antes de tudo, é um modo de nossa consciência relacionar-se com o mundo exterior pela mediação de nosso corpo. Em segundo lugar, é umcerto modo de a consciência relacionar-se com as coisas, quando as toma comorealidades quantitativas (cor, sabor, odor, tamanho, forma, distâncias, agradáveis,desagradáveis, dotadas de fisionomia e de sentido, belas, feias, diferentes umasdas outras, partes de uma paisagem, etc.). A percepção é uma vivência. Emterceiro lugar, essa vivência é uma forma de conhecimento dotada de estrutura:há o ato de perceber (pela consciência) e há o correlato percebido (a coisaexterna); a característica principal do percebido é a de oferecer-se por faces, porperfis ou perspectivas, como algo interminável, que nossos sentidos nuncapodem apanhar de uma só vez e de modo total.O que é a percepção? Ou, em outras palavras, qual é a essência da percepção? Éuma vivência da consciência, um ato, cujo correlato são qualidades percebidaspela mediação de nosso corpo; é um modo de estarmos no mundo e de nosrelacionarmos com a presença das coisas diante de nós, é um modo diferente, porexemplo, da vivência imaginativa, da vivência reflexiva, etc.A psicologia nos diz que há percepção e nos oferece uma explicação causal paraela, mas não pode nos dizer o que é a percepção, pois para isso precisariaconhecer a essência da própria consciência.Manutenção do privilégio do sujeito do conhecimentoConservando-se fiel à tradição moderna e kantiana, Husserl privilegia aconsciência reflexiva ou o sujeito do conhecimento, isto é, afirma que asessências descritas pela Filosofia são produzidas ou constituídas pelaconsciência, enquanto um poder para dar significação à realidade.A consciência de que fala o filósofo não é, evidentemente, aquela de que fala opsicólogo. Para este, a consciência é o nome dado a um conjunto de fatosexternos e internos observáveis e explicados causalmente. A consciência a que serefere o filósofo é o sujeito do conhecimento, como estrutura e atividadeuniversal e necessária do saber. É a Consciência Transcendental ou o SujeitoTranscendental.Qual é o poder da consciência reflexiva? O de constituir ou criar as essências,pois estas nada mais são do que as significações produzidas pela consciência,enquanto um poder universal de doação de sentido ao mundo. – 301 –

Convite à Filosofia _______________________________A consciência não é uma coisa entre as coisas, não é um fato observável, nem é,como imaginava a metafísica, uma substância pensante ou uma alma, entidadeespiritual. A consciência é uma pura atividade, o ato de constituir essências ousignificações, dando sentido ao mundo das coisas. Estas – ou o mundo comosignificação – são o correlato da consciência, aquilo que é visado por ela e delarecebe sentido. Não sendo uma coisa nem uma substância, mas puro ato, aconsciência é uma forma: é sempre consciência de. O ser ou essência daconsciência é o de ser sempre consciência de, a que Husserl dá o nome deintencionalidade.A consciência é um ato intencional e sua essência é a intencionalidade, ou o atode visar as coisas, dando-lhes significação. O mundo ou a realidade é o correlatointencional da consciência. Assim, por exemplo, perceber é o ato intencional daconsciência, o percebido é o seu correlato intencional e a percepção é a unidadeinterna e necessária entre o ato e o correlato, entre o perceber e o percebido. Épor esse motivo que, conhecendo a estrutura intencional ou a essência daconsciência, se pode conhecer a essência da percepção (ou da imaginaç ão, damemória, da reflexão, etc.).Ampliação/renovação do conceito de fenômenoDesde Kant, fenômeno indicava aquilo que, do mundo externo, se oferece aosujeito do conhecimento, sob as estruturas cognitivas da consciência (isto é, sobas formas do espaço e do tempo e sob os conceitos do entendimento). Noentanto, o filósofo Hegel ampliou o conceito de fenômeno, afirmando que tudo oque aparece só pode aparecer para uma consciência e que a própria consciênciamostra-se a si mesma no conhecimento de si, sendo ela própria um fenômeno.Por isso, foi Hegel o primeiro a usar a palavra fenomenologia, para com elaindicar o conhecimento que a consciência tem de si mesma através dos demaisfenômenos que lhe aparecem.Husserl mantém o conceito kantiano e hegeliano, mas amplia ainda mais a noçãode fenômeno. Para compreendermos essa ampliação precisamos considerar acrítica que endereça a Kant e a Hegel.Kant equivocou-se ao distinguir fenômeno e nôumeno, pois, com essa distinção,manteve a velha idéia metafísica da realidade em si ou do “Ser enquanto Ser”,mesmo que dissesse que não a podíamos conhecer. Hegel, por sua vez, aboliu adiferença entre a consciência e o mundo, porque dissera que este nada mais é doque o modo como a consciência se torna as próprias coisas, torna-se mundo elamesma, tudo sendo fenômeno: fenômeno interior – a consciência – e fenômenoexterior – o mundo como manifestação da consciência nas coisas.Contra Kant, Husserl afirma que não há nôumeno, não há a “coisa em si”incognoscível. Tudo o que e xiste é fenômeno e só existem fenômenos. Fenômenoé a presença real de coisas reais diante da consciência; é aquilo que se apresentadiretamente, “em pessoa”, “em carne e osso”, à consciência. – 302 –

Marilena Chauí _______________________________Contra Hegel, Husserl afirma que a consciência possui uma essência diferentedas essências dos fenômenos, pois ela é doadora de sentido às coisas e estas sãoreceptoras de sentido. A consciência não se encarna nas coisas, não se torna aspróprias coisas, mas dá significação a elas, permanecendo diferente delas.O que é o fenômeno? É a essência.O que é a essência? É a significação ou o sentido de um ser, sua idéia, seu eidos.A Filosofia é a descrição da essência da consciência (de seus atos e correlatos) edas essências das coisas. Por isso, a Filosofia é uma eidética – descrição do eidosou das essências. Como o eidos ou essência é o fenômeno, a Filosofia é umafenomenologia.Os fenômenos ou essênciasFenômeno não são apenas as coisas materiais que percebemos, imaginamos oulembramos cotidianamente, porque são parte de nossa vida. Também não são,como supunha Kant, apenas as coisas naturais, estudadas pelas ciências daNatureza (física, química, biologia, astronomia, geologia, etc.). Fenômeno sãotambém coisas puramente ideais ou idealidades, isto é, coisas que existem apenasno pensamento, como os entes estudados pela matemática (figuras geométricas,números, operações algébricas, conceitos como igualdade, diferença, identidade,etc.) e pela lógica (como os conceitos de universalidade, particularidade,individualidade, necessidade, contradição, etc.).Além das coisas materiais, naturais e ideais, também são fenômenos as coisascriadas pela ação e pela prática humanas (técnicas, artes, instituições sociais epolíticas, crenças religiosas, valores morais, etc.). Em outras palavras, osresultados da vida e da ação humanas – aquilo que chamamos de Cultura – sãofenômenos, isto é, significações ou essências que aparecem à consciência e quesão constituídas pela própria consciência.A fenomenologia é a descrição de todos os fenômenos, ou eidos ou essências, ousignificação de todas estas realidades: materiais, naturais, ideais, culturais.Ao ampliar o conceito de fenômeno, Husserl propôs que a Filosofia distinguissediferentes tipos de essências ou fenômenos e que considerasse cada um delescomo manifestando um tipo de realidade diferente, um tipo de ser diferente.Falou, assim, em regiões do ser: a região Consciência, a região Natureza, aregião Matemática, a região Arte, a região História, a região Religião, a regiãoPolítica, a região Ética, etc. Propôs que a Filosofia investigasse as essênciaspróprias desses seres ou desses entes, criando ontologias regionais.Com essa proposta, Husserl fazia com que a metafísica do “Ser enquanto Ser” e ametafísica das substâncias (Deus, al ma, mundo; infinito, pensante, extensa)cedessem lugar ao estudo do ser diferenciado em entes dotados de essênciaspróprias e irredutíveis uns aos outros. Esse estudo seria a ontologia sob a formade ontologias regionais. – 303 –

Convite à Filosofia _______________________________Ôntico e ontológicoVimos que a palavra ontologia deriva do particípio presente do verbo einai (ser),isto é, de on (ente) e onta (entes), dos quais vêm o substantivo to on: o Ser.O filósofo alemão Heidegger propõe distinguir duas palavras: ôntico eontológico. Ôntico se refere à estrutura e à essência própria de um ente, aquiloque ele é em si mesmo, sua identidade, sua diferença em face de outros entes,suas relações com outros entes. Ontológico se refere ao estudo filosófico dosentes, à investigação dos conceitos que nos permitam conhecer e determinar pelopensamento em que consistem as modalidades ônticas, quais os métodosadequados para o estudo de cada uma delas, quais as categorias que se aplicam acada uma delas. Em resumo: ôntico diz respeito aos entes em sua existênciaprópria; ontológico diz respeito aos entes tomados como objetos deconhecimento. Como existem diferentes esferas ou regiões ônticas, existirãoontologias regionais que se ocupam com cada uma delas.Em nossa experiência cotidiana, distinguimos espontaneamente cinco grandesestruturas ônticas:1. os entes materiais naturais que chamamos de coisas reais (frutas, árvores,pedras, rios, estrelas, areia, o Sol, a Lua, metais, etc.);2. os entes materiais artificiais a que também chamamos de coisas reais (nossacasa, mesas, cadeiras, automóveis, telefone, computador, lâmpadas, chuveiro,roupas, calçados, pratos, talheres, etc.);3. os entes ideais, isto é, aqueles que não são coisas materiais, mas idéias gerais,concebidas pelo pensamento lógico, matemático, científico, filosófico e aos quaisdamos o nome de idealidades (igualdade, diferença, número, raiz quadrada,círculo, conjunto, classe, função, variável, freqüência, animal, vegetal, mineral,físico, psíquico, matéria, energia, etc.);4. os entes que podem ser valorizados positiva ou negativamente e aos quaisdamos o nome de valores (beleza, feiúra, vício, virtude, raro, comum, bom, mau,justo, injusto, difícil, fácil, possível, impossível, verdadeiro, falso, desejável,indesejável, etc.);5. os entes que pertencem a uma realidade diferente daquela a que pertencem ascoisas, as idealidades e os valores e aos quais damos o nome de metafísicos (adivindade ou o absoluto; a identidade e a alteridade; o mundo como unidade, arelação e diferenciação de todos os entes ou de todas as estruturas ônticas, etc.).Como passamos da experiência ôntica à investigação ontológica? Quando aquiloque faz parte de nossa vida cotidiana se torna problemático, estranho, confuso:quando somos surpreendidos pelas coisas e pelas pessoas, porque acontece algoinesperado ou imprevisível; quando desejamos usar certas coisas e não sabemoscomo lidar com elas; enfim, quando o significado costumeiro das coisas, dasações, dos valores ou das pessoas perde sentido ou se mostra obscuro e confuso, – 304 –

Marilena Chauí _______________________________ou quando o que nos foi dito, ensinado e transmitido sobre eles já não nossatisfaz e queremos saber mais e melhor.Podemos, então, perguntar: O que é isso que chamamos de coisa real (coisasnaturais e coisas artificiais ou culturais)? Diremos que uma coisa é chamada realporque pertence a um conjunto de entes que possuem em comum a mesmaestrutura ontológica: são entes que existem fora de nós, estão no mundo diante denós, isto é, são um ser; são entes que existem quer nós os percebamos ou não,quer nós os usemos ou não; estão presentes no mundo, mesmo que não estejampresentes para nós, pois podem estar presentes para todos ou ficar presentes paranós em algum momento, isto é, são uma realidade; são entes que começam aexistir e podem desaparecer, mesmo que seu desaparecimento seja muito maislento do que o nosso, são entes que duram e possuem duração, isto é, sãotemporais; são entes que se transformam no tempo, são produzidos pela ação deoutros e produzem outros, obedecendo a certos princípios, isto é, são causas eefeitos, são causalidades. Ser, realidade, temporalidade e causalidade sãoconceitos ontológicos, que descrevem a essência dos entes chamados “coisas”.No caso dos entes ideais, os conceitos ontológicos são bastante diferentes. Emprimeiro lugar, tais entes não são coisas reais – este cavalo é uma coisa real, masa idéia do cavalo não é uma coisa, é um conceito e existe apenas como conceito.Em segundo lugar, não causam uns aos outros, mas são entes que possuem umadefinição própria, podendo relacionar-se com outros – a idéia de homem nãocausa a de cavalo, mas podem relacionar-se quando o historiador, por exemplo,mostra a diferença entre sociedades cujo exército só possui a infantaria e aquelasque inventaram a cavalaria; um círculo não causa um triângulo, mas podemosinscrever triângulos num círculo para demonstrar um teorema ou resolver umproblema. São, portanto, entes relacionais, mas não são regidos pelo conceito decausalidade. Em terceiro lugar, não existem do mesmo modo que as coisas, istoé, não começam a existir, transformam-se e desaparecem – um triângulo, umainferência, a idéia de vegetal não nascem nem morrem, são intemporais.Idealidade, relação e intemporalidade são os conceitos ontológicos para os entesideais.No caso dos entes que são valores, os conceitos ontológicos principais que osdescrevem essencialmente são a qualidade (um valor pode ser negativo ouafirmativo) e a polaridade ou oposição (os valores sempre se apresentam comopares de opostos: bom-mau, belo-feio, justo-injusto, verdadeiro-falso, etc.).Observemos que o sentido das coisas naturais muda com a mudança dosconhecimentos científicos, assim como muda o sentido dos entes ideais (o que osgregos entendiam por número não é o que a matemática moderna entende pornúmero, por exemplo). No caso dos entes reais artificiais, isto é, das coisasproduzidas pelo homem com as técnicas e as artes, a mudança não é apenas desentido, mas das próprias coisas – entes técnicos ficam obsoletos e caem emdesuso quando outros, mais sofisticados, são produzidos. O sentido dos valores – 305 –

Convite à Filosofia _______________________________também muda nas diferentes sociedades e épocas: o que era inaceitável numasociedade ou numa época pode tornar-se aceitável e desejável noutra ou vice-versa.Se considerarmos os entes na perspectiva dos seres humanos, diremos que todosos entes – naturais, artificiais, idéias, valores, metafísicos – são entes culturais ehistóricos, submetidos ao tempo, à mudança, pois seu sentido – sua essência –muda com a Cultura. No entanto, podemos observar também que as categoriasontológicas (ser, realidade, causalidade, temporalidade, idealidade,intemporalidade, relação, diferença, qualidade, quantidade, polaridade, oposição,etc.) permanecem, ainda que mudem seus objetos. Assim, por exemplo, a ciênciafísica pode oferecer uma explicação inteiramente nova para o fenômeno dapercepção das cores. Contudo, a existência da luz, da cor, da percepção dascoisas coloridas permanece e é a essa permanência que se refere a ontologia.Uma sociedade pode considerar o homossexualismo masculino um valor positivo(como foi o caso da sociedade grega antiga) ou um valor negativo (como nasociedade inglesa vitoriana, do século XIX), mas o ato de valorar positiva ounegativamente alguma ação permanece e é essa permanência que interessa àontologia.A nova ontologia: nem realismo, nem idealismoFilósofos que vieram após Husserl e adotaram suas idéias desenvolveram a novaontologia. Entre esses filósofos, dois merecem especial destaque: MartinHeidegger e o francês Maurice Merleau-Ponty. Ambos modificaram várias dasidéias de Husserl e esforçaram-se para liberar a ontologia do velho problemadeixado pela metafísica, qual seja, o dilema do realismo e do idealismo, dilemaque Husserl resolvera em favor do idealismo pelo papel preponderante que dera àconsciência ou ao sujeito do conhecimento.Qual o dilema posto pelo realismo e pelo idealismo?O realismo afirma que, se eliminarmos o sujeito e a consciência, restam as coisasem si mesmas, a realidade verdadeira, o ser em si.O idealismo, ao contrário, afirma que se eliminarmos as coisas ou o nôumeno,resta a consciência ou o sujeito que, através das operações do conhecimento, põea realidade, o objeto.Heidegger e Merleau-Ponty afirmam que as duas posições estão equivocadas eque são “erros gêmeos”, cabendo à nova ontologia superá-los, isto é, resolver oproblema Heráclito-Parmênides, Platão-Aristóteles, medievais e modernos, Kante Husserl. Como resolver um problema milenar como esse e que é, afinal, aprópria história da metafísica e da ontologia?Dizem os dois filósofos: se eliminarmos a consciência, não sobra nada, pois ascoisas existem para nós, isto é, para uma consciência que as percebe, imagina,que delas se lembra, nelas pensa, que as transforma pelo trabalho, etc. Se – 306 –

Marilena Chauí _______________________________eliminarmos as coisas, também não resta nada, pois não podemos viver sem omundo nem fora dele; não somos os criadores do mundo e sim seus habitantes.Damos sentido ao mundo, transformamos as coisas, criamos utensílios, obras dearte, instituições sociais, mas não criamos o próprio mundo. Sem a consciência,não há mundo para nós. Sem o mundo, não temos como conhecer nem agir. Ummundo sem nós será tudo quanto se queira, menos o que entendemos porrealidade. Uma consciência sem o mundo será tudo quanto se queira, menosconsciência humana.A nova ontologia parte da afirmação de que estamos no mundo e de que omundo é mais velho do que nós (isto é, não esperou o sujeito do conhecimentopara existir), mas, simultaneamente, de que somos capazes de dar sentido aomundo, conhecê-lo e transformá-lo.Não somos uma consciência reflexiva pura, mas uma consciência encarnada numcorpo. Nosso corpo não é apenas uma coisa natural, tal como a física, a biologia ea psicologia o estudam, mas é um corpo humano, isto é, habitado e animado poruma consciência. Não somos pensamento puro, pois somos um corpo. Nãosomos uma coisa natural, pois somos uma consciência.O mundo não é um conjunto de coisas e fatos estudados pelas ciências segundorelações de causa e efeito e leis naturais. Além do mundo como conjunto racionalde fatos científicos, há o mundo como lugar onde vivemos com os outros erodeados pelas coisas, um mundo qualitativo de cores, sons, odores, figuras,fisionomias, obstáculos, um mundo afetivo de pessoas, lugares, lembranças,promessas, esperanças, conflitos, lutas.Somos seres temporais – nascemos e temos consciência da morte. Somos seresintersubjetivos – vivemos na companhia dos outros. Somos seres culturais –criamos a linguagem, o trabalho, a sociedade, a religião, a política, a ética, asartes e as técnicas, a filosofia e as ciências.O que é, pois, a realidade? É justamente a existência do mundo material, natural,ideal, cultural e a nossa existência nele. A realidade é o campo formado por seresou entes diferenciados e relacionados entre si, que possuem sentido em simesmos e que também recebem de nós outros e novos sentidos. A realidade ou oSer não é o Objeto-Coisa, sem a consciência. Mas, também, não é o Sujeito-Consciência, sem as coisas e os outros. A realidade ou o Ser é o cruzamento e adiferenciação entre o sensível e o inteligível, entre o material-natural e o ideal-cultural, entre o qualitativo e o quantitativo, entre o fato e o sentido, entre opsíquico e o corporal, etc.O que estuda a ontologia? Os entes ou seres antes que sejam inve stigados pelasciências, e depois que se tornaram enigmáticos para nossa vida cotidiana. Emoutras palavras, os entes ou os seres antes de serem transformados em conceitosdas ciências e depois que nossa experiência cotidiana sofreu o espanto, a – 307 –

Convite à Filosofia _______________________________admiração e o estranhamento de que eles sejam como nos parecem ser, ou nãosejam o que nos parecem ser.A ontologia estuda as essências antes que sejam fatos da ciência explicativa edepois que se tornaram estranhas para nós.Digo, por exemplo, “Vejo esta casa vermelha, próxima da azul”. A ontologiaindaga: O que é ver, qual a essência da visão? O que é uma casa ou qual aessência da habitação? Que é vermelho ou azul ou qual é a essência da cor? Queé ver cores? O que é a cor?Pergunto, por exemplo, “Que horas são?”. A ontologia indaga: O que é o tempo?Qual a essência da temporalidade?Pedro fala: “A cidade já está perto”. A ontologia indaga: O que é o espaço? Qualé a essência da espacialidade? Que é perto e longe? Que é distância?Antônio diz a Paulo: “Aquelas duas árvores são idênticas, mas a terceira édiferente”. A ontologia indaga: O que é identidade? E a diferença? O que é“duas” e “terceira”? Ou seja, o que é o número?Ana me diz: “Ouvi uma música belíssima, não essa coisa feia que você estáescutando”. A ontologia indaga: O que é a beleza e a feiúra? Existem o belo emsi e o feio em si, ou beleza e feiúra são avaliações e valores que atribuímos àscoisas? O que é um valor?Cecília conta a Joana: “Pedro realizou um ato generoso, protegendo a criança,mas Eugênia foi egoísta ao não ajudá-lo”. A ontologia indaga: O que é agenerosidade ou o egoísmo? Existem em si e por si mesmos ou são avaliaçõesque fazemos das ações humanas? O que é uma virtude? O que é um vício? O queé um valor?Como se observa, a ontologia investiga a essência ou sentido do ente físico ounatural, do ente psíquico, lógico, matemático, estético, ético, temporal, espacial,etc. Investiga as diferenças e as relações entre eles, seu modo próprio de existir,sua origem, sua finalidade. O que é o mundo? O que é o eu ou a consciência? Oque é o corpo? O que é o outro? O que é o espaço-tempo? O que é a linguagem?O que é o trabalho? A religião? A arte? A sociedade? A história? A morte? Oinfinito? Eis as questões da ontologia.Recupera-se, assim, a velha questão filosófica: “O que é isto que é?”, masacrescida de nova questão: “Para quem é isto que é?”. Volta-se, pois, a buscar oto on, o Ser ou a essência das coisas, dos atos, dos valores humanos, da vida e damorte, do infinito e do finito. A pergunta “O que é isto que é?” refere-se ao modode ser dos entes naturais, artificiais, ideais e humanos; a pergunta “Para quem éisto que é?” refere-se ao sentido ou à significação desses entes. – 308 –

Marilena Chauí _______________________________Tomemos um exemplo para nos ajudar a compreender o modo de pensar daontologia. Acompanhemos, brevemente, o estudo de Merleau-Ponty sobre aessência ou o ser do tempo e a essência ou o ser do nosso corpo.O que é o tempo?Estamos acostumados a considerar o tempo como uma linha reta, feita dasucessão de instantes, ou como uma sucessão de “agoras” – um “agora” que jáfoi é o passado, o “agora” que está sendo é o presente, um “agora” que virá é ofuturo.A metafísica realista usa, freqüentemente, a imagem do rio para representar otempo como algo que passa sem cessar: a nascente é o passado, o lugar onde meencontro é o presente, a foz é o futuro. Há dois enganos nessa imagem. Emprimeiro lugar, trata-se de uma imagem espacial para referir-se ao que étemporal , isto é, pretende explicar a essência do tempo (o escoamento) usando aessência do espaço (a sucessão de pontos). Em segundo lugar, a imagem do rionão corresponde ao escoamento do tempo. Para que correspondesse, precisariaestar invertida, pois a água que está na nascente é aquela que ainda não passoupelo lugar onde estou e, portanto, ela é, para mim, o futuro e não o passado; aágua que está na foz é aquela que já passou pelo lugar onde estou e, portanto,para mim, é o passado e não o futuro.Tentando evitar os enganos do realismo, a metafísica idealista dirá que o tempo éa forma do sentido interno, isto é, uma forma criada pelo sujeito doconhecimento ou pela consciência reflexiva para organizar a experiênciasubjetiva da sucessão. O tempo não existe, mas é uma identidade produzida pelarazão, um conceito subjetivo para estruturar o que é experimentado comosucessivo.Um novo engano acaba de ser cometido. Se o tempo for uma forma ou umconceito produzido pela consciência reflexiva ou pelo sujeito para organizar asucessão, não haverá sucessão a organizar, pois a consciência reflexiva ou osujeito do conhecimento opera sempre e exclusivamente com o que é atual, como que está dado presentemente ao pensamento. Para a reflexão só existe asimultaneidade e a sucessão se reduz a uma experiência psicológica ou empírica,ao sentimento de que há um “antes” e um “depois”, tais palavras indicando omodo como nos referimos à lembranças e expectativas pessoais.Indaguemos, porém, o que é vivenciar o próprio tempo.Quando vivencio o meu presente, ele se apresenta como uma situação na qualsinto, faço, digo, penso coisas, atuo de várias maneiras e tenho experiência deuma situação aberta, isto é, na qual muitas coisas são possíveis para mim, muitascoisas podem acontecer. Quando rememoro meu passado, percebo que entre ele eo meu presente há uma diferença: quando ele era o meu presente, também estavaaberto a muitas possibilidades, mas somente algumas se realizaram. Por isso, o – 309 –

Convite à Filosofia _______________________________passado lembrado não é uma situação aberta como o presente, mas fechada,terminada. Assim, meu passado não é simplesmente o que veio antes do meupresente, mas algo qualitativamente diferente do presente: este é aberto, aquele,fechado.Quando imagino meu futuro, antevejo, a partir das possibilidades abertas em meupresente, como seria se certas possibilidades se concretizassem e se outras não serealizassem. Meu futuro não é simplesmente o que vem depois do meu presente,mas algo qualitativamente diferente do presente: é o que poderá ser, se asaberturas do meu presente se concretizarem e, portanto, se o que, hoje, estáaberto ou em suspenso, estiver, amanhã, fechado e realizado.Meu passado e meu futuro nunca são os mesmos. Cada vez que me lembro domeu passado, eu o faço a partir do meu presente e, cada vez, este é diferente,fazendo-me recordar de maneiras diversas o que passou. Cada vez que imaginomeu futuro, eu o faço a partir de meu presente, que, sendo sempre diferente,imagina diferentemente o futuro. Não revivo o passado, mas o rememoro talcomo sou hoje em meu presente. Não vivo o meu futuro, mas o imagino tal comosou hoje em meu presente. O presente é uma contração temporal que arranca opassado do esquecimento e abre o futuro para o possível. O passado e o futurosão dilatações temporais, distorções do presente.Que é lembrar? É captar no contínuo temporal uma diferença real entre o queestou vivendo no presente e o que estou vivenciando do passado. Que éesquecer? É perder a fisionomia ou o relevo de um momento do passado. Que éesperar? É buscar no contínuo temporal uma diferença possível entre o que estouvivendo e o que estou vivenciando do futuro.O que é o tempo?Em primeiro lugar, é um escoamento interno e externo, um fluir contínuo, quevai produzindo diferenças dentro de si mesmo. Em segundo lugar, é umacontração e uma dilatação de si mesmo, um juntar-se a si mesmo e consigomesmo (na lembrança) e um expandir-se a si mesmo e consigo mesmo (naesperança). O tempo é a produção da identidade e da diferença consigo mesmo e,nesse sentido, é uma dimensão do meu ser (não estou no tempo, mas soutemporal) e uma dimensão de todos os entes (não estão no tempo, mas sãotemporais).O tempo não é um receptáculo de instantes, não é uma linha de momentossucessivos, não é a distância entre um “agora”, um “antes” e um “depois”, mas éo movimento interno dos entes para reunirem-se consigo mesmos (o presentecomo centro que busca o passado e o futuro) e para se diferenciarem de simesmos (o presente como diferença qualitativa em face do passado e do futuro).O Ser é tempo.O que é nosso corpo? Qual sua essência? – 310 –

Marilena Chauí _______________________________A física dirá que é um agregado de átomos, uma certa massa e energia, quefunciona de acordo com as leis gerais da Natureza. A química dirá que é feito demoléculas de água, oxigênio, carbono, de enzimas e proteínas, funcionando comoqualquer outro corpo químico. A biologia dirá que é um organismo vivo, umindivíduo membro de uma espécie (animal, mamífero, vertebrado, bípede), capazde adaptar-se ao meio ambiente por operações e funções internas, dotado de umcódigo genético hereditário, que se reproduz sexualmente. A psicologia dirá queé um feixe de carne, músculos, ossos, que formam aparelhos receptores deestímulos externos e internos e aparelhos emissores de respostas internas eexternas a tais estímulos, capaz de ter comportamentos observáveis.Todas essas respostas dizem que nosso corpo é uma coisa entre as coisas, umamáquina receptiva e ativa que pode ser explicada por relações de causa e efeito,suas operações são observáveis direta ou indiretamente – podendo ser examinadoem seus mínimos detalhes nos laboratórios, classificado e conhecido. Nossocorpo, como qualquer coisa, é um objeto de conhecimento.Porém, será isso o corpo que é nosso?Meu corpo é um ser visível no meio dos outros seres visíveis, mas que tem apeculiaridade de ser um visível vidente: vejo, além de ser vista. Não só isso.Posso me ver, sou visível para mim mesma. E posso me ver vendo.Meu corpo é um ser táctil como os outros corpos, podendo ser tocado. Mastambém tem o poder de tocar, é tocante; e é capaz de tocar-se, como quandominha mão direita toca a esquerda e já não sabemos quem toca e quem é tocado.Meu corpo é sonoro como outros corpos, como os cristais e os metais; pode serouvido. Mas tem o poder de ouvir. Mais do que isso, pode fazer-se ouvir e podeouvir-se quando emite sons. Do fundo da garganta, passando pela língua e pelosdentes, com os movimentos de meus lábios transformo a sonoridade em sentido,dizendo palavras. Ouço-me falando e ouço quem me fala. Sou sonora para mimmesma.Meu corpo estende a mão e toca outra mão em outro corpo, vê um olhar, percebeuma fisionomia, escuta uma outra voz: sei que diante de mim está um corpo queé meu outro, um outro humano habitado por consciência e eu o sei porque mefala e, como eu, seu corpo produz palavras, sentido.Visível-vidente, táctil-tocante, sonoro-ouvinte/falante, meu corpo se vê vendo, setoca tocando, se escuta escutando e falando. Meu corpo não é coisa, não émáquina, não é feixe de ossos, músculos e sangue, não é uma rede de causas eefeitos, não é um receptáculo para u alma ou para uma consciência: é meu mamodo fundamental de ser e de estar no mundo, de me relacionar com ele e dele serelacionar comigo. Meu corpo é um sensível que sente e se sente, que se sabesentir e se sentindo. É uma interioridade exteriorizada e uma exterioridade – 311 –

Convite à Filosofia _______________________________interiorizada. É esse o ser ou a essência do meu corpo. Meu corpo tem, comotodos os entes, uma dimensão metafísica ou ontológica. – 312 –

Convite à Filosofia _______________________________ Capítulo 1 A atitude científicaO senso comumO Sol é menor do que a Terra. Quem duvidará disso se, diariamente, vemos umpequeno círculo avermelhado percorrer o céu, indo de leste para oeste?O Sol se move em torno da Terra, que permanece imóvel. Quem duvidará disso,se diariamente vemos o Sol nascer, percorrer o céu e se pôr? A aurora não é o seucomeço e o crepúsculo, seu fim?As cores existem em si mesmas. Quem duvidará disso, se passamos a vida vendorosas vermelhas, amarelas e brancas, o azul do céu, o verde das árvores, oalaranjado da laranja e da tangerina?Cada gênero e espécie de animal já surgiram tais como os conhecemos. Alguémpoderia imaginar um peixe tornar-se réptil ou um pássaro? Para os que sãoreligiosos, os livros sagrados não ensinam que a divindade criou de uma só veztodos os animais, num só dia?A família é uma realidade natural criada pela Natureza para garantir asobrevivência humana e para atender à afetividade natural dos humanos, quesentem a necessidade de viver juntos. Quem duvidará disso, se vemos, no mundointeiro, no passado e no presente, a família existindo naturalmente e sendo acélula primeira da sociedade?A raça é uma realidade natural ou biológica produzida pela diferença dos climas,da alimentação, da geografia e da reprodução sexual. Quem duvidará disso, sevemos que os africanos são negros, os asiáticos são amarelos de olhos puxados,os índios são vermelhos e os europeus, brancos? Se formos religiosos, saberemosque os negros descendem de Caim, marcado por Deus, e de Cam, o filhodesobediente de Noé.Certezas como essas formam nossa vida e o senso comum de nossa sociedade,transmitido de geração em geração, e, muitas vezes, transformando-se em crençareligiosa, em doutrina inquestionável.A astronomia, porém, demonstra que o Sol é muitas vezes maior do que a Terrae, desde Copérnico, que é a Terra que se move em torno dele. A física ópticademonstra que as cores são ondas luminosas de comprimentos diferentes, obtidaspela refração e reflexão, ou decomposição, da luz branca. A biologia demonstraque os gêneros e as espécies de animais se formaram lentamente, no curso de – 314 –

Marilena Chauí _______________________________milhões de anos, a partir de modificações de microorganismos extremamentesimples.Historiadores e antropólogos mostram que o que entendemos por família (pai,mãe, filhos; esposa, marido, irmãos) é uma instituição social recentíssima – datado século XV – e própria da Europa ocidental, não existindo na Antiguidade,nem nas sociedades africanas, asiáticas e americanas pré-colombianas. Mostramtambém que não é um fato natural, mas uma criação sociocultural, exigida porcondições históricas determinadas.Sociólogos e antropólogos mostram que a idéia de raça também é recente – datado século XVIII -, sendo usada por pensadores que procuravam uma explicaçãopara as diferenças físicas e culturais entre os europeus e os povos conhecidos apartir do século XIV, com as viagens de Marco Pólo, e do século XV, com asgrandes navegações e as descobertas de continentes ultramarinos.Ao que parece, há uma grande diferença entre nossas certezas cotidianas e oconhecimento científico. Como e por que ela existe?Características do senso comumUm breve exame de nossos saberes cotidianos e do senso comum de nossasociedade revela que possuem algumas características que lhes são próprias:? são subjetivos, isto é, exprimem sentimentos e opiniões individuais e degrupos, variando de uma pessoa para outra, ou de um grupo para outro,dependendo das condições em que vivemos. Assim, por exemplo, se eu forartista, verei a beleza da árvore; se eu for marceneira, a qualidade da madeira; seestiver passeando sob o Sol, a sombra para descansar; se for bóia-fria, os frutosque devo colher para ganhar o meu dia. Se eu for hindu, uma vaca será sagradapara mim; se for dona de um frigorífico, estarei interessada na qualidade e naquantidade de carne que poderei vender;? são qualitativos, isto é, as coisas são julgadas por nós como grandes oupequenas, doces ou azedas, pesadas ou leves, novas ou velhas, belas ou feias,quentes ou frias, úteis ou inúteis, desejáveis ou indesejáveis, coloridas ou semcor, com sabor, odor, próxi mas ou distantes, etc.;? s ão heterogêneos, isto é, referem-se a fatos que julgamos diferentes, porque ospercebemos como diversos entre si. Por exemplo, um corpo que cai e uma penaque flutua no ar são acontecimentos diferentes; sonhar com água é diferente desonhar com uma escada, etc.;? s ão individualizadores por serem qualitativos e heterogêneos, isto é, cada coisaou cada fato nos aparece como um indivíduo ou como um ser autônomo: a seda émacia, a pedra é rugosa, o algodão é áspero, o mel é doce, o fogo é quente, omármore é frio, a madeira é dura, etc.; – 315 –

Convite à Filosofia _______________________________? mas também são generalizadores, pois tendem a reunir numa só opinião ounuma só idéia coisas e fatos julgados semelhantes: falamos dos animais, dasplantas, dos seres humanos, dos astros, dos gatos, das mulheres, das crianças, dasesculturas, das pinturas, das bebidas, dos remédios, etc.;? em decorrência das generalizações, tendem a estabelecer relações de causa eefeito entre as coisas ou entre os fatos: “onde há fumaça, há fogo”; “quem tudoquer, tudo perde”; “dize-me com quem andas e te direi quem és”; a posição dosastros determina o destino das pessoas; mulher menstruada não deve tomar banhofrio; ingerir sal quando se tem tontura é bom para a pressão; mulher assanhadaquem ser estuprada; menino de rua é delinqüente, etc.;? não se surpreendem e nem se admiram com a regularidade, constância,repetição e diferença das coisas, mas, ao contrário, a admiração e o espanto sedirigem para o que é imaginado como único, extraordinário, maravilhoso oumiraculoso. Justamente por isso, em nossa sociedade, a propaganda e a modaestão sempre inventando o “extraordinário”, o “nunca visto”;? pelo mesmo motivo e não por compreenderem o que seja investigaçãocientífica, tendem a identificá-la com a magia, considerando que ambas lidamcom o misterioso, o oculto, o incompreensível. Essa imagem da ciência comomagia aparece, por exemplo, no cinema, quando os filmes mostram oslaboratórios científicos repletos de objetos incompreensíveis, com luzes queacendem e apagam, tubos de onde saem fumaças coloridas, exatamente como sãomostradas as cavernas ocultas dos magos. Essa mesma identificação entre ciênciae magia aparece num programa da televisão brasileira, o Fantástico, que, como onome indica, mostra aos telespectadores resultados científicos como se fossemespantosa obra de magia, assim como exibem magos ocultistas como se fossemcientistas;? costumam projetar nas coisas ou no mundo sentimentos de angústia e de medodiante do desconhecido. Assim, durante a Idade Média, as pessoas viam odemônio em toda a parte e, hoje, enxergam discos voadores no espaço;? por serem subjetivos, generalizadores, expressões de sentimentos de medo eangústia, e de incompreensão quanto ao trabalho científico, nossas certezascotidianas e o senso comum de nossa sociedade ou de nosso grupo socialcristalizam-se em preconceitos com os quais passamos a interpretar toda arealidade que nos cerca e todos os acontecimentos.A atitude científicaO que distingue a atitude científica da atitude costumeira ou do senso comum?Antes de qualquer coisa, a ciência desconfia da veracidade de nossas certezas, denossa adesão imediata às coisas, da ausência de crítica e da falta de curiosidade.Por isso, ali onde vemos coisas, fatos e acontecimentos, a atitude científica vê – 316 –

Marilena Chauí _______________________________problemas e obstáculos, aparências que precisam ser explicadas e, em certoscasos, afastadas.Sob quase todos os aspectos, podemos dizer que o conhecimento científico opõe-se ponto por ponto às características do senso comum:? é objetivo, isto é, procura as estrutur as universais e necessárias das coisasinvestigadas;? é quantitativo, isto é, busca medidas, padrões, critérios de comparação eavaliação para coisas que parecem ser diferentes. Assim, por exemplo, asdiferenças de cor são explicadas por diferenças de um mesmo padrão ou critériode medida, o comprimento das ondas luminosas; as diferenças de intensidade dossons, pelo comprimento das ondas sonoras; as diferenças de tamanho, pelasdiferenças de perspectiva e de ângulos de visão, etc.;? é homogêneo, isto é, busca as leis gerais de funcionamento dos fenômenos, quesão as mesmas para fatos que nos parecem diferentes. Por exemplo, a leiuniversal da gravitação demonstra que a queda de uma pedra e a flutuação deuma pluma obedecem à mesma lei de atração e repulsão no interior do campogravitacional; a estrela da manhã e a estrela da tarde são o mesmo planeta,Vênus, visto em posições diferentes com relação ao Sol, em decorrência domovimento da Terra; sonhar com água e com uma escada é ter o mesmo tipo desonho, qual seja, a realização dos desejos sexuais reprimidos, etc.;? é generalizador, pois reúne individualidades, percebidas como diferentes, sobas mesmas leis, os mesmos padrões ou critérios de medida, mostrando quepossuem a mesma estrutura. Assim, por exemplo, a química mostra que a enormevariedade de corpos se reduz a um número limitado de corpos simples que secombinam de maneiras variadas, de modo que o número de elementos éinfinitamente menor do que a variedade empírica dos compostos;? são diferenciadores, pois não reúnem nem generalizam por semelhançasaparentes, mas distinguem os que parecem iguais, desde que obedeçam aestruturas diferentes. Lembremos aqui um exemplo que usamos no capítulo sobrea linguagem, quando mostramos que a palavra queijo parece ser a mesma coisaque a palavra inglesa cheese e a palavra francesa fromage, quando, na realidade,são muito diferentes, porque se referem a estruturas alimentares diferentes;? só estabelecem relações causais depois de investigar a natureza ou estrutura dofato estudado e suas relações com outros semelhantes ou diferentes. Assim, porexemplo, um corpo não cai porque é pesado, mas o peso de um corpo dependedo campo gravitacional onde se encontra – é por isso que, nas naves espaciais,onde a gravidade é igual a zero, todos os corpos flutuam, independentemente dopeso ou do tamanho; um corpo tem uma certa cor não porque é colorido, masporque, dependendo de sua composição química e física, reflete a luz de umadeterminada maneira, etc.; – 317 –

Convite à Filosofia _______________________________? surpreende-se com a regularidade, a constância, a freqüência, a repetição e adiferença das coisas e procura mostrar que o maravilhoso, o extraordinário ou o“milagroso” é um caso particular do que é regular, normal, freqüente. Umeclipse, um terremoto, um furacão, embora excepcionais, obedecem às leis dafísica. Procura, assim, apresentar explicações racionais, claras, simples everdadeiras para os fatos, opondo-se ao espetacular, ao mágico e ao fantástico;? distingue-se da magia. A magia admite uma participação ou simpatia secretaentre coisas diferentes, que agem umas sobre as outras por meio de qualidadesocultas e considera o psiquismo humano uma força capaz de ligar-se apsiquismos superiores (planetários, astrais, angélicos, demoníacos) para provocarefeitos inesperados nas coisas e nas pessoas. A atitude científica, ao contrário,opera um desencantamento ou desenfeitiçamento do mundo, mostrando que nelenão agem forças secretas, mas causas e relações racionais que podem serconhecidas e que tais conhecimentos podem ser transmitidos a todos;? afirma que, pelo conhecimento, o homem pode libertar-se do medo e dassuperstições, deixando de projetá-los no mundo e nos outros;? procura renovar-se e modificar-se continuamente, evitando a transformação dasteorias em doutrinas, e destas em preconceitos sociais. O fato científico resulta deum trabalho paciente e lento de investigação e de pesquisa racional, aberto amudanças, não sendo nem um mistério incompreensível nem uma doutrina geralsobre o mundo.Os fatos ou objetos científicos não são dados empíricos espontâneos de nossaexperiência cotidiana, mas são construídos pelo trabalho da investigaçãocientífica. Esta é um conjunto de atividades intelectuais, experimentais etécnicas, realizadas com base em métodos que permitem e garantem:? separar os elementos subjetivos e objetivos de um fenômeno;? construir o fenômeno como um objeto do conhecimento, controlável,verificável, interpretável e capaz de ser retificado e corrigido por novaselaborações;? demonstrar e provar os resultados obtidos durante a investigação, graças aorigor das relações definidas entre os fatos estudados; a demonstração deve serfeita não só para verificar a validade dos resultados obtidos, mas também paraprever racionalmente novo s fatos como efeitos dos já estudados;? relacionar com outros fatos um fato isolado, integrando-o numa explicaçãoracional unificada, pois somente essa integração transforma o fenômeno emobjeto científico, isto é, em fato explicado por uma teoria;? formular uma teoria geral sobre o conjunto dos fenômenos observados e dosfatos investigados, isto é, formular um conjunto sistemático de conceitos queexpliquem e interpretem as causas e os efeitos, as relações de dependência, – 318 –

Marilena Chauí _______________________________identidade e diferença entre todos os objetos que constituem o campoinvestigado.Delimitar ou definir os fatos a investigar, separando-os de outros semelhantes oudiferentes; estabelecer os procedimentos metodológicos para observação,experimentação e verificação dos fatos; construir instrumentos técnicos econdições de laboratório específicas para a pesquisa; elaborar um conjuntosistemático de conceitos que formem a teoria geral dos fenômenos estudados,que controlem e guiem o andamento da pesquisa, além de ampliá-la com novasinvestigações, e permitam a previsão de fatos novos a partir dos já conhecidos:esses são os pré-requisitos para a constituição de uma ciência e as exigências daprópria ciência.A ciência distingue-se do senso comum porque este é uma opinião baseada emhábitos, preconceitos, tradições cristalizadas, enquanto a primeira baseia-se empesquisas, investigações metódicas e sistemáticas e na exigência de que as teoriassejam internamente coerentes e digam a verdade sobre a realidade. A ciência éconhecimento que resulta de um trabalho racional.O que é uma teoria científica?É um sistema ordenado e coerente de proposições ou enunciados baseados emum pequeno número de princípios, cuja finalidade é descrever, explicar e preverdo modo mais completo possível um conjunto de fenômenos, oferecendo suasleis necessárias. A teoria científica permite que uma multiplicidade empírica defatos aparentemente muito diferentes sejam compreendidos como semelhantes esubmetidos às mesmas leis; e, vice-versa, permite compreender por que fatosaparentemente semelhantes são diferentes e submetidos a leis diferentes. – 319 –

Convite à Filosofia _______________________________ Capítulo 2 A ciência na HistóriaAs três principais concepções de ciênciaHistoricamente, três têm sido as principais concepções de ciência ou de ideais decientificidade: o racionalista, cujo modelo de objetividade é a matemática; oempirista, que toma o modelo de objetividade da medicina grega e da histórianatural do século XVII; e o construtivista, cujo modelo de objetividade advém daidéia de razão como conhecimento aproximativo.A concepção racionalista – que se estende dos gregos até o final do século XVII– afirma que a ciência é um conhecimento racional dedutivo e demonstrativocomo a matemática, portanto, capaz de provar a verdade necessária e universal deseus enunciados e resultados, sem deixar qualquer dúvida possível. Uma ciênciaé a unidade sistemática de axiomas, postulados e definições, que determinam anatureza e as propriedades de seu objeto, e de demonstrações, que provam asrelações de causalidade que regem o objeto investigado.O objeto científico é uma representação intelectual universal, necessária everdadeira das coisas representadas e corresponde à própria realidade, porqueesta é racional e inteligível em si mesma. As experiências científicas sãorealizadas apenas para verificar e confirmar as demonstrações teóricas e não paraproduzir o conhecimento do objeto, pois este é conhecido exclusivamente pelopensamento. O objeto científico é matemático, porque a realidade possui umaestrutura matemática, ou como disse Galileu, “o grande livro da Natureza estáescrito em caracteres matemáticos”.A concepção empirista – que vai da medicina grega e Aristóteles até o final doséculo XIX – afirma que a ciência é uma interpretação dos fatos baseada emobservações e experimentos que permitem estabelecer induções e que, ao seremcompletadas, oferecem a definição do objeto, suas propriedades e suas leis defuncionamento. A teoria científica resulta das observações e dos experimentos,de modo que a experiência não tem simplesmente o papel de verificar econfirmar conceitos, mas tem a função de produzi-los. Eis por que, nestaconcepção, sempre houve grande cuidado para estabelecer métodosexperimentais rigorosos, pois deles dependia a formulação da teoria e a definiçãoda objetividade investigada.Essas duas concepções de cientificidade possuíam o mesmo pressuposto, emborao realizassem de maneiras diferentes. Ambas consideravam que a teoria científica – 320 –

Marilena Chauí _______________________________era uma explicação e uma representação verdadeira da própria realidade, talcomo esta é em si mesma. A ciência era uma espécie de raio-X da realidade. Aconcepção racionalista era hipotético-dedutiva, isto é, definia o objeto e suasleis e disso deduzia propriedades, efeitos posteriores, previsões. A concepçãoempirista era hipotético-indutiva, isto é, apresentava suposições sobre o objeto,realizava observações e experimentos e chegava à definição dos fatos, às suasleis, suas propriedades, seus efeitos posteriores e previsões.A concepção construtivista – iniciada no século passado – considera a ciênciauma construção de modelos explicativos para a realidade e não umarepresentação da própria realidade. O cientista combina dois procedimentos –um, vindo do racionalismo, e outro, vindo do empirismo – e a eles acrescenta umterceiro, vindo da idéia de conhecimento aproximativo e corrigível.Como o racionalista, o cientista construtivista exige que o método lhe permita elhe garanta estabelecer axiomas, postulados, definições e deduções sobre o objetocientífico. Como o empirista, o construtivista exige que a experimentação guie emodifique axiomas, postulados, definições e demonstrações. No entanto, porqueconsidera o objeto uma construção lógico-intelectual e uma construçãoexperimental feita em laboratório, o cientista não espera que seu trabalhoapresente a realidade em si mesma, mas ofereça estruturas e modelos defuncionamento da realidade, explicando os fenômenos observados. Não espera,portanto, apresentar uma verdade absoluta e sim uma verdade aproximada quepode ser corrigida, modificada, abandonada por outra mais adequada aosfenômenos. São três as exigências de seu ideal de cientificidade:1. que haja coerência (isto é, que não haja contradições) entre os princípios queorientam a teoria;2. que os modelos dos objetos (ou estruturas dos fenômenos) sejam construídoscom base na observação e na experimentação;3. que os resultados obtidos possam não só alterar os modelos construídos, mastambém alterar os próprios princípios da teoria, corrigindo-a.Diferenças entre a ciência antiga e a modernaQuando apresentamos os ideais de cientificidade, dissemos que tanto o idealracionalista quanto o empirista se iniciaram com os gregos. Isso, porém, nãosignifica que a concepção antiga e a moderna (século XVII) de ciência sejamidênticas.Tomemos um exemplo que nos ajude a perceber algumas das diferenças entreantigos e modernos.Aristóteles escreveu uma Física. O objeto físico ou natural, diz Aristóteles,possui duas características principais: em primeiro lugar, existe e operaindependentemente da presença, da vontade e da ação humanas; em segundolugar, é um ser em movimento, isto é, em devir, sofrendo alterações qualitativas, – 321 –

Convite à Filosofia _______________________________quantitativas e locais; nasce, vive e morre ou desaparece. A Física estuda,portanto, os seres naturais submetidos à mudança.O mundo, escreve Aristóteles, divide-se em duas grandes regiões naturais, cujadiferença é dada pelo tipo de substância, de matéria e de forma dos seres de cadauma delas. A região celeste, formada de Sete Céus ou Sete Esferas, onde estão osastros, tem como substância o éter, matéria sutil e diáfana, forma universal quenão sofre mudanças qualitativas nem quantitativas, mas apenas a mudança oumovimento local, realizando eternamente o mais perfeito dos movimentos, ocircular. A segunda região é a sublunar ou terrestre - nosso mundo -, constituídapor quatro substâncias ou elementos – terra, água, ar e fogo -, de cujascombinações surgem todos os seres. São substâncias fortemente materiais e,portanto (como vimos no estudo da metafísica aristotélica), fortemente potenciaisou virtuais, transformando-se sem cessar. A região sublunar é o mundo dasmudanças de forma, ou da passagem contínua de uma forma a outra, paraatualizar o que está em potência na matéria.Os seres físicos não se movem da mesma maneira (não se transformam nem sedeslocam da mesma maneira). Seus movimentos e mudanças dependem daqualidade de suas matérias e da quantidade em que cada um dos quatroelementos materiais existe combinado com os outros num corpo.Deixemos de lado todas as modalidades de movimentos estudadas por Aristótelese examinemos apenas uma: o movimento local. Os corpos, diz o filósofo,procuram atualizar suas potências materiais, atualizando-se em formas diferentes.Cada modalidade de matéria realiza sua forma perfeita de maneira diferente dasoutras.No caso do movimento local, a matéria define lugares naturais, isto é, locaisonde ela se atualiza ou se realiza melhor do que em outros. Assim, os corpospesados (nos quais predomina o elemento terra) têm como lugar natural o centroda Terra e por isso o movimento local natural dos pesados é a queda. Os corposleves (nos quais predomina o elemento fogo) têm como lugar natural o céu e porisso seu movimento local natural é subir. Os corpos não inteiramente leves (nosquais predomina o elemento ar) buscam seu lugar natural no espaço rarefeito epor isso seu movimento local natural é flutuar. Enfim, os corpos não totalmentepesados (nos quais predomina o elemento água) buscam seu lugar natural nolíquido e por isso seu movimento local natural é boiar nas águas.Além dos movimentos naturais, os corpos podem ser submetidos a movimentosviolentos, isto é, àqueles que contrariam sua natureza e os impedem de alcançarseu lugar natural. Por exemplo, quando o arqueiro lança uma flecha, imprimenela um movimento violento, pois força-a a permanecer no ar, embora seu lugarnatural seja a terra e seu movimento natural seja a queda.Este pequeno resumo da Física aristotélica nos mostra algumas característicasmarcantes da ciência antiga: – 322 –

Marilena Chauí _______________________________? é uma ciência baseada nas qualidades percebidas nos corpos (leve, pesado,líquido, sólido, etc.);? é uma ciência baseada em distinções qualitativas do espaço (alto, baixo, longe,perto, celeste, sublunar);? é uma ciência baseada na metafísica da identidade e da mudança (perfeiçãoimóvel, imperfeição móvel);? é uma ciência que estabelece leis diferentes para os corpos segundo sua matériae sua forma, ou segundo sua substância;? como conseqüência das características anteriores, é uma ciência que concebe arealidade natural como um mo delo hierárquico no qual os seres possuem umlugar natural de acordo com sua perfeição, hierarquizando-se em graus que vãodos inferiores aos superiores.Quando comparamos a física de Aristóteles com a moderna, isto é, a que foielaborada por Galileu e Newton, podemos notar as grandes diferenças:? para a física moderna, o espaço é aquele definido pela geometria, portanto,homogêneo, sem distinções qualitativas entre alto, baixo, frente, atrás, longe,perto. É um espaço onde todos os pontos são reversíveis ou equivalentes, demodo que não há “lugares naturais” qualitativamente diferenciados;? os objetos físicos investigados pelo cientista começam por ser purificados detodas as qualidades sensoriais – cor, tamanho, odor, peso, matéria, forma,líquido, sólido, leve, grande, pequeno, etc. -, isto é, de todas as qualidadessensíveis, porque estas são meramente subjetivas. O objeto é definido porpropriedades objetivas gerais, válidas para todos os seres físicos: massa, volume,figura. Torna-se irrelevante o tipo de matéria, de forma ou de substância de umcorpo, pois todos se comportam fisicamente da mesma maneira. Torna-se inútil adistinção entre um mundo celeste e um mundo sublunar, pois astros e corposterrestres obedecem às mesmas leis universais da física;? a física estuda o movimento não como alteração qualitativa e quantitativa doscorpos, mas como deslocamento espacial que altera a massa, o volume e avelocidade dos corpos. O movimento e o repouso são as propriedades físicasobjetivas de todos os corpos da Natureza e todos eles obedecem às mesmas leis –aquelas que Galileu formulou com base no princípio da inércia (um corpo semantém em movimento indefinidamente, a menos que encontre um outro que lhefaça obstáculo ou que o desvie de seu trajeto); e aquelas formuladas por Newton,com base no princípio universal da gravitação (a toda ação corresponde umareação que lhe é igual e contrária). Não há diferença entre movimento natural emovimento violento, pois todo e qualquer movimento obedece às mesmas leis;? a Natureza é um complexo de corpos formados por proporções diferentes demovimento e de repouso, articulados por relações de causa e efeito, semfinalidade, pois a idéia de finalidade só existe para os seres humanos dotados de – 323 –

Convite à Filosofia _______________________________razão e vontade. Os corpos não se movem, portanto, em busca de perfeição, masporque a causa eficiente do movimento os faz moverem-se. A física é umamecânica universal.A física da Natureza se torna geométrica, experimental, quantitativa, causal oumecânica (relações entre a causa eficiente e seus efeitos) e suas leis têm valoruniversal, independentemente das qualidades sensíveis das coisas. Terra, mar e arobedecem às mesmas leis naturais. A Natureza é a mesma em toda parte e paratodos os seres, não existindo hierarquias ou graus de imperfeição-perfeição,inferioridade-superioridade.Há, ainda, uma outra diferença profunda entre a ciência antiga e a moderna. Aprimeira era uma ciência teorética, isto é, apenas contemplava os seres naturais,sem jamais imaginar intervir neles ou sobre eles. A técnica era um saberempírico, ligado a práticas necessárias à vida e nada tinha a oferecer à ciêncianem a receber dela. Numa sociedade escravista, que deixava tarefas, trabalhos eserviços aos escravos, a técnica era vista como uma forma menor deconhecimento.Duas afirmações mostram a diferença dos modernos em relação aos antigos: aafirmação do filósofo inglês Francis Bacon, para quem “saber é poder”, e aafirmação de Descartes, para quem “a ciência deve tornar-nos senhores daNatureza”. A ciência moderna nasce vinculada à idéia de intervir na Natureza, deconhecê-la para apropriar-se dela, para controlá-la e dominá-la. A ciência não éapenas contemplação da verdade, mas é sobretudo o exercício do poderiohumano sobre a Natureza. Numa sociedade em que o capitalismo está surgindo e,para acumular o capital, deve ampliar a capacidade do trabalho humano paramodificar e explorar a Natureza, a nova ciência será inseparável da técnica.Na verdade, é mais correto falar em tecnologia do que em técnica. De fato, atécnica é um conhecimento empírico, que, graças à observação, elabora umconjunto de receitas e práticas para agir sobre as coisas. A tecnologia, porém, éum saber teórico que se aplica praticamente.Por exemplo, um relógio de sol é um objeto técnico que serve para marcar horasseguindo o movimento solar no céu. Um cronômetro, porém, é um objetotecnológico: por um lado, sua construção pressupõe conhecimentos teóricossobre as leis do movimento (as leis do pêndulo) e, por outro lado, seu uso altera apercepção empírica e comum dos objetos, pois serve para medir aquilo que nossapercepção não consegue perceber. Uma lente de aumento é um objeto técnico,mas o telescópio e o microscópio são objetos tecnológicos, pois sua construçãopressupõe o conhecimento das leis científicas definidas pela óptica. Em outraspalavras, um objeto é tecnológico quando sua construção pressupõe um sabercientífico e quando seu uso interfere nos resultados das pesquisas científicas. Aciência moderna tornou-se inseparável da tecnologia. – 324 –

Marilena Chauí _______________________________As mudanças científicasVimos até aqui duas grandes mudanças na ciência. A primeira delas se refere àpassagem do racionalismo e empirismo ao construtivismo, isto é, de um ideal decientificidade baseado na idéia de que a ciência é uma representação da realidadetal como ela é em si mesma, a um ideal de cientificidade baseado na idéia de queo objeto científico é um modelo construído e não uma representação do real, umaaproximação sobre o modo de funcionamento da realidade, mas não oconhecimento absoluto dela. A segunda mudança refere-se à passagem da ciênciaantiga – teorética, qualitativa – à ciência moderna – tecnológica, quantitativa. Porque houve tais mudanças no pensamento científico?Durante certo tempo, julgou-se que a ciência (como a sociedade) evolui eprogride. Evolução e progresso são duas idéias muito recentes – datam dosséculos XVIII e XIX -, mas muito aceitas pelas pessoas. Basta ver o lema dabandeira brasileira para perceber como as pessoas acham natural falar em“Ordem e Progresso”.As noções de evolução e de progresso partem da suposição de que o tempo é umalinha reta contínua e homogênea (como a imagem do rio, que vimos ao estudar ametafísica). O tempo seria uma sucessão contínua de instantes, momentos, fases,períodos, épocas, que iriam se somando uns aos outros, acumulando-se de talmodo que o que acontece depois é o resultado melhorado do que aconteceu antes.Contínuo e cumulativo, o tempo seria um aperfeiçoamento de todos os seres(naturais e humanos).Evolução e progresso são a crença na superioridade do presente em relação aopassado e do futuro em relação ao presente. Assim, os europeus civilizadosseriam superiores aos africanos e aos índios, a física galileana-newtoniana seriasuperior à aristotélica, a física quântica seria superior à de Galileu e de Newton.Evoluir significa: tornar-se superior e melhor do que se era antes. Progredirsignifica: ir num rumo cada vez melhor na direção de uma finalidade superior.Evolução e progresso também supõem o tempo como uma série linear demomentos ligados por relações de causa e efeito, em que o passado é causa e opresente, efeito, vindo a tornar-se causa do futuro. Vemos essa idéia aparecerquando, por exemplo, os manuais de História apresentam as “influências” queum acontecimento anterior teria tido sobre um outro, posterior.Evoluir e progredir pressupõem uma concepção de História semelhante à que abiologia apresenta quando fala em germe, semente ou larva. O germe, a sementeou a larva são entes que contêm neles mesmos tudo o que lhes acontecerá, isto é,o futuro já está contido no ponto inicial de um ser, cuja história ou cujo temponada mais é do que o desdobrar ou o desenvolver pleno daquilo que ele já erapotencialmente. – 325 –

Convite à Filosofia _______________________________Essa idéia encontra-se presente, por exemplo, na distinção entre paísesdesenvolvidos e subdesenvolvidos. Quando digo que um país é ou estádesenvolvido, digo que sei que alcançou a finalidade à qual estava destinadodesde que surgiu. Quando digo que um país é ou está subdesenvolvido, estoudizendo que a finalidade – que é a mesma para ele e para o desenvolvido – aindanão foi, mas deverá ser alcançada em algum momento do tempo. Não por acaso,as expressões desenvolvido e subdesenvolvido foram usadas para substituir duasoutras, tidas como ofensivas e agressivas: países adiantados e países atrasados,isto é, países evoluídos e não evoluídos, países com progresso e sem progresso.Em resumo, evolução e progresso pressupõem: continuidade temporal,acumulação causal dos acontecimentos, superioridade do futuro e do presentecom relação ao passado, existência de uma finalidade a ser alcançada.Supunha-se que as mudanças científicas indicavam evolução ou progresso dosconhecimentos humanos.Desmentindo a evolução e o progresso científicosA Filosofia das Ciências, estudando as mudanças científicas, impôs umdesmentido às idéias de evolução e progresso. Isso não quer dizer que a Filosofiadas Ciências viesse a falar em atraso e regressão científica, pois essas duasnoções são idênticas às de evolução e progresso, apenas com o sinal trocado (emvez de caminhar causal e continuamente para frente, caminhar-se-ia causal econtinuamente para trás). O que a Filosofia das Ciências compreendeu foi que aselaborações científicas e os ideais de cientificidade são diferentes edescontínuos.Quando, por exemplo, comparamos a geometria clássica ou geometria euclidiana(que opera com o espaço plano) e a geometria contemporânea ou topológica (queopera com o espaço tridimensional), vemos que não se trata de duas etapas ou deduas fases sucessivas da mesma ciência geométrica, e sim de duas geometriasdiferentes, com princípios, conceitos, objetos, demonstrações completamentediferentes. Não houve evolução e progresso de uma para outra, pois são duasgeometrias diversas e não geometrias sucessivas.Quando comparamos as físicas de Aristóteles, Galileu-Newton e Einstein, nãoestamos diante de uma mesma física, que teria evoluído ou progredido, masdiante de três físicas diferentes, baseadas em princípios, conceitos,demonstrações, experimentações e tecnologias completamente diferentes. Emcada uma delas, a idéia de Natureza é diferente; em cada uma delas os métodosempregados são diferentes; em cada uma delas o que se deseja conhecer édiferente.Quando comparamos a biologia genética de Mendel e a genética formulada pelabioquímica (baseada na descoberta de enzimas, de proteínas do ADN ou códigogenético), também não encontramos evolução e progresso, mas diferença e – 326 –

Marilena Chauí _______________________________descontinuidade. Assim, por exemplo, o modelo explicativo que orientava otrabalho de Mendel era o da relação sexual como um encontro entre duasentidades diferentes – o espermatozóide e o óvulo -, enquanto o modelo queorienta a genética contemporânea é o da cibernética e da teoria da informação.Quando comparamos a ciência da linguagem do século XIX (que era baseada nosestudos de filologia, isto é, nos estudos da origem e da história das palavras) coma lingüística contemporânea (que, como vimos no capítulo dedicado à linguagem,estuda estruturas), vemos duas ciências diferentes. E o mesmo pode ser dito detodas as ciências.Verificou-se, portanto, uma descontinuidade e uma diferença temporal entre asteorias científicas como conseqüência não de uma forma mais evoluída, maisprogressiva ou melhor de fazer ciência, e sim como resultado de diferentesmaneiras de conhecer e construir os objetos científicos, de elaborar os métodos einventar tecnologias. O filósofo Gaston Bachelard criou a expressão rupturaepistemológicax para explicar essa descontinuidade no conhecimento científico.Rupturas epistemológicas e revoluções científicasUm cientista ou um grupo de cientistas começam a estudar um fenômenoempregando teorias, métodos e tecnologias disponíveis em seu campo detrabalho. Pouco a pouco, descobrem que os conceitos, os procedimentos, osinstrumentos existentes não explicam o que estão observando nem levam aosresultados que estão buscando. Encontram, diz Bachelard, um “obstáculoepistemológico”.Para superar o obstáculo epistemológico, o cientista ou grupo de cientistasprecisam ter a coragem de dizer: Não. Precisam dizer não à teoria existente e aosmétodos e tecnologias existentes, realizando a ruptura epistemológica. Estaconduz à elaboração de novas teorias, novos métodos e tecnologias, que afetamtodo o campo de conhecimentos existentes.Uma nova concepção científica emerge, levando tanto a incorporar nela osconhecimentos anteriores, quanto a afastá-los inteiramente. O filósofo da ciênciaKhun designa esses momentos de ruptura epistemológica e de criação de novasteorias com a expressão revolução científica, como, por exemplo, a revoluçãocopernicana, que substituiu a explicação geocêntrica pela heliocêntrica.Segundo Khun, um campo científico é criado quando métodos, tecnologias,formas de observação e experimentação, conceitos e demonstrações formam umtodo sistemático, uma teoria que permite o conhecimento de inúmerosfenômenos. A teoria se torna um modelo de conhecimento ou um paradigmacientífico. Em tempos normais, um cientista, diante de um fato ou de umfenômeno ainda não estudado, usa o modelo ou o paradigma científico existente.Uma revolução científica acontece quando o cientista descobre que osparadigmas disponíveis não conseguem explicar um fenômeno ou um fato novo, – 327 –

Convite à Filosofia _______________________________sendo necessário produzir um outro paradigma, até então inexistente e cujanecessidade não era sentida pelos investigadores.A ciência, portanto, não caminha numa via linear contínua e progressiva, mas porsaltos ou revoluções.Assim, quando a idéia de próton-elétron-nêutron entra na física, a de vírus entrana biologia, a de enzima entra na química ou a de fonema entra na lingüística, osparadigmas existentes são incapazes de alcançar, compreender e explicar essesobjetos ou fenômenos, exigindo a criação de novos modelos científicos.Por que, então, temos a ilusão de progresso e de evolução? Por dois motivosprincipais:1. do lado do cientista, porque este sente que sabe mais e melhor do que antes, jáque o paradigma anterior não lhe permitia conhecer certos objetos ou fenômenos.Como trabalhava com uma tradição científica e a abandonou, tem o sentimentode que o passado estava errado, era inferior ao presente aberto por seu novotrabalho. Não é ele, mas o filósofo da ciência que percebe a ruptura e adescontinuidade e, portanto, a diferença temporal . Do lado do cientista, oprogresso é uma vivência subjetiva;2. do lado dos não-cientistas, porque vivemos sob a ideologia do progresso e daevolução, do “novo ” e do “fantástico”. Além disso, vemos os resultadostecnológicos das ciências: naves espaciais, computadores, satélites, fornos demicroondas, telefones celulares, cura de doenças julgadas incuráveis, objetosplásticos descartáveis, e esses resultados tecnológicos são apresentados pelosgovernos, pelas empresas e pela propaganda como “signos do progresso” e nãoda diferença temporal. Do lado dos não-cientistas, o progresso é uma crençaideológica.Há, porém, uma razão mais profunda para nossa crença no progresso. Desde aAntiguidade, conhecer sempre foi considerado o meio mais precioso e eficaz paracombater o medo, a superstição e as crendices. Ora, no caso da modernidade, ovínculo entre ciência e aplicação prática dos conhecimentos (tecnologias) fezsurgirem objetos que não só facilitaram a vida humana (meios de transporte, deiluminação, de comunicação, de cultivo do solo, etc.), mas aumentaram aesperança de vida (remédios, cirurgias, etc.). Do ponto de vista dos resultadospráticos, sentimos que estamos em melhores condições que os antigos e por issofalamos em evolução e progresso.Do ponto de v ista das próprias teorias científicas, porém, a noção de progressonão possui fundamento, como explicamos acima.Falsificação X revoluçãoVimos que a ciência contemporânea é construtivista, julgando que fatos efenômenos novos podem exigir a elaboração de novos métodos, novastecnologias e novas teorias. – 328 –

Marilena Chauí _______________________________Alguns filósofos da ciência, entre os quais Karl Popper, afirmaram que areelaboração científica decorre do fato de ter havido uma mudança no conceitofilosófico-científico da verdade. Esta, como já vimos, foi considerada durantemuitos séculos como a correspondência exata entre uma idéia ou um conceito e arealidade. Vimos também que, no século passado, foi proposta uma teoria daverdade como coerência interna entre conceitos. Na concepção anterior, o falsoacontecia quando uma idéia não correspondia à coisa que deveria representar. Nanova concepção, o falso é a perda da coerência de uma teoria, a existência decontradições entre seus princípios ou entre estes e alguns de seus conceitos.Popper afirma que as mudanças científicas são uma conseqüência da concepçãoda verdade como coerência teórica. E propõe que uma teoria científica sejaavaliada pela possibilidade de ser falsa ou falsificada.Uma teoria científica é boa, diz Popper, quanto mais estiver aberta a fatos novosque possam tornar falsos os princípios e os conceitos em que se baseava. Assim,o valor de uma teoria não se mede por sua verdade, mas pela possibilidade de serfalsa. A falseabilidade seria o critério de avaliação das teorias científicas egarantiria a idéia de progresso científico, pois é a mesma teoria que vai sendocorrigida por fatos novos que a falsificam.A maioria dos filósofos da ciência, entre os quais Khun, demonstrou o absurdoda posição de Popper. De fato, dizem eles, jamais houve um único caso em queuma teoria pudesse ser falsificada por fatos científicos. Jamais houve um únicocaso em que um fato novo garantisse a coerência de uma teoria, bastando impor aela mudanças totais.Cada vez que fatos provocaram verdadeiras e grandes mudanças teóricas, essasmudanças não foram feitas no sentido de “melhorar” ou “aprimorar ” uma teoriaexistente, mas no sentido de abandoná-la por uma outra. O papel do fatocientífico não é o de falsear ou falsificar uma teoria, mas de provocar osurgimento de uma nova teoria verdadeira. É o verdadeiro e não o falso que guiao cientista, seja a verdade entendida como correspondência entre idéia e coisa,seja entendida como coerência interna das idéias.Classificação das ciênciasCiência, no singular, refere-se a um modo e a um ideal de conhecimento queexaminamos até aqui. Ciências, no plural, refere-se às diferentes maneiras derealização do ideal de cientificidade, segundo os diferentes fatos investigados eos diferentes métodos e tecnologias empregados.A primeira classificação sistemática das ciências de que temos notícia foi a deAristóteles, à qual já nos referimos no início deste livro. O filósofo gregoempregou três critérios para classificar os saberes:? critério da ausência ou presença da ação humana nos seres investigados,levando à distinção entre as ciências teoréticas (conhecimento dos seres que – 329 –

Convite à Filosofia _______________________________existem e agem independentemente da ação humana) e ciências práticas(conhecimento de tudo quanto existe como efeito das ações humanas);? critério da imutabilidade ou permanência e da mutabilidade ou movimento dosseres investigados, levando à distinção entre metafísica (estudo do Ser enquantoSer, fora de qualquer mudança), física ou ciências da Natureza (estudo dos seresconstituídos por matéria e forma e submetidos à mudança ou ao movimento) ematemática (estudo dos seres dotados apenas de forma, sem matéria, imutáveis,mas existindo nos seres naturais e conhecidos por abstração);? critério da modalidade prática, levando à distinção entre ciências que estudama práxis (a ação ética, política e econômica, que tem o próprio agente como fim)e as técnicas (a fabricação de objetos artificiais ou a ação que tem como fim aprodução de um objeto diferente do agente).Com pequenas variações, essa classificação foi mantida até o século XVII,quando, então, os conhecimentos se separaram em filosóficos, científicos etécnicos. A partir dessa época, a Filosofia tende a desaparecer nas classificaçõescientíficas (é um saber diferente do científico), assim como delas desaparecem astécnicas. Das inúmeras classificações propostas, as mais conhecidas e utilizadasforam feitas por filósofos franceses e alemães do século XIX, baseando-se emtrês critérios: tipo de objeto estudado, tipo de método empregado, tipo deresultado obtido. Desses critérios e da simplificação feita sobre as váriasclassificações anteriores, resultou aquela que se costuma usar até hoje:? ciências matemáticas ou lógico-matemáticas (aritmética, geometria, álgebra,trigonometria, lógica, física pura, astronomia pura, etc.);? ciências naturais (física, química, biologia, geologia, astronomia, geografiafísica, paleontologia, etc.);? ciências humanas ou sociais (psicologia, sociologia, antropologia, geografiahumana, economia, lingüística, psicanálise, arqueologia, história, etc.);? ciências aplicadas (todas as ciências que conduzem à invenção de tecnologiaspara intervir na Natureza, na vida humana e nas sociedades, como por exemplo,direito, engenharia, medicina, arquitetura, informática, etc.).Cada uma das ciências subdivide-se em ramos específicos, com nova delimitaçãodo objeto e do método de investigação. Assim, por exemplo, a física subdivide-seem mecânica, acústica, óptica, etc.; a biologia em botânica, zoologia, fisiologia,genética, etc.; a psicologia subdivide-se em psicologia do comportamento, dodesenvolvimento, psicologia clínica, psicologia social, etc. E assimsucessivamente, para cada uma das ciências. Por sua vez, os próprios ramos decada ciência subdividem-se em disciplinas cada vez mais específicas, à medidaque seus objetos conduzem a pesquisas cada vez mais detalhadas eespecializadas. – 330 –

Marilena Chauí _______________________________A ciência exemplar: a matemáticaA matemática nasce de necessidades práticas: contar coisas e medir terrenos. Osprimeiros a sistematizar modos de contar foram os orientais e, particularmente,os fenícios, povo comerciante que desenvolveu uma contabilidade, queposteriormente iria transformar-se em aritmética. Os primeiros a sistematizarmodos de medir foram os egípcios, que precisavam, após cada cheia do rio Nilo,redistribuir as terras, medindo os terrenos. Criaram a agrimensura, de onde viria ageometria.Foram os gregos que transformaram a arte de contar e de medir em ciências: aaritmética e a geometria são as duas primeiras ciências matemáticas, definindo ocampo matemático como ciência da quantidade e do espaço, tendo por objetosnúmeros, figuras, relações e proporções. Após os gregos, foram os pensadoresárabes que deram o impulso à matemática, descobrindo, entre coisas, o zero,desconhecido dos antigos.Embora, no início, as matemáticas estivessem muito próximas da experiênciasensorial – os números referiam-se às coisas contadas e as figuras representavamobjetos existentes -, pouco a pouco afastaram-se do sensorial, rumando para aatividade pura do pensamento.Por esse motivo, Platão exigia que a formação filosófica fosse feita através dasmatemáticas, por serem elas puramente intelectuais, seus objetos verdadeirossendo conhecidos por meio de princípios e demonstrações universais enecessários. Também Descartes, no século XVII, afirmou que podemos duvidarde todos os nossos conhecimentos e idéias, menos da verdade dos conceitos edemonstrações matemáticos, os únicos que são indubitáveis. Platão e Descartesenfatizaram o caráter puramente intelectual e a priori das ciências matemáticas.A valorização da matemática decorre de dois aspectos que a caracterizam:1. a idealidade pura de seus objetos, que não se confundem com as coisaspercebidas subjetivamente por nós; os objetos matemáticos são universais enecessários;2. a precisão e o rigor dos princípios e demonstrações matemáticos, que seguemregras universais e necessárias, de tal modo que a demonstração de um teoremaseja a mesma em qualquer época e lugar e a solução de um problema se façapelos mesmos procedimentos em toda a época e lugar.A universalidade e a necessidade dos objetos e instrumentos teóricosmatemáticos deram à ciência matemática um valor de conhecimento excepcional,fazendo com que se tornasse o modelo principal de todos os conhecimentoscientíficos, no Ocidente; enfim, a ciência exemplar e perfeita.Os objetos matemáticos são números e relações, figuras, volumes e proporções.Quantidade, espaço, relações e proporções definem o campo da investigaçãomatemática, cujos instrumentos são axiomas, postulados, definições, – 331 –

Convite à Filosofia _______________________________demonstrações e operações. Objetos e procedimentos matemáticos foram fixados,pela primeira vez, pelo grego Euclides, numa obra chamada Elementos.Um axioma é um princípio cuja verdade é indubitável, necessária e evidente porsi mesma, não precisando de demonstração e servindo de fundamento àsdemonstrações. Por exemplo: o todo é maior do que as partes; duas grandezasiguais a uma terceira são iguais entre si; a menor distância entre dois pontos éuma reta. O axioma é um princípio regulador do raciocínio matemático e, por seruniversal e evidente, é a priori.Um postulado é um princípio cuja evidência depende de ser aceito por todos osque realizam uma demonstração matemática. É uma proposição necessária para oencadeamento de demonstrações, embora ela mesma não possa ser demonstrada,mas aceita como verdadeira. Por exemplo: “Por um ponto tomado em um plano,não se pode traçar senão uma paralela a uma reta dada nesse plano”. Ospostulados são convenções básicas, aceitas por todos os matemáticos.Uma definição pode ser nominal ou real. A definição nominal nos dá o nome doobjeto matemático, dizendo o que ele é. É analítica, pois o predicado é aexplicação do sujeito. Por exemplo: o triângulo é uma figura de três lados; ocírculo é uma figura cujos pontos são eqüidistantes do centro. Uma definição realnos diz o que é o objeto designado pelo nome, isto é, oferece a gênese ou o modode construção do objeto. Por exemplo: o triângulo é uma figura cujos ângulossomados são iguais à soma de dois ângulos retos; o círculo é uma figura formadapelo movimento de rotação de um semi-eixo à volta de um centro fixo.Demonstrações e operações são procedimentos submetidos a um conjunto deregras que garantem a verdade e a necessidade do que está sendo demonstrado,ou do resultado do cálculo realizado.A matemática é, por excelência, a ciência hipotético-dedutiva, porque suasdemonstrações e cálculos se apóiam sobre um sistema de axiomas e postulados, apartir dos quais se constrói a dedução coerente ou o resultado necessário docálculo.Um tema muito discutido na Filosofia das Ciências refere-se à natureza dosobjetos e princípios matemáticos.São eles uma abstração e uma purificação dos dados de nossa experiênciasensível? Originam-se da percepção? Ou são realidades ideais, alcançadasexclusivamente pelas operações do pensamento puro? São inteiramente a priori?Existem em si e por si mesmos, de tal modo que nosso pensamento simplesmenteos descobre? Ou são construções perfeitas conseguidas pelo pensamentohumano? Essas perguntas tornaram-se necessárias por vários motivos.Em primeiro lugar, porque uma corrente filosófica, iniciada com Pitágoras ePlatão, mantida por Galileu, Descartes, Newton e Leibniz, afirma que o mundo é – 332 –

Marilena Chauí _______________________________em si mesmo matemático, isto é, a estrutura da realidade é de tipo matemático.Essa concepção garantiu o surgimento da física matemática moderna.Em segundo lugar, porque o desenvolvimento da álgebra contemporânea e daschamadas geometrias não-euclidianas (ou geometrias imaginárias) deram àmatemática uma liberdade de criação teórica sem precedentes, justamente porhaver abandonado a idéia de que a estrutura da realidade é matemática. Nessesegundo caso, como já dizia Kant, a matemática é uma pura invenção do espíritohumano, uma construção imaginária rigorosa e perfeita, mas sem objetoscorrespondentes no mundo.Em terceiro lugar, porque, em nosso século, o avanço da criação e da construçãomatemáticas foi decisivo para o surgimento da teoria da relatividade, na física, dateoria das valências, na química, e da teoria sobre o ácido desoxirribonucléico, nabiologia. Em outras palavras, quanto mais avançou a invenção e a criaçãomatemática, tanto mais ela tornou-se útil para as ciências da Natureza, fazendocom que, agora, tenhamos que indagar: Os objetos matemáticos existemrealmente (como queriam Platão, Galileu e Descartes), formando a estrutura domundo, ou esta é uma pura construção teórica e por isso pode valer-se daconstrução matemática? – 333 –

Convite à Filosofia _______________________________ Capítulo 3 As ciências da NaturezaO campo das ciências da NaturezaAs ciências da Natureza estudam duas ordens de fenômenos: os físicos e osvitais, ou as coisas e os organismos vivos. Constituem, assim, duas grandesciências: a física, de que fazem parte a química, a mecânica, a óptica, a acústica,a astronomia, o estudo dos sólidos, líquidos e gasosos, etc., e a biologia,ramificada em fisiologia, botânica, zoologia, paleontologia, anatomia, genética,etc.Em qualquer das três concepções de ciência que vimos no capítulo anterior,considera-se que as ciências da Natureza:? estudam fatos observáveis que podem ser submetidos aos procedimentos deexperimentação;? estabelecem leis que exprimem relações necessárias e universais entre os fatosinvestigados e que são de tipo causal;? concebem a Natureza como um conjunto articulado de seres e acontecimentosinterdependentes, ligados ou por relações necessárias de causa e efeito,subordinação e dependência, ou por relações entre funções invariáveis e açõesvariáveis;? buscam constâncias, regularidades, freqüências e invariantes dos fenômenos,isto é, seus modos de funcionamento e de relacionamento, bem comoestabelecem os meios teóricos para a previsão de novos fatos.Desde Aristóteles, as ciências da Natureza desenvolveram-se graças ao papelconferido às observações e, mais tarde, à observação controlada, isto é, àexperimentação (o laboratório com seus instrumentos tecnológicos de precisão emedida). A experimentação é a decisão do cientista de intervir no curso de umfenômeno, modificando as condições de seu aparecimento e desenvolvimento, afim de encontrar invariantes e constantes que definem o objeto como tal.A experimentação permite ao cientista formular hipóteses sobre o fenômeno.Uma hipótese é uma conjectura racional feita após um grande número deobservações e experimentos; é uma tese que precisa ser confirmada ou verificadapor meio de novas observações e experimentos. A intervenção científica sobre osfenômenos se torna cada vez mais acurada, graças à invenção dos objetostecnológicos de pesquisa (balanças, termômetros, termostatos, barômetros, – 334 –

Marilena Chauí _______________________________aparelhos para produzir vácuo, microscópios e telescópios, cronômetros, tubos ecurvetas, câmaras escuras ou iluminadas com raios especiais, computadores,etc.).O método experimental é hipotético-indutivo e hipotético-dedutivo. Hipotético-indutivo: o cientista observa inúmeros fatos variando as condições daobservação; elabora uma hipótese e realiza novos experimentos ou induções paraconfirmar ou negar a hipótese; se esta for confirmada, chega-se à lei dofenômeno estudado. Hipotético-dedutivo: tendo chegado à lei, o cientista podeformular novas hipóteses, deduzidas do conhecimento já adquirido, e com elasprever novos fatos, ou formular novas experiências, que o levam aconhecimentos novos. A lei científica obtida por via indutiva ou dedutiva permitedescrever, interpretar e compreender um campo de fenômenos semelhantes eprever novos, a partir dos primeiros.A previsão é uma das maneiras pelas quais o ideal moderno da ciência – dominare controlar a Natureza – se manifesta e se realiza. Uma teoria científica permiteconstruir objetos tecnológicos para novas pesquisas e a previsão ouprevisibilidade dos fenômenos permite empregar as tecnologias com finspráticos, criando a ciência natural aplicada.Os objetos técnicos que usamos em nossa vida cotidiana – ônibus, automóvel,avião, lâmpada, liquidificador, máquina de escrever, de lavar, de costurar,relógios digitais, rádio, televisão, vídeos, aparelhos de som, detergente, sabonete,desodorante, cola, adesivos, objetos plásticos, de louça, vidro, tecidos sintéticoscomo nylon e poliéster, vacinas, antibióticos, radiografias, vitaminas e proteínasem cápsulas, etc. – são ciência aplicada ou resultado prático de ciências naturaisteóricas.Necessidade e acasoA ciência da Natureza, desde seus inícios gregos, sempre afirmou que a Naturezasegue leis naturais racionais e necessárias, isto é, sempre negou que houvesseacaso ou contingência no mundo natural.O acaso sempre foi colocado sob duas espécies de fatos: ou fatos cuja causaainda permanece desconhecida, mas virá a ser conhecida (portanto, o acaso éapenas uma forma de ignorância); ou acontecimentos individuais, como, porexemplo, um vaso que cai sobre a cabeça de um passante (portanto, o acaso éapenas uma ocorrência singular que não afeta as leis universais da Natureza).No século XIX, a afirmação da universalidade e da necessidade plena quegovernam as relações causais da Natureza levaram ao conceito de determinismo.O determinismo pode ser resumido da seguinte maneira:? dado um fenômeno, sempre será possível determinar sua causa necessária;? conhecido o estado atual de um conjunto de fatos, sempre será possívelconhecer o estado subseqüente, que será seu efeito necessário. Em outras – 335 –

Convite à Filosofia _______________________________palavras, o determinismo afirma que podemos conhecer as causas de umfenômeno atual (isto é, o estado anterior de um conjunto de fatos) e os efeitos deum fenômeno atual (isto é, o estado posterior de um conjunto de fatos).A formulação do determinismo como princípio universal e como uma doutrinasobre a Natureza foi feita, pela primeira vez, pelo astrônomo e físico Laplace,que escreveu: Devemos considerar o estado presente do Universo como efeito de seu estado passado e como causa daquilo que virá a seguir. Uma inteligência que, num único instante, pudesse conhecer todas as forças existentes na Natureza e as posições de todos os seres que nela existem poderia apresentar numa única fórmula uma lei que englobaria todos os movimentos do Universo, desde os maiores até os mínimos e invisíveis. Para ela, nada seria incerto e, aos seus olhos, o passado, o futuro e o presente seriam um único e só tempo.O determinismo universal é, assim, a afirmação do princípio da razão suficiente,ou da causalidade, e da idéia de previsibilidade absoluta dos fenômenos naturais.As leis exprimem essa causalidade e essa previsibilidade e, por isso, não existeacaso no Universo.Evidentemente, o cientista admitia que, para nós, seres humanos que nãopodemos conhecer de uma só vez a totalidade do real, existia o acaso.Caminhando por uma rua, para ir ao mercado, posso passar sob uma janela, daqual despenca um vaso, que cai sobre minha cabeça e, em vez de ir ao mercado,vou parar num hospital. Foi um acaso.No entanto, para esse cientista, minha ida pela rua é necessária do ponto de vistada anatomia e da fisiologia de meu corpo; passar por uma rua determinada énecessário se, por exemplo, ficar estabelecido geométrica e geograficamente queé o trajeto mais simples e mais rápido para chegar ao mercado; pela posição dovaso na janela, pelo vento ou pelo toque de alguma coisa nele, é necessário,segundo a lei universal da gravitação, que ele caia. O que é o acaso? O encontrofortuito de séries de acontecimentos independentes, cada uma delas perfeitamentenecessária e causal em si mesma.Uma outra situação em que se falava de acaso refere-se aos chamados “jogos deazar”, como cara-e-coroa, roleta, certos jogos de cartas, o jogo de dados. Ora,dizia o cientista, aqui também não há propriamente acaso. Desde o século XVII,com pensadores como Pascal, Leibniz, Newton e, posteriormente, Fermat,conhecemos os estudos matemáticos chamados cálculo de probabilidades. Emcada um desses “jogos de azar”, considerando o número de objetos (uma moeda,dois dados, vinte cartas, etc.), o número de jogadores e o número de partidas, épossível calcular todos os resultados possíveis e quais são as probabilidadesmaiores e menores de cada resultado. Para um computador, por exemplo, nãohaverá acaso algum, mas determinismo completo. – 336 –

Marilena Chauí _______________________________A idéia de necessidade probabilística ou estatística tornou-se um instrumentoteórico de grande importância para aqueles ramos das ciências naturais que lidamcom fatos complexos, como, por exemplo, o estudo dos gases, pela química,pois, nesse caso, o número de moléculas é quase ilimitado e as relações de causae efeito só podem ser estabelecidas estatisticamente, pelo cálculo deprobabilidades. As leis assim obtidas são conhecidas com o nome de leis dosgrandes números e se exprimem em gráficos, curvas, relações entre funções evariáveis, médias. Com essas leis, o acaso estava excluído e os dois princípios dodeterminismo estavam mantidos, ainda que, no caso dos fenômenosmicroscópicos altamente complexos, a noção de causa tivesse sido substituídapela de freqüência estatística.Acaso ou indeterminaçãoA física contemporânea, no entanto, trouxe de volta o acaso. Entre os váriosestudos e várias teorias contemporâneas, vamos mencionar apenas três aspectoscom os quais podemos perceber como e por que o acaso ressurgiu nas ciênciasnaturais.O pleno funcionamento do princípio da razão suficiente ou da causalidade e dodeterminismo universal exige que seja mantida a idéia de substância, isto é, deuma realidade que permaneça idêntica a si mesma, seja causa de alguma coisa eefeito de alguma outra. Essa realidade pode ser uma matéria, uma energia, umamassa, um volume, mas tem que ser alguma coisa com propriedadesdetermináveis, constantes e que possam ser conhecidas. Deve ser umaquantidade constante e/ou uma forma constante. Ora, a microfísica ou físicaquântica veio mostrar que não há nem uma coisa nem outra.O estudo do átomo de hidrogênio revelou que a quantidade de matéria ou massanão permanece constante, mas transforma-se em energia, e esta também nãopermanece constante, mas, o que é pior, não se transforma em coisa alguma:simplesmente se perde, desaparece, não se sabe para onde foi, nem o que lheaconteceu. A quantidade, portanto, não permanece constante.Ao mesmo tempo, o estudo dos átomos revelou que, dependendo da aparelhagemtecnológica usada, um corpúsculo é o que pode ser visto, mas, com outrosaparelhos, em lugar de um corpúsculo, vê -se uma onda. Com isso, uma mesmarealidade ou substância tanto pode ter a forma de algo que se estende no espaço(onda), quanto a de um ponto que se concentra no espaço (corpúsculo), nãotendo, portanto, forma constante.Se quantidade e forma perdem a constância, a regularidade e a freqüência, comocontinuar falando em causas e efeitos?Um segundo caso, que abalou a física e ficou conhecido com o nome deprincípio de incerteza ou de indeterminação, foi trazido pelos estudos dofísico Heisenberg ao descobrir que, no nível atômico, como conseqüência dos – 337 –

Convite à Filosofia _______________________________dois fatos que apontamos acima, conhecer o estado ou a situação atual de umfenômeno, ou um conjunto de fatos, não permite prever a situação ou o estadoseguinte, nem, portanto, descobrir qual foi a situação ou o estado anterior.O determinismo baseava-se no pressuposto de que o conhecimento físico causalexige que um fenômeno físico deva ser conhecido a partir de dois critériossimultâneos: suas propriedades geométricas (forma, figura, volume, grandeza,posição) e suas propriedades físicas ou dinâmicas (velocidade, movimento,repouso). Heisenberg descobriu que, quando conhecemos perfeitamente aspropriedades geométricas de um átomo, não conseguimos conhecer suaspropriedades físicas dinâmicas e vice-versa, sendo impossível determinar oestado passado e o estado futuro do fenômeno estudado, isto é, suas causas e seusefeitos.Em outras palavras, quando se conhece a posição, não se consegue conhecer avelocidade, e quando esta é conhecida, não se consegue conhecer a posição deum corpúsculo. Há, portanto, incerteza, indeterminação do fenômeno. Amicrofísica é incapaz de determinar a trajetória de corpúsculos individuais.O terceiro acontecimento que abalou o determinismo universal foi a teoria darelatividade, elaborada por Einstein. O abalo foi duplo.Em primeiro lugar, como vimos, a ciência moderna organizou-se graças àseparação entre o subjetivo e o objetivo, propondo uma idéia de observação-experimentação em que o fenômeno observado será sempre o mesmo eobedecerá às mesmas leis, seja quem for o sujeito observador.Ora, Einstein demonstrou que o tempo é a quarta dimensão do espaço e que, navelocidade da luz, o espaço “encurva-se”, “dilata-se”, “contrai-se” de tal modoque afeta o tempo. Assim, alguém que estivesse na velocidade da luz atravessarianum tempo mínimo um espaço imenso, mas o que ficassem abaixo daquelavelocidade sentiriam o tempo escoar lentamente ou “normalmente”. Para aprimeira pessoa, teriam se passado algumas horas ou dias, mas para outros,meses, anos, séculos.Dessa maneira, Einstein demonstrou que nossa física é tal como é porquedepende da observação do observador ou do sujeito do conhecimento, isto é, umsujeito do conhecimento marciano ou venusiano produzirá uma físicacompletamente diferente da nossa, porque o espaço é relativo ao observador.Assim sendo, nossa ciência da Natureza não é universal e necessária em simesma, mas exprime o ponto de vista do sujeito do conhecimento terrestre.O segundo abalo provocado por Einstein refere-se à própria idéia de teoriacientífica da Natureza.Uma teoria científica, como vimos, é uma explicação global para um conjunto defatos naturais aparentemente diferentes, mas, na realidade, submetidos às mesmasleis e aos mesmos princípios. É isso que permite, por exemplo, falar na teoria – 338 –

Marilena Chauí _______________________________universal da gravitação, formulada por Newton, válida para os movimentos detodos os corpos do Universo, sejam eles grandes ou pequenos, leves ou pesados,celestes ou terrestres, aquáticos ou aéreos, coloridos ou sem cor, saborosos ousem sabor, etc.Também a idéia de teoria nos permite falar na teoria universal da relatividade,elaborada por Einstein. Que diz ela? Que a medida da velocidade do movimento,seja este qual for, é a velocidade da luz; que, nesta velocidade, toda matéria setransforma em energia, deixando, portanto, de possuir massa e volume. Do pontode vista da velocidade da luz, a teoria da gravitação universal, baseada na relaçãoentre movimento, massa, tempo e velocidade, não tem valor, embora continueverdadeira para os movimentos que não sejam medidos pela velocidade da luz.Mas não é só isso. Do ponto de vista da velocidade da luz, todo movimento érelativo, isto é, não há como distinguir observador e observado (fenômeno queexperimentamos em nossa vida cotidiana, quando, estando numa estaçãoferroviária, num trem imóvel, vemos outro, paralelo ao nosso, mover-se, e temosa impressão de que é nosso trem que está em movimento; ou quando, olhando umrio veloz do alto de uma ponte, temos a impressão de que é a ponte que se movee não o rio).Qual o problema? A existência de três teorias físicas simultâneas – a quântica,para os átomos; a newtoniana, para os corpos visíveis; a da relatividade, para omovimento na velocidade da luz -, regidas por conceitos e métodos diferentes,excluindo-se umas às outras e todas elas verdadeiras para os fenômenos queexplicam. E mais: a física quântica desfaz a idéia de causa como quantidade eforma constantes; e a física da relatividade desfaz a idéia clássica da objetividadecomo separação entre sujeito e objeto do conhecimento, base da ciência moderna.Em lugar de um único paradigma científico, a física nos oferece três!As ciências da vidaAs ciências biológicas (bios, em grego, significa vida) ou ciências da vida fazemparte das ciências da Natureza ou ciências experimentais.Os primeiros biólogos foram médicos: os pré-socráticos Empédocles ouAnaxágoras, e o pós-socrático Aristóteles. Para todos eles interessava, antes detudo, determinar a fonte ou origem da vida e a localizaram no calor, dando-lhecomo sede o fígado (Empédocles) ou o coração (Anaxágoras e Aristóteles). Alémda busca do princípio vital, Aristóteles interessou-se pelo fenômeno dareprodução, distinguindo os seres vivos em vivíparos e ovíparos. E a ele devemosa classificação dos seres vivos em gêneros e espécies.Do século XVII até a primeira metade do século XX (1939-1940), predominouna biologia a investigação fisiológica. A fisiologia interessa-se pelas funçõesrealizadas pelos seres vivos: circulação do sangue (com Harvey), digestão (comRéaumur e Spallanzani), respiração (com Priestley e Lavoisier) e locomoção ouneuromusculatura (com Haller e Whytt). A seguir, o interesse fisiológico dirigiu- – 339 –

Convite à Filosofia _______________________________se para o estudo do funcionamento específico dos vários órgãos e seus tecidos e,finalmente, para a investigação das células. Foi no estudo celular que, no séculoXIX, Mendel deu início ao que iria tornar-se o centro da biologia do nossoséculo: a genética.Todo problema epistemológico das ciências biológicas consiste em saber se osprocedimentos e os conceitos usados pela física e pela química podem serempregados para a investigação do fenômeno da vida.De fato, a biologia partiu da distinção entre seres inorgânicos e seres orgânicos –plantas e animais – para distinguir os fenômenos vitais dos fatos físicos equímicos. Entretanto, dois acontecimentos puseram em dúvida a descontinuidadeentre a matéria (inorgânica) e a vida (orgânica). Em primeiro lugar, no séculoXIX, a síntese química da uréia, que revelou fenômenos químicos comoessenciais ao processo vital, dando origem à bioquímica. Em segundo lugar, noséculo passado, a descoberta das nucleoproteínas revelou que os corpos químicos(as moléculas) e os corpos vivos (as células) comportam-se da mesma maneira.Os estudos de bacteriologia, dos corpos cancerígenos, assim como os trabalhosde embriologia e a descoberta dos vírus foram na mesma direção, revelandoprofundas semelhanças entre fatos químicos e vitais.No entanto, apesar das discussões sobre a essência da vida não terem chegado aconclusões definitivas, a biologia distingue os seres inorgânicos e os vivosdefinindo estes últimos pelas idéias de célula e funções realizadas pela célula,unidade vital e orgânica básica. A vida caracteriza-se pelas seguintes funções:? irritabilidade: uma célula é uma atividade que reage e responde às excitaçõesou estímulos do meio ambiente – temperatura, luz, obscuridade, pressão,alimento, etc. A vida é uma adaptação ativa e protetora diante das alterações domeio ambiente, sendo, assim, relação do organismo com seu ambiente, na qual oser vivo busca equilíbrio com o meio. A ruptura desse equilíbrio é a doença e amorte;? metabolismo: a irritabilidade ou adaptação ao meio é feita por um conjunto detrocas entre o organismo e o meio. A célula assimila e transforma aquilo queconsome sob a forma de alimentação, respiração, assimilação ou perda desubstância, gastos energéticos, etc. O metabolismo é, pois, um conjunto detransformações químicas realizadas no interior do organismo numa relação detroca e consumo com o meio ambiente;? divisão e crescimento: uma célula tem o poder de dividir-se, ou seja, decrescer para garantir que o ser vivo atinja seu desenvolvimento próprio e tambémpara reparar danos sofridos pelo organismo, como por exemplo a divisão e amultiplicação de células da epiderme para curar um ferimento;? reprodução: a célula tem o poder de reproduzir-se e a reprodução de um servivo se faz ou pela fusão de certo tipo especial de células (os gametas femininos – 340 –

Marilena Chauí _______________________________e masculinos), ou, nos chamados organismos unicelulares, pela auto-reproduçãoda célula, sem a função sexual. A reprodução garante a sobrevivência da espécieatravés dos indivíduos;? individualidade: um ser vivo, mesmo unicelular, forma um indivíduo, isto é,um sistema único e fechado, cujas partes se correspondem reciprocamente econcorrem para a mesma ação;? organicidade: o ser vivo é constituído por órgãos (palavra que vem do grego,órganon, instrumento que realiza uma função), isto é, por um conjuntodiferenciado de funções, que garantem a conservação e a reprodução da vida.O ser vivo é, pois, um organismo e um indivíduo. É portador de quatrocaracterísticas principais: a interioridade, a auto-apresentação, a auto-organizaçãoe a auto-reprodução.Interioridade: realiza comportamentos, isto é, possui disposições internas, quelhe permitem relacionar-se ativamente com o meio ambiente. Auto-apresentação: manifesta-se com uma estrutura ou forma externa completa, quepressupõe a existência de estruturas internas parciais, com as quais o organismose apresenta como indivíduo e como espécie diferente de todas as outras. Auto-organização: é o resultado de um longo processo de evolução e adaptação aomeio, que permite a um organismo tornar-se cada vez mais complexo e ter,interna e externamente, funções cada vez mais especializadas para seus órgãos.Auto-reprodução: por meio da função sexual, o organismo é capaz dereproduzir um outro seu semelhante, perpetuando, tanto quanto possível, aespécie; por meio da divisão e da separação (no caso dos seres que sereproduzem assexuadamente), o organismo é capaz de engendrar um outro,semelhante a si, perpetuando-se.Dificuldades metodológicas da biologiaAs ciências biológicas enfrentam várias dificuldades para a definição de seuobjeto e de seus métodos. As principais dificuldades são:? definição e classificação dos objetos biológicos: o objeto da biologia não é oindivíduo, mas o gênero e a espécie. As dificuldades científicas estão na escolhados critérios de classificação para definir um gênero e uma espécie. É a formados seres vivo s que determina o gênero e a espécie? Nesse caso, o critério é amorfologia. Ou é a ordem temporal de aparição de um gênero e uma espécie quedeve ser o critério? Nesse caso, a paleontologia e a embriologia definiriamgêneros e espécies;? dificuldades do método experimental : a vida é uma relação ativa, dinâmica ediferenciada dos organismos com o meio ambiente, mas o conhecimentoexperimental é realizado em laboratórios, que definem condições fixas para orelacionamento organismo-meio. Como confiar inteiramente nos resultados – 341 –

Convite à Filosofia _______________________________experimentais, se as condições de laboratório são abstratas e artificiais, nãocorrespondendo à situação vital concreta dos organismos?;? dificuldades de experimentação no organismo humano: de modo geral, aexperimentação biológica trabalha com animais e não com seres humanos, e oprimeiro problema consiste em saber se as conclusões obtidas com animaisteriam validade para o organismo humano. Procura-se compensar tal dificuldadecom o estudo dos organismos humanos doentes, tomando-se a doença como umaespécie de “experimento natural ”. Mas o problema, agora, é saber se o modo defuncionamento de um organismo doente pode ser generalizado para o sadio. Omesmo problema se põe quando a biologia estuda os cadáveres humanos, poiscabe perguntar se o morto pode explicar o vivo.Finalidade, evolução e origem da vidaUma disputa atravessou a história das ciências biológicas e pode ser assimformulada: É a vida de mesma natureza que os demais fenômenos físico-químicos e está, como eles, submetida ao determinismo das causas e efeitos, ou éum fenômeno totalmente diferente, com suas leis próprias? A primeira tendênciachama-se mecanicismo; a segunda, vitalismo.O vitalismo tendeu a ser vitorioso por invocar dois fenômenos que só existempara os seres vivos: a relação com o tempo (diferença entre vida e morte) e afinalidade (a vida é um processo ativo de interação com o meio ambiente para arealização de fins como conservação, reprodução, reparação).O vitalismo é filosoficamente problemático. De fato, durante muitos séculos,para explicar a temporalidade e a finalidade dos fenômenos vitais, afirmou-se aexistência, nos corpos vivos, de almas ou inteligências, que dirigiriamracionalmente a vida. Mesmo afastando essas idéias, a finalidade não se torna umconceito cientificamente claro. Por exemplo, devemos dizer que é para podervoar (finalidade) que os pássaros desenvolvem a forma ovóide de tronco, aestrutura de ossos leves e ocos, a leveza do pescoço e da cabeça, a disposição daspenas nas asas, ou, ao contrário, que é por haver desenvolvido essascaracterísticas que, com o passar do tempo, os pássaros puderam voar?Os embaraços para definir com clareza o que seja a finalidade repercute numaoutra idéia da biologia: a de evolução. A vida, por ser interação ativa com o meioambiente, leva a mudanças nos organismos para a adaptação dos indivíduos e amanutenção da espécie. Como essas transformações ocorrem no tempo e como seconsidera que os organismos “progridem” ou “melhoram o desempenho” graçasà invenção de mecanismos novos de adaptação, fala-se em evolução. Afinalidade da evolução é a preservação da espécie. Surge, então, a pergunta: Oque leva a vida à finalidade evolutiva?Essa pergunta é difícil de ser respondida, porque a idéia de evolução se refere àsespécies (não aos indivíduos) e pressupõe a noção de hereditariedade, isto é, – 342 –

Marilena Chauí _______________________________transmissão dos caracteres adquiridos por evolução a todos os membros daespécie. Com a idéia de evolução das espécies e hereditariedade dos caracteresadquiridos, surgem novas indagações:? se a evoluç ão não é do indivíduo e sim da espécie, porém, se são os indivíduosque são levados a se transformar para se adaptar, o que é uma espécie?? se a espécie evolui, mas se o faz transmitindo as estruturas hereditárias, o quepodem ser as leis de hereditariedade, já que uma espécie pode mudar?? se há leis de hereditariedade e se há mutaç ão das espécies, como se relacionama finalidade hereditária e a finalidade evolutiva?? se o organismo vivo é, como dizem a bioquímica e a genética contemporâneas,uma máquina que se constrói a si mesma e dá a si mesma sua finalidade, o quesignifica a idéia de adaptação ao meio, central na teoria da evolução?Questões como essas não invalidam a biologia como ciência, pelo contrário,indicam que esta não é um conjunto de verdades acabadas e absolutas, mas umprocesso de conhecimento. Por isso, a biologia também possui suas rupturasepistemológicas e suas revoluções científicas.A mais recente dessas rupturas e revoluções liga-se ao que se convencionouchamar de “descoberta do segredo da origem da vida”, isto é, a descoberta dasnucleoproteínas ou do ADN – ácido desoxirribonucléico -, definido como códigogenético. Essa descoberta, recentíssima (data dos fins dos anos 60), resulta doestudo microscópico de açúcares e bases nitrogenadas, que são macromoléculasconstituídas por micromoléculas chamadas aminoácidos (o DNA e o RNA),considerados, até o momento, responsáveis pelo fenômeno da vida.Essa descoberta revela algo muito novo: por um lado, que a vida resulta de umprocesso químico, mas, por outro, que esse processo é uma ruptura que separa osseres naturais inorgânicos e os seres naturais vivos.No entanto, os estudiosos do ADN não hesitam em afirmar que, embora com esseconceito se possa construir um paradigma biológico que tenha por modelo acibernética e a informática (donde a idéia de código genético), a existência e osmodos de funcionamento do ADN são enigmas e mistérios e, por enquanto, aorigem da vida parece ter resultado de um puro acaso e não de uma necessidadecausal, nem de uma finalidade necessária.O que é espantoso, porém, é que mesmo sem conhecer exata e rigorosamente osfenômenos investigados, a biologia genética já desenvolveu tecnologias para ainvenção de novos alimentos, mutações em animais e vegetais, a fabricação devacinas contra vírus, etc.Os dois grandes campos da biologiaA biologia contemporânea trabalha em dois grandes campos de investigação: – 343 –

Convite à Filosofia _______________________________1. o da investigação genética e fisiológica no nível hiper-microscópico dosprocessos e formas micromoleculares e, com ajuda da bioquímica, o estudo dacélula em seus fenômenos internos e de reprodução, isto é, investiga o ADN;2. o da investigação das formas, das estruturas e dos processos visíveis dosorganismos na relação com o meio ambiente, isto é, o estudo do comportamentodos seres vivos e, portanto, as relações vitais entre meios e fins. Tem em seucentro a idéia de equilíbrio vital, entendido como conjunto de processos efunções que permitem ao organismo conservar-se e reproduzir-se. – 344 –

Marilena Chauí _______________________________ Capítulo 4 As ciências humanasSão possíveis ciências humanas?Embora seja evidente que toda e qualquer ciência é humana, porque resulta daatividade humana de conhecimento, a expressão ciências humanas refere-seàquelas ciências que têm o próprio ser humano como objeto. A situação de taisciências é muito especial. Em primeiro lugar, porque seu objeto é bastanterecente: o homem como objeto científico é uma idéia surgida apenas no séculoXIX. Até então, tudo quanto se referia ao humano era estudado pela Filosofia.Em segundo lugar, porque surgiram depois que as ciências matemáticas enaturais estavam constituídas e já haviam definido a idéia de cientificidade, demétodos e conhecimentos científicos, de modo que as ciências humanas foramlevadas a imitar e copiar o que aquelas ciências haviam estabelecido, tratando ohomem como uma coisa natural matematizável e experimentável. Em outraspalavras, par a ganhar respeitabilidade científica, as disciplinas conhecidas comociências humanas procuraram estudar seu objeto empregando conceitos, métodose técnicas propostos pelas ciências da Natureza.Em terceiro lugar, por terem surgido no período em que prevalecia a concepçãoempirista e determinista da ciência, também procuraram tratar o objeto humanousando os modelos hipotético-indutivos e experimentais de estilo empirista, ebuscavam leis causais necessárias e universais para os fenômenos humanos.Como, entretanto, não era possível realizar uma transposição integral e perfeitados métodos, das técnicas e das teorias naturais para os estudos dos fatoshumanos, as ciências humanas acabaram trabalhando por analogia com asciências naturais e seus resultados tornaram-se muito contestáveis e poucocientíficos.Essa situação levou muitos cientistas e filósofos a duvidar da possibilidade deciências que tivessem o homem como objeto. Quais as principais objeções feitasà possibilidade das ciências humanas?? A ciência lida com fatos observáveis, isto é, com seres e acontecimentos que,nas condições especiais de laboratório, são objetos de experimentação. Comoobservar-experimentar, por exemplo, a consciência humana individual, que seriao objeto da psicologia? Ou uma sociedade, objeto da sociologia? Ou uma épocapassada, objeto da história? – 345 –

Convite à Filosofia _______________________________? A ciência busca as leis objetivas gerais, universais e necessárias dos fatos.Como estabelecer leis objetivas para o que é essencialmente subjetivo, como opsiquismo humano? Como estabelecer leis universais para algo que é particular,como é o caso de uma sociedade humana? Como estabelecer leis necessárias parao que acontece uma única vez, como é o caso do acontecimento histórico?? A ciência opera por análise (decomposição de um fato complexo em elementossimples) e síntese (recomposição do fato complexo por seleção dos elementossimples, distinguindo os essenciais dos acidentais). Como analisar e sintetizar opsiquismo humano, uma sociedade, um acontecimento histórico?? A ciência lida com fatos regidos pela necessidade causal ou pelo princípio dodeterminismo universal. O homem é dotado de razão, vontade e liberdade, écapaz de criar fins e valores, de escolher entre várias opções possíveis. Como daruma explicação científica necessária àquilo que, por essência, é contingente, poisé livre e age por liberdade?? A ciência lida com fatos objetivos, isto é, com os fenômenos, depois que forampurificados de todos os elementos subjetivos, de todas as qualidades sensíveis, detodas as opiniões e todos os sentimentos, de todos os dados afetivos evalorativos. Ora, o humano é justamente o subjetivo, o sensível, o afetivo, ovalorativo, o opinativo. Como transformá-lo em objetividade, sem destruir suaprincipal característica, a subjetividade?O humano como objeto de investigaçãoEmbora as ciências humanas sejam recentes, a percepção de que os sereshumanos são diferentes das coisas naturais é antiga. Sob esse ponto de vista,podemos dizer que, do século XV ao início do século XX, a investigação dohumano realizou-se de três maneiras diferentes:1. Período do humanismo: inicia-se no século XV com a idéia renascentista dadignidade do homem como centro do Universo, prossegue nos séculos XVI eXVII com o estudo do homem como agente moral, político e técnico-artístico,destinado a dominar e controlar a Natureza e a sociedade, chegando ao séculoXVIII, quando surge a idéia de civilização, isto é, do homem como razão que seaperfeiçoa e progride temporalmente através das instituições sociais e políticas edo desenvolvimento das artes, das técnicas e dos ofícios. O humanismo nãosepara homem e Natureza, mas considera o homem um ser natural diferente dosdemais, manifestando essa diferença como ser racional e livre, agente ético,político, técnico e artístico.2. Período do positivismo: inicia-se no século XIX com Augusto Comte, paraquem a humanidade atravessa três etapas progressivas, indo da superstiçãoreligiosa à metafísica e à teologia, para chegar, finalmente, à ciência positiva,ponto final do progresso humano. Comte enfatiza a idéia do homem como um sersocial e propõe o estudo científico da sociedade: assim como há uma física da – 346 –

Marilena Chauí _______________________________Natureza, deve haver uma física do social, a sociologia, que deve estudar os fatoshumanos usando procedimentos, métodos e técnicas empregados pelas ciênciasda Natureza.A concepção positivista não termina no século XIX com Comte, mas será umadas correntes mais poderosas e influentes nas ciências humanas em todo o séculoXX. Assim, por exemplo, a psicologia positivista afirma que seu objeto não é opsiquismo enquanto consciência, mas enquanto comportamento observável quepode ser tratado com o método experimental das ciências naturais. A sociologiapositivista (iniciada por Comte e desenvolvida como ciência pelo francês EmileDurkheim) estuda a sociedade como fato, afirmando que o fato social deve sertratado como uma coisa, à qual são aplicados os procedimentos de análise esíntese criados pelas ciências naturais. Os elementos ou átomos sociais são osindivíduos, obtidos por via da análise; as relações causais entre os indivíduos,recompostas por via da síntese, constituem as instituições sociais (família,trabalho, religião, Estado, etc.).3. Período do historicismo: desenvolvido no final do século XIX e início doséculo XX por Dilthey, filósofo e historiador alemão. Essa concepção, herdeirado idealismo alemão (Kant, Fichte, Schelling, Hegel), insiste na diferençaprofunda entre homem e Natureza e entre ciências naturais e humanas, chamadaspor Dilthey de ciências do espírito ou da cultura. Os fatos humanos sãohistóricos, dotados de valor e de sentido, de significação e finalidade e devem serestudados com essas características que os distinguem dos fatos naturais. Asciências do espírito ou da cultura não podem e não devem usar o método daobservação-experimentação, mas devem criar o método da explicação ecompreensão do sentido dos fatos humanos, encontrando a causalidade históricaque os governa.O fato humano é histórico ou temporal: surge no tempo e se transforma notempo. Em cada época histórica, os fatos psíquicos, sociais, políticos, religiosos,econômicos, técnicos e artísticos possuem as mesmas causas gerais, o mesmosentido e seguem os mesmos valores, devendo ser compreendidos,simultaneamente, como particularidades históricas ou “visões de mundo”específicas ou autônomas e como etapas ou fases do desenvolvimento geral dahumanidade, isto é, de um processo causal universal, que é o progresso.O historicismo resultou em dois problemas que não puderam ser resolvidos porseus adeptos: o relativismo (numa época em que as ciências humanas buscavam auniversalidade de seus conceitos e métodos) e a subordinação a uma filosofia daHistória (numa época em que as ciências humanas pretendiam separar-se daFilosofia).Relativismo: as leis científicas são válidas apenas para uma determinada época ecultura, não podendo ser universalizadas. Filosofia da História: os indivíduoshumanos e as instituições socioculturais só são compreensíveis se seu estudo – 347 –

Convite à Filosofia _______________________________científico subordinar-se a uma teoria geral da História que considere cadaformação sociocultural seja como “visão de mundo” particular, seja como etapade um processo histórico universal.Para escapar dessas conseqüências, o sociólogo alemão Max Weber propôs queas ciências humanas – no caso, a sociologia e a economia – trabalhassem seusobjetos como tipos ideais e não como fatos empíricos. O tipo ideal , como onome indica, oferece construções conceituais puras, que permitem compreender einterpretar fatos particulares observáve is. Assim, por exemplo, o Estado seapresenta como uma forma de dominação social e política sob vários tipos ideais(dominação carismática, dominação pessoal burocrática, etc.), cabendo aocientista verificar sob qual tipo encontra-se o caso particular investigado.Fenomenologia, estruturalismo e marxismoA constituição das ciências humanas como ciências específicas consolidou-se apartir das contribuições de três correntes de pensamento, que, entre os anos 20 e50 do século passado, provocaram uma ruptura epistemológica e uma revoluçãocientífica no campo das humanidades.A contribuição da fenomenologiaComo vimos em vários momentos deste livro, a fenomenologia introduziu anoção de essência ou significação como um conceito que permite diferenciarinternamente uma realidade de outras, encontrando seu sentido, sua forma, suaspropriedades e sua origem.Dessa maneira, a fenomenologia começou por permitir que fosse feita a diferençarigorosa entre a esfera ou região da essência “Natureza” e a esfera ou região daessência “homem”. A seguir, permitiu que a esfera ou região “homem” fosseinternamente diferenciada em essências diversas: o psíquico, o social, o histórico,o cultural. Com essa diferenciação, garantia às ciências humanas a validade deseus projetos e campos científicos de investigação: psicologia, sociologia,história, antropologia, lingüística, economia.Qual a diferença entre a perspectiva positivista e a fenomenológica? Doisexemplos podem ajudar-nos a compreendê-la.Recusando a perspectiva metafísica, que se referia ao psíquico em termos dealma e de interioridade, a psicologia volta-se para o estudo dos fatos psíquicosdiretamente observáveis. Ao radicalizar essa concepção, a psicologia positivistafazia do psiquismo uma soma de elementos físico-químicos, anatômicos efisiológicos, de sorte que não havia, propriamente falando, um objeto científicodenominado “o psíquico”, mas efeitos psíquicos de causas não-psíquicas (físicas,químicas, fisiológicas, anatômicas). Por isso, a psicologia considerava-se umaciência natural próxima da biologia, tendo como objeto o comportamento comoum fato externo, observável e experimental. – 348 –

Marilena Chauí _______________________________Ao contrário, a psicologia como ciência humana do psiquismo tornou-se possívela partir do momento em que um conjunto de fatos internos e externos ligados àconsciência (sensação, percepção, motricidade, linguagem, etc.) puderam serdefinidos como dotados de significação objetiva própria.Recusando a perspectiva da filosofia da História, que considerava as sociedadesetapas culturais e civilizatórias de um processo histórico universal, a sociologiavolta-se para o estudo dos fatos sociais observáveis. Inspirando-se nas ciênciasnaturais, a sociologia positivista fazia da sociedade uma soma de açõesindividuais e tomava o indivíduo como elemento observável e causa do social, desorte que não havia a sociedade como um objeto ou uma realidade propriamentedita, mas um efeito de ações psicológicas dos indivíduos. Somente a definição dosocial como algo essencialmente diferente do psíquico e como não sendo a merasoma de ações individuais permitiu o surgimento da sociologia como ciênciapropriamente dita.Em resumo, antes da fenomenologia, cada uma das ciências humanas desfaziaseu objeto num agregado de elementos de natureza diversa do todo, estudava asrelações causais externas entre esses elementos e as apresentava como explicaçãoe lei de seu objeto de investigação. A fenomenologia garantiu às ciênciashumanas a existência e a especificidade de seus objetos.A contribuição do estruturalismoO estruturalismo permitiu que as ciências humanas criassem métodos específicospara o estudo de seus objetos, livrando-as das explicações mecânicas de causa eefeito, sem que por isso tivessem que abandonar a idéia de lei científica.A concepção estruturalista veio mostrar que os fatos humanos assumem a formade estruturas, isto é, de sistemas que criam seus próprios elementos, dando aestes sentido pela posição e pela função que ocupam no todo. As estruturas sãototalidades organizadas segundo princípios internos que lhes são próprios e quecomandam seus elementos ou partes, seu modo de funcionamento e suaspossibilidades de transformação temporal ou histórica. Nelas, o todo não é asoma das partes, nem um conjunto de relações causais entre elementos isoláveis,mas é um princípio ordenador, diferenciador e transformador. Uma estrutura éuma totalidade dotada de sentido.Já vimos a noção de estrutura quando, nos capítulos dedicados à teoria doconhecimento, nos referimos à teoria da percepção, formulada pela psicologia daGestalt ou da forma, bem como quando nos referimos à teoria da linguagem,elaborada pela lingüística contemporânea.Após a psicologia e a lingüística, a primeira das ciências humanas a setransformar profundamente, graças à idéia de estrutura e ao método estrutural, foia antropologia social. Esta pôde mostrar que, ao contrário do que pensava aantropologia positivista, as chamadas “sociedades primitivas” não são uma etapa – 349 –

Convite à Filosofia _______________________________atrasada da evolução da história social da humanidade, mas uma forma objetivade organizar as relações sociais de modo diferente do nosso, constituindoestruturas culturais.O antropólogo Claude Lévi-Strauss, por exemplo, mostrou que as estruturasdessas sociedades são baseadas no princípio do valor ou da equivalência, quepermite a troca e a circulação de certos seres, de maneira a constituir o todo dasociedade, organizando todas as relações sociais: a troca ou circulação dasmulheres (estrutura do parentesco como sistema social de alianças), a troca oucirculação de objetos especiais (estrutura do dom como sistema social da guerra eda paz) e troca e circulação da palavra (estrutura da linguagem como sistema dopoder religioso e político). O modo como cada um desses sistemas ou estruturasparciais se organiza e se relaciona com os outros define a estrutura geral eespecífica de uma sociedade “primitiva”, que pode, assim, ser compreendida eexplicada cientificamente.A contribuição do marxismoO marxismo permitiu compreender que os fatos humanos são instituições sociaise históricas produzidas não pelo espírito e pela vontade livre dos indivíduos, maspelas condições objetivas nas quais a ação e o pensamento humanos devemrealizar-se. Levou a compreender que os fatos humanos mais originários ouprimários são as relações dos homens com a Natureza na luta pela sobrevivênciae que tais relações são as de trabalho, dando origem às primeiras instituiçõessociais: família (divisão sexual do trabalho), pastoreio e agricultura (divisãosocial do trabalho), troca e comércio (distribuição social dos produtos dotrabalho).Assim, as primeiras instituições sociais são econômicas. Para mantê-las, o gruposocial cria idéias e sentimentos, valores e símbolos aceitos por todos e quejustificam ou legitimam as instituições assim criadas. Também para conservá-las,o grupo social cria instituições de poder que sustentem (pela força, pelas armasou pelas leis) as relações sociais e as idéias-valores-símbolos produzidos.Dessa maneira, o marxismo permitiu às ciências humanas compreender asarticulações necessárias entre o plano psicológico e o social da existênciahumana; entre o plano econômico e o das instituições sociais e políticas; entretodas elas e o conjunto de idéias e de práticas que uma sociedade produz.Graças ao marxismo, as ciências humanas puderam compreender que asmudanças históricas não resultam de ações súbitas e espetaculares de algunsindivíduos ou grupos de indivíduos, mas de lentos processos sociais, econômicose políticos, baseados na forma assumida pela propriedade dos meios de produçãoe pelas relações de trabalho. A materialidade da existência econômica comandaas outras esferas da vida social e da espiritualidade e os processos históricosabrangem todas elas. – 350 –

Marilena Chauí _______________________________Enfim, o marxismo trouxe como grande contribuição à sociologia, à ciênciapolítica e à história a interpretação dos fenômenos humanos como expressão eresultado de contradições sociais, de lutas e conflitos sóciopolíticos determinadospelas relações econômicas baseadas na exploração do trabalho da maioria pelaminoria de uma sociedade.Em resumo, a fenomenologia permitiu a definição e a delimitação dos objetosdas ciências humanas; o estruturalismo permitiu uma metodologia que chega àsleis dos fatos humanos, sem que seja necessário imitar ou copiar osprocedimentos das ciências naturais; o marxismo permitiu compreender que osfatos humanos são historicamente determinados e que a historicidade, longe deimpedir que sejam conhecidos, garante a interpretação racional deles e oconhecimento de suas leis.Com essas contribuições, que foram incorporadas de maneiras muitodiferenciadas pelas várias ciências humanas, os obstáculos epistemológicosforam ultrapassados e foi possível demonstrar que os fenômenos humanos sãodotados de sentido e significação, são históricos, possuem leis próprias, sãodiferentes dos fenômenos naturais e podem ser tratados cientificamente.Os campos de estudo das ciências humanasSe tomarmos as ciências humanas de acordo com seus campos de investigação,podemos distribuí-las da seguinte maneira:Psicologia? estudo das estruturas, do desenvolvimento das operações da mente humana(consciência, vontade, percepção, linguagem, memória, imaginação, emoções);? estudo das estruturas e do desenvolvimento dos comportamentos humanos eanimais;? estudo das relações intersubjetivas dos indivíduos em grupo e em sociedade;? estudo das perturbações (patologias) da mente humana e dos comportamentoshumanos e animais.Sociologia? estudo das estruturas sociais: origem e forma das sociedades, tipos deorganizações sociais, econômicas e políticas;? estudo das relações sociais e de suas transformações;? estudo das instituições sociais (origem, forma, sentido).Economia? estudo das condições materiais (naturais e sociais) de produção e reproduçãoda riqueza, de suas formas de distribuição, circulação e consumo; – 351 –

Convite à Filosofia _______________________________? estudo das estruturas produtivas – relações de produção e forças produtivas –segundo o critério da divisão social do trabalho, da forma da propriedade, dasregras do mercado e dos ciclos econômicos;? estudo da origem, do desenvolvimento, das crises, das transformações e dareprodução das formas econômicas ou modos de produção.Antropologia? estudo das estruturas ou formas culturais em sua singularidade ouparticularidade, isto é, como diferentes entre si por seus princípios internos defuncionamento e transformação. A cultura é entendida como modo de vida globalde uma sociedade, incluindo: religião, formas de poder, formas de parentesco,formas de comunicação, organização da vida econômica, artes, técnicas,costumes, crenças, formas de pensamento e de comportamento, etc.;? estudo das comunidades ditas “primitivas”, isto é, tanto das que desconhecem adivisão social em classes e recusam organizar-se sob a forma do mercado e dopoder estatal, quanto daquelas que já iniciaram o processo de divisão social epolítica.História? estudo da gênese e do desenvolvimento das formações sociais em seus aspectoseconômicos, sociais, políticos e culturais;? estudo das transformações das sociedades e comunidades como resultado eexpressão de conflitos, lutas, contradições internas às formações sociais;? estudo das transformações das sociedades e comunidades sob o impacto deacontecimentos políticos (revoluções, guerras civis, conquistas territoriais),econômicos (crises, inovações técnicas, descobertas de novas formas deexploração da riqueza ou procedimentos de produção, mudanças na divisãosocial do trabalho), sociais (movimentos sociais, movimentos populares,mudanças na estrutura e organização da família, da educação, da moralidadesocial, etc.) e culturais (mudanças científicas, tecnológicas, artísticas, filosóficas,éticas, religiosas, etc.);? estudo dos acontecimentos que, em cada caso, determinaram ou determinam apreservação ou a mudança de uma formação social em seus aspectos econômicos,políticos, sociais e culturais;? estudo dos diferentes suportes da memória coletiva (documentos, monumentos,pinturas, fotografias, filmes, moedas, lápides funerárias, testemunhos e relatosorais e escritos, etc.).Lingüística? estudo das estruturas da linguagem como sistema dotado de princípios internosde funcionamento e transformação; – 352 –

Marilena Chauí _______________________________? estudo das relações entre língua (a estrutura) e fala ou palavra (o uso da línguapelos falantes);? estudo das relações entre a linguagem e os outros sistemas de signos esímbolos ou outros sistemas de comunicação.Psicanálise? estudo da estrutura e do funcionamento do inconsciente e de suas relações como consciente;? estudo das patologias ou perturbações inconscientes e suas expressõesconscientes (neuroses e psicoses).Devemos observar que:? cada uma das ciências humanas subdivide-se em vários ramos, definidos pelaespecificidade crescente de seus objetos e métodos. Assim, podemos falar empsicologia social, clínica, do desenvolvimento, da aprendizagem, da criança, doadolescente, etc. Ou em sociologia política, do trabalho, rural, urbana,econômica, etc. Também p odemos falar em história econômica, política, oral,social, etc. Ou levar em consideração que a antropologia depende deinvestigações feitas pela etnografia e pela etnologia ou pela arqueologia, assimcomo a lingüística trabalha com a fonologia, a fonética, a gramática, a semântica,a sintaxe, etc.;? embora com campos e métodos específicos, as ciências humanas tendem aapresentar resultados mais completos e satisfatórios quando trabalhaminterdisciplinarmente, de modo a abranger os múltiplos aspectos simultâneos esucessivos dos fenômenos estudados;? os desenvolvimentos da lingüística, da antropologia e da psicanálise suscitaramo aparecimento de uma nova disciplina ou interdisciplina científica: asemiologia, que estuda os diferentes sistemas de signos e símbolos queconstituem as múltiplas e diferentes formas de comunicação. O desenvolvimentoda semiologia conduziu à idéia de que signos e símbolos são ações e práticassócio-históricas, isto é, estão referidos às relações sociais e às suas condiçõeshistóricas, cada sociedade e cada cultura constituindo-se como um sistema queintegra e totaliza vários subsistemas de signos e símbolos (linguagem, arte,religião, instituições sociais e políticas, costumes, etc.).Vários estudiosos propuseram que o método das ciências humanas fosse capaz dedescrever e interpretar esses subsistemas e o sistema geral que os unifica. Essemétodo é a semiótica, tomada como metodologia própria às ciências humanas ecapaz de unificá-las. – 353 –

Convite à Filosofia _______________________________ Capítulo 5 O ideal científico e a razão instrumentalO ideal científicoO percurso que fizemos no estudo das ciências evidencia a existência de umideal científico: embora continuidades e rupturas marquem os conhecimentoscientíficos, a ciência é a confiança que a cultura ocidental deposita na razão comocapacidade para conhecer a realidade, mesmo que esta, afinal, tenha que serinteiramente construída pela própria atividade racional.A lógica que rege o pensamento científico contemporâneo está centrada na idéiade demonstração e prova, a partir da definição ou construção do objeto doconhecimento por suas propriedades e funções e da posição do sujeito doconhecimento, através das operações de análise, síntese e interpretação. A ciênciacontemporânea funda-se:? na distinção entre sujeito e objeto do conhecimento, que permite estabelecer aidéia de objetividade, isto é, de independência dos fenômenos em relação aosujeito que conhece e age;? na idéia de método como um conjunto de regras, normas e procedimentosgerais, que servem para definir ou construir o objeto e para o autocontrole dopensamento durante a investigação e, após esta, para a confirmação oufalsificação dos resultados obtidos. A idéia de método tem como pressuposto queo pensamento obedece universalmente a certos princípios internos – identidade,não-contradição, terceiro excluído, razão suficiente – dos quais dependem oconhecimento da verdade e a exclusão do falso. A verdade pode sercompreendida seja como correspondência necessária entre os conceitos e arealidade, seja como coerência interna dos próprios conceitos;? nas operações de análise e síntese, isto é, de passagem do todo complexo àssuas partes constituintes ou de passagem das partes ao todo que as explica edetermina. O objeto científico é um fenômeno submetido à análise e à síntese,que descrevem os fatos observados ou constroem a própria entidade objetivacomo um campo de relações internas necessárias, isto é, uma estrutura que podeser conhecida em seus elementos, suas propriedades, suas funções e seus modosde permanência ou de transformação;? na idéia de lei do fenômeno, isto é, de regularidades e constâncias universais enecessárias, que definem o modo de ser e de comportar-se do objeto, seja estetomado como um campo separado dos demais, seja tomado em suas relações com – 354 –

Marilena Chauí _______________________________outros objetos ou campos de realidade. A lei científica define o que é o fato-fenômeno ou o objeto construído pelas operações científicas. Em outras palavras,a lei científica diz como o objeto se constitui, como se comporta, por que e comopermanece, por que e como se transforma, sobre quais fenômenos atua e de quaissofre ação. A lei define o objeto segundo um sistema complexo de relaçõesnecessárias de causalidade, complementaridade, inclusão e exclusão. A idéia delei visa a marcar o caráter necessário do objeto e a afastar as idéias de acaso,contingência, indeterminação, oferecendo o objeto como completamentedeterminado pelo pensamento ou completamente conhecido ou cognoscível;? no uso de instrumentos tecnológicos e não simplesmente técnicos. Osinstrumentos técnicos são prolongamentos de capacidades do corpo humano edestinam-se a aumentá-las na relação do nosso corpo com o mundo. Osinstrumentos tecnológicos são ciência cristalizada em objetos materiais, nadapossuem em comum com as capacidades e aptidões do corpo humano; visam aintervir nos fenômenos estudados e mesmo a construir o próprio objetocientífico; destinam-se a dominar e transformar o mundo e não simplesmente afacilitar a relação do homem com o mundo. A tecnologia confere à ciênciaprecisão e controle dos resultados, aplicação prática e interdisciplinaridade. Ocaso da biologia genética revela como a tecnologia da física, da química e dacibernética determinaram uma atividade interdisciplinar que resultou emdescobertas e mudanças na biologia;? na criação de uma linguagem específica e própria, distante da linguagemcotidiana e da linguagem literária. A ciência procura afastar os dados qualitativose perceptivo -emotivos dos objetos ou dos fenômenos, para guardar ou construirapenas seus aspectos quantitativo s e relacionais.A linguagem cotidiana e a literária são conotativas e polissêmicas, isto é, nelas aspalavras possuem múltiplos significados simultâneos, subentendidos,ambigüidades e exprimem tanto o sujeito quanto as coisas, ou seja, exprimem asrelações vividas entre o sujeito e o mundo qualitativo de sons, cores, formas,odores, valores, sentimentos, etc.Nas ciências, porém, sons e cores são explicados como variação no comprimentodas ondas sonoras e luminosas, observadas e medidas no laboratório. Valores esentimentos são explicados pelas análises do corpo vivido e da consciência, feitaspela psicologia; pelas análises da estrutura e organização da sociedade, feitas pelasociologia e pela antropologia.A linguagem científica destaca o objeto das relações com o sujeito, separa-o daexperiência vivida cotidiana e constrói uma linguagem puramente denotativapara exprimir sem ambigüidades as leis do objeto. O simbolismo científicorompe com o simbolismo da linguagem cotidiana construindo uma linguagemprópria, com símbolos unívocos e denotativos, de significado único e universal. – 355 –

Convite à Filosofia _______________________________A ciência constrói o algoritmo e fala através dos algoritmos ou de umacombinatória de estilo matemático.Justamente por serem estes os principais traços do ideal científico, podemoscompreender por que existem os problemas epistemológicos examinados noscapítulos precedentes. Em outras palavras, o ideal de cientificidade impõe àsidéias critérios e finalidades que, quando impedidos de se concretizarem, forçamrupturas e mudanças teóricas profundas, fazendo desaparecer campos edisciplinas científicos ou levando ao surgimento de objetos, métodos, disciplinase campos de investigação novos.Ciência desinteressada e utilitarismoDesde a Renascença – isto é, desde o humanismo, que colocava o homem nocentro do Universo e afirmava seu poder para conhecer e dominar a realidade –duas concepções sobre o valor da ciência estiveram sempre em confronto.A primeira delas, que chamaremos de ideal do conhecimento desinteressado,afirma que o valor de uma ciência encontra-se na qualidade, no rigor e naexatidão, na coerência e na verdade de uma teoria, independentemente de suaaplicação prática. A teoria científica vale por trazer conhecimentos novos sobrefatos desconhecidos, por ampliar o saber humano sobre a realidade e não por seraplicável praticamente. Em outras palavras, é por ser verdadeira que a ciênciapode ser aplicada na prática, mas o uso da ciência é conseqüência e não causa doconhecimento científico.A segunda concepção, conhecida como utilitarismo, ao contrário, afirma que ovalor de uma ciência encontra-se na quantidade de aplicações práticas que possapermitir. É o uso ou a utilidade imediata dos conhecimentos que prova a verdadede uma teoria científica e lhe confere valor. Os conhecimentos são procuradospara resolver problemas práticos e estes determinam não só o aparecimento deuma ciência, mas também suas transformações no decorrer do tempo.As duas concepções são verdadeiras, mas parciais. Se uma teoria científica fosseelaborada apenas por suas finalidades práticas imediatas, inúmeras pesquisasjamais teriam sido feitas e inúmeros fenômenos jamais teriam sido conhecidos,pois, com freqüência, os conhecimentos teóricos estão mais avançados do que ascapacidades técnicas de uma época e, em geral, sua aplicação só é percebida e sóé possível muito tempo depois de haver sido elaborada.No entanto, se uma teoria científica não for capaz de suscitar aplicações, se nãofor capaz de permitir o surgimento de objetos técnicos e tecnológicos,instrumentos, utensílios, máquinas, medicamentos, de resolver problemasimportantes para os seres humanos, então seremos obrigados a dizer que atécnica e a tecnologia são cegas, incertas, arriscadas e perigosas, porque sãopráticas sem bases teóricas seguras. Na realidade, teoria e prática científicas estão – 356 –

Marilena Chauí _______________________________relacionadas na concepção moderna e contemporânea de ciência, mesmo queuma possa estar mais avançada do que a outra.A distinção e a relação entre ciência pura e ciência aplicada pode solucionar oimpasse ou o confronto entre as duas concepções sobre o valor das teoriascientíficas, garantindo, por um lado, que uma teoria possa e deva ser elaboradasem a preocupação com fins práticos imediatos, embora possa, mais tarde,contribuir para eles; e, por outro lado, garantindo o caráter científico de teoriasconstruídas diretamente com finalidades práticas, as quais podem, por sua vez,suscitar investigações puramente teóricas.Pode-se dizer que são problemas e dificuldades técnicas e práticas que suscitam odesenvolvimento de conhecimentos teóricos. Sabemos, por exemplo, que oquímico Lavoisier decidiu estudar o fenômeno da combustão para resolverproblemas econômicos da cidade de Paris, que Galileu e Torricelli investigaram omovimento dos corpos no vácuo para resolver problemas de carregamento degrandes pesos nos portos e para responder a uma pergunta dos construtores defontes dos jardins da cidade de Florença.No entanto, o que sempre se verifica é que a explicação científica e a teoriaacabam conhecendo muito mais fatos e relações do que o que era necessário parasolucionar o problema prático, de tal modo que as pesquisas teóricas vãoavançando já sem a preocupação prática, embora comecem a surgir e a suscitar,tempos depois, soluções práticas para problemas novos. Assim, por exemplo,passou-se muito tempo até que a teoria eletromagnética de Hertz levasse àstécnicas de radiodifusão.A ideologia cientificistaO senso comum, ignorando as complexas relações entre as teorias científicas e astécnicas, entre ciência pura e ciência aplicada, entre teoria e prática e entreverdade e utilidade, tende a identificar as ciências com os resultados de suasaplicações. Essa identificação desemboca numa atitude conhecida comocientificismo, isto é, fusão entre ciênci a e técnica e a ilusão da neutralidadecientífica.Examinemos brevemente cada um desses aspectos que constituem a ideologia daciência na sociedade contemporânea.O cientificismoO cientificismo é a crença infundada de que a ciência pode e deve conhecer tudo,que, de fato, conhece tudo e é a explicação causal das leis da realidade tal comoesta é em si mesma.Ao contrário dos cientistas, que não cessam de enfrentar obstáculosepistemológicos, problemas e enigmas, o senso comum cientificista desembocanuma ideologia e numa mitologia da ciência. – 357 –

Convite à Filosofia _______________________________Ideologia da ciência: crença no progresso e na evolução dos conhecimentos que,um dia, explicarão totalmente a realidade e permitirão manipulá-la tecnicamente,sem limites para a ação humana.Mitologia da ciência: crença na ciência como se fosse magia e poderio ilimitadosobre as coisas e os homens, dando-lhe o lugar que muitos costumam dar àsreligiões, isto é, um conjunto doutrinário de verdades intemporais, absolutas einquestionáveis.A ideologia e a mitologia cientificistas encaram a ciência não pelo prisma dotrabalho do conhecimento, mas pelo prisma dos resultados (apresentados comoespetaculares e miraculosos) e sobretudo como uma forma de poder social e decontrole do pensamento humano. Por este motivo, aceitam a ideologia dacompetência, isto é, a idéia de que há, na sociedade, os que sabem e os que nãosabem, que os primeiros são competentes e têm o direito de mandar e de exercerpoderes, enquanto os demais são incompetentes, devendo obedecer e sermandados. Em resumo, a sociedade deve ser dirigida e comandada pelos que“sabem” e os demais devem executar as tarefas que lhes são ordenadas.A ilusão da neutralidade da ciênciaComo a ciência se caracteriza pela separação e pela distinção entre o sujeito doconhecimento e o objeto; como a ciência se caracteriza por retirar dos objetos doconhecimento os elementos subjetivos; como os procedimentos científicos deobservação, experimentação e interpretação procuram alcançar o objeto real ou oobjeto construído como modelo aproximado do real; e, enfim, como os resultadosobtidos por uma ciência não dependem da boa ou má vontade do cientista nem desuas paixões, estamos convencidos de que a ciência é neutra ou imparcial. Diz àrazão o que as coisas são em si mesmas. Desinteressadamente.Essa imagem da neutralidade científica é ilusória.Quando o cientista escolhe uma certa definição de seu objeto, decide usar umdeterminado método e espera obter certos resultados, sua atividade não é neutranem imparcial, mas feita por escolhas precisas. Vamos tomar três exemplos quenos ajudarão a esclarecer este ponto.O racismo não é apenas uma ideologia social e política. É também uma teoriaque se pretende científica, apoiada em observações, dados e leis conseguidas coma biologia, a psicologia, a sociologia. É uma certa maneira de construir taisdados, de sorte a transformar diferenças étnicas e culturais em diferençasbiológicas naturais imutáveis e separar os seres humanos em superiores einferiores, dando aos primeiros justificativas para explorar, dominar e mesmoexterminar os segundos.Por que Copérnico teve que esconder os resultados de suas pesquisas e Galileufoi forçado a comparecer perante a Inquisição e negar que a Terra se movia aoredor do Sol? Porque a concepção astronômica geocêntrica (elaborada, na – 358 –

Marilena Chauí _______________________________Antiguidade, por Ptolomeu e Aristóteles) permitia que a Igreja Romanamantivesse a idéia de que a realidade é constituída por uma hierarquia de seres,que vão dos mais perfeitos – os celestes – aos mais imperfeitos – os infernais – eque essa hierarquia colocava a Igreja acima dos imperadores, estes acima dosbarões e estes acima dos camponeses e servos.Se a astronomia demonstrasse que a Terra não é o centro do Universo e que o Solnão é apenas uma perfeição imóvel, e se a mecânica galileana demonstrasse quetodos os seres estão submetidos às mesmas leis do movimento, então ashierarquias celestes, naturais e humanas, perderiam legitimidade e fundamento,não precisando ser respeitadas. A física e a astronomia pré-copernicanas(elaboradas por Ptolomeu e Aristóteles) serviam – independentemente da vontadede Ptolomeu e de Aristóteles, é verdade – a uma sociedade e a uma concepção dopoder que se viram ameaçadas por uma nova concepção científica.Um último exemplo pode ser dado através da antropologia. Durante muitotempo, os antropólogos afirmaram que havia duas formas de pensamentocientificamente observáveis e com leis diferentes: o pensamento lógico-racionaldos civilizados (europeus brancos adultos) e o pensamento pré-lógico e pré-racional dos selvagens ou primitivos (africanos, índios, tribos australianas). Oprimeiro era considerado superior, verdadeiro e evoluído; o segundo, inferior,falso, supersticioso e atrasado, cabendo aos brancos europeus “auxiliar” osselvagens “primitivos” a abandonar sua cultura e adquirir a cultura “evoluída”dos colonizadores.O melhor caminho para perceber a impossibilidade de uma ciência neutra é levarem consideração o modo como a pesquisa científica se realiza em nosso tempo.Durante séculos, os cientistas trabalharam individualmente (mesmo quepossuíssem auxiliares e discípulos) em seus pequenos laboratórios. Suaspesquisas eram custeadas ou por eles mesmos ou por reis, nobres e burguesesricos, que desejavam a glória de patrocinar descobertas e as vantagens práticasque delas poderiam advir. Por sua vez, o senso comum social olhava o cientistacomo inventor e gênio.Hoje, os cientistas trabalham coletivamente, em equipes, nos grandeslaboratórios universitários, nos dos institutos de pesquisa e nos das grandesempresas transnacionais que participam de um sistema conhecido comocomplexo industrial-militar. As pesquisas são financiadas pelo Estado (nasuniversidades e institutos), pelas empresas privadas (em seus laboratórios) e porambos (nos centros de investigação do complexo industrial-militar). Sãopesquisas que exigem altos investimentos econômicos e das quais se esperamresultados que a opinião pública nem sempre conhece. Além disso, os cientistasde uma mesma área de investigação competem por recursos, tendem a fazersegredo de suas descobertas, pois dependem delas para conseguir fundos e vencera competição com outros. – 359 –

Convite à Filosofia _______________________________Sabemos, hoje, que a maioria dos resultados científicos que usamos em nossavida cotidiana – máquinas, remédios, fertilizantes, produtos de limpeza e dehigiene, materiais sintéticos, computadores – tiveram como origem investigaçõesmilitares e estratégicas, competições econômicas entre grandes empresastransnacionais e competições políticas entre grandes Estados. Muito do queusamos em nosso cotidiano provém de pesquisas nucleares, bacteriológicas eespaciais.O senso comum social, agora, vê o cientista como engenheiro e mago, emroupas brancas no interior de grandes laboratórios repletos de objetosincompreensíveis, rodeado de outros cientistas, fazendo cálculos misteriososdiante de dezenas de computadores.Tanto na visão anterior – o cientista como inventor e gênio solitário – quanto naatual – o cientista como membro de uma equipe de engenheiros e magos -, osenso comum vê a ciência desligada do contexto das condições de sua realizaçãoe de suas finalidades. Eis porque tende a acreditar na neutralidade científica, naidéia de que o único compromisso da ciência é o conhecimento verdadeiro edesinteressado e a solução correta de nossos problemas.A ideologia cientificista usa essa imagem idealizada para consolidar a daneutralidade científica, dissimulando, com isso, a origem e a finalidade damaioria das pesquisas, destinadas a controlar a Natureza e a sociedade segundoos interesses dos grupos que controlam os financiamentos dos laboratórios.A razão instrumentalPor que há uma ideologia e uma mitologia da ciência?Quando estudamos a teoria do conhecimento, examinamos a noção de ideologiacomo lógica social imaginária de ocultamento da realidade histórica. Aoestudarmos o nascimento da Filosofia, examinamos a diferença entre mythos elogos, isto é, entre a explicação antropomórfica e mágica do mundo e aexplicação racional. Quando estudamos a razão, vimos que alguns filósofosalemães, reunidos na Escola de Frankfurt, descreveram a racionalidade ocidentalcomo instrumentalização da razão. Se reunirmos esses vários estudos quefizemos até aqui, poderemos responder à pergunta sobre a ideologização e amitologização da ciência.A razão instrumental – que os frankfurtianos, como Adorno, Marcuse eHorkheimer também designaram com a expressão razão iluminista – nascequando o sujeito do conhecimento toma a decisão de que conhecer é dominar econtrolar a Natureza e os seres humanos. Assim, por exemplo, o filósofo FrancisBacon, no início do século XVII, criou uma expressão para referir-se ao objetodo conhecimento científico: “a Natureza atormentada”.Atormentar a Natureza é fazê-la reagir a condições artificiais, criadas pelohomem. O laboratório científico é a maneira paradigmática de efetuar esse – 360 –

Marilena Chauí _______________________________tormento, pois, nele, plantas, animais, metais, líquidos, gases, etc. são submetidosa condições de investigação totalmente diversas das naturais, de maneira a fazercom que a experimentação supere a experiência, descobrindo formas, causas,efeitos que não poderiam ser conhecidos se contássemos apenas com a atividadeespontânea da Natureza. Atormentar a Natureza é conhecer seus segredos paradominá-la e transformá-la.O tormento da realidade aumenta com a ciência contemporânea, uma vez queesta não se contenta em conhecer as coisas e os seres humanos, mas os constróiartificialmente e aplica os resultados dessa construção ao mundo físico, biológicoe humano (psíquico, social, político, histórico). Assim, por exemplo, aorganização do processo de trabalho nas indústrias apresenta-se como científicaporque é baseada em conceitos da psicologia, da sociologia, da economia, quepermitem dominar e controlar o trabalho humano sob todos os aspectos (controlesobre o corpo e o espírito dos trabalhadores), a fim de que a produtividade seja amaior possível para render lucros ao capital.Na medida em que a razão se torna instrumental, a ciência vai deixando de seruma forma de acesso aos conhecimentos verdadeiros para tornar-se uminstrumento de dominação, poder e exploração. Para que não seja percebidacomo tal, passa a ser sustentada pela ideologia cientificista, que, através da escolae dos meios de comunicação de massa, desemboca na mitologia cientificista.Todavia, devemos distinguir entre o momento da investigação científicapropriamente dita e o da ideologização-mitologização de uma ciência. Umexemplo poderá auxiliar-nos a perceber essa diferença. Quando Darwin elabora ateoria biológica da evolução das espécies, o modelo de explicação usado por elepermitia-lhe supor que o processo evolutivo ocorria por seleção natural dos maisaptos à sobrevivência.Ora, na mesma época, a sociedade capitalista estava convencida de que oprogresso social e histórico provi nha da competição e da concorrência dosindivíduos, segundo a lei econômica da oferta e da procura. Um filósofo,Spencer, aplicou, então, a teoria darwiniana à sociedade: nesta, os mais “aptos”(isto é, os mais capazes de competir e concorrer) tornam-se naturalmentesuperiores aos outros, vencendo-os em riqueza, privilégios e poder.Ao transpor uma teoria biológica para uma explicação filosófica sobre a essênciada sociedade, Spencer transformou a teoria científica da evolução em ideologiaevolucionista. Por quê? Em primeiro lugar, porque generalizou para toda arealidade resultados obtidos num campo particular de conhecimentos específicos.Em segundo lugar, porque tomou conceitos referentes a fatos naturais e osconverteu em fatos sociais, como se não houve sse diferença entre Natureza esociedade. Uma vez criada a ideologia evolucionista, o evolucionismo tornou-seteoria da História e, a seguir, mitologia científica do progresso humano.A noção de razão instrumental nos permite compreender: – 361 –

Convite à Filosofia _______________________________? a transformação de uma ciência em ideologia e mito social, isto é, em sensocomum cientificista;? que a ideologia da ciência não se reduz à transformação de uma teoriacientífica em ideologia, mas encontra-se na própria ciência, quando esta éconcebida como instrumento de dominação, controle e poder sobre a Natureza ea sociedade;? que as idéias de progresso técnico e neutralidade científica pertencem aocampo da ideologia cientificista.Confusão entre ciência e técnicaVimos que a ciência moderna e contemporânea transforma a técnica emtecnologia, isto é, passa da máquina-utensílio à máquina como instrumento deprecisão, que permite conhecimentos mais exatos e novos conhecimentos.Essa transformação traz duas conseqüências principais: a primeira se refere aoconhecimento científico e a segunda, ao estatuto dos objetos técnicos:1. o conhecimento científico é concebido como lógica da invenção (para asolução de problemas teóricos e práticos) e como lógica da construção (deobjetos teóricos), graças à possibilidade de estudar os fenômenos sem dependerapenas dos recursos de nossa percepção e de nossa inteligência. É assim que, porexemplo, Galileu se refere ao telescópio como um instrumento cuja função não éa de simplesmente aproximar objetos distantes, mas de corrigir as distorções denossos olhos e garantir-nos a imagem correta das coisas. O mesmo foi dito sobreo microscópio, sobre a balança de precisão, sobre o cronômetro.Em nosso tempo, os instrumentos técnico-tecnológicos vão além da correção denossa percepção, pois corrigem falhas de nosso pensamento, uma vez que sãointeligências artificiais (o computador foi chamado de “cérebro eletrônico”) maisacuradas do que nossa inteligência individual. Evidentemente, sãoconhecimentos científicos que permitem a construção desses instrumentos, masdando-lhes capacidades que cada um de nós, enquanto indivíduo, não possui.Ora, os objetos técnico-tecnológicos ampliam a idéia da ciência como invenção econstrução dos próprios fenômenos;2. os objetos técnicos são criados pela ciência como instrumentos de auxílio aotrabalho humano, máquinas para dominar a Natureza e a sociedade, instrumentosde precisão para o conhecimento científico e, sobretudo, em sua formacontemporânea, como autômatos. Estes são o objeto técnico-tecnológico porexcelência, porque possuem as seguintes características, marcas do novo estatutodesse objeto:? s ão conhecimento científico objetivado, isto é, depositado e concretizado numobjeto. São resultado e corporificação de conhecimentos científicos; – 362 –

Marilena Chauí _______________________________? são objetos que possuem em si mesmos o princípio de sua regulação,manutenção e transformação. As máquinas antigas dependiam de forças externaspara realizar suas funções (alavancas, polias, manivelas, força muscular de sereshumanos ou de animais, força hidráulica, etc.). As máquinas modernas sãoautômatos porque, dado o impulso eletro-eletrônico inicial, realizam por simesmas todas as operações para as quais foram programadas, incluindo acorreção de sua própria ação, a realimentação de energia, a transformação. Sãoauto-reguladas e autoconservadas, porque possuem em si mesmas as informaçõesnecessárias ao seu funcionamento;? como conseqüência, não são propriamente um objeto singular ou individual,mas um sistema de objetos interligados por comandos recíprocos;? são sistemas que, uma vez programados, realizam operações teóricascomplexas, que modificam o conteúdo dos próprios conhecimentos científicos,isto é, os objetos técnico-tecnológicos fazem parte do trabalho teórico.Ora, o senso comum social ignora essas transformações da ciência e da técnica econhece apenas seus resultados mais imediatos: os objetos que podem ser usadospor nós (máquina de lavar, videogame, televisão a cabo, máquina de calcular,computador, robô industrial, etc.).Como, para usá-los, precisamos receber um conjunto de informações detalhadase sofisticadas, tendemos a identificar o conhecimento científico com seus efeitostecnológicos. Com isso, deixamos de perceber o essencial, isto é, que as ciênciaspassaram a fazer parte das forças econômicas produtivas da sociedade etrouxeram mudanças sociais de grande porte na divisão social do trabalho, naprodução e na distribuição dos objetos, na forma de consumi-los. Nãopercebemos que as pesquisas científicas são financiadas por empresas egovernos, demandando grandes somas de recursos que retornam, graças aosresultados obtidos, na forma de lucro e poder para os agentes financiadores.Por não percebermos o poderio econômico das ciências, lutamos para ter acesso,para possuir e consumir os objetos tecnológicos, mas não lutamos pelo direito deacesso tanto aos conhecimentos como às pesquisas científicas, nem lutamos pelodireito de decidir seu modo de inserção na vida econômica e política de umasociedade.Eis porque, entre outros efeitos de nossa confusão entre ciência e tecnologia,aceitamos, no Brasil, políticas educacionais que profissionalizam os jovens nosegundo grau – portanto, antes que tenham podido ter acesso às ciênciaspropriamente ditas – e que destinam poucos recursos públicos às áreas depesquisa nas universidades – portanto, mantendo os cientistas na mera condiçãode reprodutores de ciências produzidas em outros países e sociedades. – 363 –

Convite à Filosofia _______________________________O problema do uso das ciênciasAlém do problema anterior, isto é, de teorias científicas serem formuladas a partirde certas decisões e escolhas do cientista ou do laboratório onde trabalham oscientistas, com conseqüências sérias para os seres humanos, um outro problematambém é trazido pelas ciências: o de seu uso.Vimos que uma teoria científica pode nascer para dar resposta a um problemaprático ou técnico. Vimos também que a investigação científica pode iravançando para descobertas de fenômenos e relações que já não possuem relaçãodireta com os problemas práticos iniciais e, como conseqüência, é freqüente umateoria estar muito mais avançada do que as técnicas e tecnologias que poderãoaplicá-la. Muitas vezes, aliás, o cientista sequer imagina que a teoria teráaplicação prática.É exatamente isso que torna o uso da ciência algo delicado, que, em geral, escapadas mãos dos próprios pesquisadores. É assim, por exemplo, que a microfísica oufísica quântica desemboca na fabricação das armas nucleares; a bioquímica e agenética, na de armas bacteriológicas. Teorias sobre a luz e o som permitem aconstrução de satélites artificiais, que, se são conectáveis instantaneamente emtodo o globo terrestre para a comunicação e informação, também sãoresponsáveis por espionagem militar e por guerras com armas teleguiadas.Uma das características mais novas da ciência está em que as pesquisascientíficas passaram a fazer parte das forças produtivas da sociedade, isto é, daeconomia. A automação, a informatização, a telecomunicação determinamformas de poder econômico, modos de organizar o trabalho industrial e osserviços, criam profissões e ocupações novas, destroem profissões e ocupaçõesantigas, introduzem a ve locidade na produção de mercadorias e em suadistribuição e consumo, modificando padrões industriais, comerciais e estilos devida. A ciência tornou-se parte integrante e indispensável da atividadeeconômica. Tornou-se agente econômico e político.Além de fazer parte essencial da atividade econômica, a ciência também passou afazer parte do poder político. Não é por acaso, por exemplo, que governos criemministérios e secretarias de ciência e tecnologia e que destinem verbas parafinanciar pesquisas civis e militares. Do mesmo modo que as grandes empresasfinanciam pesquisas e até criam centros e laboratórios de investigação científica,assim também os governos determinam quais as ciências que irão serdesenvolvidas e, nelas, quais as pesquisas que serão financiadas.Essa nova posição das ciências na sociedade contemporânea, além de indicar queé mínimo ou quase inexistente o grau de neutralidade e de liberdade doscientistas, indica também que o uso das ciências define os recursos financeirosque nelas serão investidos. – 364 –

Marilena Chauí _______________________________A sociedade, porém, não luta pelo direito de interferir nas decisões de empresas egovernos quando estes decidem financiar um tipo de pesquisa em vez de outra.Dessa maneira, o campo científico torna-se cada vez mais distante da sociedadesem que esta encontre meios para orientar o uso das ciências, pois este é definidoantes do início das próprias pesquisas e fora do controle que a sociedade poderiaexercer sobre ele.Um exemplo de luta social para intervir nas decisões sobre as pesquisas e seususos encontra-se nos movimentos ecológicos e em muitos movimentos sociaisligados a reivindicações de direitos. De um modo geral, porém, a ideologiacientificista tende a ser muito mais forte do que eles e a limitar os resultados quedesejariam obter. – 365 –

Marilena Chauí _______________________________ Capítulo 1 A culturaNatureza humana?É muito comum ouvirmos e dizermos frases do tipo: “chorar é próprio danatureza humana” e “homem não chora”. Ou então: “é da natureza humana termedo do desconhecido” e “ela é corajosa, não tem medo de nada”. Também écomum a frase: “as mulheres são naturalmente frágeis e sensíveis, porquenasceram para a maternidade”, bem como esta outra: “fulana é uma desnaturada,pois não tem o menor amor aos filhos”.Com freqüência ouvimos dizer: “os homens são fortes e racionais, feitos para ocomando e a vida pública”, donde, como conseqüência, esta outra frase: “fulananem parece mulher. Veja como se veste! Veja o emprego que arranjou!”. Não éraro escutarmos que os negros são indolentes por natureza, os pobres sãonaturalmente violentos, os judeus são naturalmente avarentos, os árabes sãonaturalmente comerciantes espertos, os franceses são naturalmente interessadosem sexo e os ingleses são, por natureza, fleumáticos.Frases como essas, e muitas outras, pressupõem, por um lado, que existe umanatureza humana, a mesma em todos os tempos e lugares e, por outro lado, queexiste uma diferença de natureza entre homens e mulheres, pobres e ricos,negros, índios, judeus, árabes, franceses ou ingleses. Haveria, assim, umanatureza humana universal e uma natureza humana diferenciada por espécies, àmaneira da diferença entre várias espécies de plantas ou de animais.Em outras palavras, a Natureza teria feito o gênero humano universal e asespécies humanas particulares, de modo que certos sentimentos,comportamentos, idéias e valores são os mesmos para todo o gênero humano (sãonaturais para todos os humanos), enquanto outros seriam os mesmos apenas paracada espécie (ou raça, ou tipo, ou grupo), isto é, para uma espécie determinada.Dizer que alguma coisa é natural ou por natureza significa dizer que essa coisaexiste necessária e universalmente como efeito de uma causa necessária euniversal. Essa causa é a Natureza. Significa dizer, portanto, que tal coisa nãodepende da ação e intenção dos seres humanos. Assim como é da natureza doscorpos serem governados pela lei natural da gravitação universal, como é danatureza da água ser composta por H2O, ou como é da natureza da abelhaproduzir mel e da roseira produzir rosas, também seria por natureza que oshomens sentem, pensam e agem. A Natureza teria feito a natureza humana comogênero universal e a teria diversificado por espécies naturais (brancos, negros, – 367 –

Convite à Filosofia _______________________________índios, pobres, ricos, judeus, árabes, homens, mulheres, alemães, japoneses,chineses, etc.).Que aconteceria com as frases que mencionamos acima se mostrássemos quealgumas delas são contraditórias e que outras não correspondem aos fatos darealidade?Assim, por exemplo, dizer que “é natural chorar na tristeza” entra em contradiçãocom a idéia de que “homem não chora”, pois, se isso fosse verdade, o homemteria que ser considerado algo que escapa das leis da Natureza, já que chorar éconsiderado natural. O mesmo acontece com a frase sobre o medo e a coragem:nelas é dito que o medo é natural, mas que uma certa pessoa é admirável porquenão tem medo. Aqui, a contradição é ainda maior do que a anterior, uma vez queparecemos ter admiração por quem, misteriosamente, escapa da lei da Natureza,isto é, do medo.Em certas sociedades, o sistema de alianças, que fundamenta as relações deparentesco sobre as quais a comunidade está organizada, exige que a criança sejalevada, ao nascer, à irmã do pai, que deverá responsabilizar-se pela vida eeducação da criança. Em outras, o sistema de parentesco exige que a criança sejaentregue à irmã da mãe. Nos dois casos, a relação da criança é estabelecida com atia por aliança e não com a mãe biológica. Se assim é, como fica a afirmação deque as mulheres amam naturalmente os seus filhos e que é desnaturada a mulherque não demonstrar esse amor?Em certas sociedades, considera-se que a mulher é impura para lidar com a terrae com os alimentos. Por esse motivo, o cultivo da terra, a alimentação e a casaficam sob os cuidados dos homens, cabendo às mulheres a guerra e o comandoda comunidade. Se assim é, como fica a frase que afirma que o homem foi feitopela Natureza para o que exige força e coragem, para o comando e a guerra,enquanto a mulher foi feita pela Natureza para a maternidade, a casa, o trabalhodoméstico, as atividades de um ser frágil e sensível?Os historiadores brasileiros mostram que, por razões econômicas, a elitedominante do século XIX considerou mais lucrativo realizar a abolição daescravatura e substituir os escravos africanos pelos imigrantes europeus. Essadecisão fez com que o mercado de trabalho fosse ocupado pelos trabalhadoresbrancos imigrantes e que a maioria dos escravos libertados ficasse nodesemprego, sem habitação, sem alimentação e sem qualquer direito social,econômico e político.Em outras palavras, foram impedidos de trabalhar e foram mantidos sem direitos,tais como viviam quando estavam no cativeiro. Além disso, sabe-se que quandoos colonizadores instituíram a escravidão e trouxeram os africanos para as terrasda América, fizeram tal escolha por considerarem que os negros possuíam grandeforça física, grande capacidade de trabalho e muita inteligência para realizartarefas com objetos técnicos como o engenho de açúcar. Se assim é, se a – 368 –

Marilena Chauí _______________________________escravidão foi instituída por causa da grande capacidade e inteligência dosafricanos para o trabalho da agricultura, se a abolição foi realizada por ser maislucrativo o uso da mão-de-obra imigrante para um certo tipo de agricultura (ocafé) e para a indústria, como fica a afirmação de que a Natureza fez os africanosindolentes, preguiçosos e malandros?Poderíamos examinar cada uma das frases que dizemos ou ouvimos em nossocotidiano e que naturalizam os seres humanos, naturalizam comportamentos,idéias, valores, formas de viver e de agir. Veríamos como, em cada caso, os fatosdesmentem tal naturalização. Veríamos como os seres humanos variam emconseqüência das condições sociais, econômicas, políticas, históricas em quevivem. Veríamos que somos seres cuja ação determina o modo de ser, agir epensar e que a idéia de um gênero humano natural e de espécies humanasnaturais não possui fundamento na realidade. Veríamos – graças às ciênciashumanas e à Filosofia – que a idéia de natureza humana como algo universal,intemporal e existente em si e por si mesma não se sustenta cientificamente,filosoficamente e empiricamente. Por quê? Porque os seres humanos sãoculturais ou históricos.Culto, inculto: cultura“Pedro é muito culto, conhece várias línguas, entende de arte e de literatura.”“Imagine! É claro que o Luís não pode ocupar o cargo que pleiteia. Não temcultura nenhuma. É semi-analfabeto!”“Não creio que a cultura francesa ou alemã sejam superiores à brasileira. Vocêacha que há alguma coisa superior a nossa música popular?”“Ouvi uma conferência que criticava a cultura de massa, mas me pareceu que aconferencista defendia a cultura de elite. Por isso, não concordei inteiramentecom ela.”“O livro de Silva sobre a cultura dos guaranis é bem interessante. Aprendi que omodo como entendem a religião e a guerra é muito diferente do nosso.”Essas frases e muitas outras que fazem parte do nosso dia-a-dia indicam queempregamos a palavra cultura (ou seus derivados, como culto, inculto) emsentidos muito diferentes e, por vezes, contraditórios.Na primeira e na segunda frase que mencionamos acima, cultura é identificadacom a posse de certos conhecimentos (línguas, arte, literatura, ser alfabetizado).Nelas, fala-se em ter e não ter cultura, ser ou não ser culto. A posse de cultura évista como algo positivo, enquanto “ser inculto” é considerado algo negativo. Asegunda frase deixa entrever que “ter cultura” habilita alguém a ocupar algumposto ou cargo, pois “não ter cultura” significa não estar preparado para umacerta posição ou função. Nessas duas primeiras frases, a palavra cultura sugeretambém prestígio e respeito, como se “ter cultura” ou “ser culto” fosse o mesmoque “ser importante”, “ser superior”. – 369 –

Convite à Filosofia _______________________________Ora, quando passamos à terceira frase, a cultura já não parece ser umapropriedade de um indivíduo, mas uma qualidade de uma coletividade –franceses, alemães, brasileiros. Também é interessante observar que acoletividade aparece como um adjetivo qualificativo para distinguir tipos deCultura: a francesa, a alemã, a brasileira. Nessa frase, a Cultura surge como algoque existe em si e por si mesma e que pode ser comparada (Cultura superior,Cultura inferior).Além disso, a Cultura aparece representada por uma atividade artística, a músicapopular. Isso permite estabelecer duas relações diferentes com as primeirasfrases: 1. De fato, a terceira frase, como a primeira, identifica Cultura e artes(entender de arte e literatura, na primeira frase; a música popular brasileira, naterceira); 2. No entanto, algo curioso acontece quando passamos das duasprimeiras frases à terceira. Com efeito, nas duas primeiras, “culto” e “inculto”surgiam como diferenças sociais. Num país como o nosso, dizer que alguém éinculto porque é semi-analfabeto deixa transparecer que Cultura é algo quepertence a certas camadas ou classes sociais socialmente privilegiadas, enquantoa incultura está do lado dos não-privilegiados socialmente, portanto, do lado dopovo e do popular. Entretanto, a terceira frase afirma que a cultura brasileira nãoé inferior à francesa ou à alemã por causa de nossa música popular. Nãoestaríamos diante de uma contradição? Como poderia haver cultura popular (amúsica), se o popular é inculto?Já a quarta frase (a que se refere à conferência sobre cultura de massa) introduzum novo significado para a palavra cultura. Nela não se trata mais de pessoascultas ou incultas, nem de uma coletividade que possui uma atividade culturalque possa ser comparada à de outras. Agora, estamos diante da idéia de quenuma mesma coletividade ou numa mesma sociedade pode haver dois tipos deCultura: a de massa e a de elite. A frase não nos diz o que é a Cultura. (Seriaposse de conhecimentos? Ou seria atividade artística?) Entretanto, a frase nosinforma sobre uma oposição entre formas de cultura, dependendo de sua origeme de sua destinação, pois “cultura de massa” tanto pode significar “originada namassa” quanto “destinada à massa”, e o mesmo pode ser dito da “cultura de elite”(originada na elite ou destinada à elite).Finalmente, a última frase que mencionamos como exemplo apresenta umsentido totalmente diverso dos anteriores no que toca à palavra cultura. Fala-se,agora, na cultura dos guaranis e esta aparece em duas manifestações: a guerra ea religião (que, portanto, nada tem a ver com a posse de conhecimentos, atividadeartística, massa ou elite). Nessa última frase, a cultura aparece como algo dosguaranis – e como alguma coisa que não se limita ao campo dos conhecimentos edas artes, pois se refere à relação dos guaranis com o sagrado (a religião) e como conflito e a morte (a guerra).Vemos, assim, que passar da naturalização dos seres humanos à Cultura nãoresolve nossas dificuldades de compreensão dos humanos, uma vez que, agora, – 370 –

Marilena Chauí _______________________________precisamos perguntar: Como é possível a palavra cultura possuir tantos sentidos,alguns deles contraditórios com outros?Natureza e CulturaNo pensamento ocidental, Natureza possui vários sentidos:? princípio de vida ou princípio ativo que anima e movimenta os seres. Nessesentido, fala-se em “deixar agir a Natureza” ou “seguir a Natureza” parasignificar que se trata de uma força espontânea, capaz de gerar e de cuidar detodos os seres por ela criados e movidos. A Natureza é a substância (matéria eforma) dos seres;? essência própria de um ser ou aquilo que um ser é necessária e universalmente.Neste sentido, a natureza de alguma coisa é o conjunto de qualidades,propriedades e atributos que a definem, é seu caráter ou sua índole inata,espontânea. Aqui, Natureza se opõe às idéias de acidental (o que pode ser oudeixar de ser) e de adquirido por costume ou pela relação com as circunstâncias;? organização universal e necessária dos seres segundo uma ordem regida porleis naturais. Neste sentido, a Natureza se caracteriza pelo ordenamento dosseres, pela regularidade dos fenômenos ou dos fatos, pela freqüência, constânciae repetição de encadeamentos fixos entre as coisas, isto é, de relações decausalidade entre elas. Em outros termos, a Natureza é a ordem e a conexãouniversal e necessária entre as coisas, expressas em leis naturais;? tudo o que existe no Universo sem a intervenção da vontade e da açãohumanas. Neste sentido, Natureza opõe-se a artificial, artefato, artifício, técnico etecnológico. Natural é tudo quanto se produz e se desenvolve sem qualquerinterferência humana;? c onjunto de tudo quanto existe e é percebido pelos humanos como o meio e oambiente no qual vivem. A Natureza, aqui, tanto significa o conjunto dascondições físicas onde vivemos, quanto aquelas coisas que contemplamos comemoção (a paisagem, o mar, o céu, as estrelas, terremotos, eclipses, tufões,erupções vulcânicas, etc.). A Natureza é o mundo visível como meio ambiente ecomo aquilo que existe fora de nós, mesmo que provoque idéias e sentimentosem nós;? para as ciências contemporâneas, a Natureza não é apenas a realidade externa,dada e observada, percebida diretamente por nós, mas é um objeto deconhecimento construído pelas operações científicas, um campo objetivoproduzido pela atividade do conhecimento, com o auxílio de instrumentostecnológicos. Neste sentido, a Natureza, paradoxalmente, torna-se algo que passaa depender da interferência ou da intervenção humana, pois o objeto natural éconstruído cientificamente.Esse último sentido da idéia de Natureza indica uma diferença entre a concepçãocomum e a científica, pois a primeira considera a Natureza nos cinco primeiros – 371 –

Convite à Filosofia _______________________________significados que apontamos, enquanto a segunda considera a Natureza como umanoção ou um conceito produzido pelos próprios homens e, nesse caso, comoartifício, artefato, construção humana. Em outras palavras, a própria idéia deNatureza tornou-se um objeto cultural.Mas, afinal, o que é a Cultura?Dois são os significados iniciais da noção de Cultura:1. vinda do verbo latino colere, que significa cultivar, criar, tomar conta e cuidar,Cultura significava o cuidado do homem com a Natureza. Donde: agricultura.Significava, também, cuidado dos homens com os deuses. Donde: culto.Significava ainda, o cuidado com a alma e o corpo das crianças, com suaeducação e formação. Donde: puericultura (em latim, puer significa menino;puera, menina). A Cultura era o cultivo ou a educação do espírito das criançaspara tornarem-se membros excelentes ou virtuosos da sociedade peloaperfeiçoamento e refinamento das qualidades naturais (caráter, índole,temperamento);2. a partir do século XVIII, Cultura passa a significar os resultados daquelaformação ou educação dos seres humanos, resultados expressos em obras, feitos,ações e instituições: as artes, as ciências, a Filosofia, os ofícios, a religião e oEstado. Torna-se sinônimo de civilização, pois os pensadores julgavam que osresultados da formação-educação aparecem com maior clareza e nitidez na vidasocial e política ou na vida civil (a palavra civil vem do latim: cives, cidadão;civitas, a cidade-Estado).No primeiro sentido, a Cultura é o aprimoramento da natureza humana pelaeducação em sentido amplo, isto é, como formação das crianças não só pelaalfabetização, mas também pela iniciação à vida da coletividade por meio doaprendizado da música, dança, ginástica, gramática, poesia, retórica, história,Filosofia, etc. A pessoa culta era a pessoa moralmente virtuosa, politicamenteconsciente e participante, intelectualmente desenvolvida pelo conhecimento dasciências, das artes e da Filosofia. É este sentido que leva muitos, ainda hoje, afalar em “cultos” e “incultos”.Podemos observar que neste primeiro sentido Cultura e Natureza não se opõem.Os humanos são considerados seres naturais, embora diferentes dos animais e dasplantas. Sua natureza, porém, não pode ser deixada por conta própria, porquetenderá a ser agressiva, destrutiva, ignorante, precisando por isso ser educada,formada, cultivada de acordo com os ideais de sua sociedade. A Cultura é umasegunda natureza, que a educação e os costumes acrescentam à primeiranatureza , isto é, uma natureza adquirida, que melhora, aperfeiçoa e desenvolvea natureza inata de cada um.No segundo sentido, isto é, naquele formulado a partir do século XVIII, teminício a separação e, posteriormente, a oposição entre Natureza e Cultura. Os – 372 –

Marilena Chauí _______________________________pensadores consideram, sobretudo a partir de Kant, que há entre o homem e aNatureza uma diferença essencial: esta opera mecanicamente de acordo com leisnecessárias de causa e efeito, mas aquele é dotado de liberdade e razão, agindopor escolha, de acordo com valores e fins. A Natureza é o reino da necessidadecausal, do determinismo cego. A humanidade ou Cultura é o reino da finalidadelivre, das escolhas racionais, dos valores, da distinção entre bem e mal,verdadeiro e falso, justo e injusto, sagrado e profano, belo e feio.À medida que este segundo sentido foi prevalecendo, Cultura passou a significar,em primeiro lugar, as obras humanas que se exprimem numa civilização, mas,em segundo lugar, passou a significar a relação que os humanos, socialmenteorganizados, estabelecem com o tempo e com o espaço, com os outros humanose com a Natureza, relações que se transformam e variam. Agora, Cultura torna-sesinônimo de História. A Natureza é o reino da repetição; a Cultura, o datransformação racional ; portanto, é a relação dos humanos com o tempo e notempo.Cultura e HistóriaFoi Hegel e, depois dele, Marx que enfatizaram a Cultura como História. Para oprimeiro, o tempo é o modo como o Espírito Absoluto ou a razão se manifesta ese desenvolve através das obras e instituições – religião, artes, ciências, Filosofia,instituições sociais, instituições políticas. A cada período de sua temporalidade, oEspírito ou razão engendra uma Cultura determinada, que exprime o estágio dedesenvolvimento espiritual ou racional da humanidade – China, Índia, Egito,Israel, Grécia, Roma, Inglaterra, França, Alemanha seriam fases da vida doEspírito ou da razão, cada qual exprimindo-se com uma Cultura própria eultrapassada pelas seguintes, num progresso contínuo.Para Marx, há em Hegel um engano básico, qual seja, confundir a História-Cultura com a manifestação do Espírito. A História-Cultura é o modo como, emcondições determinadas e não escolhidas, os homens produzem materialmente(pelo trabalho, pela organização econômica) sua existência e dão sentido a essaprodução material. A História-Cultura não narra o movimento temporal doEspírito, mas as lutas reais dos seres humanos reais que produzem e reproduzemsuas condições materiais de existência, isto é, produzem e reproduzem asrelações sociais, pelas quais distinguem-se da Natureza e diferenciam-se uns dosoutros em classes sociais antagônicas.O movimento da História-Cultura é realizado pela luta das classes sociais paravencer formas de exploração econômica, opressão social, dominação política.Despotismo asiático, modo de produção antigo (Grécia, Roma), modo deprodução feudal (Idade Média), capitalismo comercial ou mercantil, capitalismoindustrial são as maneiras pelas quais surgem e se organizam as formaçõessociais, internamente divididas por lutas, cujo fim dependerá da capacidade deorganização política e de consciência da última classe social explorada (o – 373 –

Convite à Filosofia _______________________________proletariado, produzido pelo capitalismo industrial) para eliminar a desigualdadee injustiça históricas.Cultura e antropologiaDiferentemente de Hegel e Marx, que tomam a Cultura pela perspectiva históricaou pela relação dos humanos com o tempo, a antropologia considera a Culturapor um outro prisma.O antropólogo procura, antes de tudo, determinar em que momento e de quemaneira os humanos se afirmam como diferentes da Natureza fazendo o mundocultural surgir. Tradicionalmente, dizia-se que os humanos diferem da Naturezagraças à linguagem e à ação por liberdade. O antropólogo, sem negar essaafirmação, procura algo mais profundo do que isso como início das culturas.Assim, para muitos antropólogos, a diferença homem-Natureza surge quando oshumanos decretam uma lei que não poderá ser transgredida sem levar o culpado àmorte, exigida pela comunidade: a lei da proibição do incesto, desconhecidapelos animais. Para muitos antropólogos, a diferença homem-Natureza também éestabelecida quando os humanos definem uma lei que, se transgredida, causa aruína da comunidade e do indivíduo: a lei que separa o cru e o cozido,desconhecida dos animais.Não vamos aqui entrar nos detalhes das discussões antropológicas. O importante,para nós, é perceber que os antropólogos buscam algo que demarque o momentoda separação homem-Natureza como instante de surgimento da Cultura. Essealgo é uma regra ou norma humana que opera como lei universal, isto é, válidapara todos os homens e para toda a comunidade.A lei humana é um imperativo social que organiza toda a v dos indivíduos e idada comunidade, determinando o modo como são criados os costumes, como sãotransmitidos de geração em geração, como fundam as instituições sociais(religião, família, formas do trabalho, guerra e paz, distribuição das tarefas,formas do poder, etc.). A lei não é uma simples proibição para certas coisas eobrigação para outras, mas é a afirmação de que os humanos são capazes de criaruma ordem de existência que não é simplesmente natural (física, biológica). Estaordem é a ordem simbólica.Vimos que um símbolo é alguma coisa que se apresenta no lugar de outra epresentifica algo que está ausente. Quando dizemos que a Cultura é a invenção deuma ordem simbólica, estamos dizendo que nela e por ela os humanos atribuem àrealidade significações novas por meio das quais são capazes de se relacionarcom o ausente: pela palavra, pelo trabalho, pela memória, pela diferenciação dotempo (passado, presente, futuro), pela diferenciação do espaço (próximo,distante, grande, pequeno, alto, baixo), pela diferenciação entre o visível e oinvisível (os deuses, o passado, o distante no espaço) e pela atribuição de valoresàs coisas e aos homens (bom, mau, justo, injusto, verdadeiro, falso, belo, feio,possível, impossível, necessário, contingente). – 374 –

Marilena Chauí _______________________________Comunicaç ão (por palavras, gestos, sinais, escrita, monumentos), trabalho(transformação da Natureza), relação com o tempo e o espaço enquanto valores,diferenciação entre sagrado e profano, determinação de regras e normas para arealização do desejo, percepção da morte e doação de sentido a ela, percepção dadiferença sexual e doação de sentido a ela, interdições e punição dastransgressões, determinação da origem e da forma do poder legítimo e ilegítimo,criação de formas expressivas para a relação com o outro, com o sagrado e com otempo (dança, música, rituais, guerra, paz, pintura, escultura, construção dahabitação, culinária, tecelagem, vestuário, etc.) são as principais manifestaçõesdo surgimento da Cultura.Em termos antropológicos, podemos, então, definir a Cultura como tendo trêssentidos principais:1. criação da ordem simbólica da lei , isto é, de sistemas de interdições eobrigações, estabelecidos a partir da atribuição de valores a coisas (boas, más,perigosas, sagradas, diabólicas), a humanos e suas relações (diferença sexual eproibição do incesto, virgindade, fertilidade, puro-impuro, virilidade; diferençaetária e forma de tratamento dos mais velhos e mais jovens; diferença deautoridade e formas de relação com o poder, etc.) e aos acontecimentos(significado da guerra, da peste, da fome, do nascimento e da morte, obrigação deenterrar os mortos, proibição de ver o parto, etc.);2. criação de uma ordem simbólica da linguagem, do trabalho, do espaço, dotempo, do sagrado e do profano, do visível e do invisível. Os símbolos surgemtanto para representar quanto para interpretar a realidade, dando-lhe sentido pelapresença do humano no mundo;3. conjunto de práticas, comportamentos, ações e instituições pelas quais oshumanos se relacionam entre si e com a Natureza e dela se distinguem, agindosobre ela ou através dela, modificando-a. Este conjunto funda a organizaçãosocial, sua transformação e sua transmissão de geração a geração.Em sentido antropológico, não falamos em Cultura, no singular, mas emculturas, no plural, pois a lei, os valores, as crenças, as práticas e instituiçõesvariam de formação social para formação social. Além disso, uma mesmasociedade, por ser temporal e histórica, passa por transformações culturaisamplas e, sob esse aspecto, antropologia e História se completam, ainda que osritmos temporais das várias sociedades não sejam os mesmos, algumas mudandomais lentamente e outras mais rapidamente.A esse sentido histórico-antropológico amplo, podemos acrescentar um outro,restrito, ligado ao antigo sentido de cultivo do espírito: a Cultura como criação deobras da sensibilidade e da imaginação – as obras de arte – e como criação deobras da inteligência e da reflexão – as obras de pensamento. É esse segundosentido que leva o senso comum a identificar Cultura e escola (educação formal), – 375 –

Convite à Filosofia _______________________________de um lado, e, de outro lado, a identificar Cultura e belas-artes (música, pintura,escultura, dança, literatura, teatro, cinema, etc.).Se, porém, reunirmos o sentido amplo e o sentido restrito, compreenderemos quea Cultura é a maneira pela qual os humanos se humanizam por meio de práticasque criam a existência social, econômica, política, religiosa, intelectual eartística.A religião, a culinária, o vestuário, o mobiliário, as formas de habitação, oshábitos à mesa, as cerimônias, o modo de relacionar-se com os mais velhos e osmais jovens, com os animais e com a terra, os utensílios, as técnicas, asinstituições sociais (como a família) e políticas (como o Estado), os costumesdiante da morte, a guerra, o trabalho, as ciências, a Filosofia, as artes, os jogos, asfestas, os tribunais, as relações amorosas, as diferenças sexuais e étnicas, tudoisso constitui a Cultura como invenção da relação com o Outro.Quem é o Outro? Antes de tudo, é a Natureza. A naturalidade é o Outro dahumanidade. A seguir, os deuses, maiores do que os humanos, superiores epoderosos. Depois, os outros humanos, os diferentes de nós mesmos: osestrangeiros, os antepassados e os descendentes, os inimigos e os amigos, oshomens para as mulheres, as mulheres para os homens, os mais velhos para osjovens, os mais jovens para os velhos, etc. Em sociedades como a nossa,divididas em classes sociais, o Outro é também a outra classe social, diferente danossa, de modo que a divisão social coloca o Outro no interior da mesmasociedade e define relações de conflito, exploração, opressão, luta. Entre osinúmeros resultados da existência da alteridade (o ser um Outro) no interior damesma sociedade, encontramos a divisão entre cultura de elite e cultura popular,cultura erudita e cultura de massa.Estamos, agora, em condições de perceber por que as frases de nosso cotidianosobre “cultos” e “incultos” indicam preconceitos e não conceitos. Quepreconceitos?? Aquele que ignora que, em sentido antropológico e histórico, todos oshumanos são cultos, pois são todos seres culturais;? Aquele que reduz a Cultura à escola e às belas-artes, sem se dar conta de queaquela e estas são efeito da vida cultural e um dos aspectos da Cultura, mas nãotoda a Cultura;? Aquele que, partindo da Cultura como cultivo do espírito (obras de pensamentoe obras de arte), ignora que a separação entre “cultos” e “incultos”, emsociedades divididas em classes sociais, é resultado de uma organização socialque confere a alguns o direito de produção e acesso às obras, negando-o a outros,de tal maneira que, em lugar de um direito, tem-se, de um lado, privilégio e, deoutro, exclusão. Em outras palavras, usa-se a Cultura como instrumento dediscriminação social, econômica e política. – 376 –

Marilena Chauí _______________________________Novamente a HistóriaOs estudiosos, partindo da filosofia da história e da antropologia, distinguem doisgrandes tipos de cultura: a das comunidades e a das sociedades.Uma comunidade é um grupo ou uma coletivi dade onde as pessoas se conhecem,tratam-se pelo primeiro nome, possuem contatos cotidianos cara a cara,compartilham os mesmos sentimentos e idéias e possuem um destino comum.Uma sociedade é uma coletividade internamente dividida em grupos e classessociais e na qual há indivíduos isolados uns dos outros. Seus membros não seconhecem pessoalmente nem intimamente. Cada classe social é antagônica àoutra ou às outras, com valores e sentimentos diferentes e mesmo opostos. Asrelações não são pessoais, mas sociais, isto é, os indivíduos, grupos e classes serelacionam pela mediação de instituições como a família, a escola, a fábrica, ocomércio, os partidos políticos e o Estado.Os agrupamentos indígenas, por exemplo, são comunidades, portanto,internamente unos e indivisos. Em contrapartida, nós vivemos em sociedade enão em comunidade.O tempo, nas comunidades, possui um ritmo lento, as transformações são raras e,em geral, causadas por um acontecimento externo que as afeta (por exemplo, aconquista e colonização branca imposta aos índios). Por isso, se diz que acomunidade está na História ou no tempo, mas não é histórica.Ao contrário, a sociedade é histórica, ou seja, para ela as transformações sãoconstantes e velozes, causadas pelas lutas e pelas divisões internas. Diz-se, então,que uma sociedade é histórica quando, para ela, ter uma história e estar no temposão um problema, uma indagação que ela não cessa de responder. Por quê?Uma comunidade baseia-se em mitos fundadores ou narrativas sobre sua origeme sobre o que nela aconteceu, acontece e acontecerá. Os mitos capturam o tempoe oferecem explicações satisfatórias para todos sobre o presente, o passado e ofuturo.Numa sociedade, porém, cada classe social procura explicar a origem dasociedade e de suas mudanças e, conseqüentemente, há diferentes explicaçõespara o surgimento, a forma e a transformação sociais. Os grupos dominantesnarram a história da sociedade de modo diferente e oposto à narrativa dos gruposdominados.A classe que domina e a que é dominada possuem, portanto, concepçõesdiferentes e contrárias sobre as causas dos acontecimentos, não havendo umaexplicação única e idêntica para todos sobre a origem da sociedade e suastransformações. Eis, por que, para uma sociedade, ser histórica é um problema enão uma solução. Em outras palavras, enquanto o mito unifica o tempocomunitário, as histórias sociais multiplicam as interpretações sobre as causas eos efeitos temporais. – 377 –

Convite à Filosofia _______________________________Finalmente, uma comunidade cria a mesma Cultura para todos os seus membros,mas numa sociedade isso não é possível, e as diferentes classes sociais produzemculturas diferentes e mesmo antagônicas. Por esse motivo é que as sociedadesconhecem um fenômeno inexistente nas comunidades: a ideologia. Esta éresultado da imposição da cultura dos dominantes à sociedade inteira, como setodas as classes e todos os grupos sociais pudessem e devessem ter a mesmaCultura, embora vivendo em condições sociais diferentes.A ideologia é uma das maneiras pelas quais as sociedades históricas b uscamoferecer a imagem de uma única Cultura e de uma única história, ocultando adivisão social interna. – 378 –

Marilena Chauí _______________________________ Capítulo 2 A experiência do sagrado e a instituição da religiãoA Filosofia e as manifestações culturaisA Filosofia se interessa por todas as manifestações culturais, pois, como escreveuo filósofo Montaigne, “nada do que é humano me é estranho”.Os principais campos filosóficos relativos às manifestações culturais são: afilosofia das ciências (que vimos na teoria do conhecimento), da religião, dasartes, da existência ética e da vida política. Além disso, a Filosofia ocupa-setambém com a crítica das ideologias que se originam na vida política, mas seestendem para todas as manifestações da Cultura.O sagradoO sagrado é uma experiência da presença de uma potência ou de uma forçasobrenatural que habita algum ser – planta, animal, humano, coisas, ventos, água,fogo. Essa potência é tanto um poder que pertence própria e definitivamente a umdeterminado ser, quanto algo que ele pode possuir e perder, não ter e adquirir. Osagrado é a experiência simbólica da diferença entre os seres, da superioridade dealguns sobre outros, do poderio de alguns sobre outros, superioridade e podersentidos como espantosos, misteriosos, desejados e temidos.A sacralidade introduz uma ruptura entre natural e sobrenatural, mesmo que osseres sagrados sejam naturais (como a água, o fogo, o vulcão): é sobrenatural aforça ou potência para realizar aquilo que os humanos julgam impossível efetuarcontando apenas com as forças e capacidades humanas. Assim, por exemplo, emquase todas as culturas, um guerreiro, cuja força, destreza e invencibilidade sãoespantosas, é considerado habitado por uma potência sagrada. Um animal feroz,astuto, veloz e invencível também é assim considerado. Por sua forma e açãomisteriosas, benévolas e malévolas, o fogo é um dos principais entes sagrados.Em regiões desérticas, a sacralização concentra-se nas águas, raras e necessárias.O sagrado opera o encantamento do mundo, habitado por forças maravilhosas epoderes admiráveis que agem magicamente. Criam vínculos de simpatia-atraçãoe de antipatia-repulsão entre todos os seres, agem à distância, enlaçam entesdiferentes com laços secretos e eficazes.Todas as culturas possuem vocábulos para exprimir o sagrado como forçasobrenatural que habita o mundo. Assim, nas culturas da Polinésia e da – 379 –

Convite à Filosofia _______________________________Melanésia, a palavra que designa o sagrado é mana (e suas variantes). Nasculturas das tribos norte-americanas, fala-se em orenda (e suas variantes),referindo-se ao poder mágico possuído por todas as coisas, dando-lhes vida,vontade e ação, força que se pode roubar de outras coisas para si, que se podeperder quando roubada por outros seres, que se pode impor a outros mais fracos.Entre as culturas dos índios sul-americanos, o sagrado é designado por palavrascomo tunpa e aigres. Nas africanas, há centenas de termos, dependendo da línguae da relação mantida com o sobrenatural, mas o termo fundamental, embora comvariantes de pronúncia, é ntu, “força universal em que coincidem aquilo que é eaquilo que existe”.Na cultura hebraica, dois termos designavam o sagrado: qados e herem,significando aqueles seres ou coisas que são separados por Deus para seu culto,serviço, sacrifício, punição, não podendo ser tocados pelo homem. Assim a Arcada Aliança, onde estavam guardados os textos sagrados, era qados e, portanto,intocável. Também os prisioneiros de uma guerra santa pertenciam a Deus, sendodeclarados herem. Na cultura grega, agnos (puro) e agios (intocável), e naromana, sacer (dedicado à divindade) e sanctus (inviolável) constituem a esferado sagrado.Sagrado é, pois, a qualidade excepcional – boa ou má, benéfica ou maléfica,protetora ou ameaçadora – que um ser possui e que o separa e distingue de todosos outros, embora, em muitas culturas, todos os seres possuam algo sagrado, peloque se diferenciam uns dos outros.O sagrado pode suscitar devoção e amor, repulsa e ódio. Esses sentimentossuscitam um outro: o respeito feito de temor. Nasce, aqui, o sentimento religiosoe a experiência da religião.A religião pressupõe que, além do sentimento da diferença entre natural esobrenatural, haja o sentimento da separação entre os humanos e o sagrado,mesmo que este habite os humanos e a Natureza.A religiãoA palavra religião v do latim: religio, formada pelo prefixo re (outra vez, de emnovo) e o verbo ligare (ligar, unir, vincular). A religião é um vínculo. Quais aspartes vinculadas? O mundo profano e o mundo sagrado, isto é, a Natureza (água,fogo, ar, animais, plantas, astros, metais, terra, humanos) e as divindades quehabitam a Natureza ou um lugar separado da Natureza.Nas várias culturas, essa ligação é simbolizada no momento de fundação de umaaldeia, vila ou cidade: o guia religioso traça figuras no chão (círculo, quadr ado,triângulo) e repete o mesmo gesto no ar (na direção do céu, ou do mar, ou dafloresta, ou do deserto). Esses dois gestos delimitam um espaço novo, sagrado(no ar) e consagrado (no solo). Nesse novo espaço ergue-se o santuário (emlatim, templum, templo) e à sua volta os edifícios da nova comunidade. – 380 –

Marilena Chauí _______________________________Essa mesma cerimônia da ligação fundadora aparece na religião judaica, quandoJeová indica ao povo o lugar onde deve habitar – a Terra Prometida – e o espaçoonde o templo deverá ser edificado, para nele ser colocada a Arca da Aliança,símbolo do vínculo que une o povo e seu Deus, recordando a primeira ligação: oarco-íris, anunciado por Deus a Noé como prova de seu laço com ele e suadescendência.Também no cristianismo a religio é explicitada por um gesto de união. No NovoTestamento, Jesus disse a Pedro: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei aminha igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei asChaves do Reino: o que ligares na Terra será ligado no Céu; o que desligares naTerra será desligado no Céu”.Através da sacralização e consagração, a religião cria a idéia de espaço sagrado.Os céus, o monte Olimpo (na Grécia), as montanhas do deserto (em Israel),templos e igrejas são santuários ou moradas dos deuses. O espaço da vi dacomum separa-se do espaço sagrado: neste, vivem os deuses, são feitas ascerimônias de culto, são trazidas oferendas e feitas preces com pedidos àsdivindades (colheita, paz, vitória na guerra, bom parto, fim de uma peste); noprimeiro transcorre a vida profana dos humanos. A religião organiza o espaço elhe dá qualidades culturais, diversas das simples qualidades naturais.A religião como narrativa da origemA religião não transmuta apenas o espaço. Também qualifica o tempo, dando-lhea marca do sagrado.O tempo sagrado é uma narrativa. Narra a origem dos deuses e, pela ação dasdivindades, a origem das coisas, das plantas, dos animais e dos seres humanos.Por isso, a narrativa religiosa sempre começa com alguma expressão do tipo: “noprincípio”, “no começo”, “quando o deus x estava na Terra”, “quando a deusa yviu pela primeira vez”, etc.A narrativa sagrada é a história sagrada, que os gregos chamavam de mito. Estenão é uma fabulação ilusória, uma fantasia sem consciência, mas a maneira pelaqual uma sociedade narra para si mesma seu começo e o de toda a realidade,inclusive o começo ou nascimento dos próprios deuses. Só tardiamente, quandosurgiu a Filosofia e, depois dela, a teologia, a razão exigirá que os deuses nãosejam apenas imortais, mas também eternos, sem começo e sem fim. Antes,porém, da Filosofia e da teologia, a religião narrava teogonias (do grego: theos,deus; gonia, geração) isto é, a geração ou o nascimento dos deuses, semideuses eheróis.O contraste entre dia e noite – luz e treva -, entre as estações do ano – frio,quente, ameno, com flores, com frutos, com chuvas, com secas -, entre onascimento e a desaparição – vida e morte -, entre tipos de animais – terrestres,aquáticos, voadores, ferozes e dóceis -, entre tipos de humanos – brancos, negros, – 381 –

Convite à Filosofia _______________________________amarelos, vermelhos, altos, baixos, peludos, glabros -, as técnicas obtidas pelocontrole sobre alguma força natural – fogo, água, ventos, pedras, areia, ervas –evidenciam um mundo ordenado e regular, no qual os humanos nascem, vivem emorrem. A história sagrada ou mito narra como e por que a ordem do mundoexiste e como e por que foi doada aos humanos pelos deuses. Assim, além de seruma teogonia, a história sagrada é uma cosmogonia (do grego: cosmos, mundo;gonia, geração): narra o nascimento, a finalidade e o perecimento de todos osseres sob a ação dos deuses.Assim como há dois espaços, há dois tempos: o anterior à criação ou gênese dosdeuses e das coisas – tempo do vazio e do caos – e o tempo originário da gênesede tudo quanto existe – tempo do pleno e da ordem. Nesse tempo sagrado daordem, novamente uma divisão: o tempo primitivo, inteiramente divino, quandotudo foi criado, e o tempo do agora, profano, em que vivem os seres naturais,incluindo os homens.Embora a narrativa sagrada seja uma explicação para a ordem natural e humana,ela não se dirige ao intelecto dos crentes (não é Filosofia nem ciência), mas seendereça ao coração deles. Desperta emoções e sentimentos – admiração,espanto, medo, esperança, amor, ódio.Porque se dirige às paixões do crente, a religião lhe pede uma só coisa: fé, ouseja, a confiança, adesão plena ao que lhe é manifestado como ação da divindade.A atitude fundamental da fé é a piedade: respeito pelos deuses e pelosantepassados. A religião é crença, não é saber. A tentativa para transformar areligião em saber racional chama-se teologia.RitosPorque a religião liga humanos e divindade, porque organiza o espaço e o tempo,os seres humanos precisam garantir que a ligação e a organização se mantenhame sejam sempre propícias. Para isso são criados os ritos.O rito é uma cerimônia em que gestos determinados, palavras determinadas,objetos determinados, pessoas determinadas e emoções determinadas adquirem opoder misterioso de presentificar o laço entre os humanos e a divindade. Paraagradecer dons e benefícios, para suplicar novos dons e benefícios, para lembrara bondade dos deuses ou para exorcizar sua cólera, caso os humanos tenhamtransgredido as leis sagradas, as cerimônias ritualísticas são de grande variedade.No entanto, uma vez fixada a simbologia de um ritual, sua eficácia dependerá darepetição minuciosa e perfeita do rito, tal como foi praticado na primeira vez,porque nela os próprios deuses orientaram gestos e palavras dos humanos. Umrito religioso é repetitivo em dois sentidos principais: a cerimônia deve repetirum acontecimento essencial da história sagrada (por exemplo, no cristianismo, aeucaristia ou a comunhão, que repete a Santa Ceia); e, em segundo lugar, atos,gestos, palavras, objetos de vem ser sempre os mesmos, porque foram, na – 382 –

Marilena Chauí _______________________________primeira vez, consagrados pelo próprio deus. O rito é a rememoração perene doque aconteceu numa primeira vez e que volta a acontecer, graças ao ritual queabole a distância entre o passado e o presente.Os objetos simbólicosA religião não sacraliza apenas o espaço e o tempo, mas também seres e objetosdo mundo, que se tornam símbolos de algum fato religioso.Os seres e objetos simbólicos são retirados de seu lugar costumeiro, assumindoum sentido novo para toda a comunidade – protetor, perseguidor, benfeitor,ameaçador. Sobre esse ser ou objeto recai a noção de tabu (palavra polinésia quesignifica intocável): é um interdito, ou seja, não pode ser tocado nem manipuladopor ninguém que não esteja religiosamente autorizado para isso.É assim, por exemplo, que certos animais se tornam sagrados ou tabus, como avaca na Índia, o cordeiro perfeito consagrado para o sacrifício da páscoa judaica,o tucano para a nação tucana, do Brasil. É assim, por exemplo, que certos objetosse tornam sagrados ou tabus, como o pão e o vinho consagrados pelo padrecristão, durante o ritual da missa. Do mesmo modo, em inúmeras religiões, asvirgens primogênitas das principais famílias se tornam tabus, como as vestais, naRoma antiga. Também objetos se tornam símbolos sagrados intocáveis, como ospergaminhos judaicos contendo os textos sagrados antigos, certas pedras usadaspelos chefes religiosos africanos, etc.Os tabus se referem ou a objetos e seres puros ou purificados para os deuses, ou aobjetos e seres impuros, que devem permanecer afastados dos deuses e doshumanos. É assim que, em inúmeras culturas, a mulher menstruada é tabu (estáimpura) e, no judaísmo e no islamismo, a carne de porco é tabu (é impura).A religião tende a ampliar o campo simbólico, mesmo que não transforme todosos seres e objetos em tabus ou intocáveis. Ela o faz, vinculando seres equalidades à personalidade de um deus. Assim, por exemplo, em muitasreligiões, como as africanas, cada divindade é protetora de um astro, uma cor, umanimal, uma pedra e um metal preciosos, um objeto santo.A figuração do sagrado se faz por emblemas: assim, por exemplo, o emblema dadeusa Fortuna era uma roda, uma vela enfunada e uma cornucópia; o da deusaAtena, o capacete e a espada; o de Hermes, a serpente e as botas aladas; o deOxossi, as sete flechas espalhadas pelo corpo; o de Iemanjá, o vestido branco, aságuas do mar e os cabelos ao vento; o de Jesus, a cruz, a coroa de espinhos, ocorpo glorioso em ascensão.Manifestação e revelaçãoHá religiões em que os deuses se manifestam: surgem diante dos homens embeleza, esplendor, perfeição e poder e os levam a ver uma outra realidade,escondida sob a realidade cotidiana, na qual o espaço, o tempo, as formas dosseres, os sons e as cores, os elementos encontram-se organizados e dispostos de – 383 –

Convite à Filosofia _______________________________uma outra maneira, secreta e verdadeira. A divindade, levando um humano aoseu mundo, desvenda-lhe a verdade e o ilumina com sua luz.Era isso, como vimos, o que significava a palavra grega aletheia, a verdade comomanifestação ou iluminação. A iluminação pode ser terrível, porque é dado a umhumano ver o que os olhos humanos não conseguem ver, ouvir o que os ouvidoshumanos não podem ouvir, conhecer o que a inteligência humana não tem forçaspara conhecer. As religiões indígenas e a grega são desse tipo.Há religiões em que o deus revela verdades aos humanos, sem fazê-los sair deseu mundo. Podem ter sonhos e visões, mas o fundamento é ouvir o que adivindade lhes diz, porque dela provém o sentido primeiro e último de todascoisas e do destino humano. O que se revela não é a verdade do mundo, atravésda viagem visionária a um outro mundo: o que se revela é a vontade do deus, naqual o crente confia e cujos desígnios ele cumpre. Era isso o que significava,como vimos, a palavra hebraica emunah, “assim seja”. Judaísmo, cristianismo eislamismo são religiões da revelação.Nas duas modalidades de religião, porém, a manifestação da verdade e arevelação da vontade exprimem o mesmo acontecimento: aos humanos é dadoconhecer seu destino e o de todas as coisas, isto é, as leis divinas.A lei divinaOs deuses são poderes misteriosos. São forças personificadas e por isso sãovontades. Misteriosos, porque suas decisões são imprevisíveis e, muitas vezes,incompreensíveis para os critérios humanos de avaliação. Vontades, porque o queacontece no mundo manifesta um querer pessoal, supremo e inquestionável. Areligião, ao estabelecer o laço entre o humano e o divino, procura um caminhopelo qual a vontade dos deuses seja benéfica e propícia aos seus adoradores.A vontade divina pode tornar-se parcialmente conhecida dos humanos sob aforma de leis, isto é, decretos, mandamentos, ordenamentos, comandos emanadosda divindade. Assim como a ordem do mundo decorre dos decretos divinos, istoé, da lei ordenadora à qual nenhum ser escapa, também o mundo humano estásubmetido a mandamentos divinos, dos quais os mais conhecidos, na culturaocidental, são os Dez Mandamentos, dados por Jeová a Moisés. Também são deorigem divina as Do ze Tábuas da Lei que fundaram a república romana, comoeram de origem divina as leis gregas explicitadas na Ilíada e na Odisséia deHomero, bem como nas tragédias.O modo como a vontade divina se manifesta em leis permite distinguir doisgrandes tipos de religião. Há religiões em que a divindade usa intermediáriospara revelar a lei. É o caso da religião judaica, em que Jeová se vale, porexemplo, de Noé, Moisés, Samuel, para dar a conhecer a lei. Também nessareligião, a divindade não cessa de lembrar ao povo as leis, sobretudo quandoestão sendo transgredidas. Essa rememoração da lei e das promessas de castigo e – 384 –

Marilena Chauí _______________________________redenção nelas contidas é a tarefa do profeta, arauto de Deus. Também nareligião grega, os deuses se valem de intermediários para manifestar sua vontade.Esta, por ser misteriosa e incompreensível, exige um tipo especial deintermediário, o vidente, que interpreta os enigmas divinos, vê o passado e ofuturo e os expõe aos homens.Há religiões, porém, em que os deuses manifestam sua lei diretamente, semrecorrer a intermediários, isto é, sem precisar de intérpretes. São religiões dailuminação individual e do êxtase místico, como é o caso da maioria das religiõesorientais, que exigem, para a iluminação e o êxtase, uma educação especial dointelecto e da vontade dos adeptos.Freqüentemente, profetas e videntes entram em transe para receber a revelação,mas a recebem não porque tenham sido educados para isso e sim porque adivindade os escolheu para manifestar-se. O transe dos profetas e dos adivinhosdifere do êxtase místico dos iluminados, porque, nos primeiros, o indivíduo temacesso a um conhecimento que pode compreender (mesmo com grandedificuldade) e por isso pode transmiti-lo aos outros, enquanto nos segundos, nãohá conhecimento, não há atividade intelectual que depois seja transmissível aoutros, mas há mergulho e fusão do indivíduo na divindade, numa experiênciaintraduzível e intransmissível.As religiões reveladas – diferentes, portanto, das religiões extáticas – realizam arevelação de duas maneiras: numa delas, como é o caso da judaica e da cristã,aquele que recebe a revelação deve escrevê-la, para que integre os textos dahistória sagrada e seja transmissível; na outra, como é o caso da grega, daromana, das africanas, das indígenas, o vi dente é levado perante os deuses e vê atotalidade do tempo e dos acontecimentos, devendo, após a visão, dizê-la, paraintegrá-la à memória religiosa oral. Nos dois casos, porém, para que fiqueindiscutível a origem divina da revelação, a exposição escrita ou oral só pode serfeita por parábolas, metáforas, imagens e histórias, cujo sentido precisará serdecifrado pelos leitores ou ouvintes. Deus, profetas e videntes falam por meio deenigmas. Dessa maneira, o caráter transcendente e misterioso da lei divina épreservado.A vida após a morteToda religião explica não só a origem da ordem do mundo natural, mas tambémdo mundo humano. No caso dos humanos, a religião precisa explicar por que sãomortais. O mistério da morte é sempre explicado como expiação de uma culpaoriginal, cometida contra os deuses. No princípio, os homens eram imortais eviviam na companhia dos deuses; a seguir, uma transgressão imperdoável temlugar e, com ela, a grande punição: a mortalidade.No entanto, a imortalidade não está totalmente perdida. Algumas religiõesafirmam que o corpo humano possui um duplo, feito de outra matéria, quepermanecerá após a morte, usando outros seres para relacionar-se com os vivos. – 385 –

Convite à Filosofia _______________________________Certas religiões acreditam que o corpo é habitado por uma entidade – espírito,alma, sombra imaterial, sopro -, que será imortal se os decretos divinos e osrituais tiverem sido respeitados pelo fiel. Por acreditarem firmemente numa outravida – que pode ser imediata, após a morte do corpo, ou pode exigirreencarnações purificadoras até alçar-se à imortalidade -, as religiões possuemritos funerários, encarregados de preparar e garantir a entrada do morto na outravida.Em algumas religiões, como na egípcia e na grega, a perfeita preservação docorpo morto, isto é, de sua imagem, era essencial para que fosse reconhecidopelos deuses no reino dos mortos e recebesse a imortalidade. Por isso, além dosritos funerários, os cemitérios, na maioria das religiões e particularmente nasafricanas, indígenas e antigas ocidentais, eram lugares sagrados, campos santos,nos quais somente alguns, e sob certas condições, podiam penetrar.Nas religiões do encantamento, como a grega, as africanas e as indígenas, amorte é concebida de diversas maneiras, mas em todas elas o morto ficaencantado, isto é, torna-se algo mágico. Numa delas, o morto deixa seu corpopara entrar num outro e permanecer no mundo, sob formas variadas; ou deixa seucorpo e seu espírito permanecer no mundo, agitando os ventos, as águas, o fogo,ensinando canto aos pássaros, protegendo as crianças, ensinando os mais velhos,escondendo e achando coisas. Na outra, o morto tem sua imagem ou seu espíritolevado ao mundo divino, ali desfrutando das delícias de uma vida perenementeperfeita e bela; se, porém, suas faltas terrenas forem tantas e tais que não pôde serperdoado, sua imagem ou espírito vagará eternamente pelas trevas, sem repousoe sem descanso. O mesmo lhe acontecerá se os rituais fúnebres não puderem serrealizados ou se tiverem sido realizados com falhas. Esse perambular pelas trevasnão existe nas religiões de reencarnação, porque, em lugar dessa punição, oespírito deverá ter tantas vidas e sob tantas formas quantas necessárias à suapurificação, até que possa participar da felicidade perene.Nas religiões da salvação, como é o caso do judaísmo, do cristianismo e doislamismo, a felicidade perene não é apenas individual, mas também coletiva.São religiões em que a divindade promete perdoar a falta originária, enviando umsalvador, que, sacrificando-se pelos humanos, garante-lhes a imortalidade e areconciliação com Deus.Como a falta ou queda originária atingiu a todos os humanos, o perdão divino e aredenção decorrem de uma decisão divina, que deverá atingir a todos oshumanos, se acreditarem e respeitarem a lei divina escrita nos textossagrados e se guardarem a esperança na promessa de salvação que lhes foifeita por Deus. Nesse tipo de religião, a obra de salvação é realizada por umenviado de Deus – messias, em hebraico; cristo, em grego. As religiões dasalvação são messiânicas e coletivas. Um povo – povo de Deus – será salvo pelalei e pelo enviado divino. – 386 –

Marilena Chauí _______________________________MilenarismoO milenarismo é próprio das religiões da salvação. É a esperança da felicidadeperene no mundo, quando, após sofrimentos profundos, os seres foremregenerados, purificados e libertados pela divindade.O termo milenarismo provém de uma crença popular cristã, embora não sejaexclusivo da religião cristã. Baseados em profecias dos profetas Daniel e Isaías,no Apocalipse de são João, e nas predições de magos e sibilas, grupos popularescristãos, durante a Idade Média, esperavam que Cristo voltasse pela segunda vez,combatesse os males – a peste, a fome, a guerra e a morte -, vencesse o demônio,encarnado num governante perverso, o Anti-Cristo, e instituísse o reino de Deusna Terra, com a duração de mil anos de abundância, justiça e felicidade. Ao fimde mil anos, haveria a ressurreição dos mortos, o Juízo Final e o fim do mundoterreno.Outras religiões e outros grupos culturais humanos possuem religiõesmilenaristas, isto é, a esperança de um fim dos tempos, quando a dor, a miséria, ainjustiça e a maldade terminarão e a plena felicidade existirá para todos. É assimque os índios guaranis, do Paraguai e do Brasil, acreditam na Terra sem Males,que surgirá além dos mares, depois que a Terra, cansada e infeliz, for atravessadapor eles e o deus, benévolo e clemente, lhes der a terra nova, onde as flechasvoarão sozinhas para trazer a caça e a pesca, os frutos encherão as cestas, nãohaverá frio nem chuva, nem guerra nem morte.O milenarismo, em outra forma, está presente numa concepção religiosa católicado século XX, a Teologia da Libertação, desenvolvida nos anos 70, na AméricaLatina, e que propunha o retorno da Igreja à pureza igualitária, livre e justa dosprimeiros cristãos, criando o reino de Deus na Terra, conforme prometido porJesus.Todas as religiões são experiências de fé, mas as religiões da salvação(messiânicas) são religiões da fé e da esperança. O milenarismo exprime, no graumais alto, a esperança religiosa das religiões da salvação. No caso domilenarismo cristão, a esperança volta-se para a existência futura de umasociedade não hierarquizada, igualitária e justa; por esse motivo, foi considerado,pela ortodoxia cristã, uma heresia, isto é, um pecado contra a fé estabelecida peladoutrina cristã, segundo a qual o reino de Deus já existe na Terra, desde aressurreição de Cristo: é a Igreja.A esperança milenarista é própria das classes populares, em sociedades ondeprevalecem a desigualdade, a injustiça, a exclusão e a miséria.O bem e o malAs religiões ordenam a realidade segundo dois princípios fundamentais: o bem eo mal (ou a luz e a treva, o puro e o impuro). – 387 –

Convite à Filosofia _______________________________Sob esse aspecto, há três tipos de religiões: as politeístas, em que há inúmerosdeuses, alguns bons, outros maus, ou até mesmo cada deus podendo ser ora bom,ora mau; as dualistas, nas quais a dualidade do bem e do mal está encarnada efigurada em duas divindades antagônicas que não cessam de combater-se; e asmonoteístas, em que o mesmo deus é tanto bom quanto mau, ou, como no casodo judaísmo, do cristianismo e do islamismo, a divindade é o bem e o malprovém de entidades demoníacas, inferiores à divindade e em luta contra ela.No caso do politeísmo e do dualismo, a divisão bem-mal não é problemática,assim como não o é nas religiões monoteístas que não exigem da divindadecomportamentos sempre bons, uniformes e homogêneos, pois a ação do deus éinsondável e incompreensível. O problema, porém, existe no monoteísmojudaico-cristão e islâmico.Com efeito, a divindade judaico-cristã e islâmica é definida teologicamente comoum ser positivo ou afirmativo: Deus é bom, justo, misericordioso, clemente,criador único de todas as coisas, onipotente e onisciente, mas, sobretudo, eterno einfinito. Deus é o ser perfeito por excelência, é o próprio bem e este é eternocomo Ele. Se o bem é eterno e infinito, como surgiu sua negação, o mal? Quepositividade poderia ter o mal, se, no princípio, havia somente Deus, eterna einfinitamente bom? Admitir um princípio eterno e infinito para o mal seriaadmitir dois deuses, incorrendo no primeiro e mais grave dos pecados, pois tantoos Dez Mandamentos quanto o Credo cristão afirmam haver um só e único Deus.Além disso, Deus criou todas as coisas do nada; tudo o que existe é, portanto,obra de Deus. Se o mal existe, seria obra de Deus? Porém, Deus sendo o própriobem, poderia criar o mal? Como o perfeito criaria o imperfeito? Qual é, pois, aorigem do mal? A criatura.Deus criou inteligências imateriais perfeitas, os anjos. Dentre eles, surgem algunsque aspiram a ter o mesmo poder e o mesmo saber que a divindade, lutandocontra ela. Menos poderosos e menos sábios, são vencidos e expulsos dapresença divina. Não reconhecem, porém, a derrota. Formam um reino separado,de caos e trevas, prosseguem na luta contra o Criador. Que vitória maior teriamsenão corromper a mais alta das criaturas após os anjos, isto é, o homem?Valendo-se da liberdade dada ao homem, os anjos do mal corrompem a criaturahumana e, com esta, o mal entra no mundo.O mal é o pecado, isto é, a transgressão da lei divina que o primeiro homem e aprimeira mulher praticaram. Sua punição foi o surgimento dos outros males:morte, doença, dor, fome, sede, frio, tristeza, ódio, ambição, luxúria, gula,preguiça, avareza. Pelo mal, a criatura afasta-se de Deus, perde a presença divinae a bondade original que possuía.O mal, portanto, não é uma força positiva de mesma realidade que o bem, mas épura ausência do bem, pura privação do bem, negatividade, fraqueza. Assimcomo a treva não é algo positivo, mas simples ausência da luz, assim também o – 388 –

Marilena Chauí _______________________________mal é pura ausência do bem. Há um só Deus e o mal é estar longe e privado dele,pois Ele é o bem e o único bem.A faltaHá religiões da exterioridade e da interioridade. Nas primeiras, a falta ou pecadoé uma ação externa visível, cometida voluntária ou involuntariamente contra adivindade. A falta é irreverência, sentida sob a forma de vergonha, trazendocomo conseqüência uma impureza que contamina o faltoso e o grupo, exigindorituais de purificação.Nas religiões da interioridade, como é o caso do cristianismo, a falta ou pecado éuma ação interna invisível (mesmo que resulte num ato externo visível), causadapor uma vontade má – nesse caso, a falta é um crime – ou por um entendimentoequivocado – nesse caso, a falta é um erro. É uma transgressão experimentadana forma de culpa, exigindo expiação.Nas religiões da exterioridade, o perdão depende exclusivamente de uma graça,isto é, a divindade pode ou não perdoar, independentemente dos rituais depurificação realizados pelo indivíduo ou pelo grupo. Nas religiões dainterioridade, o perdão – que virá na forma de graça – exige uma experiênciainterior precisa, o arrependimento.Nas religiões da exterioridade – como a grega, a romana, as africanas e indígenas-, a falta é causada por uma fatalidade. O fatum (destino, em latim; fado, emportuguês) ou a moira (destino fatal, em grego) determinou desde sempre que elaseria cometida por alguém, para desgraça sua e de seu grupo. A falta não dependeda vontade do agente, mas de uma decisão divina. É assim, por exemplo, queÉdipo cumprirá seu destino.Nas religiões da interioridade – como é o caso do judaísmo e do cristianismo -, afalta nasce da liberdade do agente, que, conhecendo o bem e o mal (a lei divina),transgride consciente e voluntariamente o decreto de Deus. Sem dúvida, para ocristianismo, a falta é um problema teológico insolúvel, pois o Deus cristão éonipotente e onisciente, sabendo tudo desde a eternidade e, portanto, conhecendopreviamente o pecador. Se pune o pecado, mas sabia que seria cometido, nãoseria injusto por não impedir que seja cometido? Se conhece eternamente quempecará, não será Deus como o fatum e a moira? E como falar na liberdade e nolivre-arbítrio do pecador, se desde a eternidade Deus sabia que ele cometeria opecado?Imanência e transcendênciaQuando estudamos o sagrado, vimos que, em inúmeras culturas, os seres eobjetos sacros habitam o nosso mundo, são imanentes a ele. As primeirasexperiências religiosas são por isso panteístas (theos, em grego, significa deus;pan, em grego, significa todos, tudo), ou seja, nelas tudo são deuses e estes estãoem toda a parte, espalhados pela Natureza. Os seres tomam parte na divindade, – 389 –

Convite à Filosofia _______________________________motivo pelo qual possuem mana, orenda e tunpa. O ntu africano exprime aconcepção da imanência panteísta.Ao contrário das religiões panteístas ou da imanência dos deuses no mundo, asreligiões teístas são transcendentes, isto é, os deuses estão separados do mundonatural e humano, vivem noutro mundo e agem sobre o nosso. É assim, porexemplo, que os deuses gregos, embora tenham forma humana, vivem no monteOlimpo, e Jeová, que possui atributos humanos (como a voz), vive no monteSinai. Eis por que, nas religiões da transcendência, fala-se na visitação dosdeuses para referir-se aos momentos em que, nos rituais, comunicam-se com osseres humanos.Nas várias religiões da transcendência, a visitação divina não é problemáticaporque os deuses possuem formas materiais – animais, como na religião egípcia,humanas, como nas religiões grega e romana. A visitação é um problema nareligião cristã, porque o Deus cristão é duas vezes misterioso e totalmentediferente das formas existentes no mundo: em primeiro lugar, é constituído portrês pessoas que são uma só; em segundo lugar, é eterno, incorpóreo, infinito,pleno e perfeito. Donde o caráter totalmente incompreensível e terrível daencarnação de Jesus Cristo, pois como explicar que uma das pessoas da Trindadese separe das outras para vir habitar entre os homens e que um ente eterno,imaterial e infinito tome a forma material, mortal, finita, carente e imperfeita dohumano?Para superar as dificuldades, o cristianismo fala na visitação de Deus através dosanjos e santos, e na inspiração do Espírito Santo, enviado pelo Pai.Transcendência e hierarquiaVimos que, pela lei divina, é instituída a ordem do mundo natural e humano.Vimos também que o conhecimento dessa lei tende a tornar-se um conhecimentoespecial, seja porque somente alguns são escolhidos para conhecê-la, seja porqueo texto da lei é incompreensível e exige pessoas capazes de fazer a interpretação(profetas e videntes), seja ainda porque a própria interpretação é obscura e exigenovos intérpretes.Constatamos que o conhecimento da lei e da vontade divinas são essenciais paraa narrativa da história sagrada e para a realização correta e eficaz dos ritos. Comoconseqüência, as religiões tendem a instituir um grupo de indivíduos, separadosdo restante da comunidade, encarregados de transmitir a história sagrada,interpretar a lei e os sinais divinos, realizar os ritos e marcar o espaço-temposagrados.Magos, astrólogos, videntes, profetas, xamãs, sacerdotes e pajés possuem saberese poderes especiais. São capazes de curar, de prever o futuro, de aplacar a cólerados deuses, de anunciar a vontade divina, de destruir a distância (por meio depalavras e gestos). Inicialmente, sua função é trazer o sagrado para o grupo e aí – 390 –

Marilena Chauí _______________________________conservá-lo. Pouco a pouco, porém, formam um grupo separado, uma classesocial, com exigências e poderes próprios, privam a comunidade da presençadireta do sagrado e distorcem a função originária que possuíam, transformando-aem domínio e poder sobre a comunidade. Tornam-se os portadores simbólicos dosagrado e mediadores indispensáveis.A religião, como já observamos, realiza o encantamento do mundo, explicando-opelo maravilhoso e misterioso. O grupo que detém o saber misterioso, ao tornar-se detentor do poder, possui o poder mais alto: o de encantar, desencantar ereencantar o mundo. Por isso, num primeiro momento, o poder religiosoconcentra-se nas mãos de um só, que possui também a autoridade militar e odomínio econômico sobre toda a comunidade.À medida que as relações sociais se tornam mais complexas, com divisõessociais do trabalho e da propriedade, o poder passa por uma divisão: um grupodetém a autoridade religiosa e outro, a militar e econômica. Porém, todo o saberda comunidade – história sagrada, interpretação da lei divina, rituais – encontra-se nas mãos da autoridade religiosa, que passa, dessa maneira, a ser o braçointelectual e jurídico indispensável da autoridade econômica e militar.Nas religiões da transcendência, três são as conseqüências principais dessedesenvolvimento histórico:1. a formação de uma autoridade que detém o privilégio do saber, porqueconhece a vontade divina e suas leis. Com ela, surge a instituição sacerdotal eeclesiástica. Não por acaso, Cícero dirá que a palavra religião vem do verbolegere, ler. Os sacerdotes são intelectuais. O gr upo sacerdotal detém váriossaberes: o da história sagrada, o dos rituais, o das leis divinas, pelas quais éimposta a moralidade ao grupo. Como esses saberes se referem ao divino,constituem a teologia. Os sacerdotes, ou uma parte deles, são teólogos. Taissaberes lhes dão os seguintes poderes:? mágico: são os únicos que conhecem e sabem manipular os vínculos secretosentre as coisas;? divinatório: são os únicos capazes de prever os acontecimentos pelainterpretação dos astros, de sinais e das entranhas dos animais;? propiciatório: são os únicos capazes de realizar os ritos de maneira correta eadequada para obtenção dos favores divinos;? punitivo: são os únicos que conhecem as leis divinas e podem punir ostransgressores ou infiéis.2. a formulação de uma doutrina religiosa baseada na idéia de hierarquia, isto é,de uma realidade organizada sob a forma de graus superiores e inferiores onde sesituam todos os seres, por vontade divina. Os entes se distinguem por suaproximidade ou distância dos deuses, segundo o lugar hierárquico, fixo eimutável, que lhes foi destinado. – 391 –

Convite à Filosofia _______________________________Assim, por exemplo, certas religiões podem considerar certos animais maispróximos dos deuses, sendo por isso mais poderosos, mais sábios e melhores doque todos os outros entes. Algumas podem considerar as entidades imateriaissuperiores e as materiais ou corporais, inferiores. Outras podem considerar oshumanos o grau mais alto da hierarquia, todos os outros seres estandosubordinados a eles e devendo-lhes obediência.Nas religiões politeístas, a hierarquia começa pelos próprios deuses, havendodeuses superiores e inferiores. Nas religiões monoteístas, a hierarquia coloca adivindade no topo de uma escala e os demais seres são ordenados segundo suamaior ou menor semelhança com ela. Assim, por exemplo, no cristianismo, háuma hierarquia celeste (anjos, arcanjos, querubins, serafins, tronos, potestades eos santos) e uma hierarquia terrestre (homens, animais, plantas, minerais),estando abaixo dela os demônios e as trevas. A noção de hierarquia introduz asnoções de superior e inferior, definindo a relação entre ambos pelo mando e aobediência. Dessa maneira, a religião organiza o mundo e, com isso, a sociedade.Evidentemente, os que se ocupam com as coisas sagradas estão no topo dahierarquia humana e todos os outros lhes devem obediência.3. o privilégio do uso da violência sagrada para punir os faltosos ou pecadores.Inicialmente, exigia-se que todos os membros da comunidade fossem piedosos,isto é, respeitassem deuses, tabus, rituais e a memória dos antepassados. Com osurgimento da classe sacerdotal, passa-se a exigir que esses membros dacomunidade – os sacerdotes – sejam castos, isto é, possuam integridade corporale espiritual para oficiar os ritos e interpretar as leis. Na qualidade de castos, sãoos mais puros e por isso investidos, após educação e iniciação, do poder depurificação. Detêm o poder judiciário.Nas religiões da interioridade, como é o caso do cristianismo, o privilégiojudiciário e da violência sagrada é exercido não só sobre o corpo e ocomportamento dos fiéis, mas sobretudo sobre as almas. Como isso é possível?No caso do catolicismo, por exemplo, isso é feito por meio de doisprocedimentos principais. Em prim